Sábado, Fevereiro 28, 2009

MAIS UM ANIVERSÁRIO!

OBRIGADO A TODOS OS QUE NOS VISITARAM AO LONGO DESTES TRÊS ANOS DE "PAIXÕES E DESEJOS".

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

VALE A PENA LER

ALBERT CAMUS
O ESTRANGEIRO
EDITORA: LIVROS UNIBOLSO

Em França, Inglaterra e nos Estados Unidos, os livros de bolso prosseguem a sua aventura no célebre formato e tipo de papel, a preços mais do que convidativos mas, por aqui, essa aventura só se vive indo aos alfarrabistas em busca dessas edições que me oferecem sempre um novo mundo.
Talvez por isso decidi ler “O Estrangeiro” / “L’Étranger” de Albert Camus (Unibolso). E qual não é a minha surpresa, ao encontrar uma introdução de Jean-Paul Sartre a esse mesmo livro que ofereceu novos mundos à literatura. Escreve Sartre o seguinte: “Mal saíra dos prelos, O Estrangeiro de Camus obteve a maior aceitação. Toda a gente dizia que «era o melhor livro desde o armistício». No meio da produção literária desse tempo, este romance era, ele próprio, um estrangeiro. Chegava-nos do outro lado da linha, da outra banda do mar; falava-nos do Sol, nessa amarga Primavera sem carvão, não como uma maravilha exótica mas sim com a cansada familiaridade daqueles que por de mais o gozaram; não era sua preocupação o sepultar mais uma vez o antigo regime nem o penetrar-nos com o sentimento da nossa indignidade; ao lê-lo lembrávamo-nos de que outrora haviam existido obras que pretendiam valer por si próprias e que não queriam provar o que quer que fosse.”.

Quando olhamos a história da vida de Mersault, essa personagem quase anónima criada por Albert Camus, que habita nos intervalos da chuva, descobrimos esse reino do absurdo em que o mero acaso de um gesto termina com uma vida e uma condenação que pretende ser um exemplo, nessa Argel ainda colónia francesa, em que tudo irá servir para condenar o estrangeiro na sua própria pátria.
Desde o facto de não ter chorado no funeral da mãe, até o ter ido com uma mulher no dia seguinte ao cinema ver um filme com o Fernandel (uma comédia!) serve de acusação. Mas a forma como este anti-herói aceita o seu destino, tão profundamente kafkiano, oferece-nos o triunfo do absurdo. Recorde-se que o mundo e a vida, para Mersault, já não tem qualquer significado e a forma como ele encara o seu destino demonstra bem que ele já não se reconhece como ser humano, ficando indiferente a tudo e todos, simplesmente esperando a hora da partida.
Se olharmos o mundo sentados numa esplanada, vendo a vida a passar, quantos Mersault se cruzam connosco, indiferentes à passagem das horas?

«Trabalhei muito, durante toda a semana. Raimundo veio visitar-me, dizendo que mandara a carta. Fui duas vezes ao cinema com o Manuel, que nem sempre compreende muito bem o que se passa na tela. Preciso de lhe ir explicando o filme. Ontem foi sábado e, como ficara combinado, a Maria veio a minha casa. Desejei-a intensamente, porque trazia um vestido às riscas brancas e encarnadas e sandálias de couro. Adivinhavam-se-lhe os seios duros e o queimado do sol dava-lhe uma cara de flor. Tomámos um autocarro e fomos para uma praia cercada de rochedos e com canteiros de rosas do lado da terra, a alguns quilómetros de Argel.»

Albert Camus


Por tudo isto Vale a Pena Ler “O Estrangeiro” de Albert Camus.

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

BRIGADA DE ELITE / MULHOLLAND FALLS

LEE TAMAHORI – (EUA – 1996) – (107 min/Cor)

NICK NOLTE, MELANIE GRIFFITH, CHAZZ PALMINTERI, MICHAEL MADSEN, CHRIS PENN, JENNIFER CONNELY, TREAT WILLIAMS, JOHN MALKOVICH, ABDREW McCARTY, DANIEL BALDWIN.

Lee Tamahori iniciou a sua actividade como fotógrafo, depois passou a director de fotografia e assistente de realização. Durante 10 anos viveu no universo da publicidade, onde foi por diversas vezes premiado. Na televisão aprendeu a arte da realização, como muitos outros e depois foi o estrondoso sucesso do seu filme de estreia “A Alma dos Guerreiros” / “Once Were Warriors” (já abordado nestas páginas e que surpreendeu tudo e todos quando foi exibido no Festival de Montreal). Aliás, quando Fanny Ardant visitou a Cinemateca Portuguesa, foi-lhe sugerida a escolha de um filme para ser apresentado por ela e a actriz francesa optou precisamente pela obra de estreia do cineasta neo-zelandês, que nesta película nos oferece um retrato espantoso da comunidade Mahori.

Como sabemos, Hollywood nunca brinca em serviço, embora alguns pensem o contrário, e de imediato Lee Tamahori foi convidado a dirigir um filme nos States. Desafio aceite pelo cineasta, tendo os Estúdios disponibilizado os meios necessários para ele recriar a atmosfera desses anos cinquenta, em que o “film noir” dava cartas.
Tendo o excelente director de fotografia Haskell Wexler consigo, Lee Tamahori oferece-nos um filme sem falhas, que nos agarra do primeiro ao último fotograma, possuindo um elenco masculino de primeira água, ao mesmo tempo que Melanie Griffith cumpre na personagem que lhe foi destinada e Jennifer Connely surge aqui como um verdadeiro sex-symbol. Se a virmos hoje, uma dúzia de anos depois, não poderemos dizer o mesmo infelizmente.

Durante a década de cinquenta, os gangsters tudo fizeram para estabelecer os seus negócios nesse paraíso cinematográfico chamado Hollywood mas a polícia local, bem conhecida pela forma violenta como actuava, sempre impediu o estabelecimento do mundo do crime, na capital do cinema. E será precisamente isso que iremos descobrir logo no início da película, quando vemos em acção a brigada chefiada por Max Hoover (Nick Nolte) a invadir um restaurante de luxo e a levar dali um dos senhores de Chicago, conduzindo-o pela célebre Mulholland Drive, até ao cimo das colinas, para de seguida o lançarem pela declive abaixo, dando-lhe desta forma a conhecer a sua Mulholland Falls (que dá o nome ao filme), ou seja, o local predilecto da polícia para inibir as chefias do crime de se estabeleceram na Califórnia, com os resultados positivos que todos sabemos, apesar dos seus métodos infrigirem, a maioria das vezes, a própria lei que diziam fazer cumprir.

Esta brigada é chefiada por Max Hoover e tem como seus adjuntos Eddie Hall (Michael Madsen), Arthur Relyea (Chris Penn) e Elleroy Coolidge (Chazz Palminteri), esse polícia que tem sessões de psicanálise para conseguir dormir descansado. Uma manhã esta brigada de elite será chamada a uma zona onde estão a fazer terraplanagens, onde se encontra o corpo sem vida de uma jovem, chamada Allison Pond (Jennifer Connely). A forma como foi morta é um mistério, apresentando o seu belo corpo dezenas de fracturas, por ele espalhadas.
No entanto, este não será mais um crime para investigar pelo detective Max Hoover e a sua equipa, porque ele conhece a rapariga, embora o esconda de todos. Allison, que fora sua amante durante seis meses, não passa de uma das milhares de girls que partiram para Hollywood em busca de um lugar ao sol, lugar esse que as conduziria na maioria das vezes à prostituição encapotada ou bem visível, consoante o sucesso que tinham na captura das presas. Mas no dia em que chega à esquadra uma bobine endereçada a Max Hoover, com imagens de Allison a fazer amor com uma pessoa cuja identidade se desconhece inicialmente, o detective percebe que quem lhe enviou o filme possui muito mais imagens dela, com outras pessoas, estando certamente ele próprio na mira da possível chantagem.

Tudo parece encaminhar-se para esse jogo de gato e rato, quando este detective que nos faz recordar Raymond Chandler e Mickey Spillane, conhece o autor das filmagens, o jovem Jimmy Fieis (Andrew McCarthy), que as fazia através do habitual espelho falso, sem os protagonistas do quarto ao lado do seu saberem o que se passava.
Numa primeira leitura podemos dizer que estamos perante mais um caso igual a tantos outros, mas lentamente vamos descobrir que naquele filme que foi enviado para a esquadra se encontram imagens mais que proibidas e será precisamente isso que descobrimos quando sabemos que a última pessoa a ver viva a bela Allison Pond, foi o general Timms (John Malkovich), um dos pais da bomba atómica. De imediato o filme muda de registo, conduzindo-nos a esses inícios dos anos cinquenta em que o exército americano fazia experiências nucleares no deserto, com as suas próprias tropas, porque só assim podiam estudar a evolução da radioactividade no corpo humano.

“Brigada de Elite” transforma-se de um filme policial numa obra com uma mensagem política. Olhando a história recente da América e o célebre segredo militar, em defesa da nação, percebemos as palavras ditas pelo general Timms: “para se salvarem mil temos que sacrificar cem”. Como sabemos a história contemporânea está recheada deste género de acontecimentos, infelizmente.
Lee Tamahori conduz com uma eficácia espantosa este seu primeiro trabalho em território americano, conseguindo oferecer-nos uma reconstituição de época perfeita, com uma boa direcção de actores, sendo sempre de destacar a composição que John Malkovich faz da personagem que interpreta.
Em “Brigada de Elite”, como vemos no final, não há vencedores, todos saiem derrotados. “Mulholland Falls” de Lee Tamahori é uma obra que merece ser revista, para não cair no esquecimento, numa época em que as modas eliminam a memória cinéfila.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (***)

Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009

A CULPA HUMANA / THE HUMAN STAIN

ROBERT BENTON – (EUA/ALE/FRA – 2003) – (107 min/Cor)

ANTHONY HOPKINS, NICOLE KIDMAN, ED HARRIS, GARY SINISE, WENTWORTH MILLER.

