Quarta-feira, Julho 30, 2008

O CAVALEIRO DAS TREVAS / THE DARK KNIGHT

CHRISTOPHER NOLAN – (EUA – 2008) – (152 min/Cor)

CHRISTIAN BALE, HEATH LEDGER, AARON ECKHART, MICHAEL CAINE, MAGGIE GYLLENHALL, GARY OLDMAN, MORGAN FREEMAN, ERIC ROBERTS.

“O Cavaleiro das Trevas” cumpriu em pleno a aposta dos Estúdios ao tornar-se num dos filmes mais rentáveis de sempre, batendo “Spider-Man 3” e conquistando uma enorme lista de admiradores, ao mesmo tempo que se fala num Oscar póstumo para Heath Ledger pela sua interpretação na figura de “The Joker”, vilão anteriormente interpretado por Jack Nicholson, no primeiro filme realizado por Tim Burton. Christopher Nolan o cineasta de “Memento”, que ainda em criança começou a usar a câmara de super 8 do pai, surge assim como um dos autores de um dos filmes mais rentáveis de sempre.

Mas como o direito à opinião contrária ainda existe, gostaríamos de dizer que os “Batman” realizados por Tim Burton permanecem os nossos favoritos e, claro, gostamos muito mais do “Joker” criado pelo Jack Nicholson. Quanto a Heath Ledger, infelizmente falecido recentemente e possuidor de uma larga legião de admiradores, cumpre no papel que dá ao seu vilão, mas a sua interpretação não nos parece merecer o tão falado Oscar póstumo, recorde-se que até James Dean, que nunca viu nenhum dos filmes que protagonizou em vida, teve essa honra, por outro lado esse grande actor chamado Peter Finch que recebeu o Oscar postumamente pela sua interpretação em “Network” / “Escândalo na TV” de Sydney Lumet foi bem merecedor desse prémio.

No entanto “The Dark Night” cumpriu com todos os mandamentos dos “blockbusters”, desde a duração da película, as célebres duas horas e meia (embora só ao fim de uma hora agarre o espectador), como a direcção de actores de Christopher Nolan é escorreita, mas daí a ser coberto de prémios vai uma grande distância.
Quando Tim Burton foi substituído por Joel Schumacher ao leme de “Batman”, porque os Estúdios temiam a terceira realização de Burton, o resultado foi uma banda desenhada pensada a preto e branco passar a ter cor, mas melhor do que ninguém Tim Burton foi fiel ao “comic” criado por Bob Kane. Por outro lado o Batman de Christian Bale fica a milhas de distância do criado por Michael Keaton. É certo que os irmãos Nolan carpinteiraram de forma perfeita o argumento, criando esse clima de pânico e terror que assalta os habitantes de Gotham City (muitas das cenas foram filmadas em Chicago), como espécie de metáfora do sucedido após os acontecimentos do 11 de Setembro nos States. Mas a falta de “glamour” com que nos é oferecida a personagem de Rachel (Maggie Gyllenhall), não contribuiu em nada para adensar o clima negro que se pretendia dar ao filme. É claro que Michael Caine e Morgan Freeman cumprem nos seus papeis, embora tenham muito pouca visibilidade, já Gary Oldman veste de forma perfeita o comissário Gordon, enquanto Aaron Eckhart cumpre em pleno o papel oferecido pelo realizador.

O Joker de Heath Ledger, símbolo perfeito do mal e do caos, terá sempre a sombra do sorriso sarcástico desse outro Joker interpretado por Jack Nicholson e, embora Heath Ledger tenha dado o seu melhor na criação da personagem a que deu vida, investindo todo o seu saber, nunca poderemos dizer que estamos perante um Charles Foster Kane.
“O Cavaleiro das Trevas” de Christopher Nolan oferece-nos um filme em que esse justiceiro chamado Batman luta contra os seus próprios demónios, transformando-o num verdadeiro “out-sider” da lei, que termina por perder a sua amada em nome de um combate contra o crime, que ele já parece não dominar, perdendo os seus aliados de sempre e tornando-se “persona non grata” para os habitantes de Gotham City, ao mesmo tempo que obtém um novo inimigo, o célebre Two Face.
O mais recente Batman, realizado por Christopher Nolan, é inegável que possui o seu interesse, mas se Tim Burton estivesse ao comando do navio e Michael Keaton vestisse a pele do homem-morcego, o rumo teria sido certamente muito mais interessante.

Rui Luís Lima (**)
Paula Nunes Lima (**)
WERNER HERZOG PREPARA "REMAKE" DE ABEL FERRARA

Werner Herzog, um dos históricos do Novo Cinema Alemão, surgido no célebre manifesto de Oberhausen, prepara um “remake” do célebre filme de Abel Ferrara “Bad Lieutenant”, que proporcionou a Harvey Keitel uma das suas maiores interpretações da sua carreira. O veterano do cinema alemão, cidadão do mundo, que trocou o velho continente por Hollywood, irá ter Nicolas Cage a interpretar a personagem outrora vestida por Keitel. “Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans” irá contar também com a presença de Eva Mendes e Katie Conacas. O cineasta dos perturbantes “Grizzly Mann” e “Rescue Dawn”, surge assim perfeitamente integrado no sistema americano, embora continue a ser um verdadeiro "outsider".

RLL/PNL

Segunda-feira, Julho 28, 2008

ANGEL

FRANÇOIS OZON – (FRA/BEL/ING-2007) – (134 min/Cor)

ROMOLA GARAI, SAM NEILL, LUCY RUSSELL, MICHAEL FASSBENDER, CHARLOTTE RAMPLING.

François Ozon, um dos mais interessantes cineastas franceses, decidiu fazer o seu primeiro filme em inglês intitulado “Angel”, baseado no romance da escritora britânica Elizabeth Taylor (não confundir com a actriz), entrando pela porta grande do melodrama. A acção decorre no início do século xx, mais precisamente em 1905, quando a jovem Angel Deverell (Ramola Garai) ainda em criança decide ser escritora, embora não seja propriamente uma devoradora de literatura.
Vive com a sua mãe que possui uma pequena mercearia e sente uma profunda fascinação pelos habitantes da Mansão “Paradise”, onde a tia trabalha. A sua relação com a mãe, que não compreende o seu desejo pela escrita, é bastante tempestuosa, até que um dia recebe uma carta de um editor a quem tinha enviado o seu romance “Lady Urania”.

Théo (Sam Neill) pensava que a autora do livro fosse uma mulher de meia-idade e, quando se encontra com Angel, fica surpreendido ao deparar com uma simples rapariga, que não tem grandes conhecimentos literários nem nenhum autor favorito, embora seja dona de uma escrita contagiante. Ao apresentar algumas sugestões de alteração ao romance, Théo vê-se confrontado por uma jovem que se recusa a mudar uma vírgula, mesmo quando ele lhe explica que uma garrafa de champagne não se abre com um saca-rolhas, insistindo Angel na sua atitude de nada mudar ou corrigir. Como o romance “Lady Urania” é mesmo bom, ele decide avançar com a publicação, mesmo depois de a sua mulher Hemione (Charlotte Rampling) achar arriscado o lançamento de um livro escrito por uma pessoa tão jovem e obstinada.

O romance transforma-se em sucesso e traz a fortuna à sua autora, que de imediato começa a possuir uma legião de admiradores. Os anos passam e um dia ela descobre que a Mansão Paradise, que sempre a fascinara, se encontra à venda e decide então comprá-la, mudando-se para lá com a mãe. Angel Deverell torna-se assim uma mulher de sucesso, graças aos seus romances. É-lhe apresentada Nora (Lucy Russell, que vimos em “A Inglesa e o Duque” de Eric Rohmer), uma admiradora, que de imediato lhe oferece os seus serviços de secretária, passando também ela a habitar a Mansão “Paradise”. Nesse encontro, ela irá cruzar-se com o irmão de Nora, o pintor Esmé (Michael Fassbender, que em breve iremos ver no filme de Steve Mcqueen “Bobby Sands”, o guerrilheiro do IRA que morreu na prisão a fazer greve da fome), que é um crítico feroz dos gostos pictóricos de Angel. Ela então pede-lhe para ver os seus quadros e decide encomendar-lhe um retrato, servindo ela como modelo. Esmé decide pintá-la usando os seus tons escuros habituais, os mesmos que François Ozon utiliza ao longo do filme.

A relação que se estabelece entre Angel e Esmé não é vista com bons olhos por Nora, que conhece muito bem o irmão, sempre com dívidas ao jogo e um galanteador do sexo oposto, mas o que Nora esconde muito bem ao longo do filme é a atracção física que sente por Angel. A escritora acabará por se casar com Esmé que aceita o enlace simplesmente por razões financeiras, mantendo o seu estilo de vida, estando perdidamente apaixonado por uma outra mulher que sustenta e de quem irá ter um filho.
Entramos assim no território do melodrama e quando a guerra surge e Esmé é ferido, tudo se complica para Angel, que entretanto descobre a sua vida dupla. O pintor transforma-se num homem à beira do abismo, quando a mulher que ama decide casar com outro e termina por se suicidar. Angel, que entretanto deixara de escrever, após a morte do marido decide conhecer a paixão do seu marido e para grande surpresa sua, descobre que se trata da filha dos antigos proprietários da Mansão “Paradise”, essa criança tantas vezes cuidada pela sua tia.

