Terça-feira, Junho 30, 2009


FOTOGRAMAS - CINEMA

VIVER A SUA VIDA / VIVRE SA VIE

JEAN-LUC GODARD – (FRA – 1962) – (82 min-P/B)

ANNA KARINA, SADY REBBOT, ANDRÉ S. LABARTHE, BRICE PARAIN, PETER KASSOWITZ.

A melhor maneira de se falar de “Viver a Sua Vida” é olhar a imagem que surge no lado direito do blogue oferecendo-nos o rosto de Anna Karina, esse rosto à beira do abismo ou melhor esse olhar repleto de lágrimas prontas para navegar no seu rosto. E nunca um olhar no cinema perturbou tanto o espectador, a história da vida de Nana está contida nesse olhar. Na época Godard filmava a mulher da sua vida, Anna Karina e ela em troca oferecia-lhe a sua alma. Deixem este texto por momentos e voltem a olhar o rosto de Anna Karina, nele descobrimos todos os sentimentos do mundo, nele poderemos ler a história de uma vida e por fim somos obrigados a tentar saber o que está do outro lado do écran para provocar tamanha dor ao mais belo rosto da História do Cinema.

E a resposta surge muda, vinda do outro lado numa imagem repleta de amor e terror, do outro lado do écran, temos um outro écran e um outro rosto, o rosto inesquecível de Falconetti, a “Joana D’Arc” de Carl Dreyer e descobrimos um rio de lágrimas correndo pelas margens, ao mesmo tempo que reflecte o rosto das duas almas, em toda a sua candura.
Nunca um cineasta amou tanto uma mulher como Jean-Luc Godard em “Viver a Sua Vida” e no entanto não estamos perante o primeiro filme do casal, mas sim o terceiro capítulo de um maravilhoso romance. “O Soldado das Sombras” / “Le Petit Soldat” e “Uma Mulher é Uma Mulher” / “Une Femme est Une Femme” representam os primeiros encontros entre Jean-Luc Godard e Anna Karina e será num encontro de café que se irá iniciar “Vivre sa Vie”, estamos num dos muitos “bistrot” de Paris e ao balcão de costas viradas para nós Nana (Anna Karina) e Paul (André S. Labarthe) conversam um com o outro, no primeiro de doze quadros que compõem a película. A câmara acompanha o diálogo usando o travelling e lentamente vamos descobrindo o rosto de Anna Karina no espelho situado por detrás do balcão.

Começamos então a ficar apaixonados por esta Nana que trabalha numa discoteca, na idade de ouro do vinil e luta com problemas de dinheiro, sendo até impedida de entrar em casa pela porteira em virtude de ter a renda por pagar. Mas se Godard nos começa a contar a triste história de Nana, nós ficamos perfeitamente seduzidos pelo seu olhar, esse mesmo olhar que ela irá utilizar quando decide entrar na mais antiga profissão do mundo. E se Jean-Luc Godard em sinal de provocação nos informa que estamos a ver “um filme sobre a prostituição que conta como uma jovem e bela vendedora parisiense oferece o seu corpo mas guarda a sua alma”, nós sabemos estar perante uma das mais belas histórias de amor. E quando Nana desiste de jantar com Paul e vai a um cinema de Saint-Michel para ver o filme de Dreyer, ela irá encontrar na figura de Falconetti a sua própria imagem, a morte habita aquela sala onde ela e apenas outro espectador se encontram, verificando-se que esse mesmo espectador está apenas interessado nela.

Depois inicia-se o calvário de Nana na nova profissão, percorrendo as ruas de Paris dedicadas à matéria, como a célebre rua St. Dennis, fumando um cigarro encostada à parede, ou conversando com as colegas, enquanto espera pelos clientes.
Por fim somos confrontados perante o inevitável comércio do corpo, o negócio sexual onde o amor estará sempre ausente como todos sabemos e os carinhos são comprados como extras, mas como não podia deixar de ser, Nana um dia irá ser confrontada pela polícia e mais tarde protegida por um proxeneta, que decide tomar conta dela, perdendo desta forma a sua independência e o sentido da vida, porque a partir desse momento o seu corpo estará nas mãos dele, embora a sua alma nunca seja vendida