Robert Benton é um cineasta que nunca deixou os seus créditos por mãos alheias e, quando olhamos para a sua obra, percebemos como ele investe nas personagens que cria no écran, fruto desse seu trabalho de argumentista, com que iniciou a carreira na Sétima Arte. Recorde-se que ele é o argumentista de “Bonnie and Clyde” (1967), esse filme charneira de Arthur Penn, que abriu caminho a cineastas como Martin Scorsese.
Curiosamente a estreia de Robert Benton na realização deu-se com a feitura do “western”, “Bad Company”, numa época em que o género se encontrava em revisão ou homenagem, se preferirem, levada a cabo pelos jovens realizadores que então surgiam.

Depois a carreira de Robert Benton ofereceu-nos obras como “Kramer Contra Kramer” / “Kramer vs. Kramer”, “Places in the Heart” (brilhante Sally Field), “Nobody’s Fool” (fabuloso elenco) ou “Twilight” (a revisão do “film noir” com o inesquecível Paul Newman), só para referir alguns títulos.
Quando o conhecido Philip Roth escreveu “The Human Stain”, muitos viram nessa obra poderosa um convite a passá-la ao cinema e seria Nicholas Meyer (também ele realizador) que levaria a cabo a tarefa, sendo encarregado Robert Benton de o passar ao grande écran. Mais uma vez o conhecido escritor norte-americano recorria ao seu personagem Nathan Zuckerman (Gary Sinise), como narrador da história sendo esta personagem, como sabemos, uma espécie de alter-ego de Philip Roth.

“A Culpa Humana” conta-nos a história de Coleman Silk (Anthony Hopkins), Reitor de um colégio de New England, onde exerce também a disciplina de Estudos Clássicos e que um dia é vítima de um processo disciplinar acusado de racismo, só porque tinha feito um comentário acerca de dois alunos que nunca vira nas aulas. Estamos assim perante uma vítima do politicamente correcto, porque Coleman Silk, que até nunca vira os alunos, desconhecia que eram ambos negros, tendo estes visto ali uma oportunidade para atacarem o Reitor do colégio, tornando-se célebres. Curiosamente, Coleman Silk até fora o homem que convidara o primeiro professor afro-americano para exercer funções no seu colégio, mas mesmo assim esse mesmo colega, na altura decisiva, não o apoia porque o politicamente correcto fala sempre mais alto, infelizmente, como todos sabemos.

Coleman Silk, ao ver-se abandonado por todos os que sempre o rodearam, não encontra outra solução senão demitir-se das funções, ficando desempregado, ao mesmo tempo que a sua esposa não resiste aos acontecimentos e sofre um colapso cardíaco, vindo a falecer. A vida do professor de estudos clássicos torna-se uma espécie de morte adiada, até chegar esse momento em que decide procurar o escritor Nathan Zuckerman (Gary Sinise), para lhe contar a sua história, no intuito do escritor a transformar em obra literária, mas no interior da vida de Coleman Silk, vive um segredo que ele carrega desde a adolescência, um segredo que ele só irá revelar a essa jovem mulher da limpeza Faunia Lester (Nicole Kidman), que ele conhece um dia na estação dos correios, que, tal como ele, também carrega todo o peso do passado nas suas costas.

“The Human Stain” é, sem dúvida alguma, um filme profundamente doloroso, que nos agarra desde o primeiro ao último minuto, com um processo narrativo onde o “flash-back” é usado de forma perfeita, contando-nos o passado do jovem Coleman Silk e a luta que ele travou com a sua consciência para sobreviver num mundo imperfeito.
Embora a escolha de Anthony Hopkins tenha gerado alguma controvérsia na crítica, devido à personagem a que dá vida, achamos que ele nos oferece uma das suas melhores interpretações, da mesma forma que Nicole Kidman, nos oferece um dos seus melhores trabalhos de sempre, já Ed Harris e Gary Sinise comprovam mais uma vez os excelentes actores que são, todos eles dirigidos com a habitual eficácia de Robert Benton.
“A Culpa Humana” é um filme profundamente doloroso e genial, que nos convida à meditação sobre o mundo em que vivemos, ou não fosse ele baseado num livro desse extraordinário escritor chamado Philip Roth.

PS – O filme já se encontra editado em dvd e passa regularmente no pequeno écran.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

VALE A PENA LER

AGATHA CHRISTIE
HERCULE POIROT
A AVENTURA DO BOLO DE NATAL
EDITORA: ASA


Quando se fala da obra de Agatha Christie, possivelmente a mais famosa escritora de romances policiais, de imediato nos vem à memória a mais célebre personagem por ela criada: o detective belga Hercule Poirot.
Este homenzinho, como ela lhe gosta de chamar, sempre com as suas célulazinhas cinzentas a trabalhar em perfeita harmonia com os crimes, possui uma inteligência que deixa sempre de rastos o seu bom amigo Capitão Arthur Hastings, ao mesmo tempo que consegue surpreender, sempre, e mais uma vez, o bom Inspector Chefe James Japp.
Antigo chefe da polícia belga, Hercule Poirot foi obrigado a procurar refúgio em Inglaterra, após estalar a Primeira Grande Guerra, tendo por lá ficado, embora nunca venha a travar uma sólida amizade com a cozinha britânica, porque este homem de sabor requintado nunca irá mergulhar o seu paladar na comida bárbara daquelas ilhas.

Ao longo dos anos, Agatha Christie deliciou o mundo da literatura com as investigações de Hercule Poirot, um verdadeiro gentleman, com esse sorriso simpático, que lhe faz sobressair o célebre bigode, sempre devidamente cuidado. Depois sabemos que ele é o homem do método dedutivo e da simetria, com as suas célebres reuniões com os principais suspeitos, para revelar com “pompa e circunstância” a identidade do assassino.
Mas também nunca nos poderemos esquecer dessas duas personagens que tudo fazem para que o mundo de Poirot seja perfeito, no interior de sua casa: George, o mordomo que possui o verdadeiro sentido da palavra, ao contrário do capitão Hastings; Miss Lemon, a fiel secretária, que possui uma paciência de santa para levar a bom porto os desejos de Hercule Poirot, especialmente quando ele repara que os colarinhos das suas camisas, continuam a não ser devidamente engomados, por muitos esforços que Miss Felicity Lemon faça, na sua linguagem gestual, com o chinês da lavandaria, que não percebe uma palavra de inglês.

As novelas e contos de Agatha Christie, com Hercule Poirot no protagonista, encontraram na televisão, em David Suchet o actor mais-que-perfeito para encarnar o célebre detective e como todos estamos recordados foi um longo e duro trabalho do célebre actor britânico, na composição do famoso detective, que se estendeu de 1989 a 2008, sempre acompanhado pelos fiéis capitão Hastings (Hugh Fraser) e Miss Lemon (Pauline Moran), para além do Inspector Chefe Japp (Philip Jackson).
A produção da BBC foi sempre feita com grande cuidado e o mais curioso é a forma como Clive Exton, o mais importante de todos os argumentistas da série, conseguiu introduzir este trio em quase todas as histórias de que Hercule Poirot é protagonista já que eles, muitas vezes, não surgem nos livros escritos por Agatha Christie.
No cinema tivemos um Albert Finney espantoso na pele de Poirot, no famoso “Crime no Expresso do Oriente”, enquanto o excelente Peter Ustinov nunca nos conseguiu seduzir nos filmes em que interpretou o célebre detective belga, que todos pensam ser francês, para muita irritação de Poirot.

Agatha Christie refere-se a “A Aventura do Bolo de Natal” como uma extravagância pessoal, que lhe fazia recordar com muito prazer os Natais da sua juventude e, quando lemos este conto fabuloso, ficamos verdadeiramente deliciados pela forma como ele nos surge, totalmente diferente das habituais abordagens que a escritora fazia nos contos protagonizados por Poirot. Aqui, ao terminarmos a leitura do primeiro capítulo, descobrimos que permanecemos na escuridão, apesar do encontro de que somos testemunhas em casa de Hercule Poirot. Depois partimos com ele para essa Mansão onde se comemora essa maravilhosa festividade que é o Natal, para então irmos caindo de surpresa em surpresa. E neste fabuloso conto publicado pela primeira vez na Grã-Bretanha em 1960, temos o imperturbável e fiel George, a acompanhar Monsieur Hercule Poirot.

«A cena revelava efectivamente algum dramatismo, Bridget estava caída na neve a alguns metros de distância. Estava com um pijama escarlate e um agasalho de lã branco à volta dos ombros. O agasalho estava manchado de vermelho. Tinha a cabeça de lado, escondida por uma massa de cabelo preto espalhado. Um dos braços estava debaixo do corpo, o outro estava estendido com os dedos fechados e, no centro da mancha vermelha, erguia-se o cabo de uma grande cimitarra curda que o coronel Lacey ainda na noite anterior havia mostrado aos seus hóspedes.
- Mon Dieu! – exclamou Poirot. – Parece uma cena de teatro.»

Agatha Christie

Por tudo isto Vale a Pena Ler "A Aventura do Bolo de Natal", mais uma espantosa investigação de Hercule Poirot.