Como tudo na vida, os tempos mudaram e os gostos literários também e assim Angel, que foi uma verdadeira estrela em ascensão, termina por ser um anjo caído na terra.
François Ozon, mais uma vez, filma este “Angel” com um saber único, revelando-se um verdadeiro cineasta de mulheres, fazendo recordar um pouco esse génio chamado George Cukor, por outro lado a sua opção, mais uma vez, é o artifício como se o filme fosse feito nessa época de ouro do cinema clássico. “Angel” surge assim no território de Ozon como mais um capítulo do seu cinema de autor, desta feita falado em inglês e respirando nostalgia por todos os poros.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima
JOE DANTE PREPARA REGRESSO

Joe Dante, um dos “movie-brats” de Hollywood, que tem estado bastante fugido do grande écran (recorde-se que os seus últimos filmes foram “Small Soldiers” / “Pequenos Guerreiros” em 1998 e “Looney Tunes. Back in Action” em 2003), está a preparar o seu regresso. Ainda este ano irá iniciar a rodagem e no território do terror, onde é um mestre, de “Bat Out of Hell”. Desta feita os piratas do ar (que têm surgido em tantos filmes nestes últimos anos), irão defrontar não as forças anti-terroristas, nem um presidente no seu “Air Force One”, mas sim um Monstro. E por falar em Monstro num avião, recordam-se daquele que surgia na asa do avião, no último segmento de “Twiligt Zone”?

RLL/PNL

Domingo, Julho 27, 2008

PARIS JE T'AIME

A Arte na Rua em St. Germain des Prés

Sexta-feira, Julho 25, 2008

RECORTES DA MINHA VIDA / RUNING WITH SCISSORS

RYAN MURPHY – (EUA – 2006) – (116 min/Cor)

ANNETTE BENING, BRIAN COX, ALEC BALDWIN, JOSEPH FIENNES, EVEN RACHEL WOOD, JOSEPH CROSS, JILL CLAYBURGH, GWYNETH PALTROW.


Todos sabemos que Annette Bening gosta de projectos arriscados, onde é hábito arrancar grandes interpretações, como sucedeu com “American Beauty” / “Beleza Americana”. Desta vez ela decidiu dar corpo e voz a Deirdre Burroughs, numa espantosa interpretação, tendo recebido um globo de ouro pelo seu desempenho em “Runing with Scissors” / “Recortes da Minha Vida”, baseado na história verídica de Augusten Burroughs. Recorde-se que este romance choque, publicado em 2002 nos Estados Unidos, se transformou rapidamente num “best-seller”. E seria o realizador da série “Nip Tuck”, que está a passar no pequeno écran no nosso país, o responsável pela sua transposição para o cinema.

Iremos assim encontrar um dos filmes choque desse ano de 2006, em que Ryan Murphy optou por nos oferecer uma comédia demasiado negra, explorando sempre os pontos mais sórdidos e mórbidos do romance escrito por Augusten, aqui interpretado por Joseph Cross. Basta olhar para o elenco para sabermos que este filme tudo possuía para ser um sucesso, mas as opções do cineasta, sempre em busca do abismo, terminam por nos oferecer uma película em que a dor humana e a loucura prevalecem sobre os sentimentos.

Deirdre Burroughs (Annette Bening) é uma poetisa em busca do sucesso que lhe escapa, sendo o seu filho de sete anos, Augusten, o seu maior fan, enquanto o seu marido Norman (Alec Baldwin) se vai refugiando no álcool para esquecer o casamento de que é um simples habitante. Cinco anos depois decidem consultar o Dr. Finch, um psiquiatra conhecido pelos seus métodos modernos e revolucionários, para os ajudar a ultrapassar a sua crise matrimonial. Mas o Dr. Finch (Brian Cox), que inicialmente os recebe no seu consultório, passa as consultas para a sua mansão victoriana (devido a problemas com o fisco), ficando assim o jovem Augusten a conhecer a disfuncional família do psiquiatra, terminando por encontrar em Natalie Finch (Evan Rachel Woods), a filha mais nova do psiquiatra, a sua companheira de aventuras, enquanto a filha mais velha Hope (Gwyneth Paltrow) é já o espelho perfeito do pai. Augusten acompanha a mãe até às consultas, descobrindo estupefacto que naquela casa a loucura é um habitante permanente.

Mas o pior ainda estava para vir e quando descobre que os pais se decidiram divorciar, percebe o rumo que a sua vida irá tomar, embora não desconfie que ele irá ultrapassar todos os limites da sua imaginação. Deirdre decide nomear o Dr. Finch como tutor do filho e partir em busca da felicidade que nunca será encontrada, tal como o sucesso que tanto deseja. E será a esposa do Dr. Finch (uma interpretação excelente de Jill Clayburgh), essa mulher eternamente subjugada por todos, a oferecer a Augusten a saída/fuga daquele manicómio.
Ryan Murphy, ao optar pela descrição dos pormenores mais sórdidos dos anos passados por Augusten na casa do Dr. Finch (recorde-se que estamos perante um caso verídico), ultrapassa muitas vezes os limites da comédia negra, criando por vezes situações penosas de assistir, não conseguindo nunca entrar nesse universo perfeito da comédia negra que um dia nos foi oferecido por Wes Anderson em “The Royal Tenenbaums”, apesar deste “Recortes da Minha Vida” também possuir um elenco de luxo.
Nunca estreado em Portugal no grande écran, este “Runing With Scissors” surgiu recentemente em dvd, com alguns extras bastante elucidativos e onde nos é oferecida uma entrevista com o próprio Augusten Burroughs que nos relata a sua visão da transposição para o cinema deste filme baseado na sua obra autobiográfica.
“Recortes da Minha Vida” surge assim como mais um filme em que Annette Bening nos oferece uma excelente interpretação à beira do abismo, no verdadeiro sentido da palavra, demonstrando não possuir medo de interpretar personagens transgressoras. Esperamos que um dia alguém se lembre de editar em Portugal o seu “Mrs. Harris”, filme feito para a HBO, protagonizado também por Ben Kingsley, onde o universo da psiquiatria é mais uma vez abordado.

Rui Luís Lima (**)
Paula Nunes Lima (*)

AS ESTREIAS DA SEMANA

Batman está de regresso aos nossos écrans, novamente pela mão de Christopher Nolan, recorde-se que o cineasta de “Memento” já tinha assinado o anterior filme “Batman Begins”. Desta feita trata-se de “O Cavaleiros das Trevas” / “The Dark Knight”, onde Heath Ledger nos surge na sua última interpretação. Será aliás curioso comparar a sua personagem de “Joker” com a protagonizada por Jack Nicholson no filme de Tim Burton.
Da Republica Checa chega-nos “Eu Servi o Rei de Inglaterra” / “Obsluhoval Jsem Anglickeho Krale” de Jiri Menzel, que nos conta a história na primeira pessoa de Jan Praga, a sua ascensão e queda, ao mesmo tempo que nos é oferecido um retrato da Checoslováquia desses anos.
Para os mais pequenos surge “Macacos no Espaço” / “Space Chimps” de Kirk de Macco, onde iremos acompanhar as aventuras destes símios numa galáxia bem distante.

RLL/PNL

Quarta-feira, Julho 23, 2008

DIFAMAÇÃO / NOTORIOUS

ALFRED HITCHCOCK – (EUA – 1946) – (101 min – P/B)

INGRID BERGMAN, CARY GRANT, CLAUDE RAINS, LOUIS CALHERN, LEOPOLDINE KONSTANTIN.


“Notorious”, como todos sabemos, é uma das obras-primas de Hitchcock e, nesta história de espionagem, vive uma das mais belas histórias de amor do cinema. Como não podia deixar de ser não se trata de um par, mas sim de um triângulo composto por Devlin (Cary Grant), Alicia (Ingrid Bergman) e Sebastian (Claude Rains). E o célebre MacGuffin, como explicou Hitch, é uma amostra de urânio escondida numas garrafas de vinho. E nunca é demais referir que na época poucos sabiam a que se destinava o célebre urânio, chegando-se a falar que Hitch foi vigiado por agentes do FBI, quando se conheceu o argumento. Estamos assim perante um verdadeiro enredo de um filme de espionagem, género tão do agrado do Mestre do Suspense.

Alicia Huberman (Ingrid Bergman) assiste, no início do filme, ao julgamento do pai, um espião nazi entretanto descoberto e preso pelas autoridades americanas. Este tipo de relação familiar já nos tinha sido oferecida em “Correspondente de Guerra” / “Foreign Correspondent” (1942), porque na verdade todos sabemos que, durante a segunda guerra mundial, foram muitos os espiões alemães a fazerem o seu trabalho no território do adversário, como Hitch nos mostrou em “Sabotagem” / “Saboteur” (1942). Iremos assim assistir à condenação de Huberman e à saída da sua filha do tribunal tentando, por todos os meios, fugir às perguntas os jornalistas.

A condenação do seu pai leva-a a tentar encetar uma nova vida e será assim que a iremos encontrar a dar uma festa em sua casa para os amigos, refugiando-se no álcool para esquecer a perda do pai. Será também aqui que iremos encontrar Devlin (Cary Grant) pela primeira vez, cuja identidade desconhecemos. Alicia decide andar pela estrada fora no seu carro e Devlin faz-lhe companhia, seguindo todos os seus gestos com a máxima atenção, porque ela acelera demasiado e está perfeitamente ébria, até que são detidos por um polícia e só então ficamos a saber, tal como Alicia, a verdadeira identidade de Devlin: um agente do governo encarregado de a vigiar. Mas com a passagem do tempo ambos se apaixonam, embora Devlin coloque o dever acima do amor e quando ele a informa que necessita dos seus serviços para vigiar um grupo de nazis suspeitos, que se encontram no Brasil, ela irá aceitar essa missão.

