Domingo, Maio 31, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

A SEDE DO MAL / TOUCH OF EVIL

ORSON WELLES – (EUA – 1957) – (108 min – P/B)

ORSON WELLES, CHARLTON HESTON, JANET LEIGH, AKIM TAMIROFF, MARLENE DIETRICH.


“A Sede do Mal” ficou famosa pelo célebre longo plano de abertura, construído através de uma grua, que irá lançar o espectador no fulcro dos acontecimentos e marca o regresso de Orson Welles a Hollywood, graças aos bons ofícios de Charlton Heston, que impôs o nome do cineasta contra a opinião reticente dos Estúdios, que não acreditava nele.
Durante a preparação das filmagens, Orson Welles irá partir uma perna, terminando por fazer desse problema um verdadeiro adereço à personagem que interpreta: o polícia americano Quinlan, que não olha a meios para atingir os fins, chegando a fabricar provas para prender os verdadeiros culpados.
Rodado num poderoso preto e branco,”Touch of Evil” irá oferecer-nos o duelo entre o polícia americano (Quinlan/Orson Welles) e o polícia mexicano (Vargas/Charlton Heston), já que ambos têm visões distintas de como deve agir a justiça em busca dos culpados.
Neste combate ao tráfico de droga na fronteira mexicana com os Estados Unidos, Orson Welles oferece-nos a sua derradeira homenagem ao “film-noir”, construindo uma personagem “bigger than life”, onde são bem patentes as referências Shakespearianas, desse grande autor que sempre amou ao longo da vida.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Sábado, Maio 30, 2009


FOTOGRAMAS - CINEMA

A SOMBRA DO CAÇADOR / NIGHT OF THE HUNTER

CHARLES LAUGHTON – (EUA – 1955) – (97 min - P/B)

ROBERT MITCHUM, SHELLEY WINTERS, LILIAN GISH, BILLY CHAPLIN, SALLY JANE BRUCE.


Charles Laughton quando realizou este filme, já era bastante famoso como actor, sempre interpretando as suas personagens, “no fio da navalha”. O seu Henrique VIII ficou famoso. Mas ao passar para detrás da câmara, construiu uma obra que se distanciou de tudo o que fora feito até então.
Tendo a seu lado o grande director de fotografia Stanley Cortez, o cineasta vai-nos narrar a odisseia das duas crianças, perseguidas por um psicopata, optando por um expressionismo, que deixou o mundo positivamente boquiaberto, já que em “A Sombra do Caçador”, existe esse mundo dos sonhos próprio dos mais pequenos, em confronto com a violência que insiste em os engolir. A forma como Charles Laughton nos oferece a viagem no rio é profundamente poética, embora repleta de elementos góticos que perturbam os dois irmãos.

Harry Powell (um Robert Mitchum que compõe de forma extraordinária a personagem que interpreta) conhece na prisão um homem que está condenado à morte e a quem restam poucos dias de vida. O condenado acaba por lhe confessar que o fruto do roubo se encontra escondido na casa onde vivia com a mulher e os filhos. E Harry mal sai da prisão parte disfarçado de pregador, no intuito de se apoderar do produto roubado.
Possuidor de uma eloquência e um poder sedutor, rapidamente conquista o coração da viúva (Shelley Winters), mas nem tudo corre como tinha planeado e termina por a matar.
As duas crianças fogem num pequeno bote ao longo do rio, acabando por serem recolhidas por uma velha senhora (Lilian Gish), que dá guarida às crianças que vagueiam pelos campos, nessa terrível época da recessão. Mas como não poderia deixar de ser, o falso pregador, que tem tatuado nos dedos as palavras hate (ódio) e love (amor), acaba por descobrir o seu paradeiro, e quando tudo parecia perdido para elas, as autoridades impedem o pior, terminando Harry Powell por ser preso e condenado à morte.

Charles Laughton, cineasta de um filme e autor no verdadeiro sentido da palavra, referiu na época que “A Sombra do Caçador” era a sua homenagem a esse glorioso período mudo, onde se destacou esse criador da linguagem cinematográfica David Wark Griffith. Aliás não é por acaso que Laughton convidou Lilian Gish para interpretar a velha senhora, já que desta forma a sua homenagem também se estendia a essa grande actriz, um dia descoberta pelo autor de “Intolerância”.
Amado por poucos e desconhecido de muitos “Night of the Hunter” permanece uma obra-prima que merece ser descoberta.

PS - Quando vimos o filme, na época da sua reposição comercial, éramos os únicos espectadores na sala de cinema.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Sexta-feira, Maio 29, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

A CONDESSA DESCALÇA / THE BAREFOOT CONTESSA

JOSEPH L. MANKIEWICZ – (EUA – 1954) – (128 min/Cor)

HUMPHREY BOGART, AVA GARDNER, EDMOND O’BRIEN, MARIUS GORING, ROSSANO BRAZI, WARREN STEVENS, VALENTINA CORTESE.


No dia em que se realiza o funeral da condessa Torlato-Favrini, chove intensamente no cemitério. Ao longo do filme iremos conhecer a sua vida, através daqueles que conviveram com ela e que ali se encontram a prestar a sua última homenagem.
Joseph L. Mankiewicz, esse génio do cinema, irá assim construir em longos e perfeitos “flash-back” a história dessa Cinderela, que nunca irá conhecer a felicidade da estrada da vida.

Maria Vargas (Ava Gardner) é a estrela de um cabaret em Espanha que nunca se senta à mesa com os clientes, mesmo quando eles são americanos que vieram de Hollywood para a verem.
Harry Dawes (Humphrey Bogart) é o cineasta, que em tempos tivera problemas com o álcool, que acompanha o milionário e poderoso produtor Kirk Edwards (Warren Stevens), cujo dinheiro tudo compra e basta vermos a forma como ele trata o subserviente Óscar Muldoon (Edmond O’Brien), para sabermos o que ele pensa da condição humana. Mas Maria Vargas está acima dele e será Harry Dawes a conseguir convencê-la a partir para Hollywood, para fazer os célebres “screen-test”. Ao verem-na no écran todos ficam de imediato fascinados por ela e se Kirk Edwards pensa que ela é sua propriedade, depois do sucesso nascer no écran, ela irá provar como ele estava redondamente enganado quando, numa festa dada no seu apartamento, ela decide partir com o milionário Alberto Bravano (Marius Goring), que de imediato tudo irá fazer para lhe oferecer um mundo de sonho, exibindo-a como se ela fosse uma presa sua, apesar de ela o desprezar à vista de todos.

Ela nunca irá esconder as suas origens humildes, gostando de conviver com os da sua classe, onde aliás escolhe os seus amantes, porque só eles lhe podem oferecer esse território da liberdade, onde o amor vive em cada noite clandestina. Ao longo dos anos ela terá em Harry Dawes (Humphrey Bogart), o cineasta que a deu a conhecer ao mundo, o seu melhor amigo e confessor, o homem que a admira e a trata como se ela fosse uma filha,
Esta Cinderela que gosta de andar descalça, irá ser vista um dia a dançar com um grupo de ciganos pelo Conde Torlato-Favrini, à beira da estrada, perto de Monte Carlo e sem ambos saberem, os seus destinos irão cruzar-se, pouco depois no Casino.
Tudo indica que esta mulher encontrou finalmente o seu Príncipe Encantado, como nas fábulas, mas a realidade nunca é um conto de fadas e será na noite de núpcias que ela irá conhecer o terrível segredo que esconde o marido: um ferimento de guerra tornara-o impotente.
A tragédia que sempre rondara a vida de Maria Vargas aproxima-se da sua presa e quando ela confessa a Harry Dawes, que a conhece melhor do que ninguém, que planeia dar um herdeiro ao homem que ama, ele percebe como ela se aproxima perigosamente do abismo. E Torlato-Favrini desconhecendo as razões do adultério da esposa irá matá-la, não lhe perdoando esse pecado cometido por amor.

A forma como Mankiewicz nos narra esta história moderna da Cinderela é de um rigor absoluto, ao mesmo tempo que nos mergulha nesse território do cinema que tão bem conhece, onde tantas vidas foram consumidas, porque como todos sabemos a distância entre a fama e a perdição é tão curta que muitos não conseguem sobreviver ao insucesso.
Curiosamente, no argumento escrito por Mankiewicz, o conde Torlato-Favrini é homossexual, mas na época o cineasta-argumentista viu-se obrigado a não seguir por este caminho, certamente demasiado problemático para os Estúdios.

“The Barefoot Contessa” oferece-nos uma direcção de actores extraordinária e se Humphrey Bogart e Ava Gardner estão como peixes na água, a composição de Edmond O’Brien, esse relações públicas para todo o serviço, é soberba, tendo aliás ganho o Óscar para o Melhor Actor Secundário. Depois, como não podia deixar de ser, a realização/argumento de Mankiewicz é mais-que-perfeita transformando “A Condessa Descalça” numa das suas obras-primas, um “género” que o cineasta sempre cultivou, até mesmo quando “Cleópatra” se transformou num colossal desastre financeiro.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quinta-feira, Maio 28, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

AS FÉRIAS DO SR. HULOT / LES VACANCES DE MONSIEUR HULOT

JACQUES TATI – (FRA – 1953) – (96 min – P/B)

JACQUES TATI, NATHALIE PASCAUD, LUCIEN FRÉGIS.