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

AMIGOS E VIZINHOS / YOUR FRIENDS & NEIGHBORS

NEIL LABUTE – (EUA – 1998) – (100 min/Cor)

BEN STILLER, AMY BRENNEMAN, AARON ECKHART, CATHERINE KEENER, JASON PATRIC, NASTASSJA KINSKI.

“Amigos e Vizinhos” é uma verdadeira pedrada no charco, no interior do cinema Americano. E dizemos isso porque Neil Labute, a quem alguns já chamaram o novo Woody Allen, oferece-nos neste filme um retrato das relações humanas que nos deixa a todos perfeitamente perplexos, pela simples razão de sabermos que muitas vezes é assim que elas se processam, embora nunca ninguém o reconheça. E quanto a essa comparação com Woody Allen, não estamos propriamente de acordo; pensamos antes que o seu cinema se aproxima muito mais do universo desse génio chamado David Mamet. Tal como Mamet, Neil Labute é oriundo do teatro, passando para o cinema peças de que foi autor e encenador, como sucedeu com “The Shape of Things” em que os intérpretes da peça seriam os mesmos do filme.

A aventura de Neil Labute na sétima arte começou quando “In the Company of Men” foi o filme sensação do Festival de Sundance em 1997, seguindo-se logo no ano seguinte este “Amigos e Vizinhos”.
O cinema de Labute é frontal e nunca cruel, porque ele funciona como um espelho do quotidiano e das relações humanas, essa mesmas relações que surgem muitas vezes suavizadas à superfície, mas que por vezes são bem brutais no interior desses lares por onde passamos tantas vezes, com as suas fachadas a irradiarem uma falsa felicidade.

“Your Friends & Neighbors” é uma obra que desde já não se recomenda a essas “pequenas sensibilidades”, que se escandalizam com o calão no interior do quotidiano, embora o pratiquem através da forma como agem no seu dia a dia, nesses pequenos gestos nunca fortuitos onde o cinismo impera, sempre com um sorriso nos lábios.
Por aqui vamos conhecer um grupo de amigos e vizinhos cujas vidas irão ser profundamente alteradas, porque nem sempre as relações humanas são aquilo que aparentam, nem sempre os casais com quem convivemos reflectem nos jantares em grupo a célebre verdade dos factos das suas tristes vidas.

E será assim que logo no início iremos perceber que a vida de Jerry (Ben Stiller) e Terri (Catherine Keener, mais uma vez surpreendente) é um profundo desastre na cama, ele não se cala por um minuto sequer e ela só pretende um pouco de silêncio, para poder usufruir um pouco do prazer de fazer amor. Já no território íntimo de Barry (Aaron Eckhart, actor convocado já por cinco vezes por Labute para protagonista dos seus filmes) e Mary (Amy Brenneman) as coisas também não são as melhores, devido ao egocentrismo dele.
Por outro lado Cary (Jason Patric, muito elogiado pela sua interpretação) possui um ressentimento profundo com as mulheres, tratando-as como simples objectos de prazer, para depois as transformar no seu ódio de estimação.

Ao assistirmos ao desenvolvimento destas vidas, iremos descobrir as inevitáveis traições entre “amigos”, ao mesmo tempo que Labute nos oferece aqueles momentos preciosos em que eles estão todos juntos a falar delas, e elas também todas juntas a falar deles, o que acaba sempre, como todos sabemos, por levar àquelas revelações causadoras de profundas tempestades entre os casais, muitas vezes provocando o naufrágio do doce lar que pensam habitar. Embora por vezes haja alguns que conseguem nadar para uma ilha, que pensavam deserta, e encontrem o amor em territórios até então inexplorados, como irá suceder com Terri (Catherine Keener) ao conhecer Cheri (Nastassja Kinski), a assistente do célebre artista que expõe na galeria, ou será melhor dizermos a secretária…

“Amigos e Vizinhos” oferece-nos um relato das relações humanas neste mundo em que vivemos, que nos fez recordar essa obra-prima de Woody Allen intitulada “Maridos e Mulheres”, mas para além da temática, que é na verdade idêntica, o filme de Labute é muito mais ácido e frio, mas nunca cruel, mesmo quando vimos no final quem é a pessoa que se encontra com Cary (Jason Patric) na cama. Percebemos então que ela está ali de livre vontade, numa tentativa de sobreviver e aprender a amar neste perigoso mundo, em que as relações humanas são cada vez mais cínicas.
É impossível ficarmos indiferentes perante o cinema de Neil Labute, um autor no verdadeiro sentido da palavra.

Rui Luís Lima (***)

Segunda-feira, Fevereiro 16, 2009

CHAMADA PARA A MORTE / DIAL M FOR MURDER

ALFRED HITCHCOCK – (EUA – 1954) – (105 min/Cor)

RAY MILLAND, GRACE KELLY, ROBERT CUMMINGS, JOHN WILLIAMS, ANTHONY DAWSON.

“Chamada Para a Morte” de Alfred Hitchcock é um daqueles filmes do Mestre, que poucos tiveram a oportunidade de visionar da forma como foi pensado. E dizemos isto porque ele foi feito no sistema 3D, as célebre três dimensões, que possibilitava ao espectador viver sensações únicas no écran, embora Hitchcock tenha trabalho o sistema de forma diferente da usada por outros cineastas, já que estes o utilizaram acima de tudo para criar o medo no espectador, enquanto Hitch pretendeu dar mais ênfase à questão do suspense e composição do plano: veja-se a forma como ele nos oferece a conversa entre Ray Milland e Anthony Dawson, primeiro filmando-os de cima, para depois os captar ao nível do chão, criando para isso um pequeno fosso para o operador. Depois, como todos sabemos, o filme acabou por ser distribuído comercialmente, numa cópia normal, sem a magia das três dimensões, por todo o mundo.

Esta obra de Hitchcock marca também o seu encontro com Grace Kelly, essa loura fria, que tão bem escondia o vulcão que vivia nela, como nos “mostrou” o cineasta nessa noite de “fogo de artifício” em “Ladrão de Casaca” / “To Catch a Thief”, sendo a outra colaboração entre os dois o célebre “Janela Indiscreta” / “Rear Window”.
Nunca saberemos quantos filmes faria Grace Kelly com Hitchcock, se um dia não tivesse querido ser Princesa, porque ela fez três filmes seguidos com ele e quando o projecto de “Marnie” surgiu, o cineasta lembrou-se dela e ela dele, mas o “povo do Mónaco” não deixou a sua Princesa regressar a esse “antro de perdição” chamado Hollywood.

“Dial M for Murder” é baseado numa peça de teatro da autoria de Frederick Knott, que também assina o argumento, e Hitchcock decidiu apresentar-nos o filme nunca escondendo que se tratava de uma peça, sendo os únicos exteriores a entrada do prédio, com a respectiva rua, transeuntes e automobilistas. Nunca veremos o jardim da casa, e só conheceremos o interior do restaurante, onde decorre o jantar de Ray Milland com um grupo de americanos, nessa noite da fatal chamada telefónica.

Tony Wendice (Ray Milland) é um conhecido jogador de ténis, que já deixou a carreira embora seja ainda bastante recordado pelos seus sucessos. Casado com a linda Margot (Grace Kelly), dona de uma bela fortuna, irá descobrir um dia por uma carta que encontra, que ela mantém um caso com o escritor americano Mark Halliday (Robert Cummings), que elegeu o romance policial como o seu género literário.
Mark é jovem, belo e romântico, a personagem perfeita para ela cometer adultério, mas quando ele regressa ao Novo Mundo, deixando-a a ela e Inglaterra para trás, o romance vai-se apagando como a chama de uma vela, começando as cartas dele a não terem resposta. Mas o marido volta a sentir-se traído e decide preparar a sua vingança, quando sabe que o escritor vai regressar a Inglaterra, sendo natural que o adultério seja retomado.

A forma como Hitchcock nos apresenta Margot Wendice (Grace Kelly) no início da película, no seu vestido vermelho, diz bem do fogo do pecado que por ali vive: o reencontro dos dois amantes será fatal para um deles.
Tony Wendice (Ray Milland) é o cavalheiro por excelência, senhor de uma inteligência muito acima da média, que consegue contornar os obstáculos que lhe irão surgir pelo caminho. Veremos isso na sua abordagem ao capitão Lesgate (Anthony Dawson), que ficaremos a saber chamar-se Charles Swann, não passando de um elegante e pobre vigarista, que abandona os quartos onde vive, depois de deixar de pagar a renda.
Charles Swann (Anthony Dawson) que fora colega de Tony Wendice na faculdade, ao ver a sua identidade descoberta, decide sair imediatamente de casa de Tony, mas curioso com a proposta do ex-colega acaba por ficar na sala, para perceber melhor o intuito daquele marido traído. E aqui temos um verdadeiro show da arte de representar, que nos é oferecido por esse grande actor chamado Ray Milland. A sua personagem nada tem a ver com esse desconhecido do norte-expresso, de seu nome Bruno Anthony (Robert Walker), porque este Tony não está à beira da loucura, ruído pelo ciúme, ele é simplesmente o marido traído que deseja ajustar contas com a mulher que o atraiçoou.