Alexander Sebastian (Caude Rains), antigo amigo do pai de Alicia, nutre uma profunda paixão por ela e quando se encontram ele não esconde os seus desejos. E será assim que Devlin irá mandar a mulher que ama para os braços de outro homem, depois desta ter aceite a perigosa missão. Iremos então assistir ao conflito interior que irá tomar conta de Devlin, que tal como Alicia aceitam as sugestões de Paul Prescott (Louis Calhern), o responsável pela espionagem americana no Rio de Janeiro, mantendo-se Devlin como o agente de ligação de Alicia.

Mas ao contrário de Devlin, Sebastian não esconde o seu amor pela jovem e quando ele lhe propõe casamento tudo se irá complicar, embora Alicia cumpra à risca as ordens que lhe são dadas: casar com o homem que não ama para descobrir o que se passa naquela casa em que se reúnem nazis. E nunca é demais lembrar o esforço de guerra feito pelos americanos na chamada política de boa vizinhança com os países da América Latina, onde algumas simpatias pelo regime de Hitler eram por vezes bem visíveis. E será assim que Hitchcock irá introduzir a chave do mistério que rodeia aquela casa, onde cientistas alemães se reúnem.

Hitchcock irá introduzir o “suspense” de forma lenta e gradual ao acompanharmos o percurso de Alicia pela casa, sempre vigiada pela mãe possessiva de Sebastian (Leopoldine Konstantin), que segue a nora para todo o lado, em busca do segredo que desconhece. E será numa festa dada pelos Sebastian que Alicia revela a Devlin, então presente como amigo dela, que algo se encontra escondido na adega da casa, as célebres garrafas com urânio, e será nesta longa sequência em busca do célebre MacGuffin, tratada por Hitch com grande saber, que Sebastian irá perceber que a sua mulher é uma espia. Decide então confessar o sucedido à mãe, ao mesmo tempo que esconde dos outros alemães a terrível descoberta, porque sabe que eles não irão ter contemplações com Alicia nem com ele, porque por ali não se olha a meios para atingir fins.

Até aqui a forma de agir de Devlin, para o espectador, é verdadeiramente antipática, porque se trata de um homem que trocou o amor por uma causa, mas quando percebe que a mulher que ama nunca irá sair daquela casa tudo muda de figura, porque ela até está a ser envenenada, lentamente, com arsénico. Criando então Hitchcock o verdadeiro clímax do filme nesse momento em que Devlin entra na casa para levar Alicia dali para fora. E aqui Hitch decidiu brincar/sabotar a censura e o famoso código Hays, quando infringe as regras da duração de um beijo, estipuladas pelo infelizmente célebre censor, pondo Devlin a beijar de forma ininterrupta a bela e doente Alicia, no cimo das escadas, enquanto a tenta arrastar para fora da Mansão.

Descobertos por Devlin e Anne (Leopoldine Konstantin) conseguem sair daquele antro, simplesmente porque Sebastian se recusa a confessar aos seus cúmplices que a sua mulher é uma espia, deixando-a por amor seguir o seu caminho, levada pelo seu rival, porque é mesmo disso que se trata: a luta de dois homens pela posse do corpo/amor de uma mulher. E mais uma vez Hitchcock nos oferece a essência do seu cinema, criando ao longo de toda a película um suspense gradual, que irá atingir o seu clímax na sequência final.
“Difamação” / "Notorious"surge assim como um dia afirmou François Truffaut “a quintessência de Hitchcock”. Uma obra que nos fascina cada vez mais com a passagem do tempo e onde a câmara do cineasta filma, como ninguém, os sentimentos das diversas personagens, basta ver como o olhar de cada um deles nos é oferecido para descobrirmos como muitas vezes o cinema consegue filmar a alma.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)
MICHAEL HANEKE PREPARA NOVO FILME

Michael Haneke, cujo nome foi fixado pelos cinéfilos após a feitura de “Benny’s Vídeo” e que surpreendeu todos com o seu “Funny Games”, do qual fez um “remake” americano com Naomi Watts e Tim Roth, estreado recentemente e depois do reconhecimento internacional atingido com “A Pianista” e “Caché”, prepara mais um filme, desta vez falado em alemão “Das Weisse Band”, cuja acção se passa em 1913, numa zona rural do norte da Alemanha e onde se colocam questões sobre o sistema educativo então vigente. Já com a rodagem em preparação promete mais uma vez ser polémico.

RLL/PNL

Segunda-feira, Julho 21, 2008

LUCAS BELVAUX EM RODAGEM

Foi na sala do cinema Nimas que descobrimos o cinema de Lucas Belvaux, nesse filme maravilhoso intitulada “Para Rir”, com um Jean-Pierre Léaud imperturbável e muito zen, até descobrir que a sua mulher, interpretada por Ornella Muti, tinha um amante que seria salvo do suicídio por ele. Filme profundamente delirante, já demonstrativo de todo o saber do cineasta. Depois como todos devem estar recordados foi a sua célebre trilogia que deu imenso que falar. Em Outubro irá começar a rodagem de “Rapt!”, com Yvann Attal no protagonista (recordam-se de Anthony Zimmer?). O filme baseia-se no rapto no barão Empain ocorrido em 1978.

RLL/PNL

Domingo, Julho 20, 2008

PARIS JE T'AIME

GRAND ARCHE "LA DEFENSE"









(foto Paula Nunes Lima)

Sexta-feira, Julho 18, 2008

O QUARTO ANJO / THE FOURTH ANGEL

JOHN IRVIN – (ING/CAN – 2001) – (97 min/Cor)

JEREMY IRONS, FOREST WHITAKER, JASON PRIESTLEY, BRIONY CLASSCO, CHARLOTTE RAMPLING.


John Irvin é um experiente realizador inglês, oriundo da televisão, já com uma longa carreira no cinema, tendo dado nas vistas quando no início dos anos oitenta assinou “The Dogs of War” com Christopher Walken e Tom Berenger nos protagonistas. “Hamburguer Hill”, sobre a guerra do Vietname, iria revelar ao mundo o talento do então desconhecido Don Cheadle, mas seria a versão deste realizador de “Robin Wood”, com um Patrick Bergin a vestir a pele do célebre Robin dos Bosques, uma das suas melhores obras, oferecendo-nos um lado negro, até então ausente das diversas adaptações levadas ao cinema, tanto por Michael Curtiz como Kevin Reynolds, para além desse verdadeiro divertimento, muito british intitulado "Widows Peak", com uma Mia Farrow inesquecível.

“O Quarto Anjo” possui um elenco que à partida prometia muito, mas o argumento de Allan Scott, baseado no livro de Robin Hunter, acabará por nos trair a todos devido a certas facilidades e redundâncias que se revelam fatais ao longo da película, porque na verdade nem todos podem ter a mestria de um John Le Carré.
Jack Elgin (Jeremy Irons) é um editor do “Economist” que gosta de juntar férias com trabalho e, depois de ter prometido à mulher (Brian Classco) e aos filhos umas férias de sonho em Corfu, decide alterar os seus planos e optar pela India, porque pretende fazer uma reportagem nesse país. Mas, devido a uma falha técnica, o avião onde seguiam é obrigado a aterrar na ilha de Chipre e quando menos se esperava o avião é tomado por um grupo terrorista denominado 15 de Agosto, que pede um resgate de 50 milhões de dollars pelos passageiros.

E até aqui tudo é perfeito no filme de John Irvin, desde o quotidiano dos Elgin, até à operação levada a cabo pelas forças anti-terroristas, que termina em tragédia, com 15 mortos, onde se incluem a mulher e as duas filhas de Jack Elgin.
Três dos terroristas sobreviveram e, por razões desconhecidas, acabarão por ser libertados para grande espanto do editor, que fica chocado com a inoperância do seu governo. Entretanto ficamos a saber que o dinheiro do resgate também foi pago aos assaltantes. E aqui começa na verdade a derrapagem do filme a nível de argumento.

Jack Elgin decide fazer justiça pelas suas próprias mãos estabelecendo contactos com amigos privilegiados, que se movimentam no interior dos serviços secretos e será assim que iremos encontrar Kate Stockton (Charlotte Rampling), uma ex-operacional que o avisa que os terroristas são simples mercenários que apenas pretendiam dinheiro. Em “O Quarto Anjo” encontramos Jeremy Irons num filme de acção, a vestir uma pele que poderia muito bem pertencer a Charles Bronson. E, na verdade, a forma como tudo se passa possui uma credibilidade muito reduzida, principalmente quando percebemos que Jack Elgin apenas está a ser manipulado à distância pelo estratega da operação, que o vai usando para eliminar os seus colegas de golpe.

No meio de tudo isto, ainda temos o habitual duelo entre operacionais da CIA (Jason Priestley) e Forrest Whitaker (FBI), o primeiro a fazer o seu jogo, o segundo na pista dos milhões e claro pelo meio temos esse quarto anjo de que fala o filme em busca de justiça. Os assaltantes são provenientes dos Balcãs, temos por aqui sérvios e bósnios fazendo lembrar um pouco quando foi feita a adaptação ao cinema de “A Tia Júlia e o Escrevedor”, do escritor Mário Vargas Llosa, em que Hollywood decidiu trocar os argentinos por albaneses, para que não houvesse um protesto diplomático por parte da Argentina, alterando profudamente o sentido do maravilhoso livro escrito pelo escritor peruano. Para terminar poderemos dizer que este filme de John Irvin, com bons actores e uma realização escorreita, termina por se revelar um fracasso, vítima de um argumento que parece ter sido escrito como se fosse uma manta de retalhos, na verdade um pecado imperdoável.