Jacques Tati é um nome incontornável no interior da comédia e os seus filmes, de uma originalidade absoluta, falam por si. Se em “Há Festa na Aldeia” / “Jour de Féte” iremos encontrá-lo a vestir a pele desse carteiro sempre tão zeloso do seu trabalho, já em “As Férias de Monsieur Hulot” iremos assistir ao nascimento de uma das personagens mais fascinantes de sempre, o Monsieur Hulot, sempre acompanhado do seu cachimbo e chapéu, dois adereços que viveram para sempre com o personagem.

“Les Vacances de Monsieur Hulot” vai-nos convidar a seguir as suas férias na praia na zona de Saint-Marc-sur-Mer. Mas mal o vimos na sua “carripana”, que se desloca com uma certa turbulência e alguma dificuldade nas subidas, de imediato um sorriso irá nascer-nos no rosto, para ali permanecer fascinado com os inocentes “gags” oferecidos por Hulot, sempre perfeitos e inocentes e onde a “ingenuidade” vive de mãos dadas com a “simplicidade”, fruto de um arduo trabalho criativo.

A entrada de Hulot no Hotel de la Plage é memorável e depois, ao longo da sua estadia na estância balnear, iremos assistir às mais diversas situações burlescas: o pneu que se transforma em coroa de flores no cemitério; o passeio de barco na praia, a explosão do fogo de artifício ou o seu convívio com os outros veraneantes, que tantas vezes no faz recordar o Petit Nicolas e as suas “vacances”.
Numa época em que as televisões insistem em apresentar “apanhados” idiotas, no intuito de fazer rir as audiências, talvez fosse melhor oferecerem ao espectador os filmes de Jacques Tati, para todos descobrirem como se faz sorrir de forma inteligente, partindo de situações do quotidiano. E nunca é demais recordar que ele transforma a banda sonora dos seus filmes num intérprete maravilhoso e surpreendente.

Monsieur Hulot é uma personagem única na História do Cinema e o seu criador, esse cineasta/intérprete de nome Jacques Tati, navegou sempre nesse “mar alto” da comédia ao lado de Charles Chaplin e Buster Keaton, oferecendo-nos a magia do sorriso inteligente das suas películas.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quarta-feira, Maio 27, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

O COMBOIO APITOU TRÊS VEZES / HIGH NOON

FRED ZINNEMANN - (EUA – 1952) - (89 min-P/B)

GARY COOPER, GRACE KELLY, KATY JURADO, THOMAS MITCHELL.

“O Comboio Apitou Três Vezes” surgiu no panorama cinematográfico como um “western” revisionista, onde os antigos ideais que estabeleceram o confronto entre o bem e o mal, dariam lugar a um confronto psicológico, em que o heroísmo dará lugar ao medo e à dúvida, porque o herói já não era o homem que nada temia, mas sim um ser de carne e osso, com o medo a invadir-lhe a alma.

Este “western”, que conta com uma interpretação soberba de Gary Cooper no protagonista, é profundamente politizado, porque esse xerife, deixado à sua sorte pelos habitantes do pequeno povoado de Hadleyville, incluindo a sua própria mulher (Grace Kelly), uma quaker que não pretende assistir à sua morte, representa esses homens que ao serem acusados de simpatias pelo comunismo, em processos sumários, na célebre caça às bruxas em Hollywood, foram de imediato abandonados por amigos, colegas de profissão e às vezes pela própria família, com receio de a mesma acusação pender sobre eles. O xerife Kane (Gary Cooper) representa assim esses homens que recusaram fugir e decidiram enfrentar sozinhos os temíveis adversários, contando apenas com a coragem e abnegação, fruto da sua inocência e perseverança nos valores em que acreditavam.
E não será por acaso que o produtor de “High Noon” é Stanley Kramer, que nunca escondeu as suas tendências liberais e que ofereceu um novo fôlego à produção, sempre ostentando o seu rótulo de independente.

Kane (Gary Cooper) irá enfrentar, no dia do seu casamento, um perigoso pistoleiro que em tempos prendera e que vem a caminho da povoação para o seu derradeiro ajuste de contas com a lei. No apeadeiro, o seu irmão e dois outros cúmplices aguardam a sua chegada e a passagem do tempo irá marcar psicologicamente toda a acção da película, à medida que vamos assistindo à passagem das horas.
Abandonado por todos, depois de se ter recusado a fugir, Kane irá defrontar os quatro homens, quando chegar essa hora fatal do meio-dia, terminando por sobreviver e sair vitorioso do duelo, transformando-se num herói.
Mas para este homem é demasiado tarde e, num gesto de desprezo pelos que o rodeavam, atira a estrela de xerife para essa poeira que esconde a passagem do tempo e parte com a dor a dilacerar-lhe a alma, para nunca mais voltar.
“High Noon” surge assim, no interior do “western”, como uma lufada de ar fresco, prenúncio de uma revitalização do género.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Terça-feira, Maio 26, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

O CREPÚSCULO DOS DEUSES / SUNSET BOULEVARD

BILLY WILDER– (EUA – 1950) - (110 min - P/B)

GLORIA SWANSON, WILLIAM HOLDEN, ERIC VON STROHEIM.

“Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, é o mais célebre filme sobre o universo do cinema até hoje feito, cuja história nos é narrada por um corpo, já morto, a boiar no interior de uma piscina.
Iremos assim conhecer através de Joe Gillis (William Holden), esse argumentista em busca de um êxito, os acontecimentos que antecederam a sua morte.

Tudo começou quando o seu carro, ao percorrer a tão famosa avenida, interrompe a sua marcha devido a um pneu furado. Ao dirigir-se à casa mais próxima para telefonar, uma luxuosa Mansão que já vira melhores dias, é confundido com o funcionário da agência funerária que vem tratar das exéquias do animal de estimação da dona da casa, essa outrora célebre estrela do mudo, chamada Norma Desmond (Gloria Swanson).
Recorde-se que Gloria Swanson, uma das mais famosas stars do período mudo, é na realidade mais nova que a personagem que interpreta, representando o filme de Billy Wilder como um verdadeiro regresso à ribalta.

Ao contrário do que se possa pensar, este não é um filme sobre a vida de Gloria Swanson, mas sim uma ficção brilhantemente elaborada por Billy Wilder, que construiu em “O Crepúsculo dos Deuses” um dos mais fascinantes filmes sobre o mundo do cinema.
E se Gillis (William Holden) é o homem certo para escrever o argumento tão desejado por Norma para o seu “come-back”, esta estrela decadente irá servir-se dele da mesma forma como utiliza essa figura “apagada” chamada Max von Mayerling (um Eric Stroheim extraordinário), que tudo faz para a estrela se sentir a eleita no Olimpo dos Deuses.

Iremos assim, nesta viagem por Hollywood, encontrar o próprio Cecil B. DeMille (que dirigiu Gloria Swanson em cinco películas), a representar o seu próprio papel, quando esta anuncia o seu regresso e o visita nos Estúdios. Mas o argumento que Gillis está a escrever não se adequa a ela, mas sim a uma actriz mais nova e quando Norma Desmond, que insiste em viver num mundo que já não existe, percebe finalmente o que se passa, não hesita em o matar, porque Gillis estava a liquidar o seu sonho de estrela imortal.
E quando a polícia chega para a prender, Max von Mayerling, esse antigo amante desprezado, num derradeiro gesto de amor e homenagem decide encenar o regresso triunfal da mulher amada, num derradeiro gesto de amor e perdição, que figura na película como uma das sequências mais célebres de “Sunset Boulevard”.

(Re)ver “O Crepúsculo dos Deuses” é entrar pela porta grande do Cinema, levado por esse Mestre chamado Billy Wilder, que nos oferece aqui um filme imortal.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Maio 25, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

LOUISIANA STORY

ROBERT FLAHERTY– (EUA – 1948) - (77 min - P/B)
JOSEPH BOUDREAUX, LIONEL LE BLANC, FRANK HARDY.


Robert Flaherty, ao longo da sua carreira de documentarista, sempre sentiu uma certa apetência para nos dar a luta do homem com a natureza, filmando o seu quotidiano de forma a nos oferecer o olhar virgem dos protagonistas perante o cinema, que sempre causou um enorme fascínio junto dos espectadores dos seus filmes.
“Louisiana Story” convida-nos a visitar esses pântanos inóspitos da Louisiana, guiados pelo olhar inocente do seu herói. Iremos assim seguir o jovem cajum ao longo da sua viagem pelos pântanos, no seu pequeno barco e na companhia do seu pequeno amiguinho, umas vezes a observar os pássaros, outras a seguir atentamente as movimentações dos crocodilos, sempre traiçoeiros, em busca das suas presas.

Napoleon-Ulysse Latour (Joseph Boudreaux) irá ser despertado dos seus sonhos de criança, quando escuta explosões na região. De imediato segue o ruído, para descobrir no rio um enorme “derick”, a instalar uma plataforma petrolífera, com vista a extrair petróleo do subsolo.
De forma profundamente naturalista, Robert Flaherty (numa encomenda da Standard Oil Company), oferece-nos não o confronto entre a máquina e a natureza, mas sim a sua visão do progresso em perfeita harmonia com a paisagem.