Numa das sequência nas ruas de Paris, a câmara de Jean-Luc Godard fixa-se num cartaz de um filme, por sinal um filme do seu grande amigo François Truffaut, muitos anos antes da célebre zanga que os iria afastar para sempre (se o leitor desejar saber mais leia o célebre livro de correspondência de François Truffaut) e nesse cartaz descobrimos as imagens do filme “Jules e Jim”. E se aqui temos uma homenagem específica a um colega fundador da Nouvelle Vague, já em “Vivre sa Vie” a homenagem é também aos filmes de série-B tão amados por Godard como crítico dos Cahiers du Cinema” e nada melhor como lhe dar a palavra: “todos nós nos “Cahiers” nos considerávamos como futuros realizadores. Frequentar os Cineclubes e a Cinemateca era já pensar cinema e pensar no cinema. Escrever era já fazer cinema, porque entre escrever e filmar há uma diferença quantitativa, não qualitativa. Enquanto crítico já me considerava cineasta. Hoje (recorde-se que estas palavras são datadas de 1962) continuo a considerar-me sempre como crítico e, num certo sentido, sou-o ainda mais do que dantes. Em vez de fazer crítica, faço filmes, mas para neles introduzir a dimensão crítica. Considero-me como um ensaísta. Faço ensaios sob a forma de romances ou romances sob a forma de ensaios. Só que os filmo, em vez de os escrever. Se o cinema acabasse por desaparecer, passava à televisão e se a televisão acabasse por desaparecer, voltava ao papel e ao lápis.”

Como todos sabemos na ressaca do Maio de 68, Jean-Luc Godard parte mundo fora debaixo da sigla “Grupo Dziga Vertov” (incluía Jean-Henri Roger e Jean-Pierre Gorin), em busca dos movimentos revolucionários, abandonando o cinema durante longos anos e como não podia deixar de ser passou por Portugal nascendo o filme “Comment ça Va”, exibido pela primeira vez em 1975 numa sessão no Palácio Foz, partindo a premissa do filme de uma fotografia tirada aquando de uma manifestação (na qual um civil agarra o braço de um marinheiro que está de punho erguido), só regressando ao cinema em 1979 com o belíssimo “Salve-se Quem Puder” / “Sauve Qui Peut (La Vie)”, já com a “manipulação” da matéria videográfica, possui o seu ponto alto em “Número 2” / “Numero Deux” e por fim a chegada a essa obra incontornável chamada “Histórias do Cinema” / “Histoires du Cinema”.
Olhando hoje a produção de Jean-Luc Godard descobrímos que o papel deu lugar ao écran enquanto o lápis como instrumento de escrita, deu lugar ao digital, mas como ele sempre frisou referindo-se à sua geração, “nós fomos os primeiros cineastas que souberam que Griffith existiu”.

Por fim no último capítulo de “Viver a Sua Vida”, Nana é levada por Raoul para ser trocada/vendida e será nessa transacção do corpo, recusada por ela, que irá encontrar a morte porque não é o facto de ser mulher que irá impedir o gangster de disparar, porque ele pertence a um outro universo e será o destino a fazer com que seja o próprio Raoul que anteriormente se servira dela como escudo a disparar sobre ela, na confusão gerada, roubando-lhe desta forma violenta a vida que ela tanto amou e não soube viver.

Olhar hoje “Viver a Sua Vida” é entrarmos pela porta principal no universo Godardiano, esse mundo feito de memórias cinematográficas, como ele tão bem demonstrou na sua exposição no Centro George Pompidou no ano passado, ali vivia a cinéfilia, oferecida ao visitante através de enormes plasmas, (e também os maravilhosos ateliers miniatura), cada um deles retratando a história do cinema, não faltando a pequena provocação no plasma deitado em cima de uma mesa, para as suas imagens não ofenderem uma certa moral, essa mesma moral de que se falava precisamente em “Vivre sa Vie” no início da película quando o cineasta se refere ao filme como uma obra que abordava a prostituição, mas no fundo tratava-se de puro engano, porque estamos perante uma das mais belas histórias de amor de um realizador por uma actriz, esse mesmo amor que nós como espectadores somos obrigados a dedicar a Anna Karina, por favor olhem uma vez mais a imagem de Nana no blogue e leiam as palavras expressas pelo seu olhar.