Rui Luís Lima (*)
Paula Nunes Lima
(**)
ESTREIAS DA SEMANA

Jennifer Lynch, a filha do famoso David Lynch, regressa aos nossos écrans com o filme “Vigilância” / “Surveillence”, tendo Júlia Ormond e Bill Pullman nos protagonistas, num policial que surge com a bênção do pai, aqui no papel de produtor executivo. Recorde-se que Jennifer teve o seu baptismo de fogo com o polémico “Boxing Helena”, que na época também se estreou no nosso país, como devem estar recordados passou nos cinemas Alfa.
O documentarista Grant Green oferece-nos em “Joy Divison” o retrato/percurso da célebre banda de Manchester, em que pontificou essa figura incontornável chamada Ian Curtis.
As célebres “Crónicas de Narnia” da autoria do escritor C.S.Lewis, a que Anthony Hopkins deu vida em “Shadowlands”, surgem de novo no nosso écran, pela mão de Andrew Adamson, que já tinha assinado o primeiro filme. Desta feita são-nos contadas as aventuras do "Príncipe Caspian".
Maria de Medeiros está de regresso aos nossos écrans, numa produção franco/italiana, “Abrigo” / “Riparo – Anis tra di noi” de Marco S. Puccioni, num retrato do mundo contemporâneo e das relações humanas que navegam nas margens da vida.
Da Irlanda surge mais um filme de terror assinado por Paddy Breathnach. Este “Alucinações” / “Shrooms” demonstra como não é nada aconselhável consumir cogumelos alucinogéneos.
“Harold and Kumar Escape from Guantanamo Bay” de Jon Huwitz, que em Portugal tem o título de “Grande Moca, Meu! A Fuga”, aposta no território da comédia, sendo o segundo filme desta dupla de actores constituída por John Cho e Kal Penn, o primeiro filme surgiu em 2004, com o título "Harold and Kumar go to White Castle".

RLL/PNL

Quarta-feira, Julho 16, 2008

STROMBOLI / STROMBOLI – TERRA DI DIO

ROBERTO ROSSELLINI – (ITA – 1950) – (107 min - P/B)

INGRID BERGMAN, MARIO VITALE, RENZO CESANA, MARIO SPANZA.

“Stromboli” surge na cinematografia de Roberto Rossellini como a sua primeira colaboração com a actriz Ingrid Bergman, que trocara Hollywood e o “star-system” por amor a um cineasta do qual muito pouco sabia, mas cuja visão de “Roma Cidade Aberta” lhe alterou o sentido da vida.

Karin (Ingrid Bergman) é oriunda da Lituânia e, após a invasão do seu país pelas tropas alemãs durante a segunda Guerra Mundial, refugia-se na Jugoslávia, partindo depois para Itália com um passaporte falso. Iremos assim encontrá-la detida num campo de refugiados perto de Roma, onde vivem inúmeras mulheres à espera de partir e reconstituir uma nova vida. Mas o pedido de Karin para partir para a Argentina é recusado pelo Cônsul daquele país em terras italianas e esta acaba por se casar com um dos muitos soldados italianos que, à noite, vão até ao campo de detenção cortejar as mulheres que aí habitam, para assim poder fugir daquele espaço que a sufoca lentamente.

António (Mário Vitale) é um soldado oriundo da ilha de Stromboli, uma das mais pobres da Itália, ciclicamente devastada pelas erupções vulcânicas. Antigo pescador, ao regressar à ilha, descobre que o seu barco de pesca se encontra perdido para sempre e recomeça o seu trabalho na pesca na companhia de outros pescadores, num barco que não lhe pertence. Por outro lado a sua casa está praticamente destruída no interior e Karin, estupefacta pela terra que a acolhe, tudo faz para embelezar o seu novo lar. Mas a sua presença de imediato desperta a hostilização das outras mulheres, que invejam a sua beleza e se recusam a entrar na sua casa, encontrando conforto não no marido mas no faroleiro (Renzo Cesana), que tinha conhecido no barco que a levara para Stromboli.

Um dia em que está junto às águas do mar, a ver as crianças a brincar, decide fazer-lhes companhia até que uma onda a arrasta e será precisamente o faroleiro que se encontrava próximo a segurá-la, perante os olhares rancorosos das outras mulheres da ilha que observam o que se passa.
Nesse mesmo dia, ao regressar a casa, António sabe do sucedido e ao passar pelas ruas ouve vozes que lhe chamam cornudo e de imediato decide encarcerar a mulher em casa, depois de lhe ter batido. E será o faroleiro a ir retirar Karin da sua prisão, oferecendo-se para a levar para o outro lado da ilha onde existe uma outra povoação. Mas Karin, apesar de estar grávida de três meses, não aceita ir de barco com ele embora aceite o seu dinheiro, decidindo subir as montanhas e contornar o vulcão, para fugir do seu destino.


A rodagem de “Stromboli” foi atribulada, já que o roteiro de Rossellini escrito por Sérgio Amidei era mínimo e depois os correspondentes estrangeiros da imprensa decidiram invadir a ilha para acompanhar a rodagem, apesar de esta ser de difícil acesso, porque Ingrid Bergman continuava casada com o marido, embora estivesse a viver com o cineasta italiano, originando um escândalo de grandes dimensões. Por outro lado, os actores que contracenavam com a actriz sueca eram quase todos amadores e Rossellini tinha imensa dificuldade em os dirigir.
Apesar de todos estes obstáculos a ex-estrela de Hitchcock surge em “Stromboli” oferecendo-nos a sua beleza profunda, basta ver os grandes planos de Ingrid ou a sequência profundamente sensual dela, no mar com as crianças.
As dificuldades e o martírio porque passou Ingrid Bergman na rodagem da película foram enormes, chegando a queimar os pés na célebre subida para contornar o vulcão. Já o cineasta conseguiu oferecer-nos mais uma obra neo-realista, de cujo género foi o fundador com Visconti, nunca nos poderemos esquecer de “Obsessão” que, com “Roma Cidade Aberta”, marcam o nascimento de um género cinematográfico.

“Stromboli” oferece-nos ainda duas sequências que fizeram história: a célebre pesca do atum, que irá aterrorizar Karin, assim como o vulcão em erupção, cujas imagens ficaram na história do cinema e tornaram célebre a película do cineasta italiano.
E quando Karin, em fuga do marido, começa a chegar à zona da erupção os gases saídos do vulcão impedem a sua caminhada perdendo a mala e o dinheiro que levava consigo, para recomeçar uma nova vida e num acto de desespero ou fé, de joelhos sobre as cinzas do vulcão, (cada um entende como quer), ela evoca o nome de Deus e pede a sua ajuda para iluminar o caminho da sua existência.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (***)
ARI FOLMAN E “WALTZ WITH BASHIR”.

Ari Folman é um nome que devemos registar na nossa memória de cinéfilos, depois de ele ter surpreendido tudo e todos com o seu documentário “Waltz with Bashir”. Um documentário feito em animação, oferecendo-nos um novo território a explorar pela sétima arte. Depois do surpreendente “Persépolis”, realizado por Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, que nos oferece um retrato contundente do Irão feito por quem lá viveu, chegou a vez de Ari Folman nos oferecer o seu olhar sobre Israel e os seus vizinhos (muito em especial o Líbano), numa obra que quebrou barreiras e “invadiu” territórios até hoje nunca visto no cinema: um documentário de animação. Ficamos a esperar pela sua estreia nas nossas salas de Cinema.

RLL/PNL

Segunda-feira, Julho 14, 2008

A RAPARIGA CORTADA EM DOIS / FILLE COUPÉE EN DEUX

CLAUDE CHABROL – (FRA-2007) – (115 min/Cor)

LUDIVINE SAGNIER, BENOIT MAGIMEL, FRANÇOIS BERLÉAND, MATHILDA MAY, VALERIA CAVALLI, THOMAS CHABROL.


Com uma certa regularidade os filmes de Claude Chabrol vão chegando ao grande écran no nosso país e, mais uma vez, esse grande cineasta francês, um autor por excelência, continua a oferecer-nos o seu olhar sobre a sociedade francesa, utilizando a sua câmara como um verdadeiro bisturi.

Em “Fille coupée en deux” / “A Rapariga cortada em dois” vamos conhecer a história de uma jovem apresentadora de televisão (faz o boletim meteorológico), cuja vida se irá cruzar com um célebre escritor de meia-idade, recluso na sua casa da província, alérgico aos média e ao sucesso. Charles Saint-Denis (François Berléand) leva, aparentemente, uma vida pacata na sua mansão moderna na companhia da sua mulher (Valeria Cavalli), mas esse casamento não passa de uma simples fachada, bem conhecida da sua amiga e editora Capucine (Mathilda May). E será na apresentação do seu último romance, na livraria dessa pequena cidade, que ele se irá cruzar por mero acaso com a jovem Gabrielle que, de imediato, o fascina.
Gabrielle (Ludivine Sagnier), filha da livreira, não possui grande ternura pela literatura mas a figura do escritor desperta-lhe interesse, ao mesmo tempo que o jovem milionário Paul Gaudens (Benoit Magimel), ao cruzar-se com ela nesse evento, decide tentar a sua sorte junto da jovem apresentadora.

