Quinta-feira, Maio 29, 2008

SYDNEY POLLACK – (1934 – 2008)

O ÚLTIMO CINEASTA CLÁSSICO - INTRODUÇÃO

Sydney Pollack faleceu a 26 de Maio de 2008, na sua residência, devido a doença que lhe foi diagnosticada há cerca de um ano. A sua obra como cineasta irá permanecer eterna entre nós, assim como as suas aparições como actor, sendo sempre de destacar a sua participação em “Eyes Wide Shut” de Stanley Kubrick e “Maridos e Mulheres” de Woody Allen. A última vez que o encontrámos como actor no grande écran foi em “Michael Clayton”.
Sydney Pollack foi, sem dúvida alguma, o último cineasta clássico. A sua última obra de ficção estreada entre nós foi “A Intérprete”, terminando a sua carreira com esse poderoso retrato do arquitecto Frank Gehry, intitulado “Esboços de Frank Gehry” já editado em dvd no nosso país.
Aqui deixamos uma viagem pela sua obra cinematográfica.

Rui Luís Lima
Paula Nunes Lima
SYDNEY POLLACK E A HERANÇA DO CINEMA CLÁSSICO - PARTE 1

Sydney Pollack, um dos herdeiros do Cinema Clássico, é um grandes nomes da Sétima Arte distribuindo a sua obra pelos mais diferentes géneros. Como muitos outros colegas de profissão, também ele sentiu desde muito novo o apelo do cinema tendo, no entanto, passado primeiro pelo teatro e a televisão.

Antes de iniciar a sua carreira, estudou na Neighouhood Playhouse de Nova Iorque (ou se preferirem New York), sendo aluno de Sandfor Meisner, estreando-se no palco ao lado de Zero Mostel (um dos grandes actores do clã Mel Brooks) na peça “A Tone for Danny Fisher” para, mais tarde, trocar a representação pela encenação. A TV viria logo, quando os seus trabalhos como encenador começaram a chamar a atenção dos medias. Recrutado para o pequeno écran, voa rápidamente para o grande écran, sendo o seu primeiro trabalho a dobragem para inglês de “O Leopardo” de Luchino Visconti.

No ano de 1965 surge finalmente a sua primeira longa-metragem “Chamada Para a Vida”/”The Slender Thread” com Sydney Poitier (então muito em voga) e Anne Bancroft (a célebre esposa de Mel Brooks)... poderemos dizer que a época não era a melhor, o cinema americano estava em crise, mas Pollack seguiu em frente... e 12 meses depois novo filme nascia, era “A Flor à Beira do Pântano”/”This Property is Condemned”, demonstrando já as suas capacidades como director de actores. Ainda durante a década de sessenta realizaria “Os Caçadores de Escalpes”/”The Scalphunters” e “O Castelo de Maldorais”/”Castle Keep”. Desenvolvendo um trabalho onde o romantismo e o social se interligavam, Sydney Pollack iria transformar “Os Cavalos Também se Abatem”/”They Shoot Horses, Don’t They?” num dos filmes mais surpreendentes da década, sabendo perfeitamente utilizar os meios de que dispunha, para oferecer uma película de um rigor e força dramática maravilhosa... Jane Fonda será sempre recordada pela sua interpretação.

“As Brancas Montanhas da Morte”/”Jeremiah Johnson”, a sua obra seguinte, contando com Robert Redford no principal papel, é já portadora dos longos espaços e da solidão/liberdade do Homem, num western de certa forma diferente, encontrando-se aqui bastantes pontos de contacto com o laureado “África Minha”. O sucesso e o reconhecimento eram generalizados e Pollack realiza “O Nosso Amor de Ontem”/”The Way We Were” de novo com Redford... foram colegas na escola de actores... e uma Barbara Streisand na sua melhor interpretação de sempre... seguiu-se “Yakuza” e os códigos de honra e de sangue para chegar a um dos melhores policiais de sempre com “Os Três Dias do Condor”/”Three Days of the Condor”, construindo uma narrativa de uma lucidez a toda a prova, transformando-se num dos grandes filmes do ano (1975) e uma das pedras bases da sua filmografia. A C.I.A. e os seus meandros, muito anos depois, possui uma actualidade sem margens para dúvidas e não é por acaso que Redford se encontra presente nos três filmes exemplares da sua carreira ao lado de Sydney Pollack.

Com um prestígio assegurado no meio cinematográfico e dispondo de todos os meios necessários às suas obras, Sydney realiza “Um Momento, Uma vida”/”Bobby Deerfield”(1977), “O Cow-Boy Eléctrico”/”The Electric Horseman” (1979) e “A Calúnia”/”Absence of Malice” (1981) com um Paul Newman no seu melhor, perante a ingenuidade de uma Sally Field que desejava ser estrela.

(continua)

Rui Luís Lima
SYDNEY POLLACK E A HERANÇA DO CINEMA CLÁSSICO – PARTE 2

Quando se começa uma carreira no palco, mais tarde ou mais cedo as saudades dele renascem e assim sucedeu com Pollack, passando para a frente da câmara em “Tootsie” ao lado de Dustin Hoffman e Jessica Lange. “Tootsie” é a crítica mordaz às famosas “soap” (as célebres telenovelas americanas que se arrastam anos e anos e que assim ficaram denominadas devido aos seus patrocinadores quando foram criadas na tv americana) e ao papel do actor com individualidade dentro e fora do palco.
Dustin Hofman é obrigado a “travestir-se” para fugir ao desemprego e apaixona-se por uma colega de profissão (Jessica Lange) que vê nele/nela a sua melhor amiga. Encontramo-nos assim de volta ao tema da máscara: quem se esconde por detrás dela? Embora a máscara, neste caso concreto, se refira ao corpo na sua potencialidade.

Com “Tootsie”, Pollack voltou às primeiras páginas da imprensa, para depois um silêncio profundo invadir o seu nome. Era a fase da adaptação de “África Minha”/”Out of Africa”, ou antes as memórias de Karen Blixen, escritora dinamarquesa, que surpreendeu tudo e todos na sua época.