Ao verem a criança no rio na sua pequena embarcação, a olhar para aquele enorme “monstro” de ferro e aço, os trabalhadores da plataforma convidam o jovem cajum a visitar as instalações e de imediato nasce uma amizade cristalina entre aqueles seres.
Como não podia deixar de ser o pequeno Latour, ao regressar a casa, conta entusiasmado aos pais o que está a acontecer no rio.
A forma como Richard Leacock, o director de fotografia nos oferece o desenrolar dos trabalhos na plataforma, a fim de ser extraído o petróleo do subsolo, é na verdade de antologia, porque ele filma a plataforma como se fosse um bom gigante, que invadiu a natureza para apenas melhorar a vida dos homens. E quando sucede o acidente no poço artesiano, iremos assistir a esse momento mágico em que o pequeno Latour irá ajudar a resolver o problema, através da sua “sabedoria de criança”.

Terminados os trabalhos, chegou o momento do poderoso “derick” e os seus tripulantes abandonarem a região, em busca de outros lugares para continuarem a sua missão e será então que vemos por breves instantes a tristeza no rosto do jovem que se despede deles, rapidamente substituída por um sorriso aberto, enquanto acena com a mão para os seus companheiros de aventuras, porque como sabemos não há longe nem distância, para a amizade entre os homens.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Domingo, Maio 24, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

O CARTEIRO TOCA SEMPRE DUAS VEZES
THE POSTMAN ALWAYS RING TWICE
TAY GARNETT– (EUA – 1946) - (113 min - P/B)

JOHN GARFIELD, LANA TURNER, CECIL KELLAWAY, HUME CRONYN.

Tay Garnett é um daqueles cineastas a quem os dicionários de cinema dedicam sempre muito poucas linhas. No entanto ele irá, em 1946, abanar as convenções do cinema norte-americano, ao adaptar a obra “The Postman Always Ring Twice” que celebrizou o jornalista e escritor de policiais James Cain.
Recorde-se que, já em 1942, Luchino Visconti adaptara esta obra ao cinema, transpondo a acção para a Itália, “escondendo” o nome do seu autor em virtude de não ter dinheiro para pagar os direitos do livro, criando com “Obsessão” uma das grandes películas do neo-realismo.

“O Carteiro Toca sempre Duas Vezes” de Tay Garnett, tal como o romance, situa a acção em plena recessão e narra-nos o amor trágico e proibido de Frank Chambers (John Garfield) e Cora (Lana Turner em todo o seu esplendor, respirando sensualidade por todos os poros).
Frank é um dos muitos desempregados que cruzam aquela estrada, socorrendo-se de boleias, para atingir a Califórnia, em busca de trabalho. Mas ao entrar naquele Diner, com a respectiva bomba de gasolina à beira da estrada, irá descobrir na bela esposa do proprietário um verdadeiro anjo sedutor, que o irá fazer cair na mais perigosa das tentações.
O marido de Cora, muito mais velho que ela, é a ingenuidade feita homem e ao oferecer trabalho àquele desempregado desconhece que está a contratar o futuro amante da mulher.

O envolvimento amoroso entre Cora e Frank é imediato, nascendo no horizonte o desejo de fugirem daquele local perdido no tempo. No entanto irão optar por caminhos ainda mais perigosos, decidindo ambos assassinar o marido incómodo. O plano irá ter sucesso, graças a um esperto advogado que os irá ilibar, mas a vida a que aspiram teima em não nascer. E quando tudo parecia finalmente perfeito, um acidente de automóvel irá vitimar a bela Cora, sendo então Frank acusado da sua morte.

John Garfield, que aqui nos oferece uma das suas melhores interpretações irá ser, poucos anos depois, uma das vítimas do senador McCarty, quando os Estúdios se recusam a dar-lhe trabalho devido às acusações que lhe foram dirigidas pelos homens de mão do Senador, terminando o actor por se suicidar.
A forma como Tay Garnett nos oferece Lana Turner, uma verdadeira felina respirando inocência, causou um enorme escândalo na época e basta vermos a sua entrada no filme, com os célebres calções, nesse plano que começa nas suas pernas e termina no seu rosto angélico, para obtermos de imediato a leitura desse pecado mortal que está para nascer.

Mais de trinta anos depois, em 1981, Bob Rafelson irá oferecer-nos um novo “remake”, com Jessica Lange e Jack Nicholson nos protagonistas, mas será sempre a película de Tay Garnett a mais perfeita e sedutora adaptação do romance de James Cain, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Sábado, Maio 23, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

OBJECTIVO BURMA / OBJECTIVE BURMA


RAOUL WALSH – (EUA – 1945) - (142 min - P/B)


ERROL FLYNN, WILLIAM PRICE, JAMES BROWN, GEORGE TOBIAS.

“Objectivo Burma” é, acima de tudo, um filme de e sobre a guerra no Pacífico onde os americanos perderam mais vidas, no confronto com as tropas japonesas que, como todos sabemos, venderam cara a derrota e aqui iremos encontrar o Major Nelson (Errol Flynn) a dar conhecimento aos seus homens do objectivo da missão: destruir uma estação de radar, para assim possibilitar o avanço das tropas americanas na selva birmanesa.
De imediato percebemos que aqueles homens poderão ser para queimar, numa missão que as altas hierarquias militares desejam que seja perfeita. Mas como todos sabemos, nem sempre os desejos se transformam em realidade e nunca há missões perfeitas no teatro de guerra.

A forma como Walsh filma a acção de sabotagem no acampamento japonês é de antologia, porque quase poderíamos estar a assistir a um documentário. Este cineasta que iniciou a sua carreira atrás da câmara, ainda no período mudo, ao dirigir Douglas Fairbanks em “O Ladrão de Bagdad”, fora anteriormente assistente de Griffith e Tomas Ince, tendo abordado ao longo da sua carreira os mais diversos géneros, utilizando sempre a matéria filmica com uma eficácia bem demonstrativa do seu talento.

Porém se o objectivo da missão é um êxito, já a caça que lhes é dada pelas tropas japonesas será mortífera para aqueles soldados, especialmente quando, chegados ao local combinado para serem resgatados da selva inóspita, percebem que estão por sua própria conta e risco, restando-lhes apenas continuar a lutar pela sobrevivência, com esse meio que transforma os homens comuns em heróis.
E quando tudo parece perdido surge o auxílio vindo do céu, quando as tropas pára-quedistas iniciam finalmente aquela que será conhecida como a grande ofensiva no Pacífico.

Ao vermos a interpretação de Errol Flynn percebemos as razões de ele ter sido uma estrela na sua época, fosse ele o pirata, o cow-boy ou o soldado, porque ao longo da sua carreira sempre ofereceu às personagens que interpretou toda a sua sabedoria de actor. E o que fica na história do cinema não são as histórias da vida privada, mas sim os filmes que protagonizou.
Quanto a Raoul Walsh, este cineasta que nunca deixou os seus créditos por mãos alheias e surge aqui como o verdadeiro comandante de uma equipa que construiu um dos mais memoráveis filmes de guerra, em que a fotografia de James Wong Howe nos oferece, de forma perfeita, o sangue, suor e lágrimas de todos aqueles que combateram na mortífera e longa batalha do Pacífico.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Sexta-feira, Maio 22, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

LAURA

OTTO PREMINGER– (EUA – 1944) - (88 min - P/B)

DANA ANDREWS, GENE TIERNEY, CLIFTON WEBB, VINCENT PRICE.

“Laura” de Otto Preminger (que até nem foi o primeiro realizador indigitado para este filme da Fox) oferece-nos Gene Tierney em todo o seu esplendor e, no entanto, só a iremos conhecer através dos olhos do inspector Mark McPherson (Dana Andrews) quando ele, ao entrar na casa da vítima para investigar as causas da morte da jovem publicitária, depara com o seu retrato, num quadro pendurado na parede. A beleza da imagem cativa de imediato o detective que começa a cultivar uma certa necrofilia por aquela bela mulher.

O Mestre austríaco, antigo aluno de Max Reinhardt, que substituíra Rouben Mamoulian neste projecto, debruça-se sobre este policial, baseado no livro de Vera Caspary, com um saber que nos deixa a todos perfeitamente agarrados à cadeira, do primeiro ao último minuto.
Lentamente iremos sabendo a história da vida da jovem pelo seu círculo de amigos, desde o snob Waldo Lydecker (Clifton Webb), que considera Laura uma sua protegida, passando pelo seu namorado, Shelby Carpenter (Vincent Price, compondo uma personagem de forma suprema) charmoso e elegante, até Ann (Judith Anderson) essa “amiga” e confidente que todas as mulheres gostam de ter.
Com o passar do tempo McPherson fica cada vez mais interessado em conhecer o passado da vítima, porque a paixão que nutre por ela começa a invadir-lhe a alma, até chegar esse momento fulcral do filme, em que vemos Laura (Gene Tierney) a entrar bem viva em sua casa. O espanto do detective é grande, mas o do assassino não será maior.

Otto Preminger mergulha-nos no interior da “high-society” norte-americana, oferecendo-nos um retrato mordaz e requintado, ao mesmo tempo que todos percebemos como McPherson se sente cada vez mais impotente em resolver o caso. Afinal a vítima é uma jovem modelo, em busca da fama na grande metrópole, extremamente parecida com Laura, que se encontrava no local errado à hora errada, para mal dos seus pecados.
Com o regresso de Laura ao mundo dos vivos iremos acompanhar a paixão possessiva e louca de Waldo Lydecker, esse “anjo protector”, que se julga superior a tudo e todos e que nunca deixa passar uma oportunidade para demonstrar isso mesmo.
O ambiente do “film noir” respira por todos os fotogramas em “Laura”, embora sempre com uma elegância e um saber dignos de nota.