Como iremos ver, o seu plano é perfeito, mas o sinal para o pôr em marcha será traído pelo seu relógio de pulso, que entretanto parou, impedindo-o de ligar à hora combinada para Charles Swann agir e matar a sensual Margot Mary Wendice.
A partir de então a sua vingança irá estar suspensa no arame, começando a agir de acordo com os acontecimentos, sempre de forma inteligente para incriminar a sua mulher da morte de Charles Swann. Porque na verdade o “feitiço virou-se contra o feiticeiro”, já que o assassino contratado, ao tentar matar Margot, acaba por ser ele próprio morto, com a célebre tesoura de costura, que se encontrava junto do telefone, quando ela atendeu o telefonema feito pelo marido, o sinal para Swann agir, que chegou fora de horas.
A forma como Hitchcock nos oferece a sequência, com Ray Milland do outro lado do telefone a escutar o assassínio da mulher é soberba e depois ao ver que ela sobreviveu, irá agir de forma a incriminá-la, parecendo que a está a defender. No entanto no seu caminho irá surgir esse gentleman da polícia londrina, o inspector Hubbard (John Williams), que tudo irá fazer para deslindar este caso intrincado, começando por tentar perceber como é que o assassino entrou na casa, nascendo assim o mais célebre elemento do filme: a chave!

(Re)ver “Chamada para a Morte” é um maravilhoso convite a entrar no universo Hitchcockiano, e conhecer a sua relação com o teatro. Se programarmos este filme com “Rope” / “A Corda”, iremos ter uma sessão dupla memorável.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Domingo, Fevereiro 15, 2009

VALE A PENA ESCUTAR

PAUL BLEY
OPEN TO LOVE

A entrada de Paul Bley no universo musical não se fez através do piano, como muitos poderão pensar ao escutar os seus discos, mas sim através do violino, surgindo com apenas cinco anos a tocar em recitais. A sua adolescência será passada em Montreal e quando chegou essa idade mágica dos 18 anos, decide partir para New York, essa grande metrópole, onde irá estudar durante quatro anos na mais que célebre Julliard School, formando durante esses anos um grupo de jazz na companhia de Jackie MacLean, Donald Byrd, Arthur Taylor e Doug Watkins, ao mesmo tempo que se cruza com Charlie Mingus e Art Blakey, que lhe irão abrir os horizontes.

Em 1957 parte para a Califórnia, onde permanece durante dois anos, tocando com Ornette Coleman, Don Cherry e Charlie Haden, entre outros, regressando depois à Big Apple. Começa a tocar com o incomparável Jimmy Giuffre, que lhe dará a oportunidade de conhecer a Europa na companhia de Steve Swallow, começando a gravar para etiquetas de renome como a Verve e CBS. Depois desta espantosa experiência, de inícios de sessenta, junta-se a Sonny Rolins e parte em tournée pelo Japão. Ao regressar do continente asiático forma finalmente o seu próprio trio, com Gary Peacock no contrabaixo e Paul Motion na bateria.

Em finais de sessenta, mais concretamente em 1968, nesse ano da criatividade ao poder, descobre o sintetizador e começa a trabalhar todas as suas potencialidades, tornando-se rapidamente num entusiasta desse instrumento que tantos caminhos haveria de abrir no vasto universo musical. Será, no entanto, em 1973 que Paul Bley irá surpreender o mundo, ao gravar o seu primeiro trabalho em piano solo, para a editora ECM, de Manfred Eicher, nesse dia 11 de Setembro, que ficará para sempre como um marco fundamental da sua carreira.
A modernidade passa por “Open To Love”, já que estamos perante um trabalho profundamente inovador, onde o lirismo do seu piano navega ao longo do álbum, embora o swing não esteja ausente (basta escutar “Harlem” e fica tudo dito), oferecendo-nos passagens por territórios que nos convidam a uma profunda meditação.

“Closer”, da autoria de Carla Bley, oferece-nos um passeio pelo universo, onde o free espreita a cada esquina. Já o tema seguinte, “Ida Lupino”, também da autoria de Carla Bley, é dedicado à famosa actriz de cinema, uma das primeiras mulheres realizadoras (sendo a sua obra como cineasta, infelizmente, pouco conhecida), neste maravilhoso tema o swing navega nos dedos de Paul Bley, como se tratasse do movimento sereno e cristalino das águas do rio, a caminho da foz, mergulhando muitas vezes em cascatas mágicas, repletas de cor. “Seven” é outro tema de Carla Bley, também incluído neste álbum.
“Started” é o primeiro de dois temas da autoria do pianista a surgir no disco, sendo o segundo essa pérola intitulada “Harlem”, que nunca nos cansamos de escutar, com um swing mais-que-perfeito, de uma serenidade absoluta, que nos invade a alma de forma contagiante.
Já “Open To Love” da famosa Annette Peacock, que dá título ao álbum, navega por esse território do free, nunca abdicando Paul Bley do seu lirismo, encerrando-se este disco com o hoje famoso “Nothin Ever Was, Anyway”, também gravado por diversas vezes por Annette Peacock, para além dessa extraordinária leitura da composição, feita pelo trio de Marilyn Crispell, (piano), com o Gary Peacock no Contrabaixo e o Paul Motion na bateria.
Vale a pena escutar “Open To Love” de Paul Bley e descobrir a tranquilidade do seu universo.

Rui Luís Lima

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

VALE A PENA LER

JOHN CARPENTER
MEMÓRIAS DE UM HOMEM BEM VISÍVEL
(VÁRIOS AUTORES)
EDIÇÃO: CINEMATECA


Com a passagem da integral John Carpenter pelas salas da Cinemateca Portuguesa, foi editado um interessante catálogo sobre o cineasta americano, organizado por Luís Miguel Oliveira, que também assina um dos textos que compõem esta obra.
A abrir temos logo uma longa entrevista com o realizador, levada acabo por Luc Lagier e Jean-Baptiste Thoret, que nos oferecem uma viagem na primeira pessoa pela obra do Mestre do Terror/Suspense, recorde-se que a entrevista foi realizada aquando da estreia de “Escape From L.A.”, terminando com esta película uma espécie de Carpenter on Carpenter, em que ficamos a saber muito mais sobre o cineasta e a sua obra, incluindo a forma diferente como a crítica e o autor olham muitas vezes os filmes.

O texto seguinte da autoria do conhecido crítico Kent Jones da “Film Comment”, possivelmente o melhor texto do catálogo, coloca o dedo na ferida sobre os tempos em que vivemos, em que a ditadura da moda leva a crítica cinematográfica a esquecer-se dos verdadeiros autores e a fazer o elogio de obras menores, que se transformam rapidamente em sucesso, levando os seus responsáveis até a um falso Olimpo, onde mais tarde irão ser destronados por outros da mesma espécie, enquanto os “mavericks” do cinema permanecem bem escondidos e esquecidos do grande público.

“John Carpenter e os Efeitos Especiais” da autoria de Luc Legier aborda a questão do visível na obra de Carpenter a partir desse momento charneira em que ele nos oferece “The Thing”, o “remake” de Hawks/Niby, onde os efeitos especiais tomam conta do filme, numa estratégia que se revelou um fracasso de bilheteira, mas que com a passagem do tempo foi conquistando cada vez mais adeptos, tornando-se num “cult-movie” e assistindo-se hoje em dia à sua revalorização.
Dave Kehr em “Carpenter e Hawks” oferece-nos um aliciante trabalho sobre a simbiose do universo de John Carpenter com o de Howard Hawks (o autor que Carpenter mais admira), partindo para este jogo de referências através dos “duelos” de “Assalto à Terceira Esquadra” e “Rio Bravo”; o inevitável “remake” e original de “The Thing”, que tantos amargos de boca ofereceu ao cineasta, encerrando o confronto/referência com “John Carpenter’s Vampires” e “Hatari”.

“Ghost of John” da responsabilidade de Jean-Baptiste Thoret é outro texto aliciante, que se interroga sobre a conhecida teoria da política de autor, no interior da obra de John Carpenter, tendo como referência essa derradeira obra para cinema intitulada “Fantasmas de Marte”, que deixou muitos em estado de choque aquando da estreia, pelas opções do cineasta, colando-se “a uma estética MTV” que o levaria a uma encruzilhada.
Já Luís Miguel Oliveira no seu texto “Por Onde Anda John Carpenter” oferece-nos o seu olhar sobre os trabalhos realizados pelo cineasta para a televisão por cabo norte-americana: “John Carpenter’s Cigarette Burns” e “Pro-Life”, por sinal muito pouco vistos, interrogando-se também ele sobre o possível regresso do cineasta ao convívio do grande público e ao seio desse cinema de terror de que foi um dos maiores expoentes.
O volume oferece-nos ainda os textos “Da Frontalidade” de Julien Husson, “A Repetição como Nostalgia Criativa nos Filmes de John Carpenter” assinado por Raiford Guins e Omayra Zaragoza Cruz, terminando com “Os Prazeres Culpados de John Carpenter” da responsabilidade do próprio cineasta, que nos fala de alguns filmes que gosta de ver, pelo simples facto de serem tão maus, que terminam muitas vezes por cativar as audiências pela sua temática "trash", reaccionária ou sem qualquer sopro de cinema. Os textos de Carpenter são de um humor corrosivo, a que ninguém escapa: John Wayne e os seus Boinas Verdes a ganharem a guerra do Vietname, passando pelos filmes de Roger Corman, produzidos no espaço de uma semana, até chegar ao “Invasion USA” com os Estados Unidos a serem invadidos pelos russos, de que foi feito uma espécie de “remake” com o Chuck Norris no protagonista.

