Domingo, Novembro 01, 2009


“MATAR OU NÃO MATAR” / “IN A LONELY PLACE”

NICHOLAS RAY - (EUA 1950) – (P/B – 94 min)

HUMPHREY BOGART, GLORIA GRAHAME, FRANK LOVEJOY, CARL BENTON REID.

A nossa memória do cinema muitas vezes encontra-se ligada a imagens descobertas no pequeno écran e dizemos isso porque foi precisamente o sucedido há mais de vinte anos com “In a Lonely Place” / “Matar ou Não Matar” de Nicholas Ray, descoberto numa tarde de Verão. Nessa época Nick já era muito mais do que o cineasta de “Fúria de Viver” ou de “Johnny Guitar”.

Produzido pela pequena produtora de Humphrey Bogart, “Santana Productions”, esta película situa-se inevitavelmente na fronteira do “film noir”, navegando as suas personagens no mundo da sétima arte, Dixon Steele (Bogart) é um argumentista à beira do abismo, violento e angustiado com o mundo que o rodeia: realizadores, produtores, agentes, actores.

O argumento de Andrew Solt, baseado numa novela de Dorothy Hughes, apresenta-nos uma Hollywood “cheia de tubarões”, em que a última palavra vem de cima. Mas como dizíamos, Dixon Steele um homem amargurado, reticente em aceitar a feitura de um argumento de acordo com as “regras da casa”, vê-se confrontado com uma hipótese de resgatar o seu nome do limbo em que caiu, mas a obra que lhe é oferecida parece-lhe tão má, que convida uma empregada do bar em que se encontra para lhe contar a história, já que ela tinha lido o livro e assim ele não iria perder tempo com algo em que não acreditava.
A tragédia nasce então porque a rapariga, após o seu trabalho de leitura, aparece morta caindo de imediato as suspeitas sobre o violento Dixon Steele.
Incrédulo e cínico, perante os acontecimentos (Bogart no seu melhor), Dixon acaba por ser ilibado por uma vizinha (Gloria Grahame) que o viu em casa, após a saída da rapariga.
Nasce então uma profunda paixão entre Laurel Gray (Gloria Grahame) e Dixon, que inicia o seu trabalho no argumento refazendo a história original, ao mesmo tempo que o seu comportamento violento desaparece, vivendo apenas para o seu trabalho e para a mulher que ama perdidamente.
No entanto a polícia continua a suspeitar dele e o cerco que lhe monta irá fazer renascer o seu lado violento, desconfiado e ciumento, perturbando de forma decisiva o amor da sua vida.

Nicholas Ray consegue, nesta película, oferecer-nos um dos filmes mais perfeitos do género, mas todo o ambiente criado de uma cínica Hollywood, faz um pouco de futurologia em relação à carreira/perdição de Nick Ray. Por outro lado Gloria Grahame, que roubou o papel a Ginger Rodgers (1), oferece-nos momentos de antologia do mais profundo erotismo (2), apetecendo até dizer obrigado ao código Hays, que obrigou os cineastas a contornar a censura, como tão bem fez Hitchcock em “Notorius” / “Difamação”… a célebre questão do tempo de duração de um beijo.

“In a Lonely Place”, essa obra-prima do Cinema, poderia também chamar-se “In a Lovely Place”, graças à interpretação felina de Glória Grahame e às mudanças de personalidade de Humphrey Bogart em combate constante consigo mesmo.
E a fotografia a preto e branco jogando de forma determinante com a luminosidade, repare-se na sequência em que Dixon (Bogart) reconstitui o assassinato para o casal amigo, como se tivesse vivido o acontecimento, embora seja a sua faceta de argumentista o excitante do relato. Para já não falarmos na soberba montagem e banda sonora.

A escrita vai longa mas não podemos deixar de referir dois aspectos decididamente importantes nesta obra-prima. Nicholas Ray e Gloria Grahame (3) eram casados no início da rodagem e a meio das filmagens decidiram separar-se, tendo até Nick pedido ao Estúdio para lhe arranjar uma casa próxima do “set”, porque necessitava de trabalhar à noite, omitindo desta forma a sua situação matrimonial. E nunca Gloria Grahame foi filmada com tanto amor, ao ponto de a película ter dois finais, o inicialmente previsto em que ela morre e aquele, por fim optado, em que fica viva por fora, morta por dentro, tal como Humphrey Bogart, numa das suas mais extraordinárias interpretações.