Iremos assim entrar num duelo entre dois homens que se odeiam e que desejam ardentemente uma jovem mulher que inicialmente se inclina para figura do escritor, com idade para ser pai dela, mas que a fascina e a convida a conhecer esse mundo de prazer onde ele gosta de navegar, em que tudo é permitido. Lentamente Gabrielle entra no território do proíbido, aceitando todos os desejos de Charles Saint-Denis, mas quando ela lhe pede para ele deixar a mulher tudo se complica, decidindo ela então aceitar o namoro incessante que Paul Gaudens lhe faz, afastando-se do escritor. Mas o jovem Paul conhece demasiado bem o mundo perverso de Saint-Denis e mais forte que o amor que ele possui por Gabrielle é o ódio que devota ao seu rival. E será esse mesmo ódio que irá decidir o destino de todos, após o seu casamento com Gabrielle, já que o ciúme lhe começa a devorar a alma.

Claude Chabrol, com os seus 77 anos, oferece-nos mais uma vez, o seu olhar profundo sobre a província francesa e as suas personagens, em que ninguém é inocente, fazendo um retrato trágico e mordaz de uma certa intelectualidade, ao mesmo tempo que olha sem piedade os habitantes da caixa que mudou o mundo.
Ludivine Sagnier, uma das grandes revelações do cinema francês descoberta por François Ozon, encontra-se neste filme como peixe na água e Benoit Magimel, que tínhamos visto em “A Pianista”, oferece-nos uma interpretação excelente, como se fosse um "dandy" saído da pena de Oscar Wilde, sendo um nome a seguir. Já François Berléand, na figura do escritor Saint-Denis, surge aqui com uma contenção espantosa, mergulhando de corpo e alma na personagem que interpreta.
Quanto a Claude Chabrol, que também assina o argumento, oferece-nos mais um filme que merece uma visão atenta, onde a sabedoria do cineasta respira por todos os poros. O seu olhar sobre a sociedade francesa é de um brilhantismo absoluto, mas também incómodo para muitos.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Domingo, Julho 13, 2008

PARIS É UMA FESTA !

Paris continua a ser aquela cidade que faz as delícias do cinéfilo e nunca é demais referir alguns locais onde é na verdade obrigatório o amante do cinema fazer uma visita.
Ao chegar à cidade das luzes não se esqueça de ir à Nova Cinemateca Francesa, em Bercy, é fácil lá chegar através da rede do metro e depois descobrir a nova Catedral das Cinematecas, já com todas as secções abertas. E dizemos isto porque no ano passado a livraria ainda se encontrava fechada e este ano surge em todo o seu esplendor. Aqui sessões de cinema não faltam nas diversas salas e depois há sempre a exposição permanente em dois pisos, onde navegamos ao sabor da memória do Cinema na companhia dessa figura enorme chamada Henri Langlois, o Pai das Cinematecas.

Mas se desejar comprar livros de cinema e não só, “ao preço da chuva” não se esqueça de ir à famosa cadeia “Mona Lisait”, recomendamos duas lojas: uma no Les Halles, perto do Centro Pompidou e outra nos Grand Boulevards. E por falar nos Grand Boulevards visite esse maravilhoso Paraíso do cinéfilo, na Passagem lateral onde se situa o Museu Grévin. A simpatia mora nessa casa, onde tem à sua disposição milhares de fotografias de filmes, edições raras e actuais de livros de cinema, assim como uma criteriosa dvdteca onde encontra verdadeiras preciosidades.

E por falar em dvd, não se esqueça de ir conhecer uma pequena loja de dvd, em frente ao Centro Pompidou, em que os filmes são a um preço inacreditável, com cópias boas. Só para dar uma ideia ali encontra “Rebecca” e “Notorius” a 2,99 euros, dvds duplos de Ingmar Bergman a 9,99 euros, clássicos do cinema soviético a 2,99 e clássicos do cinema a um preço imbatível, cuidado com a carteira porque vai sair de lá carregado de filmes!
Ir a Paris e não ir ao Centro Pompidou é como ir a Roma e não ver o Papa, por isso não há nada como dar aquele salto à livraria do Centro e ali irá descobrir mais preciosidades tanto a nível de dvd, como de livros. Recomendamos vivamente que compre os livros da série os Grandes Cineastas, editados pelos Cahiers du Cinema, que não foram incluídos na edição Portuguesa. Referimo-nos a Alfred Hitchcock por Bill Khron, Robert Bresson por Jean-Michel Frodon (actual director da revista), Pedro Almodóvar por Thomas Sotinel, Clint Eastwood por Bernard Benoliel, e Luís Buñuel pelo mais que famoso Alain Bergala, são a 7,00 cada. Para além de outras obras que por lá poderá descobrir, como os famosos volumes do Centro Pompidou dedicados às diversas cinematografias, ao preço de 10,00 cada. E não se esqueça de mergulhar nesse universo fabuloso do livro de poche, onde o cinema também se encontra presente.

Se fizer este circuito cinéfilo, certamente fará algumas compras e nada melhor do que descansar no Parque Monceau, para dar uma vista de olhos pelas suas compras e depois seguir calmamente até ao Arco do Triunfo e visitar, mesmo ali ao lado, um dos cinemas mais célebres desse período de guerra/debate cinéfilo entre Cahiers du Cinema e Positiv, falamos é claro do conhecido MacMahon, na avenida do mesmo nome e onde passam filmes do cinema clássico em cópia restaurada, com a respectiva “folhinha” para o espectador se situar na obra que vai ver. E já que falamos em salas não se esqueça de visitar o Rex e conhecer a sua história, um dos mais célebres cinemas da capital francesa.
Muito ficou por dizer, mas apenas pretendemos dar umas dicas para um roteiro cinematográfico pela maravilhosa cidade das luzes porque, como escreveu um dia Hemingway, Paris é uma Festa!

Rui Luís Lima / Paula Nunes Lima

Sexta-feira, Julho 11, 2008

GRACE KELLY EM PARIS !

Com a chegada do Verão as férias convidam a sair do país e, se for a essa cidade maravilhosa chamada Paris, não se esqueça de visitar a exposição que se encontra no Hotel de Ville, mesmo no centro da capital francesa, dedicada à vida e obra cinematográfica dessa actriz cheia de glamour chamada Grace Kelly, mais tarde Princesa, que ainda nos continua a fascinar nos écrans de cinema.

Se andar a passear por Paris nas famosas bicicletas de aluguer, pode já ficar a saber que existe um parque das mesmas mesmo em frente à entrada da exposição que veio directamente do Principado do Mónaco e aproveite para tirar fotografias aos cartazes no exterior, porque no interior é proibido fotografar. Por outro lado, nunca é demais realçar que a entrada é livre, embora a espera na fila seja bastante demorada, entram grupos de 12 a 15 pessoas de cada vez, que são minuciosamente revistadas, mas não se assuste porque vale mesmo a pena, terá é que ir preparado para esperar pelo menos uma hora na fila, foi o que nos aconteceu entre as duas e as três da tarde.

Mas, depois de entrar, todo o tempo do mundo está por sua conta, para ver no primeiro écran da Exposição as participações de Grace Kelly nos três filmes que fez com Alfred Hitchcock (se tiver sorte, talvez arranje um lugar para se sentar, é simplesmente uma questão de esperar pela sua vez). A separar o primeiro écran do segundo onde se exibem as suas participações em outros filmes de Hollywood, irá descobrir o famoso comboio, que circula por ali. Poderá também ver o nascimento da beleza de Grace Kelly, através das diversas revistas em que ela foi rosto, simplesmente delicioso.

Como não podia deixar de ser, quase junto do tecto, surge uma janela indiscreta onde a célebre figura de Hitchcock nos olha, para então descobrirmos em diversos “home-videos” como Grace Kelly estava fadada para ser Estrela e Princesa, vale mesmo a pena visionar na íntegra e perceber como a sua interacção com a câmara é uma constante, ou seja o chamado improviso é sempre controlado e cativante, sempre com o seu célebre sorriso nos lábios.

Mas, como todos devem estar recordados, uma das delícias de diversas gerações foi e é o guarda-roupa que ela nos ofereceu na tela, pois ele ali está mesmo ao nosso lado e por favor resista à tentação de lhe tocar, porque ele está à distância de um simples dedo da mão, tente apenas imaginá-la a seu lado com aqueles esplendorosos vestidos, seguindo as indicações do Mestre do Suspense. No entanto, como todos nos recordamos, haviam também as célebres jóias, tanto nas películas como na vida real, que a transformaram em Princesa. E elas também estão lá, bem guardadas do amigo do alheio, fazendo crescer água na boca a público feminino, assim como as suas famosas malas, incluindo a célebre “Hermés” que ela levava consigo para todo o lado.

Como não podia deixar de ser a sua vida como Princesa também se encontra bem patente, ao lado do marido Príncipe Ranier e das três crianças que deu à luz, das quais podemos acompanhar o seu crescimento através de uma deliciosa mostra fotográfica da sua vida no Principado do Mónaco, esse pequeno território que um dia a fascinou para sempre quando estava a rodar “Ladrão de Casaca” / “To Catch a Thief”, na companhia de Gary Grant, que se tornou um grande amigo para o resto da vida.