Na noite em que vemos McPherson a interrogar Laura, não por suspeitar dela, mas para iludir o assassino, percebemos que este irá agir em breve, julgando que a sua superioridade intelectual e paixão mórbida que nutre por ela, lhe dão direito a matar a obra criada, porque para ele Laura é uma criação sua, a quem mais ninguém terá direito de amar.
O ambiente do “film noir” respira por todos os fotogramas ao longo do filme, sempre com um saber e uma elegância a que não é alheia a magia da direcção de Otto Preminger, que fez de “Laura” uma das pérolas da sua filmografia.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quinta-feira, Maio 21, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

SER OU NÃO SER / TO BE OR NOT TO BE
ERNST LUBTSCH – (EUA – 1942) - (99 min - P/B)
JACK BENNY, CAROLE LOMBARD, ROBERT STACK, STANLEY RIDGES.

Em 1942 Lubitsch decide fazer sorrir as plateias e cria, com “Ser ou Não Ser”, uma comédia mordaz sobre a ocupação alemã da Polónia, numa altura em que ainda estava bem distante o fim da guerra. E será sempre de recordar que Charles Chaplin, com o seu filme “O Grande Ditador”, já alertara o mundo desse mesmo perigo em 1940, usando o humor como arma.

Estamos em Varsóvia, no ano de 1939, nesse imenso palco que é o Teatro e onde a companhia dirigida por Joseph Tura (Jack Benny) leva à cena a sua versão de Hamlet. E sempre que surge esse momento solene da peça em que o célebre “to be or not to be” é pronunciado, um espectador ainda jovem levanta-se no meio da plateia e sai, perante o espanto de todos os presentes, para se ir encontrar com a bela esposa do actor.
Stanislav Sobinsky (Robert Stack) tem um “affair” com Maria Tura (Carole Lombard) e aquele momento da peça é o sinal aguardado, para ambos se encontrarem.

Com a invasão da Polónia pelas tropas alemãs, o jovem tenente parte para Inglaterra para se juntar aos aliados, deixando o seu amor para trás. Mas no interior da resistência existe um traidor e é necessário eliminá-lo, porque ele entretanto regressara à Polónia com a lista dos nomes dos resistentes que lutavam no país, contra a ocupação. E será com a preciosa “colaboração” (forçada) dos membros do grupo teatral, que será eliminado esse enorme perigo.

Lubitsch coloca a ridículo as forças ocupantes, muito especialmente o perigoso coronel Erhardt que gosta de contar anedotas sobre Hitler, utilizando um humor verdadeiramente corrosivo, sendo o traído Joseph Tuna (Jack Benny) obrigado a desempenhar o papel mais difícil e perigoso da sua carreira ao fazer-se passar pelo perigoso espião, enquanto o pior actor da companhia é “convidado” a fazer-se passar por Hitler, de visita às tropas estacionadas em Varsóvia.
E, quando tudo parece perdido, eles conseguem escapar numa fuga verdadeiramente delirante, a caminho de Londres.

Já em terras de Sua Majestade, Joseph Tuna realiza o sonho da sua vida, ao representar Hamlet e quando pronuncia a célebre frase “to be or not to be”, faz uma longa pausa, olhando para Stanislav Sobinsky, que se encontra na plateia, mas este permanece sentado sorrindo para o actor. Nesse preciso momento um outro elemento do público, levanta-se e sai da sala, perante a perplexidade de todos. Decididamente a bela e volúvel Maria Tura (Carole Lombard) insiste em não dar descanso ao coração atormentado do marido.
O riso e o humor são muitas vezes a melhor arma para defrontar a triste realidade dos tempos de guerra, como muito bem demonstrou Ernst Lubitsch nesta poderosa comédia intitulada “To Be or Not To Be”.


Nota: Em 1983 Mel Brooks realizou um delicioso "remake" desta comédia.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quarta-feira, Maio 20, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

O MUNDO A SEUS PÉS / CITIZEN KANE

ORSON WELLES – (EUA – 1941) - (119 min - P/B)

ORSON WELLES, DOROTHY COMINGORE, JOSEPH COTTEN, EVERETT SLOANE.

Se um dia alguém perguntar qual a palavra mais célebre dita um dia num filme, ela será certamente “Rosebud”, pronunciada por essa personagem “bigger than life” chamada Charles Foster Kane. Estamos a falar como já perceberam de “O Mundo a Seus Pés”, essa obra intemporal de Orson Welles que abriu, decididamente, novos horizontes no interior da Sétima Arte.
Orson Welles, esse menino-prodígio apaixonado desde tenra idade por Shakespeare, irá realizar em 1941 aquele que é considerado por muitos o mais importante filme de sempre, ao oferecer-nos num prodigioso “flashback”, recheado de labirintos, a vida desse magnata da imprensa chamado Charles Foster Kane.

A morte chegara finalmente para libertar da solidão o conhecido milionário e a bola de cristal , “adormecida” na sua mão, cai e parte-se em estilhaços no chão.
Todos os serviços noticiosos do globo anunciam a morte desse milionário perdido na sua Xanadu, onde as obras de arte enchem a Mansão e os jardins, mas na verdade quem foi esta personagem tão (des)conhecida de todos?
Será isso mesmo que um jornalista irá tentar descobrir, falando com todos aqueles que privaram com ele ao longo da vida.

Iremos assim conhecer o seu percurso através de terceiros. O seu amigo Jedediah Leland (Joseph Cotten), que se encontra a viver num lar e que um dia perdeu a sua amizade quando escreveu a sua crónica demolidora sobre a actuação da segunda mulher de Kane, para quem o marido mandara construir um teatro tentando fazer dela uma vedeta; o seu tutor Thatcher (George Coulouris) que nos irá narrar a história da criança que conheceu e educou; a sua segunda mulher Dorothy Comingore (Susan Alexander), reduzida a um farrapo humano; o mordomo (Paul Stewart) que “melhor conhece” os segredos de Xanadu e o seu amo.

Orson Welles, que tivera carta branca da RKO, depois de ter deixado a América à beira de um ataque de nervos com a sua transmissão radiofónica de “A Guerra dos Mundos” de H. G. Welles, irá defrontar ao longo da sua vida um inimigo poderoso, William Randolph Hearst, o célebre magnata da imprensa que, ao ver-se retratado no filme, tudo fará para impedir a exibição de “Citizen Kane” e depois o irá perseguir ao longo dos anos, com todos os meios ao seu alcance para demolir a genialidade do cineasta. Mas, como todos hoje sabemos, os seus esforços foram infrutíferos já que Welles, o maior dos “Mavericks”, como um dia se lhe referiu Martin Scorsese, é um vulto incontornável na História do Cinema.
Conta-se que Welles antes de realizar o filme, viu quarenta vezes “Stagecoach” de John Ford e só depois se sentiu preparado, para se atirar de corpo e alma à criação de “Citizen Kane”.

“O Mundo a Seus Pés”, embora tenha sido derrotado na noite dos Oscars, permanece uma obra-prima absoluta, onde pela primeira vez descobrimos a profundidade de campo a ser explorada em todo o seu esplendor. Depois a forma como nos é narrada a história, única na época, recorde-se que o argumento é da autoria de Herman Mankiewicz e nunca nos poderemos esquecer da fotografia de Gregg Toland, maior entre os maiores.
Mas será também Orson Welles, como actor (e a sua voz inconfundível), e os seus fiéis companheiros do “Mercury Theater”, que permanecem no Olímpio da interpretação, nesta obra única e genial que tantos ensinamentos ofereceu à Sétima Arte.
A passagem do tempo, ao longo da película, é uma verdadeira personagem a que Welles deu vida e quando no final do filme vemos esse velho trenó de criança a ser lançado para o fogo, percebemos finalmente o significado dessa palavra pronunciada, num derradeiro esforço humano por Charles Foster Kane...Rosebud.
“O Mundo a Seus Pés” é a obra-prima absoluta desse génio, tantas vezes incompreendido, chamado Orson Welles.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Terça-feira, Maio 19, 2009

FOTOGRAMAS - CINEMA

AS VINHAS DA IRA / THE GRAPES OF WRATH


JOHN FORD – (EUA – 1940) - (129 min - P/B)

HENRY FONDA, JANE DARWELL, RUSSELL SIMPSON, JOHN CARRADINE.


Como todos sabemos, John Ford sempre foi um cineasta ideologicamente conservador, mas sempre defendendo os mais desfavorecidos, embora nunca tenha escondido as suas simpatias por aqueles que sempre lutaram em defesa de uma Irlanda independente e contra a ocupação inglesa. E, quando em plena época McCartysta Cecil B. de Mille numa célebre reunião de realizadores pediu a “cabeça” de Joseph Mankiewicz, Ford não hesitou em defender o cineasta/produtor, evitando que este caísse nas malhas da mortífera teia que o senador estava a construir em redor de Hollywood, perseguindo tudo e todos numa caçada ideológica que ficou na História do Cinema como um dos momentos mais negros da América.

Percebemos assim que as razões que motivaram John Ford a transportar para o cinema o célebre romance de John Steinbeck, “As Vinhas da Ira”, não tinham os intuitos ideológicos do escritor, mas sim o seu desejo de mais uma vez dar voz aos mais desfavorecidos. Tal como Caldwell e John dos Passos, Steinbeck nunca escondeu as suas ideias, desenvolvendo-as literariamente de forma genial. Mas o que fascinou verdadeiramente John Ford, ao ler o romance, foi a luta pela sobrevivência levada acabo pela família Joad e assim filmou a sua viagem na velha camioneta, como se ela fosse uma diligência e estivéssemos perante um western.
A odisseia dos Joad, arruinados pela depressão, naqueles terríveis anos trinta, irá obrigá-los a abandonar o seu pedaço de terra na sua Oklahoma natal e partir em busca do “Paraíso”, nessa Califórnia distante, em que diziam haver trabalho para todos.

A viagem, como iremos ver, será terrível para todos, não resistindo os mais velhos a essa longa jornada em busca do pão de cada dia. E, como não podia deixar de ser, é nos mais novos que a revolta germina, especialmente em Tom (espantoso Henry Fonda, numa das interpretações da sua vida), que irá lutar contra tudo e contra todos, numa busca incessante de melhores condições de vida.
Chegados à terra prometida, cedo descobrem que a realidade é bem diferente do sonho acalentado. As longas horas de trabalho a que são sujeitos e as condições deploráveis em que vivem irão aumentar a revolta de Tom, até chegar esse momento fatal em que irá matar um homem, para proteger aqueles que ama.
E quando no final escutamos o seu grito de revolta em busca da justiça esquecida, sentimos o poder do cinema de Ford em todo o seu esplendor.

A forma como John Ford nos oferece a viagem e o quotidiano desta família é memorável e a fotografia desse Mestre chamado Gregg Toland, utilizando um preto e branco invadido pela luz, transformam esta película numa obra imortal. Sem dúvida alguma uma das pedras basilares da filmografia Fordiana.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Maio 18, 2009

FOTOGRAMAS - CINEMA

E TUDO O VENTO LEVOU / GONE WITH THE WIND

VICTOR FLEMING / DAVID O'SELZNICK – (EUA - 1939) - (225 min/Cor)

CLARK GABLE, VIVIEN LEIGH, LESLIE HOWARD, OLIVIA DE HAVILLAND.


Quando olhamos para este filme e procuramos o seu verdadeiro responsável, o nome que nos surge é o de David O’Selznick, esse produtor que tudo apostou na película, mas se pensarmos no realizador, embora seja o nome de Victor Fleming que encontramos, não nos poderemos esquecer que o primeiro cineasta a estar por detrás da câmara foi o grande George Cukor, que se deu muito mal com O’Selznick, terminando por ser despedido. Sam Wood foi outro realizador bem conhecido, que passou pela película, tal como William Cameron Menzies que se encarregou dos soberbos cenários que vemos no filme.

Por aqui já se vê como foram atribuladas as filmagens de “E Tudo o Vento Levou”, o célebre romance de Margareth Mitchell, que fizera chorar a América e que fora comprado a peso de ouro por David O’Selznick. Um dado curioso é o de Francis Scott Fitzgerald ter sido um dos argumentistas a “carpinteirar” esta poderosa obra.
Durante as filmagens, todas as atenções em Hollywood se viraram para a feitura desta película, cujos gastos atingiram a soma de quatro milhões de dollars e que nos ofereceu uma das mais famosas heroínas da História do Cinema, a bela Scarlett O’Hara, interpretada por Vivien Leigh, mais conhecida na época por ser esposa de Laurence Olivier do que pelo seu enorme talento, que se irá revelar nesta película e no fabuloso filme de Elia Kazan, “Um Eléctrico Chamado Desejo”. Convém referir que Vivien Leigh deixou KO Bette Davis e Katherine Hepburn, duas das mais temidas candidatas a interpretar a bela, caprichosa e destemida Scarlett O’Hara.

Estamos no Sul, esse território dominado pelos ricos fazendeiros, com as suas enormes plantações e onde a escravatura ainda era uma triste realidade. E em Tara, a famosa propriedade, iremos descobrir Scarlett O’Hara, que irá estar uma vida inteira perdidamente apaixonada pelo homem errado, ou melhor Ashley Wilkes (Leslie Howard), que nunca a tentará desenganar, apesar de ter casado com a sua prima Melanie (Olívia de Havilland). Furiosa com esta traição, Scarlett decide também ela casar com o primeiro homem à mão, que irá rapidamente morrer na guerra civil que entretanto estala entre o Norte e o Sul, tornando-a numa bela viúva, que irá chamar a atenção do destemido Rhett Buttler, ele que irá sempre olhar o conflito de forma bastante diferente das forças oponentes.

Tara, a famosa propriedade, será destruída pela guerra como veremos no filme, sendo uma das mais famosas sequências da película o incêndio de Atalanta. Mas Scarlett irá com toda a sua força reconstruir a sua casa, descobrindo em Rhett Buttler o homem ideal para estar a seu lado, mas a sua cega paixão por Ashley Wilkes, após a morte da sua prima Melanie, será a gota de água que levará Rhett Buttler a partir finalmente de Tara, deixando para trás a mulher que se esqueceu de o amar, num dos momentos mais poderosos da película.
“Gone With the Wind” foi premiado com uma chuva de Oscars e obteve na época resultados espantosos nas bilheteiras, transformando-se num dos filmes mais rentáveis da Sétima Arte. E quando revemos, mais uma vez, este filme percebemos que esta obra verdadeiramente monumental só foi possível graças à luta titânica desse produtor chamado David O’Selznick que, como todos sabemos, iria abrir as portas de Hollywood para a maravilhosa carreira americana de Alfred Hitchcock.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Domingo, Maio 17, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

ALEXANDRE NEVSKY

SERGEI EISENSTEIN - (RUS - 1938) - ( 112 min - P/B)
NICOLAI TCHERKASSOV, NICOLAI OKHLOPKOV, ALEXANDER ABRIKOSSOV.

Quando Eisenstein partiu para os Estados Unidos da América, não poderia supor que os seus projectos nunca iriam ver a luz do dia. Depois, no México, o seu genial “Que Viva México” iria viver as mais diversas vicissitudes. Regressado à União Soviética, o seu “convívio” com as elites foi de mal a pior, sendo até obrigado a retratar-se após a conclusão de “O Prado de Béjine”. Mas em 1938 voltaria a conhecer a glória com “Alexandre Nevsky”.

Perante o perigo que espreitava a cada momento o país que o vira nascer, inicia as filmagens de um dos seus filmes mais memoráveis, ao levar ao écran a história desse célebre Príncipe chamado Alexandre Nevsy, que se tornara célebre após ter derrotado os Suecos, nesse distante século XIII.
Alexandre Nevsky (Nicolai Tcherkassov) preferia a companhia dos pescadores da sua terra natal às intrigas da aristocracia e quando estes membros decidiram optar por um pacto com os invasores alemães, os célebres cavaleiros Teutónicos que invadiram o país, espalhando o terror e a morte entre os seus habitantes, ele decidiu enfrentá-los criando o seu próprio exército, quase de forma espontânea.

Tendo mais uma vez o extraordinário Edouardo Tissé na fotografia e contando com Prokofiev na banda sonora, Sergei Eisenstein oferece-nos uma obra avassaladora, que inicialmente será bem recebida pelo poder.
A longa sequência da batalha do lago gelado de Tchudsk (com mais de meia-hora de duração), que por sinal foi rodada no verão, sendo para tal usado gelo artificial, é, na verdade, memorável para qualquer cinéfilo.
Mas mais uma vez, devido ao acordo germano-soviético, o filme ficaria congelado até à invasão da União Soviética pelas tropas do Eixo, para depois se transformar num verdadeiro estandarte na luta contra o invasor germânico.

Esse genial cineasta que foi Sergei Eisenstein irá continuar até ao fim da sua vida perseguido pelos defensores do realismo socialista, sendo definitivamente condenado como cineasta, quando Estaline se viu retratado na segunda parte de “Ivan O Terrível”.
“Alexandre Nevsky” permanece hoje em dia uma das mais importantes obras da sua filmografia.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Sábado, Maio 16, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

TEMPOS MODERNOS / MODERN TIMES

CHARLES CHAPLIN – (EUA – 1936) . (85 min - P/B)

CHARLES CHAPLIN, PAULETTE GODDARD, HENRY BERGMAN.

Quando Charles Chaplin rodou “Os Tempos Modernos”, já o sonoro tinha tomado conta do cinema como uma verdadeira instituição. Mas o cineasta percebeu que essa figura imortal criada por ele e conhecida como Charlot nunca poderia viver sem a “pantomina” e como tal decidiu realizar o seu último filme mudo, no interior do sonoro, para espanto de muitos.
Charlot é “convidado” a servir de cobaia a uma máquina criada para diminuir o tempo gasto pelos operários durante o almoço (numa crítica feroz ao Taylorismo), porém a máquina aumenta cada vez mais a sua velocidade para ver até que ponto vai a resistência humana, até que fica perfeitamente descontrolada ou louca, se preferirem.
O nosso herói fica exausto e a loucura apodera-se dele, como não podia deixar de ser, terminando por ser conduzido ao hospital.

Ao sair recuperado, percebe que o desemprego lhe bateu à porta e rapidamente começa a viver de expedientes para sobreviver, ao mesmo tempo que decide tomar conta de uma jovem (a inevitável Paulette Godard) que, como ele, também se encontra na miséria.
Um dos momentos sublimes do filme é quando Charlot repara numa daquelas bandeiras vermelhas, transportada num camião, para sinalizar a carga e que cai no asfalto, de imediato apanha a bandeira e começa a correr atrás da camioneta para a devolver, embora o seu gesto se revele infrutífero. Nesse preciso momento surge atrás dele uma manifestação de desempregados em luta por melhores condições de vida e que ele irá encabeçar sem se aperceber, enquanto agita a bandeira vermelha. A inevitável carga policial não se faz esperar e ele acaba na prisão.

Após ser libertado esta boa alma irá continuar a sua caminhada pela vida, na companhia da sua jovem protegida. Irão ambos trabalhar num cabaret, criando um número musical de enorme sucesso, em que Charlot “canta/fala” pela primeira vez, brincando com uma melodia. Porém a sorte vira-lhes as costas e terminamos o filme a vê-los juntos a caminhar pela estrada fora, sem destino certo, mas com a esperança num futuro melhor.
“Modern Times” é uma obra-prima do Cinema que merece bem ser revisitada nesta época de crise global, para mais uma vez (re)descobrirmos a genialidade dessa grande figura chamada Charles Chaplin.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Sexta-feira, Maio 15, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

UMA NOITE ACONTECEU / IT HAPPENED ONE NIGHT

FRANK CAPRA – (EUA – 1934) - (105 min - P/B)
CLARK GABLE, CLAUDETTE COLBERT, WALTER CONNOLY, WARD BOND.

Frank Capra, melhor do que ninguém, olhou durante anos a sociedade americana, rompendo das mais variadas formas as regras do jogo, sempre com uma visão mordaz e crítica sobre o célebre “american way of life”, que ainda hoje cativa as mais diversas gerações. No entanto, quando deixou de filmar, tornou-se um homem reticente perante os novos caminhos que a América então trilhava, aliás bem patente nessa obra monumental que é a sua auto-biografia intitulada “O Nome Acima do Título”.
Quando em 1934 foi lançado “Uma Noite Aconteceu”, poucos acreditavam no sucesso da película, apesar dos protagonistas serem Clark Gable e Claudette Colbert. E ao vermos este filme percebemos bem que ele tinha acabado de inaugurar um género que ainda se faz hoje em dia no cinema, o célebre “on the road”, tantas vezes revisitado ao longo dos anos.
Ellie Andrews (Claudette Colbert) é uma jovem herdeira, que decide virar as costas à fortuna e partir para essa grande metrópole que é New York, à boleia. A forma como ela foge do iate é simples e indicadora dos seus desejos. E como não podia deixar de ser torna-se de imediato notícia na imprensa do país.
Nessa sua viagem pela estrada fora, irá cruzar-se com um jornalista (Clark Gable) que irá estar sempre em conflito perfeito com ela. Estamos assim decididamente no interior dessa guerra de sexos, que fez da “screwball comedy” um género delicioso.
Numa das sequências que ficaram famosas no filme, Gable tenta pedir boleia e os automobilistas não param, mas quando a bela Claudette Colbert o substitui nessa “árdua tarefa”, decidindo usar os seus atributos, mostrando as famosas pernas e respectiva liga, de imediato consegue atingir os seus objectivos.
Durante a viagem as peripécias são inúmeras, tal como as discussões constantes entre ambos, mas o amor espreita e quando nessa noite em que ela coloca um cobertor a dividir o quarto, que ambos vão compartilhar, para salvaguardar a sua virgindade do homem que a acompanha, percebemos que aqueles dois seres de classes antagónicas estão destinados um ao outro.
“It Happened One Night” é uma das comédias mais delirantes que o cinema nos ofereceu, graças à sabedoria desse Mestre do Cinema chamado Frank Capra.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quinta-feira, Maio 14, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

KING KONG
ERNEST B. SCHOEDSACK – (EUA – 1933) - (99 min - P/B)

FAY WRAY, ROBERT ARMSTRONG, BRUCE CABOT.

Quando comparamos o filme de 1933 com o “remake” levado a cabo por Peter Jackson, percebemos de imediato a grandeza da película realizada por Ernest B, Schoedsack e Merian C. Cooper. E se Naomi Watts é bela e espantosa, a sensualidade de Fray Wray, que veste a pele da actriz desempregada Ann Darrow, bate-a aos pontos. Depois temos essa luz e sombra que habita o filme e subjuga o espectador de forma perfeita, sempre com o perigo a rondar os participantes da perigosa expedição. E quando Fray Way é levada por King Kong percebemos que estamos perante o velho mito da bela e do monstro. Mas o monstro, esse enorme gorila, também possui os seus sentimentos, protegendo a bela dos perigos que espreitam a cada momento nessa selva inóspita e perigosa, que lhe serve de refúgio.
Usando maquetes e um boneco articulado, Willis O’Brien oferece-nos em todo o seu esplendor a magia do cinema.
E quando encontramos King Kong, esse rei dos reis, aprisionado em New York a servir de espectáculo a um público incrédulo e sedento de sangue, percebemos que ele só se poderá revoltar, procurando no alto do Empire State Building a salvação impossível, levando com ele não uma presa, mas sim a mulher que admira pela sua beleza, terminando abatido pela esquadrilha de aviões que o irá defrontar, numa das mais espectaculares sequências do filme.
“King Kong” que na época custou cerca de 750.000 dollars, uma quantia astronómica e fora do habitual, continua nos dias de hoje a fazer as delícias do cinéfilo.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quarta-feira, Maio 13, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

A PARADA DOS MONSTROS / FREAKS
TOD BROWNING – (EUA – 1931) - (64 min - P/B)
HARRY EARLES, DAISY EARLES, WALLACE FORD, OLGA BACLANOVA.

Tod Browning é um dos cineastas mais esquecidos da História do Cinema e, apesar da Cinemateca lhe ter dedicado um ciclo em 1984, a sua obra continua a ser desconhecida de muitos.
Tendo iniciado a sua actividade como realizador em 1915, abordou durante o período mudo os mais diversos géneros, contando a seu lado com esse actor extraordinário chamado Lon Chaney. Mas seria já no sonoro que este homem, que nos deu a conhecer Bela Lugosi a vestir a pele de Conde Drácula, iria surpreender tudo e todos ao realizar “Freaks”, que entre nós se chamou “A Parada dos Monstros”.
O filme conta-nos a história de uma companhia de circo em que todas as personagens de carne e osso possuem as mais diversas deformações físicas. E, como não podia deixar de ser, um filme destas características, apesar de ancorado no género de terror, teve imensas dificuldades em ser exibido, porque estávamos perante um universo que sabemos existir, mas ao qual muitas vezes viramos a cara e no entanto eles são tão humanos como nós e possuidores dos mesmos sentimentos, sejam eles amor ou ódio.
A controvérsia perante esta película foi tão grande no interior da própria MGM, uma das Major de Hollywood, que o próprio Irving Talberg teve que intervir, dando o seu aval ao filme de Tod Browning.
Iremos assim conhecer o anão Hans (Harry Earler) que gosta de Frieda (Daisy Earler), uma mulher da sua estatura, mas que vive eternamente apaixonado pela bela Cleópatra (Olga Bacianova), que permanentemente o despreza, até um dia descobrir que ele é herdeiro de uma enorme fortuna. O sabor do dinheiro irá levá-la a seduzir e casar com o pequeno Hans, para depois o envenenar e ficar com a sua fortuna. Mas como muitas vezes o destino se escreve por linhas bem tortuosas, a sua sorte será bastante amarga, quando os seus antigos companheiros de circo descobrem o plano arquitectado.
Estamos assim perante um filme de terror, único no género, que foi muito mal recebido na época da sua estreia, embora hoje em dia pertença a essa galeria inclassificável dos “cult-movies”, onde convivem os filmes mais diferentes que se possam alguma vez imaginar.
A forma como Tod Browning filma o quotidiano das suas personagens é profundamente humana, mas também arrepiante, porque se recusa a encarar a diferença como uma anormalidade.
“Freaks” / “A Parada dos Monstros” permanece um verdadeiro “ovni” na História da Sétima Arte, mas que merece bem ser recordada. Se desejarem conhecer o cineasta Tod Browning não deixem de descobrir os seus filmes do período mudo, com esse actor inesquecível chamado Lon Chaney.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (**)

Terça-feira, Maio 12, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

M MATOU / M

FRITZ LANG – (ALE – 1931) - (99 min - P/B)

PETER LORRE, OTTO WERNICKE, GUSTAV GRUNDGENS.


Em 1931 Fritz Lang irá oferecer-nos um dos seus filmes mais famosos, partindo de um caso que ficou conhecido na imprensa como “O Vampiro de Dusseldorf” e, como não podia deixar de ser, a sua mulher Thea von Harbou, habitual colaboradora nos argumentos do filme do cineasta, dissecou o estado de uma nação a partir deste caso do quotidiano.
Peter Lorre irá vestir a pele do assassino de crianças Frantz Becker, que gosta de assobiar uma melodia cativante, enquanto passeia pelas ruas da cidade, em busca das suas pequenas vítimas indefesas.
O rosto do assassino é o de uma criança crescida, quase inofensiva, escondendo o mal que lhe vai na alma. Elisa Beckmann será mais uma das suas vítimas e a polícia chefiada pelo célebre comissário Lohmann (Otto Wernicke) começa a prender todos os suspeitos que vivem na cidade, atormentando o organizado mundo do crime.
E serão precisamente estes elementos, que vivem no sub-mundo da cidade, que irão efectuar uma verdadeira caça ao homem, para não verem a sua organização desmantelada.
No dia em que um deles descobre finalmente a identidade do homem mais perseguido da cidade, desenha nas suas costas a letra M, com um pedaço de giz, para os seus acólitos o identificarem. Perseguido de forma impiedosa e finalmente encurralado, Frantz Becker acaba por ser apanhado pelos malfeitores, que decidem fazer o seu julgamento, segundo a sua própria justiça, condenando-o de imediato à morte.
Durante o julgamento vimos o medo estampado no rosto de Frantz Becker, que ingenuamente se defende das acusações, proclamando a sua inocência. E aqui Fritz Lang oferece a Peter Lorre o mais célebre momento da sua carreira de actor.
Mas quando o temido assassino está prestes a ser linchado pelos malfeitores, a polícia invade o esconderijo e prende-o.
Na época esta película extraordinária atormentou muito “boa gente”, porque o filme fala precisamente de um poder que estava prestes a surgir. Mais uma vez, o genial cineasta alemão filma o mal, da mesma forma perfeita com que tinha criado o célebre Dr. Mabuse.
(Re)ver “M – Matou” é na verdade entrar pela porta grande do Cinema e descobrir no écran, uma das mais espantosas criações desse grande actor que foi Peter Lorre.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Maio 11, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

O ANJO AZUL / DER BLAUE ENGEL

JOSEF VON STERNBERG – (ALE – 1930) - (109 min -P/B)
MARLENE DIETRICH, EMIL JANNINGS, KURT GERRON, ROSA VALETTI.

“O Anjo Azul” teve o condão de revelar uma das maiores estrelas do cinema, a hoje mais que célebre Marlene Dietrich. No entanto, na época em que o filme foi realizado, ela era uma verdadeira desconhecida, sendo a estrela do filme Emil Jannings esse actor poderoso que se deu mal na América, quando o mudo passou a sonoro, devido à sua dificuldade com a língua inglesa. Josef von Sternberg irá construir com esta película, baseada no romance de Heirich Mann, uma das obras-primas do cinema.
O professor Rath (Emil Jannings), todas as manhãs, depois do seu célebre relógio de cuco tocar, sai de casa e dirige-se ao colégio onde é um professor respeitável mas, cada vez mais, os seus alunos não lhe dão qualquer atenção durante as aulas, chegando alguns até a adormecer, até que descobre que eles frequentam um cabaret onde a bela Lola (Marlene Dietrich), seduz os espectadores. Ao entrar nesse antro de imoralidade ele, que é um homem de bons costumes, é de imediato visto pelos alunos, que começam a fugir da sala, embora alguns não escapem a uma valente repreensão, dada pelo professor. Decidido a colocar um ponto final no problema, vai falar com a estrela da companhia, a bela e sensual Lola, cujas pernas enfeitiçam os espectadores.
No entanto a mulher que ele encontra é bem diferente do que pensava e rapidamente se apaixona por ela, começando a assistir aos seus espectáculos, onde é tratado com toda a referência. Rapidamente a paixão irá conduzi-lo à cegueira, terminando por se casar com ela e acompanhá-la numa digressão da companhia.
Iremos assim assistir à queda no abismo mais profundo do honrado professor Rath, que rapidamente começa a fazer parte do espectáculo como palhaço, sujeitando-se a tudo. À medida que o tempo passa, esse belo anjo azul transforma-o num homem ridículo e, quando a companhia decide regressar à cidade onde ele fora outrora um professor respeitável, todos os demónios se apoderam dele.
A humilhação a que é sujeito perante todos os que o conheceram leva-o à beira da loucura até que, transformado num verdadeiro farrapo humano, deixa para trás a mulher que o enfeitiçou, dirigindo-se à sua antiga sala de aula, onde se senta na sua antiga secretária e deixa que a dor lhe consuma a alma, num derradeiro gesto, em busca da dignidade perdida.
“Der Blaue Engel” respira sensualidade e amargura por todos os poros, estando a interpretação de Emil Jannings ao nível de “O Último dos Homens” de Murnau.
Josef von Sternberg conduz a luminosidade do expressionismo ao seu esplendor, utilizando o preto e branco de forma mais-que-perfeita.
“O Anjo Azul” permanece uma das obras mais dolorosas e geniais da carreira do cineasta.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Domingo, Maio 10, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

A PAIXÃO DE JOANA D’ARC / LA PASSION DE JEANNE D'ARC

CARL DREYER – (FRA – 1928) - (110 min/Mudo)

FALCONETTI, EUGÉNE SILVAIN, ANDRÉ BERLEY, MAURICE SCHULTZ.


A história de Joana D’Arc já foi por diversas vezes retratada no cinema, ao longo dos anos, mas será sempre a visão que nos ofereceu o dinamarquês Carl Theodor Dreyer que fica para sempre registada como a obra-prima absoluta.
O cinema de Dreyer, na época, era já conhecido de todos, mas para o enorme esplendor da película contribuiu decididamente o rosto mais que expressivo de Falconetti, actriz oriunda da Comédie-Française (este seria o seu único filme), que aceitou rapar o cabelo e oferecer todo o seu talento ao protagonizar esta filha do povo, que um dia se viu traída pelos seus pares, ficando prisioneira dos ocupantes ingleses, que a irão julgar e torturar, para depois a condenarem a morrer na fogueira.
A forma como Dreyer nos oferece o rosto martirizado de Falconetti, com aquele olhar que ficou na história do cinema e que faz arrepiar o mais comum dos mortais, fala por si. Aliás Jean-Luc Godard faz a sua homenagem ao filme quando, em “Vivre sa Vie”, Anna Karina vai ao cinema ver a película de Dreyer e descobrimos o campo-contracampo dos rostos de Karina e Falconetti, num dos momentos mais sublimes da História do Cinema.
O cineasta dinamarquês usa o grande plano com uma força expressiva até então nunca vista e sentimos o próprio medo a invadir-nos o corpo, quando deparamos com o rosto dos carrascos sem alma que interrogam a prisioneira.
Na verdade, ao (re)vermos “La Passion de Jeanne D’Arc”, sentimos o respirar da própria alma e, à medida que se aproxima o fim da jovem heroína, as lágrimas que lhe correm pelo rosto dizem mais que todas as palavras possíveis.
Carl Dreyer, a propósito deste filme, afirmou que o pretendido era mostrar que os heróis da História são também profundamente humanos. A “Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer oferece-nos um verdadeiro rio de sentimentos, nesse rosto angélico e torturado dessa espantosa actriz chamada Marie Falconetti.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Sábado, Maio 09, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

AURORA / SUNRISE

FRIEDRICH WILHELM MURNAU – (EUA – 1927) - (117 min/Mudo)

GEORGE O'BRIEN, JANET GAYNOR, MARGARETH LIVINGSTONE.

Quando Murnau chegou aos Estados Unidos, a convite da Fox, foi-lhe de imediato dada carta branca para filmar e assim nasceria “Sunrise”, uma das mais admiráveis histórias de amor do cinema. Estamos assim perante a história da célebre tentação, personificada aqui pela vamp (Margaret Livingstone), que tudo irá fazer para seduzir George O’Brien, esse fiel esposo que um dia decide assassinar a mulher angélica que vive com ele. Mais uma vez Murnau usa o travelling e a luz como só ele sabia fazer. Mas ao chegar a esse momento capital o marido, enfeitiçado pela vamp, desiste do seu objectivo e mais uma vez Deus irá escrever o destino por portas e travessas, quando ele pensa que a mulher morreu. A forma celestial como nos é oferecido o rosto de Janet Gaynor, a esposa, ao longo do filme é surpreendente, em contraste com o rosto da vamp e quando o cineasta parte do campo para essa cidade cheia de luz e movimento, percebemos como o destino daquele par será escrito pelo amor que nutrem um pelo o outro. “Aurora” recebeu na época o Óscar para a melhor produção de qualidade artística, o equivalente a melhor filme.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Sexta-feira, Maio 08, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

NANOOK O ESQUIMÓ / NANOOK OF THE NORTH

ROBERT FLAHERTY – (EUA – 1922) - (50 min/Mudo)


Robert Flaherty é um dos pioneiros do documentarismo que desde muito cedo se sentiu fascinado pelo cinema. No início de 1913 decide filmar a vida dos esquimós, compartilhando o seu quotidiano, fascinado por aquela gente que luta diariamente pela sobrevivência. No entanto as condições em que era guardada a película não eram as melhores e o impensável aconteceu naturalmente, quando um incêndio destruiu o trabalho do cineasta. Inconformado pelo sucedido Robert Flaherty decide, anos depois, retomar as filmagens graças ao apoio da firma francesa Revillon e com a ajuda de Nanook e da sua família oferece-nos o seu olhar sobre a vida deste povo que vivia bem longe da dita “civilização”. A forma como os esquimós encararam as filmagens, demonstrando um naturalismo fabuloso, irá contribuir decididamente para o sucesso do filme de Robert Flaherty. Estreado em 1922, transforma-se rapidamente num êxito estrondoso, continuando a ser nos dias de hoje um dos grandes marcos do documentarismo. Em Nova Iorque eram vendidas nos cinemas peças ditas oriundas dessa região, mas os actores não profissionais desta película nunca viram as suas condições de vida alteradas e, dois anos depois das filmagens, Nanook irá morrer na terra que o viu nascer ao frio e à fome.

PS - Recentemente a TV5 exibiu um excelente documentário sobre o filme.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Quinta-feira, Maio 07, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

O GABINETE DO DR. CALIGARI / DAS KABINETTE DES DOKTOR CALIGARI

ROBERT WIENE – (ALE-1919) - (78 min/Mudo)
WERNER KRAUSS, CONRAD VEIDT, LIL DAGOVER, FRIEDRICH FEHER.

O nome de Robert Wiene fica associado à Sétima Arte através deste espantoso filme, que nos oferece cenários até então nunca vistos no cinema. O expressionismo tem assim aqui a sua obra-prima, através dos espantosos cenários construídos para o filme, em que as ruas e as casas possuem espaços totalmente inovadores, oferecendo-nos uma visão deformada da realidade. No início da película vamos encontrar um jovem a relatar a sua aventura a um ouvinte atento, desconhecendo o espectador o verdadeiro lugar onde estes se encontram. Tudo começou numa feira em que era exibido uma estranha personagem sonâmbula, que irá estar ligada a misteriosos desaparecimentos de pessoas, sendo a namorada do protagonista uma das vítimas. Acima de tudo, o que se pretende, é demonstrar como a diferença é encarada como loucura. Ao vermos esta película percebemos como ela na época já apontava os caminhos que espreitavam perigosamente a Alemanha.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Quarta-feira, Maio 06, 2009


FOTOGRAMAS – CINEMA

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO / THE BIRTH OF A NATION
DAVID WARK GRIFFITH – (EUA – 1915) - (170 min/Mudo)

HENRY B. WALTHALL, MIRIAM COOPER, MAE MARSH, LILIAN GISH.

A linguagem cinematográfica, como todos sabemos, foi criada por D. W. Griffith e foi com “O Nascimento de Uma Nação” que o cinema deu um passo de gigante, não só devido à sua longa duração, como também aos meios envolvidos na sua feitura. O cineasta dirigiu verdadeiras multidões neste relato passado em 1860, numa época em que se desenrola a guerra civil americana, nunca escondendo a sua costela sulista, ao mesmo tempo que faz o elogio do Ku Klux Klan como salvadores da Pátria, como vemos no filme quando eles salvam a família do cerco que lhes foi feito pelos negros. Por este motivo o filme foi classificado por muitos como racista, originando na época verdadeiros motins nas sessões, tendo até sido proibida a sua exibição em alguns Estados, mas se olharmos para a genialidade da construção filmica do cineasta, somos obrigados a considerar que estamos perante uma das grandes obras-primas do cinema.
David Wark Griffith sempre se defendeu das acusações que lhe foram feitas, dizendo que apenas se baseava em factos e para o provar irá realizar anos mais tarde uma obra ainda maior sobre a intolerância ao longo da História. A película em questão irá chamar-se precisamente “Intolerance” e ao contrário de “The Birth of The Nation” não irá ter o sucesso deste, levando Griffith à ruína e ao esquecimento dos seus pares, terminando os seus dias a viver num quarto de hotel em Hollywood. Ele que foi um dos fundadores da United Artists, no dia do seu funeral não teve nenhum dos nomes famosos do cinema a quem ofereceu o seu génio, a acompanharem-no até à última morada. Raoul Walsh, que dirigiu uma das equipas de filmagem em “Nascimento de Uma Nação ao mesmo tempo que vestia no filme a pele no do assassino do Presidente Lincoln, referiu-se nestes termos à importância do filme: “Foi preciso “Nascimento de Uma Nação” para convencer o mundo de que Hollywood atingira a maturidade. Esta longa-metragem representa um ponto de viragem na história do cinema”.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Terça-feira, Maio 05, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

A VIAGEM À LUA / LE VOYAGE DANS LA LUNE


GEORGE MÉLIÈS - (FRA-1902) - (14 min/Mudo)

GEORGE MÉLIÈS, VICTOR ANDRÉ, DEPIERRE, FARJAUX, KELM.


George Méliès foi o homem que, depois de ter visto os filmes dos irmãos Lumière, percebeu que tinha nascido uma nova Arte e de imediato decidiu construir um Estúdio em Montreuil-sous-Bois, onde irá desenvolver intensa actividade, sendo o inventor dos hoje mais que conhecidos efeitos especiais. No entanto estes surgiram por acaso quando filmava numa rua de Paris: a câmara encravou e quando retomou as filmagens criou o primeiro efeito especial. Este génio sonhador, leitor de Júlio Verne, decidiu passar para o cinema a famosa Viagem à Lua e no seu Estúdio decide criar o evento.
Iremos no início assistir ao congresso de Astronomia onde se encontra o famoso professor Barbenfouillis que decide construir um canhão para lançar o foguetão para o espaço, rumo a Lua. Conseguido o feito, os seus tripulantes irão desembarcar no planeta e descobrir nele os famosos selenitas com cabeça de camarão (habitantes do Planeta), mas também irão descobrir uns estranhos e perigosos cogumelos, para além das inevitáveis estrelas que navegam no espaço. Contando com a colaboração de bailarinos e acrobatas do Folies Bergére, George Méliès constrói uma obra que irá ficar para a história do cinema como o primeiro filme de ficção-cientifíca. Regressados à terra, os tripulantes da nave são recebidos como heróis, o mesmo sucedendo a Méliès que rapidamente se transforma num cineasta de renome mundial. Mas a luta que então se desenvolvia no meio cinematográfico, ainda nascente, irá conduzi-lo rapidamente à ruína, terminando os seus dias a gerir uma pequena loja de brinquedos na estação de Montparnasse, esquecido por todos. Este filme encontra-se em exibição permanente no Museu da Cinemateca Francesa e a sua visão é um dos mais belos acontecimentos a que um cinéfilo pode assistir.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Maio 04, 2009

FOTOGRAMAS – CINEMA

CHEGADA DE UM COMBOIO / L’ARRIVÉE D’UN TRAIN EN GARE DE LA CIOTAT
LOUIS LUMIÈRE - (FRA - 1896) - (1 min/Mudo)

Como todos sabemos, os irmãos Lumière nunca acreditaram nas potencialidades comerciais do cinema, mas a verdade é que eles foram os fundadores de uma nova Arte. O seu filme “Chegada de um Comboio”, com uma duração de cerca de um minuto, irá fazer história tornando-se uma preciosidade da Sétima Arte.
O operador colocou a câmara na estação de la Ciotat e iniciou a filmagem, ao longe vê-se um comboio a chegar e à medida que ele se aproxima da plataforma da estação, o pânico irá instalar-se nos espectadores que assistiam à projecção do filme, no interior de uma cave de um café, situado no Boulevard des Capucines (1), nesse ano de 1895 e de imediato começaram a tentar sair da sala cheios de medo, poderemos dizer que o pânico se tinha instalado. Iremos assim assistir à chegada do comboio à estação e depois de ele estar parado vemos os passageiros a sair do comboio. O cinema acabara de nascer!

(1) - O café, que se situava perto da Ópera Garnier, será destruído muitos anos depois por um incêndio.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Sexta-feira, Maio 01, 2009

FOTOGRAMAS – MUSICA

CULTURA OU UMA QUESTÃO DE EDUCAÇÃO?

O penúltimo concerto a que assisti foi no dia 8 de Março em Paris na Cité de la Musique, onde tive a oportunidade de presenciar a um espantoso concerto dado por William Christie e o seu Les Arts Florissants e os Solistas do Jardin des Voix (Emmanuelle de Negri, Tehila Nini Goldstein, Katherine Watson – sopranos; Maarten Engeltjes – contra-tenor; Sean Clayton – tenor; Andreas Wold – barítono-baixo). O concerto foi espantoso, viajando pelo barroco francês e visitando Henry Purcell. Mas fabuloso foi também a audiência que esgotava o recinto e que não arredou pé a aplaudir a actuação dos participantes. Estava em Paris e senti-me feliz.

O último concerto a que assisti foi hoje, dia 1 de Maio, na Gulbenkian. Na primeira parte tivemos duas peças maravilhosas de Max Bruch, com Amanda Forsyth no violoncelo; depois seguiu-se uma espantosa interpretação de Pinchas Zukerman como solista no violino, no concerto para violino e orquestra de Olivier Knussen. Embora a sala não estivesse esgotada o público correspondeu à portuguesa, com palmas “moderadas”. Mas durante o intervalo um cavalheiro que pratica jornalismo cultural na RTP, sentou-se na fila da frente e começou em alta voz, quase aos gritos a falar com a senhora sentada ao meu lado, o assunto era a RTP, entretanto entra Pinchas Zuckerman para dirigir a orquestra Gulbenkian na Segunda Sinfonia de Beethoven e a conversa continuava bem alto. O dito jornalista dizia que determinado programa cultural da RTP-2 tinha uma audiência de 0,00001 % de audiência, enquanto a senhora falava em 700.000 espectadores e Pinchas Zuckerman dá início ao primeiro andamento da Sinfonia. E só nessa altura o dito jornalista cultural se calou sentando-se na cadeira como se estivesse deitado no sofá. Mal terminou o quarto andamento da sinfonia, voltou-se para trás e no mesmo tom de voz retomou a conversa, falava tão alto que quase abafava os aplausos saídos daquela zona. É claro que ele, jornalista cultural, não aplaudiu.
Ao sair da sala recordei-me da senhora de cerca de oitenta anos que sentada ao meu lado em Paris aplaudiu e vibrou com Les Arts Florissants, não arredando pé do lugar nem regateando aplausos.
Quando voltar a ver a figura de Rui Lagartinho na televisão mudarei de imediato de canal, mas se o voltar a encontrar num concerto espero que ele tenha um pouco mais de respeito pelos intérpretes, porque eles merecem o nosso aplauso, quando dão o seu melhor, como sucedeu esta noite, neste concerto.

Rui Luís Lima