Rui Luís Lima (*****)

Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Junho 08, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

2001: ODISSEIA NO ESPAÇO / 2001: A SPACE ODYSSEY

STANLEY KUBRICK – (EUA/ING -1968) – (140 min/Cor)

KEIR DULLEA, GARY LOCKWOOD, WILLIAM SYLVESTER, DANIEL RICHTER.

De onde viemos?

Para onde vamos?

Quem nos criou?

Passados quarenta anos sobre a estreia de “2001: Odisseia no Espaço”, a película de Stanley Kubrick permanece como o mais maravilhoso e perfeito filme de ficção-científica até hoje realizado.
Rodado no mais profundo segredo com a colaboração de técnicos da Nasa, o cineasta irá oferecer-nos uma história profundamente visual e musical (baseada no livro de Arthur C. Clarke), desde os primórdios da terra como refere no início, ao assistirmos à famosa alvorada, para depois descobrirmos uma tribo de símios que vive na terra. Iremos assim assistir à sua vivência, com o inevitável terror das noites e as lutas pela posse do território. Mas um dia tudo irá mudar quando surge um estranho monólito negro no local onde eles vivem. A curiosidade e o famoso medo apoderam-se deles e, um dia, um dos macacos pega numas ossadas para as usar como arma, para impor o seu poder e lançando depois o seu grito vitorioso atira o osso pelo ar, criando Kubrick nesse preciso momento, um dos mais famosos “racord” da Sétima Arte, porque com ele fazemos uma viagem de quatro milhões de anos que nos irá conduzir ao ano 2001 e ao interior de uma estação espacial ao som do Danúbio Azul.

A bordo da estação espacial os cientistas preparam, no maior segredo, uma expedição cujo destino será a lua para tentarem descobrir o significado de um monólito negro que se encontra numa cratera, que se pensa estar ali enterrado há milhões de anos, desconhecendo-se a sua origem. Recorde-se que quando o filme foi estreado o homem ainda não tinha pisado o solo lunar, embora estivesse muito próximo esse passo decisivo da humanidade.
Depois de chegados à lua, os astronautas dirigem-se num veículo lunar para a cratera de Tycho, mas quando se aproximam finalmente do estranho monólito, este começa a emitir um som ensurdecedor.

Dezoito meses depois iremos encontrar a nave Discovery a rumar para Júpiter, com dois astronautas e três cientistas a bordo. Nesta missão a viagem é controlada a bordo pelo Hal 9000, o mais perfeito e sofisticado computador alguma vez criado pelo Homem, já que também ele possui sentimentos e fala com os seus companheiros de viagem num tom pausado, que ficou célebre.
Mas durante a missão Hal 9000 irá dar uma “informação errada” e a única solução é desligá-lo, surgindo assim a célebre luta entre o Homem e a Máquina, pelo comando da nave espacial. A máquina perfeita irá então revoltar-se, matando no espaço o astronauta Frank Poole (Gary Lockwood) porque sabe que a missão dele é desligá-lo, ao mesmo tempo que tenta impedir o regresso de David Bowman (Keir Dullea) a bordo. Estamos perante a luta pela sobrevivência do computador, que irá também desligar os sinais vitais dos cientistas a bordo que se encontram a hibernar para não consumirem oxigénio.
A forma como Stanley Kubrick nos mostra o quotidiano dos tripulantes e nos oferece o silêncio no espaço é de uma beleza absoluta.

Iremos mais tarde saber que só Hal 9000 tinha conhecimento do verdadeiro sentido da missão da nave Discovery: encontrar o monólito que se encontra perto de Júpiter.
Ao aproximar-se do destino, o único astronauta a bordo mergulha numa espiral espaço-tempo, num dos momentos mais visuais do filme (uma longa sequência que foi filmada no Grande Canyon e depois trabalhada pelos técnicos de efeitos visuais), para mais tarde irmos encontrar o astronauta, envelhecido, num quarto e descobrirmos perplexos ao fundo da sua cama, o imponente e misterioso monólito negro que nos irá conduzir para o espaço, em mais um momento assombroso da película, ao encontro de um feto a navegar no cosmos, rumo a esse destino ainda desconhecido pelo Homem.