Só para terminar esta pequena crónica parisiense convém recordar que a cinéfilia permanece no coração dos franceses e, nesta exposição dedicada a Grace Kelly, encontram-se à venda cartazes dos filmes em que Grace Kelly participou em Hollywood e diversos livros sobre a sua vida e obra no cinema, sendo inevitável destacarmos os cartazes dos três filmes em que foi dirigida por Hitchcock: “Chamada para a Morte”, “Janela Indiscreta” e “Ladrão de Casaca”. Quanto aos livros será imperdoável o leitor não comprar o volume da série dos Grandes Cineastas que os Cahiers du Cinema dedicaram a Hitchcock e que não surgiu na edição portuguesa, (o seu preço é de apenas 7 Euros), da responsabilidade desse veterano da crítica chamado Bill Krohn, correspondente na América da célebre revista e que recentemente dedicou ao Mestre do Suspense um longo e maravilhoso volume intitulado “Hitchcock au Travail”. Perante isto tudo convém o leitor levar consigo “aqueles trocos”, para mais tarde se deliciar. Não perca esta exposição no “Hotel de Ville”, se passar este verão por Paris, ela é simplesmente soberba, como essa eterna Estrela chamada Grace Kelly!

Rui Luís Lima / Paula Nunes Lima
AS ESTREIAS DA SEMANA

Eric Rohmer está de regresso aos nossos écrans com o seu mais recente trabalho “Os Amores de Astrea e de Celadon” / “Les Amours d’Astrea et Celadon” e mais uma vez, aos 87 anos, o cineasta surpreende-nos nesta história de amor, onde navegam pastores, ninfas e druidas, onde o texto assume uma importância extrema ou não fosse Rohmer um dos cineastas da palavra.
“Tropa de Elite” do documentarista brasileiro José Padilha, Urso de Ouro do último Festival de Berlim, prémio que originou os mais diversos debates, com as opiniões a extremarem-se, é outra das estreias, onde nos é relatada a acção das forças especiais, os célebres BOPE, na sua luta nas favelas contra os traficantes de droga que controlam o terreno.
Angelina Jolie, que recentemente deu à luz um casal de gémeos, está de regresso aos nossos écrans em “Procurado” / “Wanted” de Timur Berkmanbetov, tendo ao seu lado o experiente Morgan Freeman e James McAvoy.
De Espanha chega-nos “Os Borgia” / “Los Borgia”, essa família tantas vezes retratada no cinema, através da realização de António Hernandez.

RLL/PNL

Quarta-feira, Julho 09, 2008

THE GENERAL / PAMPLINAS MAQUINISTA

BUSTER KEATON – (EUA – 1927) – (75 min-P/B-Mudo)

BUSTER KEATON, MARION MACK, GLEN CAVENDER, FRANK BARNES, CHARLES SMITH, JIM FARLEY, FREDERICK WROON.

Essa difícil Arte da comédia ou se preferirem burlesco teve, na época do mudo, dois nomes incontornáveis: Charles Chaplin e Buster Keaton. E se o primeiro é o mais famoso, o segundo não lhe fica atrás em genialidade e rigor estético. Mas nada melhor do que dar a palavra a um grande cineasta e crítico chamado Eric Rohmer para definir estas duas personalidades:
“Vemos Charlot como uma criança insuportável e cujas travessuras nos encantam, o que não nos impede que as suas infelicidades possam comover. O riso crítico é dirigido aos outros. Pelo contrário o riso que suscita Buster Keaton é da mesma natureza que o que provoca uma jovem criança que leva a sério uma tarefa aparentemente inadequada à sua idade e às suas capacidades. Uma certa condescendência, mas também uma verdadeira admiração misturam-se com esse riso. Buster só executa os movimentos exigidos pela acção e cuja eficácia é comprovada a qualquer momento.” E na verdade basta reparar nesse rosto sempre (in)expressivo, que transporta consigo, para ficar tudo dito, o sorriso nunca aflorou o seu rosto, ao longo da sua extraordinária carreira no cinema.

Quando nos falam nos filmes de Buster Keaton, de imediato nos vem à memória essa obra impar intitulada “Sherlock Jr”, onde Woody Allen foi beber toda a magia para criar a sua “Rosa Púrpura do Cairo”, recorde-se que em “Sherlock Jr.” Keaton é um projeccionista numa sala de cinema que um dia mergulha literalmente no interior do écran, navegando de filme para filme, numa viagem perfeitamente louca e genial. Mas a obra de Buster Keaton possui outras preciosidades ou melhor obras-primas absolutas, que nunca deverão cair no esquecimento. É o caso de “Pamplinas Maquinista” (nome dado à personagem criada por ele, em terras lusas, da mesma forma que durante algum tempo se chamou Carlitos a Charlot).

“The General”, título original da película, não trata de uma individualidade militar, mas sim de uma famosa locomotiva que fez história durante a sangrenta guerra civil norte-americana que opôs o Norte ao Sul. E aqui temos o relato verídico de um acontecimento e não de ficção, já que o filme nos conta o roubo/assalto que um grupo de militares nortistas faz de uma célebre locomotiva sulista estacionada na Geórgia, acontecimento esse mais tarde narrado no livro “The Great Locomotive Chase”, por um dos intervenientes no desvio, William Pittenger, precisamente o capitão que chefiava o grupo de espiões que tentou o roubo da locomotiva, partindo depois com ela ao encontro das tropas nortistas que avançavam no terreno, enquanto ia destruindo as pontes por onde passavam. Mas o que não estava previsto, no engenhoso plano militar, era que o condutor da locomotiva decidisse persegui-los numa outra locomotiva para recuperar a poderosa “The General” e resgatar a sua amada Annabelle (Marion Mack) que, infelizmente, se encontrava a bordo do comboio quando este foi desviado, sendo também ela raptada.

Iremos assim assistir a uma das mais genuínas perseguições da história do cinema, pela mão de Buster Keaton, que não olhou a meios para atingir os seus fins. Recorde-se que numa das sequências é destruída uma ponte construída para o efeito e uma das locomotivas, um espectáculo espantoso filmado com seis câmaras e que custou a quantia de 42.000 dollars, transformando-a na mais cara sequência do cinema mudo.
Por outro lado, as filmagens da perseguição (sempre em movimento), foram obtidas através de um comboio que seguia em paralelo à locomotiva do filme, sendo de um rigor absoluto. Aliás nada é descurado, repare-se na planificação de todo o filme, o raccord é simplesmente perfeito e depois temos uma reconstituição da época de uma veracidade que nos deixa a todos espantados. As filmagens foram efectuadas no estado do Oregon embora, inicialmente, Buster Keaton pretendesse usar a região da Geórgia para o efeito.

Buster Keaton, sempre imperturbável, não recorre ao riso fácil optando por nos oferecer as atribulações do seu herói Johnny Gray como fruto do simples acaso, construindo gags destinados inteiramente ao espectador, repare-se na forma como a locomotiva passa pelos dois exércitos, o do norte e do sul, sem ele dar por nada, porque se encontra ocupado a colocar madeira na caldeira. Depois, quando assistimos à famosa batalha de Rock River, descobrimos a forma realista como ela nos é apresentada, com largas centenas de figurantes e onde as cenas de humor surgem como “fruto do acaso”, por exemplo a forma como ele mata o atirador nortista emboscado com a sua espada.

Estamos assim perante uma obra construída com um saber e um rigor absolutos, repare-se que Buster Keaton ou Johnny Gray se preferirem, após recuperar os seus dois amores, The General e Annabelle Lee, irá fugir das forças nortistas usando precisamente os mesmos estratagemas do capitão Andersen (Glenn Cavender), obstruindo a linha com tudo o que possui e encontra pelo caminho, como se estivéssemos perante uma segunda versão da perseguição. No final Johnny Gray irá ser recompensado de duas maneiras, recupera o amor de Annabelle (Marion Mack) que desconhecia que ele tinha sido preterido na guerra devido à importância da sua profissão e vê o seu esforço recompensado, ao ser-lhe finalmente dada a oportunidade de envergar o uniforme sulista e logo graduado em tenente… e não nos esqueçamos da sua réplica quando foi recusado na recruta, “ depois não me venham dizer que perderam a guerra”.

“The General” / “Pamplinas Maquinista” é uma das maiores obras-primas do cinema e um marco do período mudo, e embora na época da sua estreia nem o público nem a crítica conseguissem descobrir a genialidade que vivia em cada fotograma, felizmente hoje ninguém dúvida da Arte e engenho desse grande cineasta chamado Buster Keaton.
Uma última palavra para a cópia restaurada em alta definição, imagem por imagem, que faz do dvd “The General” uma obra indispensável em qualquer dvdteca e onde nunca é demais destacar o contributo dado por Joe Hisaishi que constrói uma banda sonora de tal forma poderosa, que transforma este filme mudo numa obra sonora, fruto de um saber e amor único que aqui é de uma visibilidade maravilhosa.
“Pamplinas Maquinista” é uma obra-prima que nos deixa fascinados perante a genialidade desse grande cineasta chamado Buster Keaton.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Julho 07, 2008

O SEXO E A CIDADE / SEX AND THE CITY

MICHAEL PATRICK KING – (EUA-2008) – (148 min/Cor)

SARAH JESSICA PARKER, KIM CATTRALL, KRISTIN DAVIS, CYNTHIA NIXON, CHRIS NOTH, DAVID EIGENBERG, JASON LEWIS, CANDICE BERGEN.