«A América não tem assim tantos realizadores que lhe permitam dar-se ao luxo de pôr John Carpenter de lado. (…) Examinando a sua obra com atenção, percebe-se que tem uma das mais consistentes e coerentes obras do cinema moderno, no qual os triunfos – os dois sucessos dos primórdios, The Fog, Escape from New York, Prince of Darkness, They Live e In the Mouth of Madness – superam de longe os filmes menores ou problemáticos. Nunca fez nada que envergonhasse. Nunca fez um filme desonesto ou preguiçoso. (…) Diria que a marginalização de Carpenter se deve a algo mais triste e menos difícil de identificar, sobre o qual não tem controlo. Quer gostemos, quer não, regemo-nos por normas e paradigmas de realização, enquanto as mesmas mudam como placas tectónicas provocando-nos mudanças inconscientes em relação à forma de ver filmes, e à forma como vemos uns em relação a outro. E sem sabermos, muitos de nós fazemos algo que frequentemente censuramos noutras pessoas: cedências às modas. Não há dúvida de que as modas no cinema Americano mudaram a milhares de quilómetros de John Carpenter. Ele é um homem do analógico num mundo digital, que rege o próprio trabalho de acordo com critérios de valor a que já ninguém presta atenção.
Carpenter mantém-se totalmente sozinho, enquanto último realizador de género na América. (…) Outro solitário American, a sair de moda mas cuidadosamente guardando a sua integridade como um velho tesouro.»

Kent Jones


Por tudo isto vale a pena ler “John Carpenter – Memórias de um Homem Bem Visível”.

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

SUBLIME EXPIAÇÃO / MAGNIFICENT OBSESSION

DOUGLAS SIRK – (EUA – 1954) – (108 min/Cor)

ROCK HUDSON, JANE WYMAN, BARBARA RUSH, AGNES MOOREHEAD, OTTO KRUGER
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Esta obra de Douglas Sirk, realizada em 1954, é um “remake” do filme com o mesmo nome, que John M. Sthal levou ao grande écran em 1935, com Robert Taylor e Irene Dunne nos protagonistas, sendo ambos os filmes oriundos dos mesmos Estúdios “Universal” que, na época, tinham por norma fazer “remakes” de obras que foram grandes sucessos e das quais ainda detinham os direitos, obtendo desta forma lucros bastante elevados.

19 Anos depois, Sirk irá refazer a obra, introduzindo a cor onde outrora vivera o preto e branco, ao mesmo tempo que opta por filmar em exteriores, ao contrário de Sthal que rodou tudo em Estúdio, uma prática da época. No entanto, a Suiça que Douglas Sirk nos oferece é recriada em Estúdio, sendo curioso o facto de nesta segunda versão substituir a Paris da primeira versão, essa eterna cidade dos apaixonados. Nesse país iremos encontrar reunidas três sumidades da ciência, para fazerem regressar a luz aos olhos de Helen Phillips (Jane Wyman).

Nesta nova versão, mais uma vez produzida por Ross Hunter, descobrimos que Douglas Sirk decidiu explorar até ao limite o melodrama, eliminando algumas sequências com humor incluídas na versão de Sthal, ao mesmo tempo que nos oferece a sua marca de autor, através da habitual montagem no interior do plano, explorando ao máximo a composição desse mesmo plano, não descurando o mais pequeno pormenor, jogando mais uma vez de forma assombrosa com as cores. Embora esta marca da importância da cor na composição do plano seja apanágio de Sirk, também a poderemos encontrar no primeiro filme realizado a cores oito anos antes por John M. Stahl, “Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven”, uma das obras-primas do melodrama.

Por outro lado, a forma como é utilizada a banda sonora, com a introdução de “coros celestiais” a pontuar diversas sequências, como se Deus estivesse ali presente, eleva o sentido melodramático de “Sublime Expiação” até esse território do Divino.
Aliás Thomas Schatz refere-se a esta questão da seguinte maneira: «Em certo sentido, todos os filmes de Hollywood podem ser caracterizados como melodramáticos. Numa definição (estrita) do termo, o melodrama refere-se às formas narrativas que combinam música (melos) e drama. A utilização hollywoodesca da música de fundo pretendeu sempre dar aos filmes uma dimensão formal que se constituísse como sua auréola, uma pontuação emocional.» E é precisamente isso que faz Douglas Sirk no seu “Magnificent Obsession”, nos momentos de maior clímax da película, como se o destino daquelas personagens estivesse dependente da vontade de Deus.

No início do filme iremos conhecer Bob Merrick (Rock Hudson), um playboy rico e mimado, que pretende bater um recorde de velocidade na água, mas o seu barco vira-se depois de passar os 240 km e de imediato vão buscar um aparelho reanimador, que se encontra em casa do Dr. Phillips. Durante o processo de reanimação de Merrick, o médico sofre um ataque cardíaco e morre em virtude de o seu aparelho não se encontrar na sua casa.
O drama fica instalado e quando Bob Merrick se cruza com a viúva do Dr. Phillips (Jane Wyman) desconhece a sua identidade. Mas quando sabe finalmente quem ela é, tudo fará para reparar o seu erro, começando a olhar a vida segundo a doutrina do amável Dr. Phillips, que um dia lhe é contada pelo pintor Edward Randolph (Otto Kruger), mas como não podia deixar de ser, a tragédia espreita ao virar da esquina, de forma a oferecer-nos um poderoso melodrama.

Rock Hudson que surge aqui, mais uma vez, a ser dirigido por Douglas Sirk, entra definitivamente no estrelato, enquanto Jane Wyman, na época casada com Ronald Reagan, cumpre de forma perfeita com o que lhe é exigido. Aliás foi o enorme sucesso obtido por este par junto do público, que levou o produtor Ross Hunter e Douglas Sirk a juntá-los de novo, no ano seguinte, nessa obra-prima intitulada “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”. Por outro lado “Sublime Expiação” oferece-nos um conjunto de secundários que não deixam os seus créditos por mãos alheias: Barbara Rush interpretando Joyce Phillips, a filha do Dr. Phillips, que na época já tinha 27 anos, embora na película isso esteja bem camuflado, é excelente na sua composição, recorde-se que ela terá o seu momento alto, dois anos depois, quando fará de mulher de James Mason em “Bigger Than Life” de Nicholas Ray; Agnes Moorehead na figura da enfermeira e amiga de Helen, não precisa de apresentações porque todos a conhecemos do Mercury Theater de Orson Welles e sabemos o seu valor; enquanto Otto Kruger, a interpretar o pintor Edward Randolph, foi na época um dos mais seguros secundários de Hollywood, certamente lembram-se dele na figura do nazi de “Sabotagem” / “Saboteur” de Alfred Hitchcock.

Mais uma vez, a habitual e serena direcção de actores de Douglas Sirk oferece-nos os seus frutos, tendo em conta a liberdade que dava aos movimentos dos actores no plateau, na composição das suas personagens. Depois de tudo o que escrevemos, só poderemos concluir que “Sublime Expiação” permanece uma das obras incontornáveis de Douglas Sirk.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima(*****)

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

O CLUBE DE LEITURA DE JANE AUSTEN

THE JANE AUSTEN BOOK CLUB

ROBIN SWICORD – (EUA – 2007) – (106 min/Cor)

MARIA BELLO, EMILY BLUNT, KATHY BAKER, AMY BRENNEMAN, MAGGIE GRACE, JIMMY SMITS, HUGH DANCY.


Jane Austen, como já disse por aqui, é uma das minhas autoras favoritas. Dos livros que tenho, “Orgulho e Preconceito” é o eleito. Não sei dizer se o li antes ou depois de ver a série da BBC, mas ficou para sempre como o favorito, um livro que leio e releio, sempre, muitas vezes abrindo-o ao acaso.
Esta introdução é para falar de uma das surpresas que o Pai Natal trouxe cá a casa, sob a forma de DVD, o filme “O Clube de Leitura de Jane Austen”, realizado por uma surpreendente Robin Swicord, muito mais conhecida como argumentista do que realizadora, aliás esta película é a sua estreia na longa-metragem, possuindo apenas no seu curriculum de realizadora a curta-metragem “The Red Coat”, com a célebre Teresa Wright na protagonista. Mas se falarmos na argumentista Robin Swicord, casada com Nicholas Kazan (filho de Elia Kazan), que tem assinado argumentos como “Mulherzinhas” / “Little Women”, (versão de 1994), “Memórias de Uma Geisha” / “Memoirs of a Geisha” ou mais recentemente “The Curious Case of Benjamin Button” / “O Estranho Caso de Benjamin Button”, tendo sido até nomeada para o Óscar, já muitos saberão de quem se trata.

Durante o funeral de um dos cães de Jocelyn (espantosa Maria Bello), as suas amigas decidem que têm que fazer alguma coisa para ajudar esta criadora de cães a sair da depressão em que se encontra. Porém Sylvia (Amy Brenneman) uma das amigas, irá descobrir que a sua própria situação é muito mais delicada do que a da amiga, tratadora de cães, ao saber pela boca do marido, num jantar, que ele mantém uma relação extra-conjugal, estando na disposição de a abandonar, porque necessita de viver uma nova vida, pedindo-lhe o inevitável divórcio ao fim de mais de vinte anos de vida em comum.
Estes acontecimentos irão fazer nascer ideias a este grupo de amigas, no sentido de fugirem da triste realidade que as cerca, neste mundo contemporâneo em que vivemos.