Aquando da estreia da película e perante os mais diversos juízos e especulações que foram feitas e ainda permanecem sobre o sentido e significado de “2001: A Space Odyssey”, Stanley Kubrick afirmou: “Todos são livres de especular à vontade sobre o significado filosófico e alegórico do filme. Tentei criar uma experiência visual, que contorna o entendimento para penetrar directamente no inconsciente, com o seu conteúdo visual.”.
“2001: Odisseia no Espaço”, a obra-prima mais-que-perfeita de Stanley Kubrick continua a interrogar o sentido da nossa existência.

De onde viemos?

Para onde vamos?

Quem nos criou?

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Sábado, Junho 06, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

A MINHA NOITE EM CASA DE MAUD / MA NUIT CHEZ MAUD

ERIC ROHMER – (FRA – 1969) – (110 min – P/B)

JEAN-LOUIS TRINTIGNANT, FRANÇOISE FABIAN, MARIE-CHRISTINE BARRAULT, ANTOINE VILAR.

Dos “Seis Contos Morais” o terceiro, intitulado “A Minha Noite em Casa de Maud”, é sem dúvida alguma o mais belo e aquele em que o desejo e o acaso se cruzam à beira do precipício, conseguindo o seu personagem principal (Jean-Louis Trintignant) evitar a queda no abismo, segundo as suas crenças, nesse momento crucial em que Maud (a bela Françoise Fabian) lhe diz, perante a indecisão dele, “que não gosta de homens que não sabem o que querem” depois de ele se ter recusado a fazer amor com ela, após ter passado a noite na sua cama.

Tudo começa quando o católico Jean Louis (Jean-Louis Trintignant) repara numa jovem loura (Marie Christine Barrault) na igreja, quando assiste à missa. A sua beleza e candura deixam-no fascinado, decidindo então segui-la, mas nas ruas estreitas de Clermont-Ferrand, Marie escapa ao seu perseguidor, na sua pequena motorizada, nessa época Natalícia que se avizinha.
Mais tarde este mesmo Jean-Louis, um solteirão de quarenta anos a viver à relativamente pouco tempo na cidade que o viu crescer, cruza-se com um antigo colega de liceu e este convida-o a ir com ele até casa da sua amante, a bela Maud. E será nessa longa sequência passada na casa de Maud que iremos conhecer mais profundamente os sentimentos deste trio, dissecando Rohmer os caminhos ínvios do amor à luz do pensamento de Pascal.

Se Vilar (Antoine Vilar) gosta de expressar as razões do seu coração mundano, já Jean-Louis as vai escondendo, até chegar esse momento fulcral em que fica sozinho com ela, depois do amigo partir, e lhe fala da bela jovem que vira na igreja, confessando a atracção súbita que sente por ela. Assistimos então a esse jogo que tantas vezes une dois seres para sempre, em que um simples gesto decide o destino das personagens.
Mas Jean-Louis irá resistir aos avanços de Maud, porque embora não seja um Jansenista, gosta de seguir a sua vida à luz dos ensinamentos da igreja e, mais tarde, ao cruzar-se com a frágil Marie, na cidade, irá confessar nessa mesma noite o que sente por ela.

Cinco anos depois, já casado com Marie e pai de uma criança irá cruzar-se na praia com Maud, que entretanto se divorciara e voltara a casar e aí percebemos que as duas mulheres se conhecem, ficando ele a perceber finalmente que Marie fora a amante do marido de Maud, embora esconda para sempre o que o seu coração sabe, não sendo a tranquilidade do casal afectada por esse encontro.
Tudo parece simples nesta película do “moralista” Rohmer, no entanto os caminhos do coração, são explorados e dissecados com verdadeira genialidade.
Eric Rohmer oferece-nos assim mais um dos seus contos morais, demonstrando com saber como o fruto do amor muitas vezes nasce quando menos se espera, nessa encruzilhada da vida, em que temos de decidir qual a estrada a seguir.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Sexta-feira, Junho 05, 2009


FOTOGRAMAS - CINEMA

BONNIE E CLYDE / BONNIE AND CLYDE

ARTHUR PENN – (EUA – 1967) – (111 min/Cor)

WARREN BEATTY, FAYE DUNAWAY, GENE HACKMAN, MICHAEL J. POLLARD.