Três anos levou a nascer este filme admirável, os custos rondaram os trinta milhões de dollars e Pollack ainda por cima foi o produtor. Os actores foram o inevitável Robert Redford, actor favorito de Sydney... quase um alter-ego do cineasta... e Meryl Streep, a maior diva do cinema americano. Mas se grande parte do êxito desta película, que obteve cinco Oscares, incluindo o de melhor filme e melhor realização, se deve ao trabalho dos actores (esquecidos pela Academia), ele só foi possível devido ao clima romântico/emocional que Pollack vai criando em cada fotograma, obrigando-nos a viver as imagens e as vidas dos seus heróis, Karen e Dennys. “África Minha” é o apogeu de uma carreira iniciada vinte anos antes. Sydney Pollack ofereceu-nos com este filme um dos grandes romances cinematográficos do século xx.

Depois da chuva de Oscares e com uma visivilidade a nível planetário, tudo indicava que Sydney iria descansar... mas ele decidiu fazr mais uma vez uma daquelas obras que ns deixam perfeitamente fascinados na sala escura do cinema olhando maravilhados o écran mágico... falo evidentemente desse seu filme... ainda pouco amado pelo público intitulado “Havana”...no elenco temos mais uma vez Robert Redford, o jogador que tal como Bogart ou direi antes o Sam dono desse clube em Casablanca de nome Rick’s, mas também essa actriz de Bergman... a Lena Olin na figura da esposa do resistente que luta contra o regime de Batista, mas também ela se poderia chamar Ilsa e ser esposa de um “tal” Viktor Laszlo fugido dos nazis e que se refugia em Casablanca para adquirir o tal visto que lhe possibilita chegar a Lisboa e partir então para os EUA... e aqui descobrimos esse grande actor chamado Raul Julia na figura do revolucionário cubano... sintetizando... Sydney Pollack com “Havana” refez a história de “Casablanca” com a mesma intensidade deste mítico filme da sétima arte... o público não fez dele o sucesso que merecia... mas se nos recordarmos da história de “Casablanca” o sorriso no nosso rosto é a sinceridade da memória.
“Casablanca” teve imensos problemas...primeiro os actores... a Ingrid foi uma segunda escolha e Humphrey Bogart a terceira escolha... o argumento era alterado diáriamente e ninguém sabia, incluindo os actores como iria terminar o filme... na época da sua estreia foi apenas “mais um” dos muitos filmes produzidos pelos Estúdios de Hollywood para apoiar o esforço de guerra... e depois caiu no esquecimento como muitas outras películas desse período... no início de sessenta quando a cinéfilia começou a nascer... foram os estudantes britânicos os primeiros a “descobrirem” neste filme a essência do melodrama e a fazerem dele o cult-movie e o filme da vida de muitos milhões.
“Havana” é na verdade um novo “Casablanca”, só que desta vez a história é passada numa ilha... a tal ilha que sofre o bloqueio mais estúpido do mundo, feito pela nação mais poderosa do planeta... mas regressemos ao cinema...dizia eu que “Havana” é na verdade o “Casablanca” moderno e nele estão contidas todas as variantes da obra de Michael Curtiz...depois tanto Redford como Lena Olin estão perfeitos e sedutores nas figuras outrora de Bogart e Ingrid Bergman e claro não nos podemos esquecer de Raul Julia, perfeito no homem dedicado a uma causa... por fim temos esse final tão belo como o protagonizado por Claude Rains e Bogart... a diferença é que desta vez temos o herói na praia olhando o horizonte e essa ilha perdida ao longe onde ficou o grande amor da sua vida e aqui descobrimos em todo o seu esplendor a essência do melodrama.

(continua)

Rui Luís Lima
SYDNEY POLLACK E A HERANÇA DO CINEMA CLÁSSICO – Parte 3

Durante muito tempo se falou de “Havana” como um falso remake de “Casablanca”... até que Sydney Pollack decidiu fazer um verdadeiro remake de um outro filme protoganizado por Humphrey Bogart e Andrey Hepburn, só que antes disso suceder realizou um dos mais espectaculares “policiais” da história do cinema. Referimo-nos a essa obra intitulada “A Firma”/”The Firme” com um espectacular Tom Cruise no protagonista.... muitos furos acima da personagem criada em “Missão Impossível”...e com um Gene Hackman ao seu melhor nível... esta firma de advogados era muito mais do que isso, mas o nosso herói só irá dar conta disso quando a sua vida começa a correr perigo.
Curiosamente muitos anos depois Sydney Pollack e Tom Cruise voltam a encontrar-se no mesmo lado da câmara ou seja são intérpretes nessa obra-prima de Stanley Kubrick “Eyes Wide Shut”... Pollack é o enigmático multi-milionário Victor Ziegler que irá “manipular” e explicar com “carinho” a Bill Harford (Tom Cruise) as regras do jogo (que tão bem retratou Jean Renoir noutra obra-prima) em que a verdade nunca vem ao de cima ou seja como diria outro grande do cinema Mr. John Ford,,, a propósito de “O Homem que Matou Liberty Vallance”... se a verdade é a lenda então que se publique a lenda. Aqueles que não conheciam o Sydney Pollack actor... e recordamos que ele começou como actor... ou só o conheciam de pequenos cameos em movies... reparem bem no seu trabalho nessa comédia maravilhosa, mas em muitos casos bem real, criada por Woody Allen em “Maridos e Mulheres”/”Husbands and Wives” onde descobrimos o quotidiano dos casais na sua forma mais simples e o duelo travado ao longo do filme entre Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) é, na verdade, dos mais dificeis de se concretizar numa película...ou seja estamos perante dois grandes actores... ela já o sabíamos desde “Passagem Para a Índia” do David Lean... ele, Sydney, foi com o Woody Allen que o descobrimos.