Por outro lado, iremos assistir ao encontro decisivo para o nascimento do Clube de Leitura, entre Bernardette (Kathy Baker), uma das amigas, com a professora de francês Prudie Drummond (fantástica Emily Blunt), num festival de cinema dedicado a Jane Austen, (que como todos sabemos tem visto diversas obras suas adaptadas ao cinema – “Orgulho e Preconceito”, “Emma”, “Persuasão”, para além das adaptações que a BBC tem feito para o pequeno écran).
Neste encontro entre estas duas mulheres de gerações bem diferentes, Prudie (Emily Blunt) irá desabafar com Bernardette (Kathy Baker), sobre o facto de o marido ter desistido de uma viagem a França, para ir ver as finais de basketball, deixando para trás aquela que seria a viagem de uma vida para a jovem professora de francês, que não conhece o país cuja língua ensina nas aulas. E como palavra puxa palavra e a simpatia que irradia de Prudie ser deveras cativante, Bernardette acaba por convidá-la a juntar-se ao Clube de Leitura (tão em voga nos States nos dias de hoje), sendo o tema a Literatura e o autor a analisar inevitavelmente Jane Austen.

Como ao longo da sua vida Jane Austen publicou seis livros, recorde-se que morreu em 1817, com apenas 41 anos, seis serão as reuniões a efectuar, durante seis meses, ou seja um mês para cada livro, Mas como até agora só haviam cinco participantes, (Bernardette, Prudie, Jocelyn, Sylvia e Allegra), para o Clube de Leitura ficar completo, falta-lhes um sexto elemento. Inicialmente algumas delas pensam em Daniel (Jimmy Smits), o marido traidor de Sylvia, mas rapidamente descartam a ideia, porque a sua presença só iria trazer complicações, em virtude do divórcio estar a decorrer.
Mas será a criadora de cães, Jocelyn (Maria Bello), que irá encontrar o sexto elemento deste Clube de Leitura Jane Austen, quando num hotel onde decorre uma convenção sobre o melhor amigo do homem, ela conhece um jovem extremamente simpático chamado Grigg Harris (Hugh Dancy), que não está ali propriamente para a convenção dos caninos, mas sim para uma outra em que o tema é a ficção-cientifíca, género literário que ele devora desde criança. As razões de Jocelyn (Maria Bello) para o convidar prendem-se ao seu desejo de oferecer à amiga Sylvia uma companhia masculina, para ela esquecer o divórcio.

No primeiro encontro, realizado num dos muitos Starbucks da cidade, vamos encontrar as cinco mulheres reunidas, a comentar que falta um sexto elemento para formarem o tão ambicionado Clube de Leitura Jane Austen, até que surge Grigg (fascinante Hugh Dancy) e Jocelyn é obrigada a confessar que foi ela que o convidou para participar nos encontros, ao mesmo tempo que segrega a Bernardette que pretende juntá-lo com Sylvia.
É claro que este jovem, apaixonado por ficção-cientifíca, nunca tinha lido na vida um livro de Jane Austen, tendo comprado uma daquelas edições que reúnem a obra completa da escritora, pensando que as mesmas fossem sequelas.
A “modernidade” de Allegra (a filha de Sylvia), também choca Prudie, a conservadora professora de francês, que acabará por confessar a todas que foi criada numa comuna na Califórnia, por uma mãe hippie, que parou nos sixties e que iremos conhecer mais tarde, numa espantosa caracterização de Lynn Redgrave que nos enche o écran com seu talento maravilhoso

Cada um dos elementos do Clube de Leitura fica com um livro, pelo qual é responsável, sendo “Emma”, o primeiro a ser estudado. A reunião é em casa de Jocelyn (Maria Bello) e durante a discussão, mais uma vez Allegra e Prudie entram em confronto de ideias. Já Grigg, um verdadeiro Robinson Crusoe naquele grupo de mulheres, não percebe a razão porque querem que ele se aproxime de Sylvia, já que ele, melhor do que elas, percebe de imediato que Sylvia continua apaixonada pelo marido, acabando por julgar que o motivo se prende com Allegra, que afinal é lésbica, para seu grande espanto.
Março chega com o estudo de “Mansfield Park”, em casa de Sylvia, recorde-se que ela adora essa personagem chamada Fanny Price. E aqui temos um dos momentos mais maravilhosos da película de Robin Swicord, quando Grigg, que até leva uns apontamentos, compara a relação das duas personagens do romance, com Luke e a Princesa Leia, no “Império Contra-Ataca” / “Empire Strikes Back”, da famosa saga de George Lucas, certamente um dos momentos mais divertidos do filme.

“Northanger Abbey”, o primeiro livro escrito por Jane Austen, mas o último a ser publicado, é objecto de estudo em casa do jovem e charmoso Grigg, que sendo um verdadeiro “geek”, recria o ambiente gótico nele implícito, chegando a ler, para grande espanto das senhoras, que se consideravam maiores fãs do que ele, “Os Mistérios de Udolfo”. Nesse dia Sylvia irá surgir com um novo visual, criando uma certa empatia com Grigg, despertando em Jocelyn o ciúme, porque esta, ao contrário do que pensava, nutre uma paixão secreta pela personagem masculina deste maravilhoso Clube de Leitura.
O mês de Maio será dedicado ao estudo do mais famoso romance de Jane Austen, “Orgulho e Preconceito” e aqui iremos conhecer melhor a relação de Prudie com o marido e as inevitáveis dificuldades por que passa o seu casamento.
Já “Sensibilidade e Bom Senso” irá levar, nesse mês de Maio, o grupo de leitura até ao hospital onde se encontra a jovem Allegra, que como boa amante dos desportos radicais, irá sofrer uma queda aparatosa enquanto treina escalada. E como não podia deixar de ser, o seu pai irá estar presente, sendo notório o amor que ainda existe entre Daniel e Sylvia.

Julho marca o estudo de “Persuasão”, sendo a responsável do encontro a jovem professora de francês, que decide aceitar a sugestão de Bernardette, para fazerem a reunião na praia, já que no livro de Jane Austen, grande parte da trama se desenrola numa ida a Lyme, à praia. E aqui neste derradeiro encontro, irão estar presentes novos participantes, para grande surpresa de muitos, ao mesmo tempo que iremos descobrir como os romances de Jane Austen, permanecem profundamente actuais, porque a maré do amor, permanece em alta, apesar das marés baixas que se sucedem com frequência.

O livro de Karen Jay Fowler, cativa o/a leitor(a), da primeira à última página e a película de Robin Swicord segue-lhe as pisadas, revelando-se numa agradável surpresa. E quando recordamos as interpretações de todo o elenco, percebemos que ele é dirigido por quem sabe da matéria, sendo inevitável destacar Emily Blunt, na jovem professora de francês, ao mesmo tempo que percebemos que a própria realizadora é uma fã incondicional de Jane Austen. Curiosamente, num dos extras do DVD, Robin Swicord confessa-nos ter alterado uma das histórias do livro de Karen Jay Fowler (e não é sempre assim?), para ficar mais próxima de Jane Austen.
“O Clube de Leitura Jane Austen” é uma maravilhosa aventura cinematográfica, que recomendamos a todos, porque naquele grupo iremos inevitavelmente descobrir pessoas que conhecemos no nosso dia a dia ou, quem sabe, encontrar o reflexo da nossa própria imagem no espelho da sala de leitura da famosa Jane Austen.

Paula Nunes Lima (*****)
Rui Luís Lima (***)

Domingo, Fevereiro 08, 2009

VALE A PENA ESCUTAR

ROBBIE WILLIAMS
SWING WHEN YOU'RE WINNING


O "Great American Song Book" é daquelas pérolas onde podemos ir recolher músicas que gostamos de ouvir a qualquer momento.
Robbie Williams, de quem se pode ou não gostar na sua faceta mais pop, consegue aqui um dos seus melhores momentos de carreira, ao escolher canções que lhe pertencem, mas homenageando ao mesmo tempo o mais que famoso "Rat Pack": Frank Sinatra, Dean Martin e Sammy Davis Jr..

Escolhidos a dedo, estão neste CD pérolas como: "It Was a Very Good Year", cantado a meias, graças às maravilhas da tecnologia, com o Mr. Blue Eyes himself, Frank Sinatra de seu nome; "Somethin'Stupid", cantado a meias com Nicole Kidman (no original, cantado por Frank Sinatra e pela filha Nancy), ou dois dos meus mais que favoritos "Mr. Bojangles" (uma das versões mais conhecidas e que me comove sempre que oiço é a de Sammy Davis Jr) e a que toca neste momento aqui por casa "Well, Did You Evah" (no original por Frank Sinatra e Bing Crosby, na banda sonora de "Philadelphia Story" / "Casamento de Alta Roda" - remake de "Casamento Escandaloso").


Vale apena ouvir "Swing When You're Winning" e sing ou swing along.

Paula Nunes Lima

Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009

VALE A PENA LER

DAVID LYNCH
EM BUSCA DO GRANDE PEIXE
EDITORA: ESTRELA POLAR


“Em Busca do Grande Peixe” oferece-nos uma viagem pelo conhecido universo lynchiano, conduzida pelo próprio cineasta, na qual iremos descobrir os seus métodos de trabalho, conhecer a sua vida e entrar nesse “compartimento da consciência”, a que ele chama meditação. David Lynch surge aqui a usar uma linguagem de uma simplicidade absoluta. A sua escrita é um verdadeiro convite ao mais comum dos mortais a descobrir o seu universo e aplicar a meditação como ponto de partida, para encontrar a felicidade.
Ao longo do livro iremos saber como nasceu a sua paixão pela pintura e conhecer o dia em que ela se transferiu para o cinema. Acompanharemos esse baptismo cinematográfico chamado “Eraserhead” / “No Céu Tudo é Perfeito”, onde a passagem de um plano para outro, uma vez, levou um ano para ser realizada. Descobrir como nasceu o sucesso de “Twin Peaks” e o fracasso de “Mulholland Drive” como série de televisão, cujo episódio piloto ele irá transformar numa obra cinematográfica inesquecível. Conhecer a sua famosa tira de banda desenhada “The Angriest Dog in the World”, na qual apenas o texto mudava, sendo o desenho sempre o mesmo, que foi publicada ao longo de nove anos pelo L.A. Weekly. E saberemos também que muitas ideias não nascem de sonhos, esses famosos sonhos sempre tão presentes na sua obra, mas por vezes de pequenos actos fortuitos ou simples inspiração do momento.
Por aqui iremos descobrir um David Lynch que nos conta a sua paixão pelo digital, ao mesmo tempo que dá ao leitor as suas sugestões para ele mergulhar nesta maravilhosa aventura do cinema.
David Lynch oferece-nos um livro surpreendente, porque quando ele afirma que “um filme devia valer por si próprio”, esse método é aqui aplicado. “Em Busca do Grande Peixe”, vale só por si, nele o cineasta fala da sua vida, da sua obra, dos seus heróis cinematográficos, ao mesmo tempo que nos convida a mergulhar nesse grande lago de ideias que é a nossa consciência, e partir em busca do grande peixe, certamente o mais luminoso do nosso universo.