"Matar ou Não Matar" /“In a Lonely Place” é uma das muitas pérolas cinematográficas oferecidas por Nicholas Ray à Sétima Arte, uma descoberta que recomendamos.

(1) - Ginger Rodgers nunca gostou muito dos musicais com Fred Astaire e lutou durante toda uma vida para conquistar papéis dramáticos.

(2) - A troca de cigarros no bar, junto ao piano, entre outros planos, para além do fabuloso guarda-roupa de Mrs. Grahame.

(3) – Muitos anos depois Gloria Grahame foi casada com o filho de Nick Ray.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Segunda-feira, Outubro 26, 2009


“JERRY MAGUIRE”

CAMERON CROWE – (EUA – 1996) – (138 min/Cor)

TOM CRUISE, RENÉE ZELLWEGER, CUBA GOODING JR. KELLY PRESTON, BONNIE HUNT, JAY MOHR.

“Jerry Maguire” continua a ser o melhor filme até hoje realizado por Cameron Crowe, esse menino prodígio que se iniciou na escrita aos 15 anos escrevendo artigos para a “Rolling Stone”, tendo depois iniciado a escrita de diversos argumentos para cinema. Fez o seu auto-retrato de forma discreta o em “Quase Famosos” / “Almost Famous”. A sua obra de estreia foi o famoso “Singles”, um daqueles filmes retrato de uma geração que habita o mesmo prédio, com um Matt Dillon e uma Bridget Fonda em destaque, ao mesmo tempo que dava, como não podia deixar de ser, uma enorme importância à banda sonora.

Nesta comédia romântica intitulada “Jerry Maguire”, precisamente o nome do protagonista interpretado por Tom Cruise, vamos seguir a vida de um agente desportivo que um dia num quarto de hotel tem um rebate de consciência e decide escrever um “memo”, para depois o distribuir pelos colegas, aplaudido por todos pela sua atitude frontal em que se inscreve o lema de devermos dar mais atenção aos nossos clientes e menos ao dinheiro que poderemos ganhar com eles. De imediato os colegas nas suas costas prevêem que a sua carreira está por um fio.
Agente de sucesso Jerry Maguire (Tom Cruise) possui tudo aquilo que um homem deseja incluindo aquela bela e selvagem mulher Marcie (Kelly Preston), mas quando o dinheiro e a fama desaparecem será de imediato abandonado.

Despedido com um sorriso nos lábios por um colega, mandatado pela administração, durante um almoço, Jerry irá tentar levar consigo os seus clientes, mas durante essa luta com a empresa apenas arrasta consigo o jogador de baseball Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr – ganhou o Oscar para o melhor actor secundário), o menos desejado cliente, porque aquele homem só pensa em dinheiro, ficando célebre a frase “show me the money”. Numa tentativa desesperada de provocar uma cisão na empresa Jerry pergunta a todos os que leram o seu famoso “memo” quem irá com ele e apenas a empregada da contabilidade Dorothy Boyd (Renée Zellweger) decide partir com ele Mais do que o “memo” dele é a paixão que a leva a segui-lo, para além do facto de ela ser divorciada e ter um filho pequeno. Estabelecendo-se uma relação de empregada/patrão que irá ultrapassar a fronteira da relação profissional, embora Jerry lute de início para não ultrapassar essa fronteira, ao mesmo tempo que começa a ser seduzido pela criança, um rapazinho “cool”. Já por outro lado a irmã de Dorothy, uma daquelas mulheres abandonadas que promove em sua casa reuniões femininas contra o “sexo forte”, olha com a maior desconfiança Jerry, percebendo de imediato como ele se encontra à beira do abismo e quando ele estabelece por fim uma relação com Dorothy, Laurel (Bonnie Hunt) tudo fará para mostrar à irmã como ela está errada na sua opção.

Entramos assim na comédia romântica dirigida de forma brilhante por Cameron Crowe, recorde-se que ele levou cinco anos a preparar o filme e desde os minutos iniciais que somos agarrados à cadeira, pela forma como ele nos introduz no mundo de Jerry Maguire e depois nos conta a sua relação atribulada com a família de Rod Tidwell, sendo a mulher deste, Marcee (Regina King), um dos maiores obstáculos a transpor para levar o jogador ao bom caminho, já que ele é conhecido pelo seu mau feitio. Com apenas um cliente Jerry dedica-lhe a vida, tentando mostrar-lhe que o dinheiro não é tudo na vida, ao mesmo tempo que Dorothy tudo faz para manter Jerry debaixo do seu tecto. A pouco e pouco vamo-nos apercebendo que Jerry não consegue manter a relação, arranjando mil e um pretextos para estar longe dela, ele deseja partir, mas a criança surge como um impedimento, até esse dia em que já nada se pode fazer.
De realçar a excelente interpretação de Tom Cruise na figura do agente desportivo, muitos furos acima do habitual, ao mesmo tempo que Renée Zellweger nos surge pela primeira vez num papel digno de nota, depois todos sabemos como ele se tornou célebre, engordando para Bridget Jones e emagrecendo depois, ficando um “palito”.