Nesse filme fabuloso realizado por Martin Scorsese e intitulado “Life Lessons” / “Lições da Vida”, no final da película, o pintor interpretado por Nick Nolte confessava no bar à futura aspirante a pintora que New York era a cidade, a única cidade onde o sucesso poderia espreitar ao virar da esquina e na verdade foi isso mesmo que aconteceu a Sarah Jessica Parker, quando decidiu protagonizar uma das séries que se tornaram mais famosas da história da televisão. Falamos de “Sex and the City” que durou diversos anos em regime de “prime-time” e fez as delícias de milhões de tele-espectadoras. E falamos no feminino porque o auditório desta série sempre foi composto maioritariamente por mulheres. Se irá ficar na história da televisão, o futuro o dirá, mas que fez de Sarah Jessica Parker um nome famoso no pequeno écran, lá isso é verdade.

Esta série, que surgiu nos écrans da caixa que mudou o mundo em 1998, arrastou multidões e quando o seu criador Darren Starr a deu por terminada, muito se falou na hipótese de se fazer o filme para o grande écran, para fechar algumas portas que a série deixou aberta: o casamento de Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker) com o charmoso Mr. Big (Chris Noth); o desejo de gravidez nunca alcançado por Charlotte York (Kristin Davis); o rumo definitivo da relação entre Miranda Hobes (Cynthia Nixon) e o seu inconstante marido Steve Brady (David Eigenberg); conseguiria Samantha Jones (Kim Cattrall) abdicar definitivamente da sua querida Big Apple, pelo sol da Califórnia, no El Dorado de Hollywood?

Todas estas questões irão ter resposta no filme realizado por Michael Patrick King, realizador de muitos dos episódios da famosa série. Assim, a película surge como um complemento perfeito da série, fechando todas as portas deixadas ainda abertas no pequeno écran. Mais uma vez o sistema adoptado é idêntico: Carrie Bradshaw, a famosa colunista, autora de sucesso e icone da moda, surge como narradora, iniciando-se o filme precisamente com esse famoso pedido de casamento de Mr. Big, tão desejado por ela. Mas nem sempre os caminhos que vão dar ao altar são perfeitos e, quando menos se espera, as dúvidas e o medo assaltam o noivo que acaba por faltar à cerimónia, ficando assim os dados lançados para o desenrolar do filme, que surge não como uma obra pensada para o grande écran, mas sim como a antítese do chamado episódio piloto das séries.

Iremos navegar com estas quatro mulheres no grande écran, ao longo de duas horas e meia, para descobrirmos finalmente como irão culminar as suas vidas e, como não podia deixar de ser, elas irão encontrar inúmeros obstáculos pelo caminho na conquista da felicidade tão desejada, terminando a película com o regresso de Samantha Jones à grande cidade, para comemorar os seus cinquenta anos e decidir que New York é a única cidade que a pode possuir, já que na matéria do desejo o sol californiano não a fez mudar de intenções. Enquanto Charlotte, que já tinha encontrado o seu Mr. Right, engravida com sucesso, dando à luz a criança que sempre desejou ter. Já Miranda percebe como é difícil a vida com Steve, principalmente depois de este lhe ter confessado o adultério, mas uma relação a dois, como sabemos, por vezes possui os seus buracos negros e não há nada como descobrir a melhor forma da memória lidar com eles. Por fim, a famosa Carrie Bradshaw chega ao registo de uma Conservatória e casa-se com Mr.Big, longe dos holofotes dos média, porque o amor deve ser sempre um dos segredos mais bem guardados de um casal.

“Sex and the City” surge assim não como um filme feito propositadamente para o grande écran, mas a conclusão de uma série famosa em termos de audiência, que surgiu no grande écran aplicando a linguagem televisiva, sem qualquer rasgo de génio, mas apenas pretendendo terminar uma história que cativou milhões de espectadoras e os resultados das receitas falam por si.
O “O Sexo e a Cidade” pretendeu ser, ao longo do tempo, o retrato de um conjunto de mulheres na grande metrópole, mas quando falamos de retrato de mulheres é inevitável surgir no horizonte essa obra-prima intitulada “The Women” realizado por George Cukor, o famoso cineasta das mulheres, que melhor do que ninguém nos ofereceu o mais belo retrato do universo feminino no Cinema. E quando se anuncia para este ano o “remake” dessa obra espantosa, não há nada como esperar para ver, porque além disso o elenco é de luxo e enquanto o filme não estreia nas nossas salas, não há nada como rever o dvd do filme de Cukor e perceber as diferenças que separam a genialidade da mediania.

Rui Luís Lima (*)
Paula Nunes Lima (***)

Domingo, Julho 06, 2008

“LOLA MONTÈS” DE MAX OPHULS FOI RESTAURADO

“Lola Montès” de Max Ophuls foi finalmente restaurado, de acordo com o projecto idealizado pelo seu cineasta em 1955. Recorde-se que, poucos meses depois da sua estreia, o filme de Max Ophuls, último da sua carreira, foi remontado de forma cronológica, à qual se juntou uma narração em voz-off, enquanto eram cortados cerca de vinte minutos de película. Apresentado pela primeira vez no Festival de Cannes deste ano a película restaurada, em todo o seu esplendor, surge na sua duração original e com um Technicolor maravilhoso, ao mesmo tempo que se recuperaram os diálogos em alemão, que surgiam em algumas sequências do filme e que durante todos estes anos foram dobrados para francês. Esperamos que algum distribuidor nos ofereça a todos a oportunidade de usufruir desta derradeira obra-prima, desse grande cineasta chamado Max Ophuls.



RLL/PNL

Sexta-feira, Julho 04, 2008

A PROPOSTA / THE PROPOSITION

LESLI LINKA GLATTER – (EUA – 1998) – (110 min/Cor)

KENNETH BRANAGH, MADELEINE STOWE, WILLIAM HURT, BLYTHE DANNER, ROBERT LOGGIA, NEIL PATRICK HARRIS.


No início dos anos sessenta, no interior do cinema Americano assistimos ao final da época de ouro do sistema dos Estúdios, fruto em parte desse desastre financeiro chamado “Cleópatra”, mas também da importância que a caixa que mudou o mundo, conhecida como televisão, começou a ter no quotidiano das pessoas. E por estas duas razões o cinema americano, que sempre teve pernas para andar, renovou-se na área da produção e dos cineastas, recorde-se que os grandes cineastas clássicos terminaram as suas carreiras nesta época, surgindo então uma nova vaga de realizadores, oriundos da televisão e, curiosamente, ao longo dos anos vamos encontrar essa onda gigantesca de realizadores, que farão a sua transição do pequeno para o grande écran, uns com enorme sucesso outros nem por isso.

Lesli Linke Glatter é uma realizadora que se iniciou na televisão com enorme sucesso, mantendo-se ainda por lá, demonstrando as suas qualidades e quando olhamos para algumas das séries que tem dirigido ao longo dos anos fica tudo dito. Mas nada melhor do que deixar alguns títulos onde participou: “Amazing Stories”, produzida por Steven Spielberg, “Twin Peaks”, uma das obras-primas de David Lynch (realizou quatro episódios), “Law & Order”, “NYPD Blue”, “Grey’s Anatomy”, “The Closer” e “ER”, só para referirmos alguns dos seus trabalhos. Mas, em meados dos anos noventa (1995/1998), Lesli Glatter tentou dar o salto para o grande écran, primeiro com o chamado filme de mulheres “Now and Then”, com um elenco predominantemente feminino e em 1998 com este “The Proposition” / “A Proposta”, contando no elenco com um trio de actores que nunca nos desiludiu: Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt.

Kenneth Branagh é um actor/cineasta que se tornou conhecido de todos através da sua interpretação/realização de “Henry V” / “Henrique V”, que deixou o mundo cinéfilo perfeitamente deslumbrado, mas a sua carreira entre o velho e o novo mundo acabaria por ser feita de sobressaltos, assim como a sua obra de cineasta. Onde se destacam os filmes “Peter’s Friend” uma versão “british” dos “Amigos de Alex”, “Dead Again” / “Viver de Novo”, uma tentativa falhada de navegar no universo hitchcockiano ou as suas adaptações shakespearianas, por sinal bem sucedidas de “Muito Barulho por Nada” / “Much Ado About Nothing” e “Hamlet”, onde nos era revelado o talento de Kate Winslet.

Madeleine Stowe tem sido, ao longo de décadas, sempre uma excelente actriz (de uma beleza profunda), embora esse grande sucesso tão desejado por ela nunca tenha sido conquistado, infelizmente, aliás no ano em que participou em “A Proposta” ela iria ser uma das personagens desse espantoso filme “em mosaicos”, intitulado “Playing by Heart”, ao lado de Sean Connery e Gena Rowlands, entre outros. Dedica-se nestes últimos anos ao trabalho para a televisão, tele-filmes e séries.

William Hurt é um daqueles actores de que todos conhecem a sua arte, cuja apresentação não é necessária, embora nunca seja demais referir que ele continua a trabalhar no cinema a todo o vapor, participando numa média de três filmes por ano.
Ora são estes três actores que irão dar rosto aos protagonistas de “A Proposta”, uma obra dramática passada em 1935 na cidade de Boston.

Estamos em plena era Rosevelt e Arthur Barret (William Hurt), um distinto advogado saído de Harvard, é um dos seus proeminentes conselheiros do presidente, casado com a escritora Eleanor Barret (Madeleine Stowe) que produz obras de sucesso, onde o desejo pela emancipação feminina vive em cada página. Mas como nunca há “bela sem senão”, o casal não tem filhos, porque Arthur é estéril, no entanto a necessidade de um herdeiro é um assunto de primordial importância para esta poderosa família de Boston. Por essa razão ambos decidem contratar os serviços de um jovem licenciado em direito, Roger Martin (Neil Patrick Harris), para conceber o tão desejado fruto.