Recentemente o FBI disponibilizou ao público o dossier do casal mais célebre da galeria dos fora-da-lei: Clyde Barrow e Bonnie Parker, que espalharam o terror durante alguns anos, nessa terra prometida chamada América.
Nesses anos trinta, em que se fazia sentir como nunca os efeitos da depressão, dois jovens irão entrar numa espiral de violência, em que o assalto seguinte será sempre mais sangrento que o anterior, em busca do simples prazer de matar. Amavam-se loucamente e gostavam de ser fotografados após a concretização dos assaltos, ostentando o espólio e o amor que sentiam um pelo outro.

A América vivia, em meados dos anos sessenta, um dos períodos mais negros da sua história, com o assassinato de John Kennedy e seria um cineasta oriundo da televisão com provas já dadas no cinema, Arthur Penn, que iria transportar para o grande écran a vida de “Bonnie and Clyde”, depois de François Truffaut e Jean-Luc Godard terem recusado o projecto.
Warren Beatty (que foi o produtor da película), na época o solteirão mais cobiçado de Hollywood, irá vestir a pele do bandido que de rato de automóveis se irá transformar num temível assassino, enquanto a bela Faye Dunaway irá dar vida à sanguinária jovem Bonnie Parker.

Arthur Penn oferece-nos em “Bonnie e Clyde” uma verdadeira orgia de violência ao longo da película, chegando a usar o “ralenti” de forma poderosa, nessa antológica sequência final em que o bando cai numa emboscada fatal, montada pelo FBI, fruto de uma denúncia do pai de um dos membros do bando, como geralmente sucede.
Tanto Warren Beatty como Faye Dunaway compõem duas personagens verdadeiramente sedutoras, pelas piores razões, que não olham a meios para atingir os seus fins assassinos. Ele com o célebre chapéu e ela com a famosa boina poderiam ser um simples par de namorados, se no dia em que Bonnie Parker ao presenciar o roubo de um automóvel pelo jovem Clyde Barrow o conduzisse ao bom caminho, mas ela preferiu seguir com ele pelas estradas secundárias da vida, optando por uma vida no fio sangrento da navalha, à construção de um lar.

Mais uma vez Artur Penn confirmava aqui todo o seu valor como cineasta e autor, ao oferecer o retrato de uma nação que foi erguida, através dos anos, no convívio amargo com a violência.
“Bonnie and Clyde” surge assim como o retrato perfeito do mais famoso casal que decidiu viver e amar fora-da-lei, espalhando o terror ao longo da sua curta e mortal existência.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Quinta-feira, Junho 04, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

O CRIADO / THE SERVANT

JOSEPH LOSEY – (ING – 1963) – (115 min-P/B)

DIRK BOGARDE, SARAH MILES, JAMES FOX, WENDY CRAIG.


No filme “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion” de Irwin Winkler, encontramos Martin Scorsese a interpretar a figura do cineasta Joe Lesser que, perante o avanço do famoso comité de actividades anti-americanas do senador McCarty, decide deixar Hollywood, porque sabe que já ninguém lhe irá dar trabalho, porque se encontra na Lista Negra dos Estúdios, decidindo fugir durante a noite para a Europa para evitar ser preso.
Na realidade, a personagem a quem Martin Scorsese dá vida é o cineasta Joseph Losey, que nunca escondeu nos seus filmes um certo olhar sobre a sociedade americana, que incomodava muita gente, bastando recordar essa película extraordinária que é “O Rapaz dos Cabelos Verdes” / “The Boy With Green Hair”, um poderoso filme anti-racista, que trouxe fama ao cineasta na época da sua estreia. Colocado na lista de homens a abater pelo temível senador, Joseph Losey foi obrigado a partir de Hollywood e a refugiar-se em Itália, onde para sobreviver teve que trabalhar em diversos filmes de série-B, escondendo a sua identidade debaixo de pseudónimos. E só seria em Inglaterra, o seu destino seguinte, que voltaria a assinar com o seu nome os filmes que então irá realizar.