“Jerry Maguire” apresenta-se no interior da produção cinematográfica como uma comédia romântica fabulosa, tendo um argumento com uma moral para oferecer e um final feliz, como mandam as regras, embora nos ofereça nas suas entrelinhas o retrato do mundo selvagem em que vivemos, um sorriso pela frente e uma faca nas costas, retrato do quotidiano nas empresas e na vida, depois nem sempre os ideais triunfam e muito menos o sucesso amoroso, porém no caso de Jerry Maguire ele aprendeu uma lição na vida, oferecida pelo irrequieto Tidwell, compreendendo como esse núcleo universal chamado família é o fruto da vida, por isso mesmo quando volta a entrar na casa de Dorothy é recebido friamente por aquele conjunto de mulheres abandonadas com o maior desprezo do mundo, porque elas são (in) felizmente independentes e superiores a ele, mas Dorothy decide afastar-se do “rebanho” e perdoar a fuga de Jerry Maguire. E aqui as maiores feministas empedernidas não irão resistir a verter aquela lágrima ou, pelo menos, desejar no seu íntimo estar nos braços daquele homem. “Jerry Maguire” é como o vinho do porto, quanto mais se bebe/vê mais se gosta dele.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Domingo, Outubro 18, 2009


“QUANDO UMA MULHER SOBE AS ESCADAS” / “ONNA GA KAIDAN O AGARU TOKI”

MIKIO NARUSE (JAP – 1960) – (110 min-P/B)

HIDEKO TAKAMINE, MASAYUKI MORI, DAISUKE KATO, TATSUYA NAKADAI, REIKO DAN, KEIKO AWAZI


Quando se fala em cinema clássico japonês, de imediato surgem três nomes: Kenji Mizoguchi, Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu. Se os dois primeiros viram alguns dos seus filmes estreados comercialmente em Portugal, já Yasujiro Ozu, um dos mestres orientais mais idolatrados no Ocidente (recorde-se essa obra chave do cineasta Paul Schrader, dedicada a Bresson, Ozu e Dreyer), apenas teve um filme seu estreado comercialmente “Primavera Tardia” / “Banshun” e na época dessa estreia surgiu um outro cineasta japonês até então muito pouco conhecido, de seu nome Mikio Naruse, estávamos em Setembro de 1995 e todos aqueles que viram o filme, em formato scope, no cinema nimas, embora filmado de forma intimista num denso preto e branco, ficaram profundamente fascinados por esta película.

Mikio Naruse iniciou-se na profissão como assistente de realização nos Estúdios da Shochiku, tendo em Yasujiro Shimzv o seu Mestre e professor, tendo sempre seguido os seus conselhos. Desde o início dos anos trinta até ao final da sua carreira, Naruse assinou “apenas” noventa filmes, dentro do sistema de produção dos Estúdios, sendo “Quando Uma Mulher Sobe as Escadas” / “Onna Ga Kaidan O Agaru Toki” já rodado no célebre Toho. Mikio Naruse sempre se interessou pela gente comum e as suas pequenas histórias do quotidiano, contribuindo desta forma para a imagem de autor no interior do cinema japonês, mas nada melhor como lhe dar a palavra: “passa-se pouca coisa nos meus filmes, terminam sem se concluírem, como a vida. Não posso deixar de sentir um grande amor pela perseverança dos seres humanos, pela maneira como conduzem as suas vidas no espaço e no tempo sem fim”. Cinco anos depois de ter feito esta afirmação, Mikio Naruse realizou essa obra-prima intitulada “Quando Uma Mulher Sobe as Escadas” (o título português segue o inglês “When a Woman Ascends the Stairs”), aplicando o seu pensamento às diversas personagens da película, oferecendo a todas elas o seu amor.