Em 1995 Sydney Pollack concretiza o sonho de realizar um verdadeiro remake, optando por esse conto de fadas chamado “Sabrina” e que no mundo deu origem aos famosos sapatos... no papel que pertenceu a Bogart vamos encontrar Harrison Ford e na figura de Audrey Hepburn descobrimos a Julia Ormond. E ali temos o mundo maravilhoso que Sabrina vê escondida, pendurada nas árvores, a desfilar perante o nosso olhar de uma forma perfeita... Greg Kinnear na figura o galã Linus Larrabee, enquanto o irmão David, o insensível homem de negócios David Larrabee irá a pouco e pouco ao longo do filme deixar cair a sua “máscara de ferro” perante o amor e a sensibilidade da bela Sabrina. Nesta comédia Sydney Pollack consegue na verdade ser o herdeiro da arte desse grande Mestre da Comédia chamado Billy Wilder.

Mas como não podia deixar de ser, enquanto sempre ocupado na sua outra profissão de produtor executivo, Sydney Pollack foi alicerçando um novo melodrama... os escolhidos foram Harrison Ford e Kristin Scott Thomas... a história é diferente já que aqui se trata de duas pessoas que são traídas pelos respectivos conjugues e cujo destino decidiu a sua morte num desastre de aviação... enquanto Dutch Van Den Droeck (Harrison Ford) tudo faz para descobrir as razões que levaram a mulhar a traí-lo e sendo sargento da polícia sente-se perfeitamente ludibriado pela esposa... já a política Kay Charles (Kristin Scott Thomas) em plena campanha eleitoral, tudo faz para que o sucedido não interfira com as suas ambições políticas. Mas o sargento Dutch transforma-se quase num louco, em busca da traição da esposa e do amante da mulher e tudo quer saber... as razões... os locais... a duração do affair. Já Kay fica indiferente a tudo até que ao saber arrastada por Dutch para um passado que pretende eliminar da memória... termina por descobrir em Dutch o conforto que nunca tinha encontrado no marido... mas a obsessão de Dutch em saber sempre mais àcerca da traição da esposa acaba por destruir o romance que nascia.

“Encontro Acidental”/“Random Hearts” surge assim como o outro lado do melodrama, com permissas diferentes do habitual, mas conduzindo toda a sua estrutura para essa rede de paixões cruzadas que sempre tem caracterizado o Cinema Clássico e não será por acaso que Sydney Pollack é considerado por muitos um dos grandes Herdeiros do Cinema Clássico Norte-Americano. Neste ano de 2005 Sydney Pollack terminou dois filmes perfeitamente distintos, um é uma obra de ficção e o outro é um documetário intitulado “Sketches of Frank Gehry” no qual se fala da vida e obra do famoso Arquitecto, possivelmente o mais famoso Arquitecto Norte-Americano depois do mais que célebre Frank Lloyd Wright que todos admiramos... que o digam Nicolas Ray ou King Vidor.... ah!!!! Aquela célebre casa da cascata!!!!! Mas voltemos ao documentário de Sydney Pollack... nele podemos encontrar também diversos depoimentos àcerca da obra do Arquitecto, na voz de Dennis Hooper ou Jullian Schnabel entre outros.

A última obra de ficção de Sydney Pollack chama-se “A Intérprete”/”The Interpreter” e pela segunda vez Nicola Kidman vai-se encontrar com Sydney... embora desta vez ele não esteja ao seu lado em frente da câmara, como sucedia no filme de Kubrick “Eyes Wide Shut”, mas sim por detrás da câmara. O escolhido para interpretat o papel do agente foi o laureado Sean Penn...inesquecível em “Mistic River” de Clint Eastwood.Desta feita estamos perante o atentado político (por acaso viram o recente “O Assassíno de Richard Nixon?... Também com o Sean... mas no lado oposto!)... em que uma intérprete das Nacões Unidas escuta sem querer uma conversa que nunca deveria ter ouvido... a partir de então nasce o thriller e Sean Penn é o agente dos serviços secretos encarregado de descobrir o que se passou na realidade e impedir o atentado. Sydney Pollack, um dos Herdeiros do Cinema Clássico, é possuidor de uma obra que se filia perfeitamente na designação “Cinema de Autor” e se alguém tiver dúvidas... faça a viagem que aqui lhe recomendamos pela obra do cineasta e já agora descubra também o actor.

Rui Luís Lima

“A INTERPRETE” / ”THE INTERPRETER” (****)

SYDNEY POLLACK - (EUA/GB/FR - 2005) - (128 min/Cor)

NICOLE KIDMAN, SEAN PENN, CATHERINE KEENER, YVAN ATTAL.

O cinema de Sydney Pollack é herdeiro do cinema clássico, e mais uma vez com “A Intérprete”/”The Interpreter”, Sydney reitera essa mesma herança. Desta feita estamos de regresso ao Policial no seu melhor estilo... e tal como sucedia em “Os Três Dias do Condor” não há lugar para o romance... repetindo-se a história do par Robert Redford/Faye Danaway, aqui é a intérprete da O.N.U. Silvia Broome(Nicole Kidman) e o agente Tobin Keller (Sean Penn), cujo destino traçou que os seus desejos (in)conscientes estivessem cada um em sua margem com um rio de permeio.

Ao realizar “A Intérprete”, Sydney Pollack faz mais uma das suas aparições. Mas também regressa ao filme político, desta feita a questão tratada é na verdade o regime de Robert Mugabe e o seu Zimbabwe, que é apresentado debaixo do nome de Zuwanie... e a trama é simples: o líder máximo do país, antigo vencedor da guerra colonial, elimina os seus adversários políticos sem contemplações, usando palavras que respiram ódio e morte, aqui encontramos os célebres meninos-guerrilheiros na sua luta cega, tal como sucede hoje em dia em muitos países Africanos, nos quais as crianças são consideradas os melhores combatentes, infelizmente.

