
FOTOGRAMAS - CINEMA
VIVER A SUA VIDA / VIVRE SA VIE
JEAN-LUC GODARD – (FRA – 1962) – (82 min-P/B)
ANNA KARINA, SADY REBBOT, ANDRÉ S. LABARTHE, BRICE PARAIN, PETER KASSOWITZ.
A melhor maneira de se falar de “Viver a Sua Vida” é olhar a imagem que surge no lado direito do blogue oferecendo-nos o rosto de Anna Karina, esse rosto à beira do abismo ou melhor esse olhar repleto de lágrimas prontas para navegar no seu rosto. E nunca um olhar no cinema perturbou tanto o espectador, a história da vida de Nana está contida nesse olhar. Na época Godard filmava a mulher da sua vida, Anna Karina e ela em troca oferecia-lhe a sua alma. Deixem este texto por momentos e voltem a olhar o rosto de Anna Karina, nele descobrimos todos os sentimentos do mundo, nele poderemos ler a história de uma vida e por fim somos obrigados a tentar saber o que está do outro lado do écran para provocar tamanha dor ao mais belo rosto da História do Cinema.
E a resposta surge muda, vinda do outro lado numa imagem repleta de amor e terror, do outro lado do écran, temos um outro écran e um outro rosto, o rosto inesquecível de Falconetti, a “Joana D’Arc” de Carl Dreyer e descobrimos um rio de lágrimas correndo pelas margens, ao mesmo tempo que reflecte o rosto das duas almas, em toda a sua candura.
Nunca um cineasta amou tanto uma mulher como Jean-Luc Godard em “Viver a Sua Vida” e no entanto não estamos perante o primeiro filme do casal, mas sim o terceiro capítulo de um maravilhoso romance. “O Soldado das Sombras” / “Le Petit Soldat” e “Uma Mulher é Uma Mulher” / “Une Femme est Une Femme” representam os primeiros encontros entre Jean-Luc Godard e Anna Karina e será num encontro de café que se irá iniciar “Vivre sa Vie”, estamos num dos muitos “bistrot” de Paris e ao balcão de costas viradas para nós Nana (Anna Karina) e Paul (André S. Labarthe) conversam um com o outro, no primeiro de doze quadros que compõem a película. A câmara acompanha o diálogo usando o travelling e lentamente vamos descobrindo o rosto de Anna Karina no espelho situado por detrás do balcão.
Começamos então a ficar apaixonados por esta Nana que trabalha numa discoteca, na idade de ouro do vinil e luta com problemas de dinheiro, sendo até impedida de entrar em casa pela porteira em virtude de ter a renda por pagar. Mas se Godard nos começa a contar a triste história de Nana, nós ficamos perfeitamente seduzidos pelo seu olhar, esse mesmo olhar que ela irá utilizar quando decide entrar na mais antiga profissão do mundo. E se Jean-Luc Godard em sinal de provocação nos informa que estamos a ver “um filme sobre a prostituição que conta como uma jovem e bela vendedora parisiense oferece o seu corpo mas guarda a sua alma”, nós sabemos estar perante uma das mais belas histórias de amor. E quando Nana desiste de jantar com Paul e vai a um cinema de Saint-Michel para ver o filme de Dreyer, ela irá encontrar na figura de Falconetti a sua própria imagem, a morte habita aquela sala onde ela e apenas outro espectador se encontram, verificando-se que esse mesmo espectador está apenas interessado nela.
Depois inicia-se o calvário de Nana na nova profissão, percorrendo as ruas de Paris dedicadas à matéria, como a célebre rua St. Dennis, fumando um cigarro encostada à parede, ou conversando com as colegas, enquanto espera pelos clientes.