Tal como sucedia na obra derradeira de Kenji Mizoguchi, “A Rua da Vergonha” / “Akasen Chitai”, o filme de Mikio Naruse retrata-nos a vida nocturna nos bares japoneses e das pessoas que neles habitam. E aqui surge já o estilo do cineasta apresentando-nos a história de uma mulher, viúva, que dirige um desses bares, trata-se de Keiko (Hideko Takamine), será assim na noite do bairro de Ginza que a iremos encontrar dirigindo as raparigas que a tratam por Mamã, cumprimentando os clientes, fazendo tudo para o responsável do bar não se arrepender de a ter contratado.
Ela começa o seu dia de trabalho quando as outras mulheres vão para casa para junto dos maridos e dos filhos, ela como família só tem a mãe que está sempre à espera da sua ajuda económica, tal como o irmão mais novo e o seu filho doente.
Keiko Yshiro ao longo da sua vida foi obrigada a gerir o dinheiro ganho, porque terá sempre de sustentar duas casas, comprando quimonos de tons escuros para os poder usar de dia e de noite, escondendo a sua profissão, por outro lado o seu desejo de ter um bar só para si revela-se interdito, porque os possíveis financiadores estão mais interessados no seu corpo e ela até ama um homem, um empresário infelizmente casado e cliente do bar, depois será o encontro com um outro homem, também seu cliente que lhe irá abrir as portas do seu coração para o amor, mas as aparências iludem e quando ela descobre o mundo de mentiras a que ele pertence, sente-se perdida porque, quando uma mulher sobe as escadas, encontra tantos obstáculos pelo caminho, que acaba por desistir.

Mikio Naruse oferece-nos assim uma visão profundamente feminina da mulher, em todo o seu intimismo e amor, sendo perfeito o cognome de cineasta das mulheres , tal é a forma como ele dirige essa grande actriz chamada Hideko Takamine, uma das grandes senhoras do cinema japonês, recorde-se que só são conhecidas as suas interpretações depois da guerra, devido aos bombardeamentos americanos terem destruído os Estúdios Japoneses, por outro lado ela é considerada a Katherine Hepburn japonesa, não só pelo seu talento, mas também pelo brilhantismo que oferece às personagens que interpreta, para além dessa beleza tranquila transportada no seu olhar.
Convém referir que Hideko Takamine se iniciou no cinema ainda na época do mudo, com apenas cinco anos, em 1929, sendo comparada mais tarde a Shirley Temple, quando a pequena actriz americana surgiu nos écrans japoneses. Depois tornou-se numa estrela, tão grande como as do Ocidente, ela era para todos “a rapariga da porta ao lado” ou “a namorada do Japão”, recorde-se que os soldados japoneses durante a guerra, quando partiam para a frente de combate, levavam com eles a sua fotografia.
Basta olharmos para a beleza que nos é oferecida por essa mulher de meia-idade no filme de Mikio Naruse, para entendermos a forma como o cineasta decidiu homenagear a mulher em “Quando Uma Mulher Sobe as Escadas”, através de uma personagem cuja idade ronda os 35/40 anos lutando para sobreviver com um sorriso no interior da noite, no exterior da vida.

Uma última palavra para a música envolvente de Toshirô Mayuzumi que baseando-se quase sempre em dois instrumentos, piano e vibrafone, por vezes acompanhados por uma secção de cordas, nos oferece uma música profundamente sensual e intimista, muito próxima daquela que muitos anos mais tarde nos irá ser oferecida pela dupla Chick Corea e Gary Burton. E estamos aqui perante um aspecto profundamente importante, porque será através da banda sonora que Mikio Naruse nos irá oferecer a pontuação da sua escrita intimista, tanto na forma como filma os personagens, como na maneira como nos oferece esse momento de beleza em que Keiko Yshiro (Hideko Takamine) sobe as escadas para se dirigir ao bar onde trabalhar, metáfora perfeita desse seu desejo de subir as escadas da vida, em busca de outra paisagem, em busca da felicidade.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Outubro 12, 2009


INTIMIDADE / INTERIORS

WOODY ALLEN – (EUA – 1978) – (93 min/Cor)

DIANE KEATON, MARY BETH HURT, KRISTIN GRIFFITH, RICHARD JORDAN, SAM WATERSTON, E.G.MARSHALL, GERALDINE PAGE, MAUREEN STAPLETON.


Em 1978, Woody Allen surpreendeu o mundo inteiro ao realizar “Interiors” / Intimidade”, oferecendo-nos o seu primeiro opus Bergmaniano; os seguintes seriam “Setembro” / “September” e “Uma Outra Mulher” / “Another Woman”. O cineasta, que sempre foi um profundo cinéfilo, nutre uma admiração profunda pelo Mestre sueco Ingmar Bergman e, ao realizar este filme, ofereceu-nos uma verdadeira obra-prima que, passados tantos anos, mantêm o carisma da estreia. Tudo nesta película nos faz recordar Bergman, desde a forma como os interiores das diversas casas são filmados, até à ausência de qualquer tipo de música, sendo a banda sonora composta por lágrimas e suspiros, com uns diálogos brilhantes e esse oceano que banha Long Island, a recordar-nos a hoje célebre ilha de Färo tantas vezes usada por Bergman nos seus filmes, aliás nunca é demais recordar que a primeira vez que Bergman filmou em Färo foi durante a rodagem de “Persona”, uma das suas obras mais célebres.

Iremos assim assistir a uma história onde a presença de Tchekov também se faz sentir, fruto dessa brilhante peça que escreveu intitulada “Três Irmãs”. Aqui essas três irmãs chamam-se Flyn (Kristin Griffith), Joey (Mary Beth Hurt) e Renata (Diane Keaton), que irão ser informadas pelo pai (E. G. Marshall) da decisão de se ausentar do lar, para repensar a sua vida: tem 63 anos, as filhas estão mais que criadas, duas delas já casadas e ele vê chegada a hora de partir para procurar um novo rumo para a sua vida. A notícia apanha todos de choque, incluindo a sua mulher Pearl (Geraldine Page), que se encontra presente à mesa onde tomam o pequeno-almoço. Esta decisão irá alterar decididamente a vida de toda a família.

Renata (Diane Keaton) é uma poetisa e escritora de sucesso, que desde sempre trava um duelo com a irmã Joey, a eterna favorita dos pais, e que não encontra no casamento a realização que sempre desejou, apesar de já ter uma filha. Ela e o marido vivem em constante disputa pelo sucesso literário, já que ele também é escritor.
Joey (Mary Beth Hurt) encontra-se na fase mais difícil da sua vida, não encontra uma actividade que a estimule, embora esteja sempre em busca da genialidade que não herdou da mãe. Por outro lado a hipótese de ter uma criança nem sequer vive no seu horizonte, apesar da insistência do seu companheiro.
Flyn (Kristin Griffith) é uma das muitas jovens que viram no cinema um modo de vida, em busca da celebridade, mas Hollywood não repara nela e assim é obrigada a viver das suas interpretações em séries de televisão, para além de filmes de segunda ordem. Das três irmãs é a que aparenta ser a mais superficial, fruto do mundo em que vive, em que o eterno sorriso esconde os desgostos que lhe vão na alma superficial.
Frederick (Richard Jordan) é um escritor de sucesso, mas que exige demais de si próprio, sempre criticado pela mulher Renata, muito mais célebre que ele no meio literário, e cuja vida matrimonial é um verdadeiro vazio. Aliás Frederick é mais conhecido pelas críticas literárias que faz em revistas da especialidade do que como escritor, refugiando-se na bebida sempre que pode, devido à ausência sentimental da esposa.
Mike (Sam Waterston) é um activista marxista (recorde-se que estamos em finais de setenta), que não encontra na mulher, Joey, a paixão com que sempre sonhou, apesar de ambos se amarem, sendo a insegurança dela um eterno factor de instabilidade, ao mesmo tempo que as interferências da sogra na sua vida são como pequenas bombas relógio que só não explodem, porque ele termina sempre por ceder.
Eve (Geraldine Page) é uma mulher que sempre dominou todos os que a rodeavam, desde o marido às filhas, passando por Mike, que acaba sempre por aceitar as suas “sugestões” para a decoração da casa, recorde-se que ela é designer de interiores. Mas, nesse dia em que o marido anuncia a todos que necessita de partir, o seu mundo perfeito irá desmoronar-se como um simples castelo de cartas, acabando por perder esse eterno controlo que lhe alimentava a vida.
Arthur (E. G. Marshall) é o homem que, de certa forma, sustenta com a sua fortuna a vida de todos, nunca se esquecendo de enviar esse cheque, que lhes irá facilitar a sobrevivência no pequeno mundo em que navegam. Até que um dia, aos 63 anos, decide comunicar que chegou a hora dele, de desfrutar os pequenos prazeres a que tem direito. Informa todos de que se trata de uma simples separação provisória, a idade começa a pesar e ele sente que precisa de dar um novo rumo à sua vida.
Pearl (Maureen Stapleton) é a mulher que Arthur irá conhecer numa viagem pelas ilhas gregas e por quem se irá apaixonar. Pearl, apesar da idade e de já se ter casado duas vezes (ambos os maridos já faleceram), vive todos os segundos que a vida lhe oferece, transmitindo de forma simples esses pequenos prazeres, até então desconhecidos de Arthur, tratando-o sempre com um carinho e ternura que ele nunca conhecera na companhia de Eve. A notícia do casamento de Pearl e Arthur irá destruir para sempre as fundações do mundo em que todos habitavam.

São estas as personagens que irão navegar no interior desta obra-prima de Woody Allen, construída com um rigor e sensibilidade que, na época, surpreendeu tudo e todos. A forma como ele filma é de um intimismo profundo, como se a sua presença fosse invisível para os actores e depois a fotografia de Gordon Willis é de uma delicadeza profunda, basta reparar no longo traveling na praia, a acompanhar a caminhada de Flyn e Renata para ficar tudo dito, ou o derradeiro encontro entre Joey e a mãe, onde o jogo de sombras já anuncia a morte que está para chegar.
Este drama mais que perfeito, escrito e realizado por Woody Allen, continua a apaixonar o espectador e a forma como os actores são dirigidos é portador de um saber que muitos desconheciam no cineasta, basta ver a sobriedade da interpretação de Diane Keaton, para ficar tudo dito, mas claro não é só ela, são todos eles que nos deixam perfeitamente fascinados pela forma como fazem viver as personagens que interpretam, como se estivéssemos perante dois quartetos de cordas, cada um a tocar o seu adágio, dum lado mãe e filhas, do outro os maridos e a recém chegada Pearl.
“Interiors” (nunca um título foi tão belo), é uma película de um intimismo profundo que acaba por transformá-la numa das mais belas obras do cinema contemporâneo.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Outubro 05, 2009


“CHRISTINE”

JOHN CARPENTER - (EUA - 1983) - (110 min.)

ALEXANDRA PAUL, KEITH GORDON.

John Carpenter é considerado por muitos um dos herdeiros de Hitchcock, devido ao suspense criado nos seus filmes. Mas o seu cinema, apesar de possuir este estatuto, é também descendente de Howard Hawks e daquilo a que se convencionou chamar “série-B”, aliás bem patente em “Assalto à 13ª esquadra”/”Assault On Precinct 13”, um verdadeiro “western” dos anos setenta, onde a presença do cinema de Hawks e do seu famoso “Rio Bravo” é uma constante, além dos reduzidos meios utilizados, serem também memória desses movies de pequeno orçamento, projectados nas sessões duplas, em complemento ao filme principal e onde se escondiam tantos autores.

Se os seus filmes seguintes, “Halloween” e “O Nevoeiro”/”The Fog”, patenteiam o mesmo género de produção, assumindo Carpenter a autoria da banda sonora, já com “Nova Iorque 1997”/”Escape From New York”, assiste-se a uma utilização de grandes meios, originando o filme menos interessante do cineasta.
Com “The Thing”/”Veio do Outro Mundo”, Carpenter decide apostar mais uma vez na grande produção e no seu alter-ego Kurt Russell. Os resultados são desta vez surpreendentes, neste “remake” da película de Christian Nyby produzida por Hawks, onde os efeitos especiais são parte integrante do filme e não seu complemento, como geralmente sucede. John Carpenter consegue instalar a dúvida, a incerteza e a ameaça até ao último fotograma.

Chegamos assim a “Christine”, nome de mulher, objecto de amor e de posse, símbolo de poder ou simplesmente um vermelho Plymouth Fury, nascido numa linha de montagem de Detroit no ano de 1957.
Vinte anos depois, Arnie, um jovem tímido e cobarde, que só consegue sobreviver no mundo dos “bad boys”, graças ao seu amigo Dennis, encontra por acaso um velho Plymouth e compra-o por 250 dollars. O seu antigo proprietário morreu nele poucos meses antes.
Possuindo Christine, Arnie transforma-se radicalmente, mas o desejo/sedução que se estabelece entre ele e Christine, tem a sua origem em quem?

E aqui falamos já dos sentimentos que “ela” transporta consigo. É inevitável falar no feminino. A sua cor é o sangue que lhe corre nas veias e lhe dá vida, mesmo quando praticamente destruída renasce das cinzas na garagem de Darnei e o pulsar do seu coração é o “rock and roll” que o rádio transmite.
Aquando da morte de Arnie (Keith Gordon), ela jura-lhe fidelidade e vingança. A frase de Leigh (Alexandra Paul) namorada de Arnie, “odeio o rock and roll”, é o sintoma claro do ciúme existente entre elas, o qual se estabelecera no “drive-in”, quando Leigh se sente observada por “ela” e recusa fazer amor com Arnie, culminando na tentativa de assassínio por parte de Christine, perante o olhar tranquilo do namorado.