Será esta personagem, outrora libertador e nos dias de hoje ditador, que será recebido nesse território neutral, no coração da América, chamado Nacões Unidas ou O.N.U. se preferirem... acusado de crimes de genocídio e que pretende oferecer uma nova imagem perante o mundo... mas tudo se irá complicar ou melhor o plano traçado por ele... quando uma intérprete, conhecedora de um dos dialectos usados no Zuwanie, escuta sem querer uma breve conversa em que se planeia o seu atentado. Outrora profundamente envolvida na luta política no Zuwanie, a branca e loura Silvia Broome, informa as autoridades da conversa escutada e o duro agente Tobin Keller (Sean Penn) é encarregado de acompanhar o caso, ao mesmo tempo que se torna responsável da segurança do político africano mal-amado.

Ao longo da película Sydney Pollack, à melhor maneira do cinema clássico, vai introduzindo na história um clima de tensão, em que não se sabe quem é o rato e o gato, por outro lado, o motivo da trama... o célebre MacGuffin criado por Hitchcock, lá nos vai piscando o olho... mas é toda a tensão que é criada à medida que a película vai avançando que nos agarra à cadeira, sem ser necessário grandes perseguições ou atentados, já que sabemos que eles vão acontecer, mas quando? A qualquer momento podem surgir... Silvia tornou-se uma personagem incómoda para alguém, mas por outro lado também não sabemos quais as suas verdadeiras intenções e será na descodificação da própria linguagem e no seu significado que iremos descobrir a pouco e pouco as razões de cada um dos personagens, porque no fundo todos eles tem as suas razões e o destino de quase todos eles será alterado.

“A Intérprete”, de Sydney Pollack, marca também o reencontro do cineasta com a Nicole Kidman, já que ambos trabalharam juntos em “Eyes Wide Shut” dirigidos por Stanley Kubrick e ninguém como a Nicole poderia interpretar a personagem de Silvia Broome, sem qualquer espécie de artificio, apresentando-se tal como é ou foi, nunca saberemos nos dias de hoje, tais são as transformações fisícas/visuais encetadas pela actriz de filme para filme, como se de uma busca da personagem perfeita se tratasse... mas dos movies da Nicole, ainda do período Mrs.Cruise, porque inevitavelmente há uma Nicole Kidman pós Tom Cruise/divórcio... uma película que merece ser descoberta é o filme de Gus Van Sant “To Die For”/”Disposta a Tudo”, porque o movie é ela, para muita pesar do Matt Dillon, depois temos essa obra-prima que são “As Horas”/”The Hours”, mas aqui achamos que o Oscar só poderia ir para as três Damas, tal como sucedeu com o Prémio de Interpretação Feminina no Festival de Berlim. Mas regressando ao filme de Sydney Pollack, ele é na verdade magnífico, no sentido de uma sabedoria que só os grandes Mestres são possuidores, veja-se então este filme e não se esqueçam desse outro Grande Actor que se chama Sean Penn, existem nele momentos únicos, que merecem ser cuidadosamente revistos, reparem bem como a sua personagem tortuosa pela perda da mulher que o tinha abandonado, o levam a respirar solidão por todos os poros... e não se esqueçam de ver a forma como ele trabalha o olhar, expressando o silêncio e o desespero.

“A Intérprete”/”The Interprete” é na verdade uma daquelas películas que uma segunda visão oferece leituras muito mais profundas do que se possa pensar com apenas um visionamento... e o Cinema por vezes é composto por filmes, em que a sua leitura é na verdade uma verdadeira surpresa. Pelo Cineasta... pelos Actores... pelo Argumento... pela Montagem clássica... “A Intérprete” merece a nossa visita!

PS- Na edição em dvd, num dos extras, o cineasta explica e demonstra, usando o filme em questão, como o "pan and scan" (a retirada das barras de forma a encher o écran) destrói por completo o plano chegando a eliminar personagens fulcrais na acção, ao mesmo tempo que comete um "adultério demasiado perigoso" cinematograficamente falando.

Rui Luís Lima

Sábado, Maio 24, 2008

A SOMBRA DO VAMPIRO / SHADOW OF THE VAMPIRE

E. ELIAS MERHIGE – (ING/EUA/LUX-2000) – (92 min/Cor)

JOHN MALKOVICH, WILLEM DAFOE, CATHERINE McCORMACK, UDO KIER, GARY ELWES.


Depois de aqui termos falado de “Nosferatu, o Vampiro” de F. W. Murnau, era inevitável referirmos também o espantoso filme realizado por E.Elias Merhige, intitulado “A Sombra do Vampiro”, que nos relata essa aventura espantosa que foi as filmagens do filme de Murnau, concentrando o foco das atenções sobre o actor Max Schreck, apresentado aqui como um verdadeiro vampiro, numa comovente criação de Willem Dafoe. Recorde-se que, durante algum tempo, alguns até acreditaram que o famoso actor teatral tinha apenas emprestado o nome, sendo a interpretação da personagem feita pelo próprio Murnau, o que se revelou não ser verdadeiro.

Iremos assim, em “Shadow of Vampire”, seguir as pegadas de Murnau (John Malkovich) na feitura da famosa obra. Após filmar algumas sequências do filme nos Estúdios, o cineasta decide partir com a sua equipa para esse lugar inóspito onde se irá desenrolar toda a acção do filme, desconhecendo o elenco a identidade do actor que irá vestir a pele do tenebroso Conde Dracula.
Chegados ao castelo onde se irão processar as filmagens muitos irão perceber, ao verem chegar o actor, que estão perante um verdadeiro vampiro, em busca do sangue, seu alimento divino, que só Murnau irá poder controlar, prometendo-lhe o tão desejado alimento sempre para um pouco mais tarde. Aliás, o facto dele nunca permanecer junto da equipa, após o fim das filmagens diárias, começa a levantar suspeitas entre todos, terminando sempre por Murnau dar a sua explicação para o sucedido: o homem é um actor solitário, vindo do teatro, que gosta de preservar a sua arte longe dos olhares alheios.