“O Criado” / “The Servant” oferece-nos de forma contida a luta de classes, utilizando o microcosmo da relação entre um jovem aristocrata (James Fox, então em início de carreira) e o seu “fiel” criado de quarto (Dirk Bogarde em mais uma excelente interpretação).
Tony (James Fox) é um jovem aristocrata, que está para se casar com a bela Susan (Wendy Craig), também ela possuidora do mesmo estatuto social, que um dia decide contratar o denominado “criado de quarto”, surgindo a responder ao anúncio um homem discreto e culto, que acaba por ser aceite.
Porém Hugo Barrett (Dirk Bogarde) é um homem temível a todos os níveis, que com os seus bons modos e pequenas opiniões “sem importância”, começa a influenciar decididamente o patrão, passando rapidamente de assuntos triviais e mundanos, para a vida particular e social do seu patrão, terminando por dominá-lo interiormente, sem este se aperceber.

Para se apoderar melhor do controlo do seu amo, convence-o a contratar a sua “irmã” Vera (Sarah Miles) para os trabalhos de cozinha, escondendo que ela é na realidade a sua amante. E quando Hugo Barrett (Dirk Bogarde) começa a encontrar a oposição de Susan (Wendy Craig), perante a influência que ele exerce na casa, consegue convencer o patrão que ela nunca será a esposa de que ele tanto necessita, para brilhar ainda mais na alta sociedade, terminando, com os seus “bons modos”, por convencer o patrão a deixar a mulher que ama.
Lentamente, esta dupla perigosa, não só irá tomar conta da casa londrina, como irá manejar o jovem aristocrata a seu belo prazer, transformando-o numa personagem decadente, espelho perfeito dessa sociedade que Hugo Barrett tanto odeia.

“The Servant” surge assim como uma película que nos oferece um retrato cínico e feroz das relações sociais e a respectiva luta pelo poder (a que não será alheio o facto de o seu argumentista se chamar Harold Pinter), utilizando um olhar profundamente impiedoso sobre as respectivas personagens. Basta reparar na forma como Hugo no início rodeia Tony, o seu amo, de atenções e sugestões, para no final desprezar o farrapo humano que conseguira criar, quando se encontra já na posse plena da casa, verificando-se uma total e (im)perfeita inversão de estatutos, transformando-se ele no verdadeiro dono e senhor.
“O Criado” que já se encontra editado em Portugal, no formato dvd é uma obra que merece bem ser (re)descoberta.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Quarta-feira, Junho 03, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

AMOR SEM BARREIRAS / WEST SIDE STORY

ROBERT WISE / JEROME ROBBINS – (EUA-1961) – (155 min/Cor)

NATALIE WOOD, RICHARD BEYMER, GEORGE CHAKIRIS, RITA MORENO.

No interior do denominado musical norte-americano é impossível eleger o melhor, porque no horizonte existem três musicais sublimes: “Singing in the Rain” / “Serenata à Chuva”, “An American in Paris” / “Um Americano em Paris”, e “West Side Story” / “Amor Sem Barreiras”, que hoje iremos abordar.

Tudo começou quando, em 1956, a peça da autoria de R. E. Griffith e H. S. Prince foi estreada nos palcos, sobre uma juventude em luta pela sua identidade e correspondente posse do seu território, no West Side de Nova Iorque, zona pobre da grande metrópole onde as lutas entre gangs juvenis traziam em constante alerta as autoridades e onde os confrontos entre brancos e porto-riquenhos estavam na ordem do dia. Será aliás curioso referir que o argumentista Ernest Lehmann (colaborador de Hitchcock) inicialmente pensara em duas comunidades bastante diferentes: judeus e irlandeses. Mas como a realidade era um pouco diferente, as regras do filme foram alteradas e nunca nos poderemos esquecer que este “Amor Sem Barreiras” irá beber a sua genialidade à obra imortal de Shakespeare, “Romeu e Julieta”, bem conhecida de todos.