«As ideias são como peixes.
Se quisermos capturar peixes pequenos, podemos ficar pelas águas pouco profundas. Mas se quisermos capturar os peixes grandes, temos de ir mais fundo.
Lá no fundo, os peixes são mais poderosos e mais puros. São enormes e abstractos. E são muito bonitos.
Eu procuro um certo tipo de peixe que é importante para mim, um que possa ser transposto para o cinema. Mas há todo o tipo de peixes a nadar lá em baixo. Há peixes para os negócios, peixes para o desporto. Há peixes para tudo.»

«Neste momento estou a capturar uns peixes de pintura. E uns peixes de música. Ainda não capturei o peixe do próximo filme. Tento simplesmente capturar ideias e, ás vezes, apaixono-me por uma e então sei o que quero fazer.»

«Sou um enorme admirador de Billy Wilder. Mas há dois filmes dele de que gosto mais, de tal modo criam um mundo próprio: Crepúsculo dos Deuses e O Apartamento.»

David Lynch

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

O GOSTO DOS OUTROS / LE GOUT DES AUTRES

AGNÈS JAOUI – (FRA – 2000) – (112 min)

ANNE ALVARO, JEAN-PIERRE BACRI, ALAIN CHABAT, AGNÈS JAOUI, GERARD LARVIN, CHRISTIANE MILLET.


O cinema francês, muitas vezes, oferece-nos obras que são uma verdadeira lufada de ar fresco e que nos convidam a amar um filme, como sucedeu com este “O Gosto dos Outros” de Agnès Jaoui, que na época em Portugal era praticamente desconhecida, o que já não sucede hoje em dia. A sala do cinema Nimas, como devem estar recordados, encheu-se de um público que adorou ver este filme, profundamente inteligente, que aborda de forma discreta o relacionamento das pessoas e os seus gostos.

Agnès Jaoui começou como actriz no teatro, tendo até sido dirigida por Patrice Chéreau no Teatro de Amandiers, em Nanterre, mas seria o seu encontro com o actor Jean-Pierre Bacri, nas audições para a peça “O Aniversário” de Harold Pinter, que irá dar origem a uma dupla de argumentistas única na história do cinema francês, tendo em conta a forma como eles usam os diálogos, aliás não nos podemos esquecer que eles são os argumentistas de “Smoking/No Smoking” / “Fumar/Não Fumar” e de “On Connait La Chanson” / “Uma Canta a Outra Não”, realizados pelo Mestre Alain Resnais.
Este casal de argumentistas, que se encontra sempre nos filmes dirigidos por Agnès Jaoui, não possui curiosamente uma grande paixão pelas novas tecnologias, continuando a escrever as suas histórias usando papel e caneta, às vezes até um lápis, quando surge aquela ideia fantástica, para depois utilizarem a velhinha máquina de escrever, como ela confessou numa entrevista dada no nosso país.
Naturalmente os três filmes realizados por Agnès Jaoui possuem argumentos da dupla, sendo os outros dois: “Comme une image” de (2004 e já exibido entre nós) e “Parlez-moi de la pluie” de (2008).

Logo no início de “O Gosto dos Outros” encontramos dois homens sentados num café, a falar de algo que parece, à primeira vista, ser muito importante, mas depois iremos perceber que eles estão simplesmente a falar de futebol e que são o motorista e o guarda-costas de Monsieur Jean-Jacques Castella (fabuloso Jean-Pierre Bacri), um industrial de província que está a efectuar negócios com um grupo iraniano e cuja companhia de seguros exigiu a presença de um guarda-costas ao longo do processo, para sua segurança. Contrariado, Castella aceita a presença de Frank Moreno (Gerard Lanvin), um ex-polícia que deixou a instituição porque não conseguia ver os corruptos presos, apesar de todas as provas recolhidas. Porém este negócio vai também exigir a Castella voltar a aprender inglês e então é obrigado a contratar uma professora de inglês (Anne Álvaro), que como boa professora de línguas começa de imediato a falar a língua anglo-saxónica com Castella, que não acha nada divertido esse método e está pronto a desistir.

Mas nessa mesma noite ele irá ao teatro ver a sobrinha a actuar e acabará por descobrir que a actriz principal da peça é Clara Devaux, a sua professora de inglês, decidindo então começar as lições.
Iremos assim entrar nos momentos mais hilariantes da película, com a aulas no salão de chá, entre Castella e Clara, ao mesmo tempo que todos compreendemos que o industrial se começa a apaixonar por ela, mas também por esse círculo de intelectuais onde ela se movimenta, começando a fazer-se encontrado, terminando sempre por lhes fazer companhia, até que essa trupe decide gozar e colocar a ridículo o industrial, um dos momentos mais dolorosos de “O Gosto dos Outros”.
Enquanto vamos assistindo à história de Castella, iremos também conhecer a vida de Bruno Deschamps (Alain Chabat), o motorista de Castella e de Frank, o guarda-costas. Se o primeiro é um homem permanentemente usado pelas mulheres, veja-se o que se passa com a namorada que está nos Estados Unidos, já Frank Moreno (Gerard Lanvin) é um homem que sabe demasiado da vida e que irá encontrar em Marie (Agnès Jaoui), a empregada do bar, frequentado pelo grupo de Clara, a sua possível alma-gémea. No entanto irá nascer uma barreira invisível entre eles, quando Frank percebe que ela também vende haxe, para ganhar mais algum dinheiro, o que para ele, um ex-polícia, é matéria mais que proibida.

Regressando a Castella, descobrimos ao longo da película que ele é um homem dominado pela mulher, que leva sempre a sua avante e tem um horrível gosto, basta olhar para a forma como está decorada a casa que habitam e um sorriso de imediato surge nos lábios do espectador e nada daquilo foi escolhido por ele. E nesse dia em que ele compra um quadro de que gosta, a um pintor amigo de Clara e o pendura na parede, Angélique (Christianne Millet), que gosta muito mais de animais do que pessoas, irá fazer uma tempestade num copo de água, para no dia seguinte tirar o quadro da parede porque ela não suporta o gosto dele.
Por seu lado Clara é uma mulher na casa dos quarenta que vive sempre com um pé dentro e fora dos palcos, porque também por ali o teatro passa as suas dificuldades com a falta de espectadores, recorde-se que a acção se passa nos subúrbios de Paris, vendo também sempre adiado esse amor a que tanto aspira, mas nunca encontra.

Ao longo da película vamos mergulhar nas pequenas vidas destas personagens, que nos irão fascinar ao longo de duas horas, porque por ali passa um belo retrato da sociedade, ao mesmo tempo que descobrimos como são simples, mas também complicadas as relações entre as pessoas no seu quotidiano. Veja-se a relação de Castella com o seu assistente ou a de Marie com Frank, sendo todos estes aspectos oferecidos de forma perfeita por Agnès Jaoui, sempre com um sentido de mise-en-scene extraordinário: o argumento não possui uma palavra a mais ou uma palavra a menos e as imagens também falam por si, por vezes de forma dolorosa, como sucede na relação entre Marie e Frank.
Ao optar pelo “scope”, Agnès Jaoui comunga o gosto dos cineastas franceses por este formato, que respira cinema por todos os lados. Este filme foi galardoado em 2001, com os Cesars de Melhor Filme, Melhor Argumento Original (Agnès Jaoui/Jean-Pierre Bacri), Melhor Actor Secundário (Gerard Lanvin) e Melhor Actriz Secundária (Anne Álvaro).
“Le Goût des autres” oferece-nos assim, uma comédia divertida e inteligente, que nos convida a meditar sobre o pequeno mundo que nos rodeia e os inevitáveis gostos dos outros.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

VIRTUDE FÁCIL / EASY VIRTUE

STEPHAN ELLIOTT – (ING – 2008) – (97 min/Cor)

COLIN FIRTH, KRISTIN SCOTT THOMAS, JESSICA BIEL, BEN BARNES.


“Virtude Fácil” despertou de imediato a nossa atenção pelo simples facto de se basear na famosa peça de Noel Coward, esse genial autor que cultivou o famoso estilo do Englishman, como todos sabemos. Ele foi, na verdade, o homem dos “sete ofícios”: dramaturgo, actor, escritor, compositor, cineasta, poeta e pintor. Escreveu cerca de 140 peças e centenas de canções, tendo surgido nos palcos com apenas seis anos, para aos dez escrever a sua primeira peça. No cinema, para além das diversas personagens que interpretou, co-realizou com David Lean “In Which We Serve” / “Sangue, Suor e Lágrimas” e muitas das suas peças deram origem a filmes: “Tonight at 8,30” que se transformou no grande écran na obra-prima de David Lean, “Breve Encontro” / “Brief Encounter” e “Design for Living” / “Uma Mulher para Dois”, essa deliciosa comédia de Ernst Lubitsch, só para referirmos duas, bem conhecidas de todos.