A forma como Willem Dafoe surge na personagem é simplesmente soberba, veja-se como ele anda e age ao longo do filme, sempre no limite. Olhamos para ele e não o reconhecemos, mas sentimos o terror a respirar em cada fotograma, ao mesmo tempo que esse mesmo terror se vai apossando de toda a equipa de filmagens.
John Malkovich encarna, de forma perfeitamente credível, o génio do cinema e a maneira como se encontra construída a película de Elias Merhige oferece-nos, de uma forma perfeita, o retrato dessa época de ouro do Cinema Mudo.

À medida que vamos acompanhando o decorrer das filmagens sentimos como a tragédia se aproxima e quando a estrela feminina (Catherine McCormack) surge no plateau, os dados estão definitivamente lançados, porque o vampiro não irá resistir a essa bela tentação, fugindo da alçada do seu mentor.
“A Sombra do Vampiro” de E. Elias Merhige surge, no cinema contemporâneo, como uma brilhante e original obra que nos mergulha no território do fantástico, navegando no interior da própria História do Cinema, com uma profunda paixão pela Sétima Arte.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Quarta-feira, Maio 21, 2008

ANATOMIA DO GOLPE / THE GRIFTERS

STEPHEN FREARS – (EUA – 1990) – (119 min/Cor)

ANJELICA HUSTON, JOHN CUSACK, ANNETTE BENING, J.T.WALSH, PAT HINGLE.


Durante os anos quarenta e cinquenta (do século passado), o cinema norte-americano ofereceu-nos os melhores “film noir” de sempre mas, em 1990, Martin Scorsese decidiu revisitar o género como produtor, convidando o britânico Stephen Frears para realizar “The Grifters”, oferecendo desta forma uma das mais belas homenagens a este género do cinema, hoje em dia um pouco arredado do grande écran.

“Anatomia do Golpe”, título da película em Portugal, baseia-se num romance do escritor Jim Thompson de 1950 e que Donald Westlake transportou para os dias de hoje, de uma forma exemplar. Iremos assim conhecer a história de três vigaristas. E aqui não estamos perante aquilo que é hábito denominar a grande golpada (no género “The Sting”), mas sim os pequenos golpes, para sobreviver no dia a dia.
Roy Dillon (John Cusack) é um daqueles jovens que um dia saiu de casa porque já não conseguia estar junto da sua mãe, que o trouxe ao mundo com apenas 14 anos, decidindo seguir o seu próprio caminho. Escolhendo o pequeno golpe como modo de vida e quando falamos em pequeno golpe falamos de se estar num bar e pedir uma bebida, perguntando ao empregado se tem troco de vinte dollars, dando-lhe de seguida uma nota de um dollar, ficando para si com o respectivo troco. Ou por outro lado jogando às cartas e dados, com ingénuos que encontra pelo caminho e que desconhecem que estão perante um burlão que possui dados e cartas viciados.

Já Mira Langsty (Annette Bening), a sua namorada, é uma burlona que teve o seu tempo alto, usando o corpo como trunfo em parceria com o seu amigo e mentor Cole (J.T.Walsh) até este enlouquecer, vítima do stress das operações ilícitas, nas quais pequenos empresários em busca de dinheiro fácil iam caindo. Sem ele, ela é uma verdadeira órfã, encontrando em Roy Dillon o seu suporte e amparo, embora nunca desista de fazer o seu grande golpe, que insiste em fugir-lhe entre os dedos, continuando a usar o corpo como modo de sobrevivência.
Já a mãe de Roy, a fria e cínica Lilly Dillon (Anjelica Huston), sabe que só pode contar consigo mesma num mundo em que vive subjugada pela máfia, para quem trabalha na área de viciação de apostas de corridas de cavalos, estando encarregada de fazer subir as apostas no último minuto. Ela é uma mulher bem sucedida, que vai lentamente roubando os seus patrões à medida que vai trabalhando com eles. Mas o seu calcanhar de Aquiles é a memória do seu filho que ela nunca conseguiu amar como mãe, porque ele fora o filho indesejado, fruto do destino, quando ela começava a dar os primeiros passos rumo à adolescência.,

Um dia estas três personagens vão-se cruzar no hospital onde Roy se encontra a recuperar de uma tareia que levou com um taco de baseball quando tentava enganar mais um empregado de bar. E se Roy não gosta muito da presença da sua mãe junto de si, já Mira vê nela uma rival, devido à sua juventude bem visível, percebendo que ela é uma mulher bem sucedida, no universo dos burlões.
Ao longo do filme, sempre num clima profundamente “film noir”, a música de Elmer Bernstein agarra-nos à cadeira, pontuando de forma exemplar todas as sequências, ao mesmo tempo que a fotografia de Oliver Stapleton não deixa créditos por mãos alheias, conseguindo oferecer-nos em cada fotograma a intensidade e tragédia da história.

A oportunidade do grande golpe nascerá para Myra depois de ver como Lilly funciona nas apostas de cavalos e, após denunciá-la à máfia, parte no seu encalço para lhe roubar o dinheiro. Nem sempre o sucesso persegue a mais bela e será a experiente Lilly a conseguir sobreviver, apesar de perseguida pelos seus antigos patrões. Só lhe resta ir ter com o filho para lhe pedir todo o dinheiro possível para concretizar a fuga com sucesso. Mas o Roy não está disposto a ajudar a mulher que nunca o tratou como filho e, depois de ela tentar seduzi-lo, nasce uma discussão que irá conduzir à morte acidental dele, quando ela pretende roubar-lhe o dinheiro. Nascendo desta forma a tragédia de que em tempos Oscar Wilde falou, porque terminamos sempre por matar a pessoa que amamos. E, curiosamente, o único desejo de Roy Dillon era ser amado, primeiro pela mãe e depois pela namorada, terminando por ver o seu amor traído por ambas.