Por fim somos confrontados perante o inevitável comércio do corpo, o negócio sexual onde o amor estará sempre ausente como todos sabemos e os carinhos são comprados como extras, mas como não podia deixar de ser, Nana um dia irá ser confrontada pela polícia e mais tarde protegida por um proxeneta, que decide tomar conta dela, perdendo desta forma a sua independência e o sentido da vida, porque a partir desse momento o seu corpo estará nas mãos dele, embora a sua alma nunca seja vendida
Numa das sequência nas ruas de Paris, a câmara de Jean-Luc Godard fixa-se num cartaz de um filme, por sinal um filme do seu grande amigo François Truffaut, muitos anos antes da célebre zanga que os iria afastar para sempre (se o leitor desejar saber mais leia o célebre livro de correspondência de François Truffaut) e nesse cartaz descobrimos as imagens do filme “Jules e Jim”. E se aqui temos uma homenagem específica a um colega fundador da Nouvelle Vague, já em “Vivre sa Vie” a homenagem é também aos filmes de série-B tão amados por Godard como crítico dos Cahiers du Cinema” e nada melhor como lhe dar a palavra: “todos nós nos “Cahiers” nos considerávamos como futuros realizadores. Frequentar os Cineclubes e a Cinemateca era já pensar cinema e pensar no cinema. Escrever era já fazer cinema, porque entre escrever e filmar há uma diferença quantitativa, não qualitativa. Enquanto crítico já me considerava cineasta. Hoje (recorde-se que estas palavras são datadas de 1962) continuo a considerar-me sempre como crítico e, num certo sentido, sou-o ainda mais do que dantes. Em vez de fazer crítica, faço filmes, mas para neles introduzir a dimensão crítica. Considero-me como um ensaísta. Faço ensaios sob a forma de romances ou romances sob a forma de ensaios. Só que os filmo, em vez de os escrever. Se o cinema acabasse por desaparecer, passava à televisão e se a televisão acabasse por desaparecer, voltava ao papel e ao lápis.”
Como todos sabemos na ressaca do Maio de 68, Jean-Luc Godard parte mundo fora debaixo da sigla “Grupo Dziga Vertov” (incluía Jean-Henri Roger e Jean-Pierre Gorin), em busca dos movimentos revolucionários, abandonando o cinema durante longos anos e como não podia deixar de ser passou por Portugal nascendo o filme “Comment ça Va”, exibido pela primeira vez em 1975 numa sessão no Palácio Foz, partindo a premissa do filme de uma fotografia tirada aquando de uma manifestação (na qual um civil agarra o braço de um marinheiro que está de punho erguido), só regressando ao cinema em 1979 com o belíssimo “Salve-se Quem Puder” / “Sauve Qui Peut (La Vie)”, já com a “manipulação” da matéria videográfica, possui o seu ponto alto em “Número 2” / “Numero Deux” e por fim a chegada a essa obra incontornável chamada “Histórias do Cinema” / “Histoires du Cinema”.
Olhando hoje a produção de Jean-Luc Godard descobrímos que o papel deu lugar ao écran enquanto o lápis como instrumento de escrita, deu lugar ao digital, mas como ele sempre frisou referindo-se à sua geração, “nós fomos os primeiros cineastas que souberam que Griffith existiu”.
Por fim no último capítulo de “Viver a Sua Vida”, Nana é levada por Raoul para ser trocada/vendida e será nessa transacção do corpo, recusada por ela, que irá encontrar a morte porque não é o facto de ser mulher que irá impedir o gangster de disparar, porque ele pertence a um outro universo e será o destino a fazer com que seja o próprio Raoul que anteriormente se servira dela como escudo a disparar sobre ela, na confusão gerada, roubando-lhe desta forma violenta a vida que ela tanto amou e não soube viver.
Olhar hoje “Viver a Sua Vida” é entrarmos pela porta principal no universo Godardiano, esse mundo feito de memórias cinematográficas, como ele tão bem demonstrou na sua exposição no Centro George Pompidou no ano passado, ali vivia a cinéfilia, oferecida ao visitante através de enormes plasmas, (e também os maravilhosos ateliers miniatura), cada um deles retratando a história do cinema, não faltando a pequena provocação no plasma deitado em cima de uma mesa, para as suas imagens não ofenderem uma certa moral, essa mesma moral de que se falava precisamente em “Vivre sa Vie” no início da película quando o cineasta se refere ao filme como uma obra que abordava a prostituição, mas no fundo tratava-se de puro engano, porque estamos perante uma das mais belas histórias de amor de um realizador por uma actriz, esse mesmo amor que nós como espectadores somos obrigados a dedicar a Anna Karina, por favor olhem uma vez mais a imagem de Nana no blogue e leiam as palavras expressas pelo seu olhar.