A responsabilidade da realização foi dividida entre Robert Wise (experiente realizador, que fizera a tarimba nos Estúdios) e Jerome Robbins (coreografo célebre) e se referimos estes dois nomes como autores, também nunca nos poderemos esquecer da magia da banda sonora, como elemento preponderante da película, da autoria do grande Leonard Bernstein, cujas composições se tornariam imortais.

Em West Side lutam dois bandos, os Jets (anglo-saxões) e os Sharks (porto-riquenhos), pelo controle do território sendo os seus confrontos frequentes, ao mesmo tempo que o ódio entre eles impede que os membros de ambas as comunidades possam conviver entre si, porque a “guerra” é total. Por essa mesma razão, as autoridades decidem promover um baile entre as duas comunidades, afim de apaziguar os ânimos e que acabará por despertar a chama da paixão entre dois seres que só pretendem ter um pouco de paz no bairro onde vivem, a bela Maria (Natalie Wood) e Tony (Richard Beymer), que de imediato irão enfrentar a oposição das diversas famílias e amigos, nascendo assim uma bela e irremediável luta pela conquista do amor, contra os preconceitos raciais.

Apesar de os jovens actores terem sido dobrados nas partes musicais, a sua prestação é memorável e Wise e Robbins oferecem-nos um musical onde as coreografias com os célebres movimentos de grua estão repletas de modernidade, continuando ainda hoje a fascinar, o espectador de “West Side Story”.
A luta dos dois jovens de comunidades diferentes para encontrarem a tranquilidade dos dias, irá revelar-se fatal para ambos, já que Tony (Richard Beymer) irá encontrar a morte e por seu lado Maria (Natalie Wood) irá perder o seu irmão Bernardo (espantoso George Chakiris), enquanto Anita (Rita Moreno, essa maravilhosa actriz que nos deixa a todos fascinados) também perderá o homem que ama, porque a tragédia respira desde o início de “Amor Sem Barreiras” sendo uma verdadeira bola de neve, atirada do cimo dessa montanha gelada dos preconceitos humanos.

“West Side Story” permanece, mais de quarenta anos depois, um dos mais fascinantes musicais de sempre, tendo na época recebido diversos Oscars mais que merecidos: melhor realização, fotografia, banda sonora e actores secundários (George Chakiris e Rita Moreno).

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nuns Lima (*****)

Terça-feira, Junho 02, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

A VÍTIMA DO MEDO / PEEPING TOM

MICHAEL POWELL – (ING – 1960) – (109 min/Cor)

KARL-HEINZ BOEHM, ANNA MASSEY, MOIRA SHEARER.

“A Vítima do Medo” será sempre um filme que está acima do género que aborda, o filme de terror ou de psicopatas, porque o seu autor se chama Michael Powell. Na época, o filme de terror arrastava o público para as salas de cinema, mas o cineasta pretendia acima de tudo oferecer-nos uma visão bem diferente do habitual, ao apresentar-nos uma personagem vítima da infância, já que fora o seu pai, um psiquiatra, que lhe incutira ao longo dos anos, o sentimento do medo e do desejo, fazendo experiências com o filho, ainda criança, ao mesmo tempo que o filmava. Aliás será extremamente curioso o facto da figura do pai ser interpretada pelo próprio cineasta, que estava profundamente seduzido pelo argumento de Leo Marks.

Michael Powell refere-se desta forma à película: “Peeping Tom” é um filme muito terno. Quase romântico. Fiquei logo fascinado pelo assunto. Senti-me muito próximo do protagonista, que é um realizador “absoluto”, alguém que aborda a vida na perspectiva de um realizador, tem consciência disso e por isso sofre. Ele é um técnico da emoção. E eu sou uma pessoa fascinada pela técnica, constantemente a montar, mentalmente, as cenas que se passam diante de mim na rua, por isso consegui partilhar a angústia do protagonista.”