Este filme espantoso possui no trio dos protagonistas o seu ponto forte, todos eles atingindo o firmamento estrelar: se John Cusack demonstra ser um dos maiores actores da sua geração, Annette Bening constrói uma personagem profundamente sedutora e arrepiante, tendo sido indigitada para o Óscar, já Anjelica Huston oferece-nos todo o seu saber e experiência numa interpretação espantosa, onde os sentimentos se encontram em permanente conflito, tendo também ela sido indigitada para o Óscar, tal como o cineasta Stephen Frears, que aqui revisitou um género, com o apoio desse “maverick” chamado Martin Scorsese.
Rever este filme, muitos anos depois da sua estreia (vimo-lo no saudoso Apolo 70), fruto do dvd, é na verdade assistirmos a uma lição sobre o “film noir”, oferecida por conhecedores da matéria. E já agora façam uma sessão dupla com “Anatomia do Golpe” e “Corrupção” de Fritz Lang e mergulhem neste universo que tantas obras-primas ofereceu ao Cinema.

Nota: O dvd, embora ainda não editado em Portugal, encontra-se disponível na importação, havendo uma edição com extras que recomendamos vivamente.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Domingo, Maio 18, 2008

O SABOR DO AMOR / MY BLUEBERRY NIGHTS

WONG KAR-WAI – (HONG-KONG – 2007) – (90 min/Cor)

JUDE LAW, NORAH JONES, DAVID STRATHAIM, RACHEL WEITZ, NATALIE PORTMAN.


Quando todos nós descobrimos “Chungking Express”, decidimos fixar o nome do cineasta. A partir de então foram muitos os que seguiram a carreira do cineasta, cujos filmes têm tido estreia nas nossas salas, ao mesmo tempo que a sua obra foi tendo a respectiva edição em dvd, possibilitando-nos a descoberta de um verdadeiro autor, nesse sentido em tempos traçado pelos “Cahiers du Cinema”.

E basta ver o início do filme para identificarmos a sua autoria, apesar do seu habitual colaborador, o director de fotografia Christopher Doyle, ter sido substituído por Darius Khondji. A cor e os elegantes movimentos de câmara continuam a fascinar e, mais uma vez, o cineasta decide contar-nos diversas histórias no mesmo filme, como já tinha acontecido em “Chungking Express” e “Anjos Caídos” / “Fallen Angels”. E se muitos temiam o pior, pelo facto de o filme ser rodado na América com actores ocidentais, verificamos que isso não foi impedimento para a sua marca continuar bem patente.

E não será demais referir que Wong Kar-Wai consegue oferecer a Rachel Weitz a sua melhor interpretação de sempre, transformando-a numa personagem à beira do abismo, nesse território complexo que se chama o amor, onde a batalha se trava com David Strathaim, um dos maiores actores norte-americanos, que é urgente descobrir, ambos estão na sua história de amor em perfeita sintonia, oferecendo-nos uma verdadeira pérola cinematográfica.
Já Jude Law revela estar a chegar a esse momento em que o actor se transforma em estrela, numa interpretação espantosa. Surgindo aqui em todo o seu esplendor, numa personagem que nos cativa desde o primeiro momento nesse bar repleto de néons, em busca da chegada desse célebre cliente que um dia irá provar a sua tarte de mirtilo.
Por outro lado, quando se teve conhecimento que a cantora Norah Jones (filha do célebre músico indiano Ravi Shankar) iria participar na película, estreando-se assim na Sétima Arte, muitos temeram o pior, mas ela acabou por cumprir o papel que lhe foi destinado, alguém que passa por nós sem darmos por ela, perdida no anonimato da multidão que caminha pelo universo.
Mas como nunca há bela sem senão, Natalie Portman não consegue acompanhar os restantes colegas de profissão, nessa jogadora que faz da vida um verdadeiro jogo de apostas, transformando-a num eterno bluff. A sua interpretação fica, por isso mesmo, muitos furos abaixo do restante elenco.

Jeremy (Jude Law) possui no seu bar um pote de vidro onde vai depositando as chaves que os clientes esquecem nas mesas. E Elizabeth (Norah Jones) será mais uma cliente a deixar as suas chaves ali perdidas para sempre, de forma premeditada, porque sabe que chegou o momento de partir, porque o amor se encontra em fuga, e confessa isso mesmo a Jeremy (não as quer de volta), transformando-se ele no seu guardião de memórias. E, como muitos, Elizabeth sabe que a melhor forma de esquecer um amor é fugir para longe, deixando Nova Iorque e partindo para a costa do Pacífico.
Ao longo da sua viagem irá atravessar a vida de outras pessoas, numa deambulação que irá terminar com o seu regresso ao ponto de partida, descobrindo em Jeremy esse desejo de amar, no interior da noite.

A forma como Wong Kar-Wai nos narra o seu percurso e a história das diversas personagens que ela vai encontrando pelo caminho oferece-nos uma profunda meditação sobre a redenção do amor, transformando “My Blueberry Nights” numa película que merece ser vista e comparada com a sua obra, apesar de nela não encontrarmos essa família de actores que ele nos foi oferendo ao longo do tempo.
Optando pelo “scope” o cineasta oferece-nos um filme profundamente intimista, filmado com um saber único, repare-se como ele nos oferece o encontro entre Elizabeth e Jeremy, no bar, com uns diálogos de uma beleza e simplicidade absolutas.
“My Blueberry Nights” respira cinema por todos os poros, convidando-nos a olhar, mais uma vez, os percursos sinuosos do amor.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (****)

Sexta-feira, Maio 16, 2008

O ÚLTIMO DOS HOMENS / DER LETZTE MANN / THE LAST LAUGH

F. W. MURNAU – (ALE 1924) – (77 min/Mudo)

EMIL JANNINGS, MALY DELSCHAFT, MAX HILLER, EMILIE KURZ.


Quando Murnau realizou “O Último dos Homens”, o “kammerspiel” atingiu o seu apogeu e ao vermos esta película somos obrigados a constatar tal facto, porque aqui a história do porteiro do hotel “Atlantic”, que um dia é destituído do seu cargo, é-nos narrada sem qualquer inclusão de inter-títulos, com excepção da carta que lê onde lhe é comunicada a sua destituição do lugar que ocupou até então na hierarquia do hotel, passando a ser o responsável pelos lavabos do hotel.

Já agora convém referir que existem duas versões: uma em que o filme termina com ele reduzido a um estado de perfeita perdição, depois de ter perdido o seu belo casaco, símbolo perfeito da sua importância, perante o olhar alheio, ficando para sempre confinado a essa cave onde se situam os lavabos onde irá morrer, intitulada "Der Letzte Mann"; e uma outra versão em que um multi-milionário excêntrico lhe deixa a sua fortuna, porque ele foi o último homem a vê-lo vivo, resgatando-o do inferno e tornando-o um homem respeitado e venerado, fruto do dinheiro que possui, intitulada "The Last Laugh". Esta segunda versão, a existente no dvd “German Silent Masterworks”, terá sido filmada por imposição do protagonista Emil Jannings (o célebre Professor Unrat de “O Anjo Azul” de Joseph von Sternberg) e do produtor Erich Pommer, após a recepção negativa ao filme, na noite de estreia.

Mais uma vez Murnau nos oferece uma obra-prima com esta película, onde a luz da sua arte consegue verdadeiros milagres, narrando a vida de um homem que, fruto da sua profissão de porteiro do hotel, é venerado e respeitado por todos os que o conhecem, até à chegada dessa noite de chuva em que a idade o irá trair, quando o gerente do hotel o encontra sentado na recepção a beber um copo de água e a descansar devido ao esforço despendido no transporte de uma mala enorme de uma cliente, debaixo de chuva. Essa falta será devidamente anotada e no dia seguinte, quando ele se dirige para o hotel, irá descobrir que o seu lugar já fora ocupado por alguém mais novo, ostentando um porte distinto. A partir desse dia será o responsável dos lavabos, perdendo o direito a ostentar esse enorme casaco de porteiro, sinónimo de divisas perdidas na guerra da vida. Ele irá por todos os meios esconder a sua nova condição dos que lhe são próximos, até chegar esse momento fatal em que a verdade surge de forma abrupta, transportando no seu interior a mesquinhez humana, tão bem retratada no comportamento de todos os que o rodeiam.

A forma como Murnau e o seu operador Karl Freund nos oferecem o quotidiano banal deste homem, focalizando a acção no hotel, onde o movimento incessante das portas a abrir e a fechar são como caminhos que se abrem e fecham, consoante os seus protagonistas. Por outro lado oferece-nos o respirar das ruas dessa metrópole de então, chamada Berlin, ao mesmo tempo que nos convida a entrar no bairro onde o porteiro do hotel habita, retratando em traços precisos o rosto da Alemanha desses anos.

Seja qual for o final escolhido, teremos sempre em “O Último dos Homens” uma das obras mais importantes de Murnau, para além de mais uma interpretação espantosa desse gigante chamado Emil Jannings.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Segunda-feira, Maio 12, 2008

“A NOIVA ESTAVA DE LUTO” / “LA MARIÉE ÉTAIT EN NOIR”

FRANÇOIS TRUFFAUT – (FRA – 1967) – (107 min/Cor)

JEANNE MOREAU, CLAUDE RICH, JEAN-CLAUDE BRIALY, MICHEL BOUQUET, MICHEL LONSDALE, CHARLES DENNER, ALEXANDRA STEWART.


Como todos sabemos o nome de François Truffaut é sinónimo de cinema. Ele viveu do cinema e para o cinema, primeiro como crítico e depois como cineasta. Mas se o cinema foi a sua grande paixão, os livros foram sempre, também deste muito cedo, um dos seus alimentos da alma. Os célebres livros de “poche” revelaram-lhe um universo literário que o iria acompanhar ao longo da vida, no interior dos diversos géneros. Encontrou nos célebres policiais de capa amarela uma paixão que decidiu transportar por diversas vezes para o interior do cinema, quase sempre com um sucesso reduzido por parte do público.

“Disparem Sobre o Pianista” / “Tirez sur le Pianiste”, o seu segundo filme com Charles Aznavour no protagonista, baseado num romance de David Goodis foi um fiasco comercial, apesar de excelente, depois adaptou dois romances do célebre William Irish (autor de “Janela Indiscreta”): “A Noiva Estava de Luto”/ “La Mariée était en noir” e “A Sereia do Mississipi” / “La Sirene du Mississippi” terminando curiosamente a sua obra com esse maravilhoso policial que se chama “Finalmente Domingo” / Vivement Dimanche”.

“A Noiva Estava de Luto”, a obra que nos interessa hoje, possui um elemento muito importante no seu interior chamado banda sonora. E dizemos isso porque o compositor escolhido por François Truffaut foi o célebre Bernard Herrmann, autor de inúmeras bandas sonoras dos filmes de Hitchcock. Mal se inicia a película, ao som da marcha nupcial, descobrimos a partitura de Herrmann como um dos mais importantes protagonistas da obra, porque as suas notas transmitem de forma soberba o “suspense” pretendido pelo cineasta e, quase sem darmos por isso, entramos numa obra profundamente hitchcockiana. Basta recordar que iremos sabendo “a conta gotas” os motivos que levam Julie Kohler (Jeanne Moreau) a matar aqueles homens.

Estamos assim perante um mistério que se vai revelando à medida que os assassinatos são cometidos. O conquistador Bliss (Claude Rich) é empurrado da varanda, enquanto o solitário Robert Coral (Michel Bouquet) é envenenado, já o industrial Clement Morane (Michel Lonsdale, aqui sem a pêra que o celebrizou) é sufocado numa arrecadação e a terminar (pensamos nós) o pintor Fergus (Charles Denner) é morto por uma seta. Resta assim Delvaux (Daniel Boulanger), que escapou porque a polícia chegou primeiro para o prender. Mas como a vingança se serve fria, numa bandeja de prata, Julie Kohler após o quarto assassinato decide deixar-se prender no enterro de Fergus, para ajustar as contas com o sucateiro na prisão e aqui Truffaut dá-nos um final magnifico, oferecendo-nos a sua morte, sem nunca a vermos, apenas a escutamos… esse grito que abala a estrutura da prisão.