Rui Luís Lima (*****)
JEAN-LUC GODARD – (FRA – 1962) – (82 min-P/B)
ANNA KARINA, SADY REBBOT, ANDRÉ S. LABARTHE, BRICE PARAIN, PETER KASSOWITZ.
A melhor maneira de se falar de “Viver a Sua Vida” é olhar a imagem que surge no lado direito do blogue oferecendo-nos o rosto de Anna Karina, esse rosto à beira do abismo ou melhor esse olhar repleto de lágrimas prontas para navegar no seu rosto. E nunca um olhar no cinema perturbou tanto o espectador, a história da vida de Nana está contida nesse olhar. Na época Godard filmava a mulher da sua vida, Anna Karina e ela em troca oferecia-lhe a sua alma. Deixem este texto por momentos e voltem a olhar o rosto de Anna Karina, nele descobrimos todos os sentimentos do mundo, nele poderemos ler a história de uma vida e por fim somos obrigados a tentar saber o que está do outro lado do écran para provocar tamanha dor ao mais belo rosto da História do Cinema.E a resposta surge muda, vinda do outro lado numa imagem repleta de amor e terror, do outro lado do écran, temos um outro écran e um outro rosto, o rosto inesquecível de Falconetti, a “Joana D’Arc” de Carl Dreyer e descobrimos um rio de lágrimas correndo pelas margens, ao mesmo tempo que reflecte o rosto das duas almas, em toda a sua candura.
Nunca um cineasta amou tanto uma mulher como Jean-Luc Godard em “Viver a Sua Vida” e no entanto não estamos perante o primeiro filme do casal, mas sim o terceiro capítulo de um maravilhoso romance. “O Soldado das Sombras” / “Le Petit Soldat” e “Uma Mulher é Uma Mulher” / “Une Femme est Une Femme” representam os primeiros encontros entre Jean-Luc Godard e Anna Karina e será num encontro de café que se irá iniciar “Vivre sa Vie”, estamos num dos muitos “bistrot” de Paris e ao balcão de costas viradas para nós Nana (Anna Karina) e Paul (André S. Labarthe) conversam um com o outro, no primeiro de doze quadros que compõem a película. A câmara acompanha o diálogo usando o travelling e lentamente vamos descobrindo o rosto de Anna Karina no espelho situado por detrás do balcão.
Começamos então a ficar apaixonados por esta Nana que trabalha numa discoteca, na idade de ouro do vinil e luta com problemas de dinheiro, sendo até impedida de entrar em casa pela porteira em virtude de ter a renda por pagar. Mas se Godard nos começa a contar a triste história de Nana, nós ficamos perfeitamente seduzidos pelo seu olhar, esse mesmo olhar que ela irá utilizar quando decide entrar na mais antiga profissão do mundo. E se Jean-Luc Godard em sinal de provocação nos informa que estamos a ver “um filme sobre a prostituição que conta como uma jovem e bela vendedora parisiense oferece o seu corpo mas guarda a sua alma”, nós sabemos estar perante uma das mais belas histórias de amor. E quando Nana desiste de jantar com Paul e vai a um cinema de Saint-Michel para ver o filme de Dreyer, ela irá encontrar na figura de Falconetti a sua própria imagem, a morte habita aquela sala onde ela e apenas outro espectador se encontram, verificando-se que esse mesmo espectador está apenas interessado nela.Depois inicia-se o calvário de Nana na nova profissão, percorrendo as ruas de Paris dedicadas à matéria, como a célebre rua St. Dennis, fumando um cigarro encostada à parede, ou conversando com as colegas, enquanto espera pelos clientes.
Por fim somos confrontados perante o inevitável comércio do corpo, o negócio sexual onde o amor estará sempre ausente como todos sabemos e os carinhos são comprados como extras, mas como não podia deixar de ser, Nana um dia irá ser confrontada pela polícia e mais tarde protegida por um proxeneta, que decide tomar conta dela, perdendo desta forma a sua independência e o sentido da vida, porque a partir desse momento o seu corpo estará nas mãos dele, embora a sua alma nunca seja vendida
Numa das sequência nas ruas de Paris, a câmara de Jean-Luc Godard fixa-se num cartaz de um filme, por sinal um filme do seu grande amigo François Truffaut, muitos anos antes da célebre zanga que os iria afastar para sempre (se o leitor desejar saber mais leia o célebre livro de correspondência de François Truffaut) e nesse cartaz descobrimos as imagens do filme “Jules e Jim”. E se aqui temos uma homenagem específica a um colega fundador da Nouvelle Vague, já em “Vivre sa Vie” a homenagem é também aos filmes de série-B tão amados por Godard como crítico dos Cahiers du Cinema” e nada melhor como lhe dar a palavra: “todos nós nos “Cahiers” nos considerávamos como futuros realizadores. Frequentar os Cineclubes e a Cinemateca era já pensar cinema e pensar no cinema. Escrever era já fazer cinema, porque entre escrever e filmar há uma diferença quantitativa, não qualitativa. Enquanto crítico já me considerava cineasta. Hoje (recorde-se que estas palavras são datadas de 1962) continuo a considerar-me sempre como crítico e, num certo sentido, sou-o ainda mais do que dantes. Em vez de fazer crítica, faço filmes, mas para neles introduzir a dimensão crítica. Considero-me como um ensaísta. Faço ensaios sob a forma de romances ou romances sob a forma de ensaios. Só que os filmo, em vez de os escrever. Se o cinema acabasse por desaparecer, passava à televisão e se a televisão acabasse por desaparecer, voltava ao papel e ao lápis.”Como todos sabemos na ressaca do Maio de 68, Jean-Luc Godard parte mundo fora debaixo da sigla “Grupo Dziga Vertov” (incluía Jean-Henri Roger e Jean-Pierre Gorin), em busca dos movimentos revolucionários, abandonando o cinema durante longos anos e como não podia deixar de ser passou por Portugal nascendo o filme “Comment ça Va”, exibido pela primeira vez em 1975 numa sessão no Palácio Foz, partindo a premissa do filme de uma fotografia tirada aquando de uma manifestação (na qual um civil agarra o braço de um marinheiro que está de punho erguido), só regressando ao cinema em 1979 com o belíssimo “Salve-se Quem Puder” / “Sauve Qui Peut (La Vie)”, já com a “manipulação” da matéria videográfica, possui o seu ponto alto em “Número 2” / “Numero Deux” e por fim a chegada a essa obra incontornável chamada “Histórias do Cinema” / “Histoires du Cinema”.
Olhando hoje a produção de Jean-Luc Godard descobrímos que o papel deu lugar ao écran enquanto o lápis como instrumento de escrita, deu lugar ao digital, mas como ele sempre frisou referindo-se à sua geração, “nós fomos os primeiros cineastas que souberam que Griffith existiu”.Por fim no último capítulo de “Viver a Sua Vida”, Nana é levada por Raoul para ser trocada/vendida e será nessa transacção do corpo, recusada por ela, que irá encontrar a morte porque não é o facto de ser mulher que irá impedir o gangster de disparar, porque ele pertence a um outro universo e será o destino a fazer com que seja o próprio Raoul que anteriormente se servira dela como escudo a disparar sobre ela, na confusão gerada, roubando-lhe desta forma violenta a vida que ela tanto amou e não soube viver.
Olhar hoje “Viver a Sua Vida” é entrarmos pela porta principal no universo Godardiano, esse mundo feito de memórias cinematográficas, como ele tão bem demonstrou na sua exposição no Centro George Pompidou no ano passado, ali vivia a cinéfilia, oferecida ao visitante através de enormes plasmas, (e também os maravilhosos ateliers miniatura), cada um deles retratando a história do cinema, não faltando a pequena provocação no plasma deitado em cima de uma mesa, para as suas imagens não ofenderem uma certa moral, essa mesma moral de que se falava precisamente em “Vivre sa Vie” no início da película quando o cineasta se refere ao filme como uma obra que abordava a prostituição, mas no fundo tratava-se de puro engano, porque estamos perante uma das mais belas histórias de amor de um realizador por uma actriz, esse mesmo amor que nós como espectadores somos obrigados a dedicar a Anna Karina, por favor olhem uma vez mais a imagem de Nana no blogue e leiam as palavras expressas pelo seu olhar.
Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)