Recorde-se que Mark Lewis (Karl-Heinz Boehm numa memorável interpretação) utiliza uma câmara de 16 mm para filmar a morte violenta das suas vítimas, oferecendo-lhes através de um espelho a visão desse momento atroz, a fim de levar até ao limite o seu voyeurismo assassino. A câmara que usa possui um estilete que utiliza para as matar, geralmente mulheres que encontra na rua a exercerem a sua “profissão” e que ele convida para o seu quarto.
Mas um dia os seus “sentimentos/impulsos” mórbidos serão fortemente perturbados, quando se cruza com a sua vizinha (Anna Massey) a quem conta as práticas psiquiatras do pai com ele, mostrando-lhe os filmes de infância.
O amor que começa a sentir pela jovem perturba a sua mente assassina, até que chega esse dia em que só lhe resta o suicídio, para fugir ao mal que lhe perturba a alma, usando a própria arma do crime, quando a polícia descobre finalmente a sua identidade.

Muito mal recebido na época, “A Vítima do Medo”, foi o derradeiro filme de um dos mais fascinantes cineastas britânicos, uma das personagens mais admiradas por Martin Scorsese, que nos deixou obras imortais como “Os Sapatos Vermelhos” / “The Red Shoes” e “Por Quem os Sinos Dobram”./ “The Black Narcissus”.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Limab(***)

Segunda-feira, Junho 01, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

RIO BRAVO

HOWARD HAWKS – (EUA – 1959) – (137 min/Cor)

JOHN WAYNE, DEAN MARTIN, ANGIE DICKINSON, WALTER BRENAN, RICKY NELSON, WARD BOND.

“Rio Bravo” foi o terceiro “western” dos cinco realizados por Howard Hawks, surgindo nesse ano de 1959, numa época em que o célebre sistema dos Estúdios estava a findar.
Numa entrevista o cineasta afirmou que pretendia fazer um “western clássico”, em oposição ao “western psicológico”, que estava a fazer escola por esses dias. E nada melhor do que convocar para esse efeito o mais célebre “cow-boy” de sempre, John Wayne, que aqui veste a pele do xerife John T. Chance. Mas se Wayne, que conheceu a fama ao protagonizar a película “Cavalgada Heróica” de John Ford, surge aqui como estrela será Dean Martin, na figura de Dude, o mais cativante personagem do filme, já que a sua composição de homem refém da bebida é, sem dúvida alguma, a sua melhor interpretação no cinema.

Quando no início do filme o encontramos no bar, preso da humilhação, hesitando em tirar o dollar do escarrador, para beber o whisky que tanta falta lhe faz, percebemos que aquele antigo ajudante do xerife chegou ao ponto mais baixo da sua existência. E ao longo da película iremos assistir à sua luta contra o vício, sempre oferecida por Hawks, de forma perfeita e dolorosa, porque sentimos o que vai na alma de Dude (Dean Martin).

Ao prender Joe Burdette pela morte de um homem, John T. Chance (John Wayne), vai enfrentar o irmão do assassino, o poderoso rancheiro Nathan Burdette que tudo fará, com a ajuda dos seus pistoleiros, para libertar o irmão. Desta forma iremos assistir ao longo de seis dias à luta de quatro homens para impor a lei, nesse Oeste ainda selvagem, onde a perícia do mais rápido ditava tantas vezes a lei.
John T. Chance, para além de Dude, conta com o velho Stumpy (Walter Brennan em mais uma excelente interpretação) e um jovem pistoleiro de nome Colorado (Ricky Nelson), que entretanto se lhes juntou, porque gosta de acção.
Durante esses dias iremos também conhecer um outro duelo, tantas vezes mais perigoso, entre Wayne e a jovem Feathers (Angie Dickinson) que por ali ficou em busca de um lugar para viver, percebendo-se bem qual a sua profissão. Ela, que também conhece as agruras da vida, irá seduzir com sucesso o velho xerife, tendo ficado célebre a sequência em que surge terrivelmente sensual, com as suas meias pretas.

Ao longo da película, Howard Hawks pontua o dramatismo com o humor, aligeirando desta forma a dramatização, através do casal mexicano que dirige o hotel. E quando por fim a lei vence, percebemos que o homem que a personifica caiu decididamente na teia que a bela Feathers foi tecendo e seu redor.
Meio século depois, “Rio Bravo” permanece como um dos mais belos “westerns” que Hollywood nos ofereceu.

PS – Muitos anos depois o cineasta John Carpenter irá evocar este filme ao realizar “Assalto à 13ª Esquadra”.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)