“Easy Virtue”, que surgiu este ano no grande écran, já tinha sido adaptada ao cinema no período mudo pela mão de Alfred Hitchcock, conseguindo o australiano Stephan Elliott, que ficou famoso quando realizou “Priscilla, A Rainha do Deserto” / “The Adventures of Priscilla, Queen of the Desert”, oferecer-nos de forma perfeita os sofisticados diálogos de Noel Coward, na sua nova adaptação cinematográfica, sendo sempre de realçar o fabuloso duelo entre duas gerações: Kristin Scott Thomas (a sogra) e Jessica Biel (a nora), uma dupla de parentesco que nunca se dão lá muito bem. E se Kristin Scott Thomas e Colin Firth vestem de forma perfeita os seus personagens, Jessica Biel não lhes fica atrás, conseguindo deliciar-nos com essa Larita, corredora de automóveis e oriunda de Detroit, com o seu típico sotaque, que de imediato irá chocar a conservadora e snob Mrs. Whittaker.

A película começa ao melhor estilo da época que retrata, finais dos anos vinte, quando vemos uma corrida de automobilismo em Monte Carlo, já um famoso circuito, a ser ganha por uma mulher, a loura e sensual Larita (Jessica Biel) que, depois de ser levada em ombros, será desclassificada pelo simples facto de ser mulher. No entanto será nesse circuito que irá conhecer o jovem John Whittaker (Ben Barnes – “Crónicas de Nárnia”), com quem irá desfrutar uma vida de luxo e ócio em Paris, terminando por se casarem em segredo. Com o matrimónio consumado, John Whittaker deixa o Continente e parte para Inglaterra, para dar a conhecer a sua jovem e bela esposa americana à aristocrática família.

O encontro não será o melhor do mundo, porque de imediato Mrs. Whittaker (Kristin Scott Thomas), ao se aperceber que a nora pertence a essa nação que nem duzentos anos tem, decide abrir uma guerra sem tréguas com Larita (Jessica Biel), que é seguida com interesse por Mr. Whittaker (Colin Firth), que apesar de ser desprezado por todos e viver num mundo à parte, começa a simpatizar com a jovem nora. Por outro lado teremos sempre o fiel Fuber (Kris Marshall), com os seus comentários “silenciosos”, o mais-que-perfeito mordomo da família Whittaker.
A estadia de duas semanas que Ben prometera a Larita, irá ser estendida naquela casa por tempo “indeterminado”, porque ao contrário dos desejos da jovem americana, que pretende viver com o marido para Londres, a sogra decide que eles deverão ficar a viver naquela enorme casa, no famoso countryside inglês, onde a tradição se encontra sempre presente, desde a famosa festa de Natal, passando pela caça à raposa e o inevitável convívio entre famílias, tudo elementos que irão chocar com a forma de agir de Larita. E se com a passagem do tempo ela consegue conquistar a simpatia do sogro (Collin Firth), acabando por conhecer as razões do seu auto-isolamento, irá também descobrir que quem veste calças naquela Mansão é Mrs. Whittaker (Kristin Scott Thomas), a quem todos devem obediência. Mas por outro lado iremos também saber que graves problemas económicos atingem os Whittaker, que se preparam para vender parte da propriedade a um vizinho, amigo da família.

Hilda e Marion (Kimberley Nixon e Katherine Parkinson), as filhas mais novas dos Whittaker, que inicialmente receberam a jovem Larita com curiosidade, rapidamente se transformam em suas inimigas, especialmente depois da célebre dança de can-can (vejam o filme). E para cereja no topo do bolo teremos esse momento sublime em que os Whittaker têm conhecimento que Larita pousou nua para um pintor espanhol chamado Picasso, quando o famoso quadro do artista entra na Mansão.
A forma como a luminosidade de Larita ofusca os elementos femininos da casa começa a pesar entre sogra e cunhadas e as irmãs de Ben decidem pedir a um tio, a viver na América, informações sobre o passado da famosa Larita de Detroit. E quando essas chegam o escândalo estoira, porque as regras do jogo foram viciadas, mas será que todos pensam assim…

“Easy Virtue” possui todos aqueles condimentos que fizeram o sucesso das produções oriundas da BBC, onde o rigor da realização aliada a uma boa direcção de actores, dão cartas. Embora aqui o que nos fascina nesta película sejam os fabulosos diálogos de Noel Coward, que oferece de forma soberba o seu conhecido humor, retratando de forma perfeita uma aristocracia falida, que luta com todas as suas forças para não cair ao rio da vulgaridade.
Certamente que uma peça destas nas mãos de James Ivory iria ter um registo bem diferente, respirando cinema por todos os poros, mas se olharmos bem para o trabalho que nos é oferecido por Stephan Elliott, também poderemos dizer que ele levou este projecto a bom porto. Numa época em que os candidatos aos Oscars invadem as salas, não perca este filme, ele merece ser descoberto e acarinhado, trata-se de um Noel Coward Movie’s!!!

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (****)

Domingo, Fevereiro 01, 2009

VALE A PENA LER

PAUL AUSTER
HOMEM NA ESCURIDÃO
EDITORA: ASA


Paul Auster, desde que foi descoberto em Portugal através da sua célebre Trilogia de Nova Iorque”, que foi editada na época (1990) pela Difusão Editora, e que reúne três novelas: “Cidade de Vidro”, “Fantasmas” e “O Quarto Fechado à Chave”, tem conquistado uma legião de leitores, que tem vindo a aumentar de dia para dia, ao mesmo tempo que a totalidade da sua obra tem vindo a ser editada pela Asa, com uma regularidade digna de saudar. Desta forma, nos últimos anos, temos sempre por altura do Natal mais um livro do autor.
Quem viu aquela noite temática que o Canal franco-alemão Arte dedicou ao escritor e também cineasta, percebeu que estava decididamente perante uma das mais fascinantes personagens do mundo literário contemporâneo. Mas essa obrigatoriedade editorial de escrever um livro por ano poderá vir a minar esse território mágico criado pelo escritor.

Quando olhamos para a sua já extensa obra em que as melhores memórias da sua vida, “Inventar a Solidão”, se aliam à genialidade dessa obra-prima intitulada “O Livro das Ilusões”, passando pela sua actividade crítica em “Experiências com a Verdade”, descobrimos um verdadeiro universo Paul Auster, onde habitam personagens solitárias e marginais, com os seus pequenos mundos e vícios, a lutarem pelo direito à existência, num universo onde a solidariedade, a paz e o amor, deram lugar ao ódio, à guerra e ao egoísmo.
Por tudo isto, quando Paul Auster dá à luz mais uma obra, as expectativas são sempre demasiado elevadas e, com “Homem na Escuridão”, muitos dos seus leitores viviam na expectativa de saber por que caminhos iria seguir o escritor, após o seu livro anterior “Viagens no Scriptorium”, o terem conduzido a um labirinto cuja saída parecia ser inexistente.

Mas como todos sabemos, ao entrarmos no labirinto, poderemos sempre sair pela porta por onde entrámos e regressar à magia da escrita e parece que foi mesmo isso que Paul Auster decidiu fazer, durante a escrita de “Homem na Escuridão”, quando por volta das três da manhã o despertador desse critico literário chamado August Brill cai no chão e se parte, abandonando no meio da escuridão do seu quarto a narração dessa América que, no novo milénio, viu diversos Estados a abandonar a célebre União e declarar a Secessão, como muitos anos antes sucedera, nesse época em que o General Grant e o General Lee, conduziram uma guerra sem tréguas, que daria origem a essa tragédia chamada Gettysburg.

A história que seguimos dessa América em guerra consigo própria, através da narração de August Brill e desse anti-herói chamado Brick, cuja missão é precisamente localizar e liquidar o narrador, ocupa cerca de metade do livro, mas quando esse despertador que não possui os habituais ponteiros luminosos se parte, tudo muda de figura em “Homem na Escuridão” e mergulhamos num outro estilo, numa outra vida: a história/memórias de August Brill e dos seus entes queridos. Entramos assim através do escuro, num outro livro, que lentamente nos irá iluminar a vida do narrador, transformando a sua narração num retrato perfeito deste mundo em que vivemos. A sua leitura é de tal forma contagiante, que não conseguimos largar o livro até chegar ao último parágrafo.

«Crítico literário reformado, setenta e dois anos, vive nos arredores de Brattleboro, Vermont, com a filha de quarenta e sete anos e a neta de vinte e três. A mulher dele morreu o ano passado. O marido da filha deixou-a há cinco anos. O namorado da neta foi morto. É uma casa de almas feridas, sofredoras e, todas as noites, Brill permanece acordado na escuridão, tentando não pensar no seu passado, inventando histórias acerca de outros mundos.
Porque é que ele está numa cadeira de rodas?
Um acidente de viação. Ficou com a perna esquerda num estado lastimável. Por pouco não a amputavam.
E se eu aceitar matar este homem, vocês mandam-me de volta para o meu mundo.
É, o negócio é esse.»

«Com a canadiana na mão, Miriam volta para a cama e senta-se a meu lado. Pois é, pai, diz ela, espreitando a filha com um olhar preocupado, o bizarro mundo continua a girar.»

Paul Auster

Rui Luís Lima