Olhados como exemplo de sucesso pela igreja local, os Barret entram assim no território do pecado, porém nessa noite programada pelo relógio biológico de Eleanor nada acontece, sendo necessário contratar de novo os “serviços” do jovem Roger Martin, que entretanto se vai apaixonar por ela e, ao saber que Eleanor foi bem sucedida na gravidez, parte para a chantagem, ameaçando reclamar o filho como seu.
Durante este período irá chegar à igreja de Boston o padre Michael McKinnan (Kenneth Branagh), oriundo de Inglaterra, que tudo fará para evitar os convites dos Barret para jantar na mansão, até chegar esse dia em que saberemos que ele é filho do irmão mais velho de Arthur Barret. E aqui também descobrimos que o seu pai é um aliado industrial do nacional-socialismo que então vigora na Alemanha e que teve em Inglaterra, como se sabe hoje, inúmeros simpatizantes, basta recordarmos o Lord Darlington (James Fox) de “Os Despojos dos Dias” de James Ivory e ficamos perfeitamente situados na realidade histórica.

A alegria da gravidez de Eleanor Barret irá transformar-se em tragédia quando ela aborta e, nesse momento capital do filme, o padre McKinnan põe de lado a amargura familiar que habita na sua alma e oferece o conforto espiritual à esposa do seu tio. Mas para complicar ainda mais este melodrama, o jovem Roger Martin aparece morto, sem identificação e será precisamente Eleanor a revelar a sua identidade, passando a olhar o marido como o assassino do amante contratado. McKinnan acabará por se envolver de tal forma na dor sentida por Eleanor, que acabará por se apaixonar por ela perdidamente, numa relação proibida aos olhos de Deus e que dará os seus frutos.

“A Proposta” surge assim como um filme onde o vigor do melodrama se encontra bem presente, embora o argumento por vezes se encontre com falhas, já que a história nos é contada em “flashback”, mas a reconstituição da época está perfeita, enquanto a interpretação/direcção de actores surge em muito boa forma, ou eles não se chamassem Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt. Por outro lado, a realização de Lesli Linka Glatter apresenta-se correcta, embora nunca nasça esse golpe de asa que faça o filme passar da mediania de certa produção americana.
Numa época em que cada vez mais os filmes oriundos do continente americano, se apresentam completamente consumidos pelos efeitos especiais, será interessante descobrir esta obra, acima de tudo pelo trabalho dos actores, mas também para reflectir neste modelo de produção.

Rui Luís Lima (**)
Paula Nunes Lima (**)

Quinta-feira, Julho 03, 2008

AS ESTREIAS DA SEMANA

BRINCADEIRAS PERIGOSA / FUNNY GAMES
MICHAEL HANEKE – (EUA-2007)
NAOMI WATTS, TIM ROTH


(a nossa aposta vai para o "remake" de Michael Haneke, recorde-se que o filme original foi realizado pelo mesmo cineasta em 1997, surgindo agora a versão americana ou se preferirem o "remake" americano.)


HANCOCK
PETER BERG – (EUA-2008)
WILL SMITH, CHARLIZE THERON

O PANDA DO KUNG FU / KUNG FU PANDA
JOHN STEVENSON, MARK OSBORNE – (EUA-2008)
(Animação)

Terça-feira, Julho 01, 2008

TOUT VA BIEN / TUDO VAI BEM

JEAN-LUC GODARD / JEAN-PIERRE GORIN – (FRA-1972) – (95 min/Cor)

YVES MONTAND, JANE FONDA, VITTORIO CAPRIOLI, ELIZABETH CHAUVIN, ANNE WIAZEMSKY.


Era inevitável hoje falarmos de “Tout va Bien” de Jean-Luc Godard, depois de na crónica anterior termos recordado “Barbarella” de Roger Vadim e, como é fácil de ver, a razão não se prende com os realizadores mas sim com a actriz principal de ambas as películas, a americana Jane Fonda que, entre estes dois filmes rodados em França, irá protagonizar em terras americanas duas obras charneira na sua carreira, referimo-nos a “Klute” de Alan Pakula e “Os Cavalos Também se Abatem” de Sydney Pollack, ambos os cineastas já falecidos, o primeiro num acidente na “freeway” de LA e o segundo, recentemente, como ainda devem estar recordados, de doença. E será extremamente curioso a tomada de consciência política que a actriz teve no período que decorre de 1968-1972, ou seja de simples boneca sensual passou a activista política, fazendo o impensável para muitos americanos ou seja ir até Hanói, “confraternizar” com os guerrilheiros de Vietcong ou se preferirem com as forças militares do Vietname do Norte.

A tomada de consciência política da jovem Jane Fonda terá sido uma das principais razões de Jean-Luc Godard para a convidar para protagonizar o seu “Tout va Bien”, uma espécie de balanço do Maio/68, partindo de um caso real, visto ao microscópio da câmara de cinema. O outro protagonista seria Yves Montand, bem conhecido pelas suas posições políticas, recorde-se que ele é italiano e teve que fugir ainda em criança dos fascistas, que perseguiam o seu pai na época de Mussolini, como relata nas suas memórias e possui em “A Confissão” / “L’Aveau” de Costa Gravas uma das suas mais extraordinárias interpretações, sendo o filme uma profunda denuncia do totalitarismo que então vigorava nos chamados países de leste.

Temos assim, neste filme de Jean-Luc Godard, dois actores profundamente empenhados politicamente, enquanto por outro lado o cineasta se faz acompanhar na realização pelo seu colega dos Anos de Maio/Mão, do Grupo Dziga Vertov, Jean-Pierre Gorin, que assim estabelece uma certa ponte entre a ficção possível e o documentário. E a ficção possível é a história de Suzanne (Jane Fonda) uma jornalista americana que trabalha em Paris e Jacques (Yves Montand) um cineasta que se dedica à publicidade para sobreviver, enquanto aguarda uma oportunidade para obter os meios financeiros necessários para fazer o seu filme. Este casal, ao deslocar-se a uma fábrica nos arredores de Paris, acabará por ser sequestrado quando fazia uma entrevista ao dono/patrão da fábrica, ficando os três prisioneiros dos trabalhadores que tudo discutem e nada decidem, e nem o delegado sindical da CGT os irá conseguir tirar do purgatório em que eles se encontram.

Curiosamente, “Tout va Bien” tem início com um grande plano sobre um livro de cheques, onde o cineasta vai escrevendo as quantias a pagar aos participantes do filme e assim iremos sabendo os francos gastos com a produção da película, ao mesmo tempo que descobrimos que as vedetas são as mais bem pagas, como não podia deixar de ser no “sistema capitalista”, porque serão os rostos dos dois protagonistas que servem de propaganda/publicidade do filme, embora eles não façam nenhuma opção de classe como protagonistas, terminando apenas por se interrogarem sobre esse pequeno mundo que os rodeava, tentando oferecer a sua verdade dos factos. Repare-se que Suzanne (Jane Fonda) não consegue ler na rádio o texto anteriormente escrito por ela que foi vitíma de alterações por parte da direcção da estação. Por outro lado o cineasta que faz publicidade para sobreviver, termina também por se interrogar sobre o rumo a dar à sua arte.

Jean-Luc Godard, como sempre, deixa a sua visão da história a pairar sobre o filme, recorde-se que a sua obra tem sido, ao longo de décadas, uma espécie de relatório sobre o estado do mundo e do cinema ou se preferirem o estado do cinema no mundo.
“Tout va Bien” surge assim ainda como uma obra militante do período Dziga Vertov (apesar de possuir duas estrelas de cinema no seu interior), aliás Godard só voltaria efectivamente ao Cinema através dessa obra-prima intitulada “Sauve Qui Peu (La Vie)”. E se para muitos “Tout va Bien” se encontra datado, para outros eles surge como um belo retrato dos anos que se seguiram aos acontecimentos de Maio/68, porque alguns ainda sonharam durante largos anos com essa utopia em que a imaginação poderia tomar o poder.
Basta olharmos cinematograficamente esses anos, para encontrarmos obras como “Jonas, que Terá 25 Anos no Ano 2000” de Alain Tanner ou “A Greve” de Marin Karmitz que, no Portugal de 1974, passou quase invisível na sala do Cinema Universal, tendo sido recentemente editado em dvd pela Midas. Mas como não há duas sem três e como falámos aqui de dois filmes em contexto, nada melhor do que terminar com um filme de Jean-Luc Godard, desses anos setenta e cujo argumento nasce de uma fotografia, tal como o célebre “Letter to Jane” (realizado logo a seguir a “Tout va Bien”), tirada em Portugal durante uma das inúmeras manifestações que decorreram nesses anos de 1974/75, chama-se “Comment ça Va” e começa por interrogar as razões que levam dois protagonistas dessa fotografia/manifestação a procederem de uma determinada forma, e aqui todos poderemos ter as nossas interpretações: porque razão o civil segurava o braço do militar?
“Tout va Bien” / “Tudo vai Bem” surge assim como uma excelente porta de entrada para o cinema militante de Jean-Luc Godard e do seu colectivo Dziga Vertov e não se esqueçam de ver esse dispositivo encetado por Godard, ao transformar o Estúdio em Fábrica, para depois nos ir oferecendo os seus travellings militantes, à medida que a tensão/confronto vai aumentando.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima