Quarta-feira, Julho 29, 2009

O AMOR NÃO VAI DE FÉRIAS / THE HOLIDAY

NANCY MEYERS – (EUA – 2006) – (138 min/Cor)

CAMERON DIAZ, JUDE LAW, KATE WINSLET, JACK BLACK, ELI WALLACH.
Longe vão os anos em que a comédia dava cartas no cinema. Mas, nos dias de hoje, o cinema clássico é mestre no género e o cinema moderno lá se vai inspirando na memória dos movies para criar a comédia. Todos sabemos que Billy Wilder e Ernest Lubitsch, só para falar em dois grandes, nunca tiveram sucessores por muito que se esforçasse Mel Brooks e companhia. No entanto ainda temos actores em que a comédia lhes está na pele, imaginem simplesmente um “duelo” entre o Cary Grant de “A Minha Mulher Favorita” e o Jack Nicholson de “Melhor é Impossível” ou se preferirem o duelo entre a “Meg Ryan” de “Você Tem Uma Mensagem” com a Katherine Hepburn de “Casamento Escandaloso”… e depois ainda temos esse cineasta das mulheres, o genial George Cukor. Agora imaginem o que será uma comédia realizada por uma executiva dos Estúdios e teremos “O Amor Não Tira Férias”.

“The Holiday” é a última película de Nancy Meyers ex-executiva dos estúdios e também argumentista, que desta vez não se esforçou em polir o argumento, ao contrário do que sucedera em “Something’s Gotta Give” / “Alguém Tem Que Ceder”. Nancy Meyers que se estreou como argumentista no filme de Herbert Ross “Protocolo” com Goldie Hawn na protagonista, iria encontrar em Charles Shyer (“Baby Boom” com a Diane Keaton, recordam-se?) o seu parceiro para a vida e para os filmes, terminando até por as duas filhas de ambos servirem de modelo em “The Parent Trap”, uma armadilha montada pelas gémeas para unirem os pais, o que resultou no filme de baptismo de Nancy Meyers, depois Mel Gibson começou a escutar o que as mulheres diziam e nasceu “What Women Want”, uma daqueles películas que o actor já deve ter renegado não fosse o apocalipse cair sobre ele. Com este curriculum e depois do êxito proporcionado por Jack Nicholson e Diane Keaton, esperávamos melhor de Nancy Meyers.
“O Amor Não Vai de Férias” oferece-nos duas histórias paralelas em que duas personagens femininas são trocadas pelos namorados e, como o Natal bate à porta, decidem trocar de casa por duas semanas para esquecerem os seus desgostos. Desta forma a americana parte para Inglaterra sendo o Surrey, a 40 minutos de Londres, o seu destino e a inglesa vê nascer Los Angeles aos seus pés. Se a primeira tem uma pequena casinha à sua espera na ilha, já a inglesa descobre uma mansão. Chegados aqui quase descobrímos a troca de casas de “Um Divã em Nova Iorque” de Chantal Ackerman, com William Hurt e Juliette Binoche nos protagonistas. Só que desta feita Cameron Diaz é Amanda Woods uma produtora de trailers que ganha rios de dinheiro, mas vê o seu companheiro confessar que dormiu com a miúda do escritório. Já Kate Winslet trabalha numa editora e vê a paixão da sua vida anunciar o casamento com a colega do andar de cima. Dois corações desfeitos partem assim para territórios desconhecidos em plena época natalícia.

Nancy Meyers pretendia desenvolver duas histórias em paralelo, mas faltou-lhe arte acabando pela história/romance entre Cameron Diaz e Jude Law (Graham, um editor) nos ocupar a memória, enquanto o encontro de Kate Winslet e Jack Black (Miles, um compositor) para se aguentar, necessita da história/vida de Eli Wallach na figura do argumentista Arthur Abbott, que através do cinema clássico lhe vai ensinar a arte de amar: “não nos esqueçamos que foi ele que introduziu o célebre kid, na frase de “Casablanca”. Estamos assim perante duas histórias de amor em feriado natalício e se na passada em Inglaterra o amor não tirou mesmo férias, já em Los Angeles em foi mesmo dar uns mergulhos na praia de Santa Mónica.

Cameron Diaz está igual a si própria e Kate Winslet muito mais actriz dramática do que comediante para conseguir sobreviver a esta comédia, quanto ao sector masculino Jude Law oferece-nos todo o seu charme estando perfeitamente credível na personagem, já o mesmo não podemos dizer de Jack Black, falta-lhe a guitarra e os calções e nunca consegue fazer com que um sorriso nos nasça no rosto. Num cameo fugaz de segundos e dizendo uma deixa num videoclube, Dustin Hoffman deixa K.O. Jack Black.
Numa época em que a comédia americana vive uma das épocas mais negras da sua existência, “O Amor Não Tira Férias” ainda nos consegue fazer rir, não tantas vezes como desejávamos, mas mesmo assim rimos, ele é aquele suficiente menos que se dava nos meus tempos de liceu, não era carne nem peixe, mas sempre servia para não nos chatearem em casa.

Rui Luís Lima (**)
Paula Nunes Lima (***)

Quarta-feira, Julho 22, 2009


“JANELA INDISCRETA”/”REAR WINDOW”

ALFRED HITCHCOCK - (EUA 1954) – (112 min/Cor)

JAMES STEWART, GRACE KELLY, RAYMOND BURR.

Janela Indiscreta” possui o mais belo beijo da História do Cinema, melhor ainda que o beijo apaixonadamente cínico de Cary Grant a Ingrid Bergman em “Notorius” / ”Difamação” e do que esse beijo profundamente carnal dado por Sean Connery a Tippi Hedren em “Marnie”.
Vamos fechar, para já, esta janela indiscreta e voltar um pouco atrás no tempo… no último ano do século xix, nasceu num bairro londrino, o terceiro filho de uma família modesta e católica. O seu nome Alfred Hitchcock.
Desde muito cedo começou a interessar-se pelo cinema, principalmente o americano (Griffith, Chaplin) e por histórias policiais. Iniciou-se na Sétima Arte a desenhar os cartazes. Mais tarde, passou a argumentista e a assistente de realização.
Quando o produtor Michael Bacon lhe perguntou se gostava de realizar um filme, o jovem Hitch respondeu que nunca tinha pensado nisso. Algumas semanas depois nascia "The Pleasure Garden”.

Todos os filmes nascidos do seu olhar eram portadores da sua marca. Como ele disse um dia: “um cinema é um écran diante de uma quantidade de cadeiras que é preciso encher. Sou obrigado a fazer suspense. Sem isso as pessoas ficavam desapontadas”.
Nunca desapontou ninguém, mesmo quando trocou o Velho Continente pelo Novo Mundo, obtendo imediatamente o “Oscar” de melhor filme com o seu primeiro filme americano, produzido por David O’Selznick, “Rebecca”.
As suas películas desde sempre tiveram a adesão do público, mas algumas estiveram ausentes do circuito comercial, durante cerca de vinte anos, devido a questões de direitos. Foram elas “Janela Indiscreta”, “A Corda”, “O Terceiro Tiro”, “O Homem Que Sabia Demais” e “Vertigo”/”A Mulher Que Viveu Duas Vezes”… e como James Stewart dizia no "trailer" de relançamento destes cinco filmes… “Rear Window é o meu preferido!”… vamos abrir agora esta janela indiscreta.

Janela Indiscreta”/”Rear Window” data de 1954, contando no elenco com James Stewart e Grace Kelly, a quem Hitch chamava “o vulcão debaixo do gelo”. Nesta película, figura o mais belo beijo da História do Cinema como já dissémos, quando Grace entra em casa de Stewart e se debruça para o beijar num grande plano em ralenti; enquanto os seus lábios se tocam/amam ardentemente, o cabelo dela desce docemente sobre o rosto dele.
Jefferies (James Stewart), fotógrafo de profissão, encontra-se imobilizado numa cadeira de rodas, com uma perna partida: o seu único passatempo é observar as casas dos vizinhos. O seu instrumento de trabalho são uns binóculos e posteriormente uma tele-objectiva possuidora de um zoom quase mortal. Os seus jogos de olhar conduzem-nos ao desaparecimento de Mrs. Thorwald, o qual tinha sido cuidadosamente planeado pelo marido.

Devido ao seu estado de imobilidade é Lisa (Grace Kelly) a sua companheira inseparável, o agente no terreno, de toda a acção. E o olhar do espectador confunde-se com o da câmara/personagem, residindo aqui o segredo de Alfred Hitchcock. A questão que se coloca não é descobrir o autor do crime, mas sim como o apanhar na rede e descobrir o corpo desaparecido.
Lars Thorwald (Raymond Burr) é apanhado mas Jefferies, em vez de uma perna partida passa a ter duas, ao mesmo tempo que é “forçado” a conquistar uma esposa feliz, chamada inevitavelmente Lisa, que não resiste a continuar a ler a fascinante “Vogue”!

Grace Kelly fez três filmes com Alfred Hitchcock: o primeiro "Chamada para a Morte" / "Dial M for Murder", em que representava a loura inocente vítima de uma tentativa de assassínio orquestrada pelo próprio marido (recorde-se que a obra baseada numa peça teatral possui uma versão em três dimensões), depois foi a consagração com este "Janela Indiscreta", até chegar a esse momento mágico intitulado "Ladrão de Casaca" / "To Catch a Thief", a mais divertida comédia de Hitch, onde a actriz surge possuidora de uma sensualidade perturbante, trazida já do anterior filme e depois foi esse desejo fatal de passear nas ruas desse pequeno Principado chamado Mónaco que a fez passar de Estrela a Princesa. Durante muito tempo, Grace desejou protagonizar um "come-back" ao cinema e Alfred Hitchcock também o desejava, o filme eleito foi "Marnie" e os preparativos foram feitos, até que a voz do Príncipe falou mais alto. Grace Kelly foi obrigada a desistir do seu regresso ao cinema, ainda se falou numa consulta aos habitantes do Principado se gostariam de ver a sua Princesa de regressso ao cinema, num filme de Alfred Hitchcock, mas tudo não passou de um desejo por realizar. Tippi Hedren foi a escolhida para protagonista, sendo a forma mais próxima de Hitchcock rever Grace Kelly num filme seu. Desta forma Grace Kelly que inicialmente dissera que sim, terminaria por dizer não a uma das suas paixões; por amor ao homem da sua vida a mais célebre loura de Hitchcock terminava assim a carreira cinematográfica.


Hoje, tal como ontem, nenhum espectador de cinema fica indiferente a "Janela Indiscreta" considerado por muitos a obra-prima de Hitchcock ou uma das obras-primas do cineasta. Como todos sabemos é sempre difícil decidir entre este filme e "Vertigo" ou "Difamação" / "Notorius", embora o filme preferido do cineasta seja "Mentira" / "Shadow of a Doubt". Todos nos recordamos das inúmeras vezes que "Janela Indiscreta" foi citado no cinema (Brian de Palma), ou os "falsos remakes" da película como sucede com "Olhos Indiscretos", mas a todos eles faltam os actores, Jimmy e Grace são únicos e depois há sempre esse saber do Mestre, manipulador mais-que perfeito do suspense. (Re)ver "Janela Indiscreta" de Alfred Hitchcock é o nosso convite de hoje.


Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quarta-feira, Julho 15, 2009


OS AMORES DE ASTREA E CELADON / LES AMOURS D’ASTRÉE ET DE CÉLADON.

ERIC ROHMER – (FRA/ESP/ITA – 2008) – (109 min/Cor)

ANDY GILLET, CÉCILE CASSEL, STÉPHANIE CRAYENCOUR, VÉRONIQUE REYMOND.


Eric Rohmer, o cineasta da palavra, em "Os Amores de Astrea e Celadon" parte de um texto escrito por Honoré d’Urfé no século xvii, cuja história se passa precisamente no século V onde, mais uma vez, o amor se encontra na ordem do dia.
O cineasta das séries “Contos Morais”, “Comédias e Provérbios” e “Contos das Quatro Estações”, prossegue assim a sua caminhada pelo interior do cinema abordando uma história de amor povoada de Pastores, Ninfas e Druidas invadindo um território decididamente mágico.

Se à primeira vista nos encontramos longe desse universo contemporâneo que fez as delícias dos espectadores ao longo de décadas, recorde-se que Rohmer é o autor dos argumentos das três séries mencionadas, em “Os Amores de Astrea e Celadon” parte de um texto de outro autor, mas que ele trabalha de forma perfeita, mantendo uma certa ligação com a sua obra contemporânea.
Rodado em cenários naturais, de um bucolismo perfeito, iremos entrar no filme através de uma daquelas festas tão nossas conhecidas dos livros de banda desenhada de Goscinny e Uderzo, mantendo-se Rohmer fiel a esse princípio da palavra, sempre o elemento preponderante de toda a narrativa.

Astrée e Céladon são dois pastores que se amam perdidamente, mas as suas famílias não olham de bom grado o seu amor e naquele dia, um amigo/pretendente de Astrée leva-a até à festa que decorre no campo e onde uma outra jovem tenta conquistar o amor de Céladon. Ao vê-los juntos Astrée sente-se traída pelo seu amor, mas a sua visão é conduzida pelo jovem que se encontra com ela e assim ela não vê que Céladon não acolhe os avanços da rapariga.
Sentindo-se traída, Astrée diz a Céladon que nunca mais o quer ver e este, perante tal decisão, atira-se ao rio em busca da morte. No entanto será salvo pelas Ninfas que o irão conduzir e acolher no castelo, ao mesmo tempo que decidem disputar os seus amores, em busca de prazeres bem carnais.

Já de saúde recuperada, graças aos bons ofícios de um Druida, ele só tem um desejo que é recuperar o coração de Astrée, mas o facto de ela lhe ter dito que nunca mais o queria ver torna tudo muito mais complicado. Por outro lado Astrée, ao saber da morte do seu amado, passa a viver amargurada, já que ela se considera a causadora da sua morte.
E será num desses passeios pelo campo que Astrée, na companhia dos amigos, irão seguir esse caminho perfeito que os levará até ao castelo do célebre Druida que irá esconder a identidade de Céladon, fazendo-o passar por mulher e apresentando-o como sua filha, contando com a inevitável cumplicidade das restantes Ninfas que só desejam que aqueles dois seres voltem a reencontrar o amor perdido.
Como não podia deixar de ser, Astrée acha a filha do Druida muito parecida com o seu amado desaparecido, até que nasce esse momento em que Céladon lhe revela a sua identidade e o seu amor e ela, ao reconhecê-lo, julga estar perante um milagre, reencontrando dessa forma o ser que ama perdidamente.

Estamos assim perante um filme cuja história poderia ser passada para o mundo contemporâneo, com as devidas alterações no argumento, ou seja Rohmer mantém-se fiel à estrutura dos seus contos morais, situando desta feita a história no século V e onde o erotismo navega em cada fotograma, basta ver a forma como ele filma as Ninfas e em especial Astrée, interpretada pela bela filha de Jean-Pierre Cassel. Por outro lado Eric Rohmer quase não investe na encenação, decidindo antes lançar os seus actores no interior da natureza, deixando depois que eles encontrem o seu próprio caminho, por esses prados e florestas onde o murmurar das águas do rio e o chilrear dos passarinhos compõem o ambiente perfeito ou se preferirem uma banda sonora naturalista.
“Os Amores de Astrée e Céladon” surge assim como mais um capítulo da obra deste cineasta, possuidor de uma juventude eterna e que nunca nos deixa de surpreender.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (****)

Quarta-feira, Julho 08, 2009


FOTOGRAMAS - CINEMA

“O LEOPARDO” / “IL GATTOPARDO” (*****)

LUCHINO VISCONTI – (ITA -1963) – (178 min/205 min/Cor)

BURT LANCASTER, CLAUDIA CARDINALE, ALAIN DELLON, PAOLO STOPPA, RAMOLO VALLI, RINA MORELLI, SERGE REGGIANI.

“O Leopardo” é uma das obras-primas da Sétima Arte e o seu autor, Luchino Visconti, um dos maiores vultos da História do Cinema. Tal como o herói do livro de Lampedusa, também ele pertencia à aristocracia, Visconti era Príncipe de Modrone, de Milão e desde muito cedo se interessou pelo cinema, iniciando-se nessa actividade como assistente de Jean Renoir. A sua primeira obra “Obsessão” / “Ossessione” adaptava à tela o romance de James Cain “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, mas como os direitos do romance eram demasiado elevados, Luchino Visconti adaptou-o à realidade italiano, introduzindo desta forma o neo-realismo no cinema, estava-se em 1942, tendo ido ainda mais longe neste terreno quando em 1948 realizou na Sicília “A Terra Treme” / “La Terra Trema”.

Antigo criador de cavalos, desde sempre Visconti não escondeu a sua paixão pelo teatro e a opera, bem patente em “Senso” / “Sentimento”, mas seria sempre o cinema a falar mais alto e com “O Leopardo”, obra premiada em Cannes, ele falou pela primeira vez do seu próprio universo, esse mundo à beira do abismo, substituído por uma outra classe que despontava, recorde-se a frase do Príncipe de Salina (Burt Lancaster), “nós éramos os leopardos, os leões, agora chegou a hora dos chacais” referindo-se aos novos senhores da política que despontavam nessa Itália de Victor Emmanuel, depois da derrota dos camisas vermelhas de Garibaldi, usados na luta contra os Bourbons.

Curiosamente “Il Gattopardo”, obra fundamental da literatura italiana e universal, só foi publicado após a morte do seu autor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, graças aos esforços do seu filho, depois foi através do cinema que a sua obra adquiriu uma visibilidade enorme, tal como o seu mundo aristocrático onde as alianças de classes surgiam em busca do poder.
Esta obra de Visconti, para se concretizar, teve que contar com o apoio da indústria americana através da Fox que impôs um actor americano, tendo a escolha de Luchino recaído sobre Burt Lancaster, o “cow-boy” como lhe chamou inicialmente o cineasta, depois de os nomes de Laurence Olivier e Marlon Brando terem sido vetados. E como todos sabemos o Príncipe Italiano deu-se muito bem com o americano, oferecendo-lhe muitos anos depois o papel do protagonista de “Violência e Paixão” / “Grupo di famiglia in un interno”, onde ele surge como alter-ego do realizador.
No entanto, foram muitas as dificuldades para a apresentação da obra no que diz respeito à sua metragem, existindo diversas versões, por essa razão optámos em cima por mencionar a duração da cópia restaurada, que foi apresentada e trabalhada por Giuseppe Rotuno, o seu director de fotografia e a duração do dvd editado pela Costa do Castelo. Por outro lado, para quem se interesse em comparar as versões americana e italiana do filme poderá sempre visioná-las através da edição em dvd da “criterium” que nos oferece as duas. Em ambas há actores dobrados, porque temos três línguas no filme, devido às origens dos seus protagonistas, inglês, italiano e francês, assim como dois tipos de película perfeitamente distintos, sendo a adoptada por Visconti a Cor De Luxe.

No primeiro plano de “O Leopardo” seguimos o movimento da câmara que se aproxima da residência do Príncipe de Salina e à medida que ela percorre o edifício através de um travelling lateral, apercebemo-nos que alguém reza, o vento vai batendo nas cortinas da casa e será num raccord perfeito que iremos entrar na sala onde a família se encontra a rezar, ao mesmo tempo que começam a surgir gritos do exterior e há esse momento em que alguns membros da família são desviados da oração para o exterior, mas só quando a palavra ámen é pronunciada pelo dono da casa, sabemos o que se passa no jardim, onde jaz um soldado morto debaixo de uma árvore. Entramos assim no quotidiano desta família aristocrata e através dela iremos ver como a luta de classes se desenvolve em Itália nesse ano de 1860.
Mas demos a palavra a Luchino Visconti, melhor do que ninguém ele nos poderá falar de “Leopardo”: “O Príncipe de Salina sabe que pertence a uma classe condenada a morrer. Por isso no final, se vê a morte à roda dele. A morte é a única coisa que faz sentido para ele. Compreendo a sua nostalgia, mas o mundo dele tinha que desaparecer e foi isso que quis mostrar no meu filme. Não nasci na Sicília e nós, no Norte, temos uma espécie de remorso face ao Sul: uma grande má consciência. Nunca lhe demos a ajuda que lhe prometemos. O movimento que libertou a Sicília dos Bourbon triunfou, como todas as revoluções, por causa das promessas feitas ao povo. Só que, como sempre, essas promessas não serão cumpridas. Garibaldi agiu com boa fé, mas os oportunistas latifundiários rapidamente aproveitaram a situação de mudança em benefício próprio, instalando uma nova opressão burguesa. Ao longo de séculos de escravidão, a Sicília continua a jazer numa espécie de torpor e a Máfia persiste como gangrena que alastra. Tudo isto deve mudar, tudo isto irá mudar. Para mim o tema de “O Leopardo” é muito semelhante ao de outro filme meu “Sentimento”. Só que desta vez, a visão é menos cruel e os acontecimentos são considerados com mais pathos”.

Em “Senso” / “Sentimento” temos no início do filme os panfletos lançados na ópera a apelar à revolta e tal como em “O Leopardo” os fuzilamentos existem, por razões de amor, embora em ambos, a palavra desertor tenha um denominador comum, só que em “O Leopardo” os fuzilamentos que só escutamos são perpetrados pela nova ordem, saída da revolução, repare-se na forma como o Coronel no baile fala do trabalho que ainda tem pela frente nessa noite e como relata como capturou Garibaldi, perante a revolta do Príncipe de Salina.
Desde o início sabemos como Don Fabrizio (Burt Lancaster) olha os acontecimentos, apoiando o sobrinho Tancredi (Alain Delon) quando este decide juntar-se aos revoltosos, mas depois da nova ordem ser instituída, ele demonstra uma lucidez incrível, porque sabe que todas as revoluções devoram os seus filhos e daí a máxima “temos que mudar as coisas para que tudo permaneça na mesma”. O poder apenas mudou de mãos e as novas classes tudo farão para se manterem iguais aos antigos detentores do poder. Repare-se nas palavras do enviado do novo governo quando vai convidar o Príncipe para Senador, com ele trás a mensagem de que nada mudou, até a igreja irá manter o seu poder, talvez até maior, oferecendo com a outra mão um mundo melhor aos deserdados da fortuna, sabendo no seu intimo que isso nunca será concretizado.

Já Tancredi Falconeti (Alain Delon) representa o jovem revolucionário aristocrata arruinado, que depois de ter participado na instauração da nova ordem se alia à nova burguesia nascente, detentora de terras mas isenta de títulos, para originar uma nova aristocracia, tendo em Angélica (Claudia Cardinale) o “salvo-conduto” para partir com sucesso para a nova ordem estabelecida. Ele possui os títulos e as maneiras, ela o dinheiro e a ambição, aliás bem patente na forma como Don Calogero (Paolo Stoppa) recebe o Príncipe em Donnafugata. Será aliás através de Don Calogero que somos introduzidos nessa nova classe nascente, em que o dinheiro é a moeda de troca, mas só o dinheiro, porque títulos não há e quando ele vai desencantar no baú, um título de imediato Tancredi lho retira à entrada do baile, porque ele ali não lhe serve para nada.
Nessa longa sequência do baile iremos encontrar a formula perfeita para a despedida do Príncipe desse mundo aristocrático que desaparece perante o seu olhar, da mesma forma que ele no final não irá seguir com a família até casa, preferindo seguir a pé, perdendo-se na noite, essa noite que ele tão bem conhece, onde a miséria e o prazer continuam a viver lado a lado. Tal como o professor de “Violência e Paixão”, o Príncipe de Salina terá sempre o seu mundo, só que ele já não existe, permanecendo apenas como memória de um tempo definitivamente perdido.

Rui Luís Lima