John Carpenter consegue neste filme transmitir um sentimento de amor / terror / eternidade, através de um vermelho Plymouth, que nunca é visto como um automóvel, mas sim como uma mulher, que vive, sofre e ama – e dizemos vive, porque no final a dúvida que nos assalta sobre a sua capacidade de sobrevivência morre, para segundos depois a certeza da sua eternidade se instalar no espectador.
Quando saímos da sala de cinema, o primeiro olhar é para os carros que se cruzam na rua em busca de um Plymouth Fury ou do amor de Christine.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (***)

Segunda-feira, Setembro 28, 2009


AS PONTES DE MADISON COUNTY / THE BRIDGES OF MADISON COUNTY

CLINT EASTWOOD – (EUA – 1995) – (135 min/Cor)

CLINT EASTWOOD, MERYL STREEP, ANNE CORLEY, VICTOR SLAZAK, JIM HAYNIE.

A forma como nasceu “As Pontes de Madison County” é já de si uma verdadeira história de amor e respeito por uma mãe. E dizemos isto porque foram precisamente os filhos de Francesca Johnson, que depois de muito meditarem sobre a história de amor da sua mãe, desejaram compartilhá-la com o mundo. Decidiram assim contactar o escritor Robert James Waller, cujos romances e novelas têm grande sucesso nos Estados Unidos e sugeriram-lhe um encontro para falarem porque achavam que um amor como aquele deveria ser recordado.

O escritor aceitou o desafio e marcaram encontro, a meio caminho, porque cada um habitava no extremo oposto do território americano. Robert James Waller gostou de ler a carta de Francesca para os filhos, assim como o seu diário e prometeu que iria fazer as suas próprias investigações sobre Robert Kincaid e depois decidiria se escreveria o livro ou não. Um ano depois arregaçou as mangas e atirou-se à tarefa, criando uma obra extremamente bela e sedutora, cujo sucesso foi imediato. E como não podia deixar de ser o cinema decidiu levá-la ao grande écran.

Mas o que não se esperava era que fosse a Malpaso e o seu patrão Clint Eastwood a abraçarem o romance, quando ainda estavam a saborear o enorme sucesso de “Imperdoável”, porém Clint Eastwood adorou o argumento e decidiu ser ele mesmo a encarnar a figura do fotógrafo da National Geographic.
Desta forma esse pistoleiro implacável, outrora um polícia sem regras conhecido por Dirty Harry, surgia de forma surpreendente nesta maravilhosa história de amor. E o sucesso foi tão grande que houve quem se casasse debaixo dessas mesmas pontes que povoam aquela região do Illinois.

A película começa com a morte de Francesca Johnson e a ida dos seus dois filhos até sua casa, para tratar do funeral e qual não é o seu espanto quando começam a ler a carta que a mãe lhes deixou, pedindo que fosse cremada e as suas cinzas lançadas sobre essa ponte de Madison County, onde ela conheceu e aprendeu a amar esse nómada chamado Robert Kincaid. Junto da carta encontrava-se o seu Diário, em diversos volumes, onde ela narra o romance de uma semana que durou uma vida e junto a ele encontravam-se as famosas máquinas fotográficas de Robert Kincaid, assim como as fotografias que ele lhe tirou e esse exemplar da National Geographic onde foi publicada a reportagem sobre as célebres Pontes de Madison County.

Se Carolyn Johnson (Anne Corley) fica espantada com o que vai lendo, já o irmão Michael Johnson (Victor Slazek) não consegue conceber que a sua mãe tenha tido um romance com um desconhecido, estando ainda casada com o seu pai, não conseguindo esconder a sua revolta. E aqui Eastwood passa do presente para o passado, para irmos conhecer o quotidiano de Francesca Johnson, onde encontramos essa espantosa actriz chamada Meryl Streep, a dar vida a uma das personagens mais fascinantes que alguma vez vimos numa Love Story. Iremos assim acompanhar a forma como ela e Robert se conheceram, através de uma simples indicação do caminho para chegar às pontes, mas que se revela complexa para um desconhecido meio-perdido naquelas paragens e ela decide então acompanhá-lo até ao local. E será aqui que o pequeno mundo da italiana Francesca se irá desmoronar lentamente, mas sempre de forma apaixonante. Os filhos e o marido foram durante alguns dias até uma feira de gado no Illinois e ela, sozinha, tinha o tempo por sua conta, porque não usufruir dele?

Clint Eastwood filma estes momentos de primeiro contacto entre as personagens com uma sabedoria e delicadeza que a todos espantou, repare-se quando ele lhe roça com a mão no joelho, ao abrir o porta-luvas e a forma como ela fica perfeitamente extasiada com aquele gesto fortuito. Depois será o convite para jantar, após a primeira sessão fotográfica e quando ela o vê no quintal de sua casa a lavar-se, de tronco nu, começa a ficar seduzida por aquele estranho de voz rouca e arrastada. Durante o jantar conversam animadamente, algo que na vida dela não existia, como vimos no início da película, nessa refeição em que apenas vive o ritual de passar a comida e onde o diálogo com o marido já se encontra ausente do quotidiano.

Como se sabe as palavras são como as cerejas e Robert e Francesca descobrem isso mesmo e lentamente a curiosidade que sentem um pelo outro, transforma-se em atracção mútua, que irá tornar aqueles dias numa memória viva para sempre no coração de ambos.
A forma como Clint Eastwood filma os pequenos gestos e as palavras tomam conta do espectador ao longo da película e depois há esse fascínio que nos é oferecido por Meryl Streep, que consegue transmitir todas as ansiedades e desejos da personagem. Veja-se a forma como ela se sente quando toma banho na banheira onde anteriormente Robert Kincaid tinha estado, amando cada gota de água que ainda corre do chuveiro, como se elas fossem os dedos do homem por quem se encontra perdidamente apaixonada.

Todas as horas são vividas por eles com um carinho muito especial e quando ele a convida para sair e dançar todos os medos se apoderam dela, mas ele sabe melhor que ninguém que no local onde vão nunca irão encontrar brancos, porque ali toca-se jazz e ama-se a música, da mesma forma que eles se amam um ao outro e aqui, mais uma vez, Eastwood nos demonstra o seu amor pelo jazz e blues, música que ele adora desde criança.

Quando Richard Johnson (Jim Hainie) regressa a casa com os filhos vai encontrar uma esposa cuja felicidade está estampada no rosto, embora ele nem sempre olhe para ela, fechando-se no seu próprio mundo, limita-se a comentar com ela a presença do fotógrafo na cidade, porque nas “Little Town” é-se de imediato identificado.
Francesca amara durante aqueles dias como nunca tinha amado na vida, mas quando Robert lhe pediu para partir com ele, ela refugiou-se nos filhos para não seguir o homem que a fascinava. E quando pensava que ele tinha partido para sempre vai encontrá-lo na rua a olhar para ela, debaixo de chuva num dos momentos mais belos do filme, enquanto ela aguarda a chegada do marido sentada no interior do carro.

Mais uma vez o cineasta Clint Eastwood constrói um clímax espantoso, fazendo-nos quase soluçar perante a evolução dos acontecimentos, durante aqueles últimos minutos, sempre filmando os pequenos gestos de Francesca, como as verdadeiras angústias e incertezas que lhe dilaceravam a alma.
E assim vemos como ela hesita em sair do carro do marido, para correr para a viatura de Robert Kincaid, que se encontra parada à sua frente, com ele já ao volante esperando que o verde do semáforo surja. Eastwood cria, nesta sequência, um dos momentos mais memoráveis do cinema, porque o semáforo fica verde e ele não arranca oferecendo-lhe desta forma todo o seu amor, ao mesmo tempo que coloca o crucifixo de Francesca no espelho retrovisor. Aqueles segundos parecem horas e quando por fim ele parte, depois de Jim ter buzinado por diversas vezes, Francesca Johnson sabe que irá recordar para sempre aquele amor, que lhe irá preencher a alma para o resto da sua vida.

Ao longo da película, à medida que os filhos de Francesca Johnson vão lendo o seu diário, irão mudar de atitude perante a vida e percebem que a sua mãe sacrificou o grande amor da sua vida por eles. Eles que até estão ambos em encruzilhadas perigosas onde a ruptura dos respectivos casamentos espreita a hora para nascer, mas os ensinamentos obtidos com a leitura daquele diário irá fazer com que ofereçam mais uma oportunidade às suas próprias vidas.
“As Pontes de Madison County” oferece-nos assim mais uma espantosa interpretação de Meryl Streep, ao mesmo tempo que o último cineasta clássico realiza uma verdadeira obra-prima, onde todo o seu saber navega no intimismo das relações, captando cada gesto com uma sabedoria que deixou muitos surpreendidos.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)