Quem não viu o filme deve estar a perguntar o que poderá unir estes homens tão diferentes e distantes entre si? Apenas dois assuntos: as mulheres e a caça. E será precisamente a caça o motivo da tragédia de Julie Kohler que desde tenra idade viveu para se casar com o grande amor da sua vida. A morte de David (Serge Rousseau), como iremos descobrir, é acidental. Mas o medo apoderou-se dos cinco homens que decidem fugir do apartamento onde se encontram e nunca mais se verem, para esconderem essa mancha do seu passado.
Julie Kohler, que encontramos no início do filme a olhar um álbum de fotografias, vestida de negro, fecha o álbum repentinamente e decide suicidar-se, atirando-se da janela abaixo sendo impedida pela mãe. Empreende então uma longa busca, que irá durar alguns anos, até descobrir os assassinos do amor da sua vida e só irá descansar quando o último deixar de respirar.

François Truffaut irá dizer, mais tarde, que a razão do insucesso de “A Noite Estava de Luto” se prende com o facto de ter decidido rodar a película a cores, procurando de certa forma homenagear Alfred Hitchcock. E aqui até lhe damos razão, porque se imaginarmos este filme a preto e branco, iríamos entrar no interior desse universo do “film noir”, como mais tarde o cineasta faria com o maravilhoso “Vivement Dimanche” / “Finalmente Domingo”.
A outra razão apontada por Truffaut pelo insucesso da obra figura na escolha da protagonista. Jeanne Moreau não possui a frieza e desencanto pretendida pelo cineasta, apresentando-se um pouco “como uma estátua” (as palavras são dele). Mas também nunca nos poderemos esquecer que, na altura da filmagem de “A Noiva Estava de Luto”, Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve e musa de Truffaut em “Angústia” / “La Peau Douce” iria encontrar a morte num trágico acidente de automóvel. E todos sabemos como o cineasta amava as suas actrizes, no verdadeiro sentido da palavra, aliás a principal razão que levou ao fim da amizade entre ele e Jean-Luc Godard, quando este lhe escreveu a criticar a sua personagem em “A Noite Americana” acusando-a de falsidade, já que Truffaut era conhecido por se apaixonar pelas actrizes que dirigia, mantendo quase sempre casos com elas ao longo da rodagem.

Jeanne Moreau, que fora a estrela dessa obra-prima chamada “Jules e Jim” e em tempos companheira do cineasta, possui aqui uma excelente interpretação, porque ela transporta consigo uma angústia assassina, que só irá desaparecer quando terminar a sua missão vingadora. Repare-se que ela não sucumbe ao fascinante pintor, por momentos até temos essa ideia quando nós e ela nos apercebemos o nascimento de uma atracção que ultrapassa o físico, mas ela vive imune às palavras de sedução do artista. Enquanto ele vai “dormir” todas as noites com ela, ao pintá-la na parede junto do sofá onde dorme, a sua imagem será uma espécie de atracção fatal. E não será demais referir que foi aqui que François Truffaut encontrou em Charles Denner o intérprete perfeito para o seu protagonista de “O Homem que Gostava de Mulheres”, esse homem que seguia as pernas de uma mulher perfeitamente seduzido e fascinado, essas mesmas que irão conduzir à sua morte. E por falar em pernas, reparem na forma como Truffaut filma as pernas de Jeanne Moreau, como se as tivesse a acariciar, situação que será recorrente em outras películas do cineasta, bastando recordar a forma como Fanny Ardant mostra as suas pernas a Jean-Louis Trintignant quando este se encontra refugiado na cave em “Finalmente Domingo”.

“A Noiva Estava de Luto” surge assim como um magnifico policial, embora François Truffaut tivesse uma opinião contrária. Descobrir esta obra e compará-la com os outros policiais deste grande cineasta é a nossa proposta para hoje e não se esqueçam de escutar com a máxima atenção a banda sonora composta por Bernard Herrmann, porque nela sentimos a linguagem hitchcockiana do mestre que François Truffaut tanto admirou ao longo da vida.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Sábado, Maio 10, 2008

NEW YORK STORIES – LIFE LESSONS
HISTÓRIAS DE NOVA IORQUE – LIÇÕES DA VIDA

MARTIN SCORSESE – (EUA – 1989) – (44 min/Cor)

NICK NOLTE, ROSANNA ARQUETTE, PATRICK O’NEAL, STEVE BUSCEMI.

Durante os anos setenta do século xx (convém não esquecer que vivemos no século XXI), estiveram muito em voga os filmes de “sketches” em que diversos realizadores abordavam um determinado tema, basta recordar esse maravilhoso “Boccacio 70” ou “Amor e Raiva” para nos situarmos na época mas, com a passagem do tempo, o género deixou de cativar as audiências, até que em 1989 Woody Allen convidou Martin Scorsese para participar num filme de “sketches”, no qual o tema seria a cidade de Nova Iorque. O terceiro cineasta deveria ser Steven Spielberg, que acabaria por desistir do projecto, sendo substituído por Francis Ford Coppola, nascendo assim essa obra com o título genérico de “New York Stories”. Mas como por vezes sucede, há um abismo entre o filme de Scorsese “Life Lessons” e as outras duas películas assinadas por Woody Allen e Francis Coppola.

Na época em que o filme se estreou em Lisboa ainda vigoravam os célebres intervalos e, curiosamente, o filme de Scorsese ocupava a primeira parte da secção. Nós por aqui apaixonámo-nos por “Life Lessons” e fomos algumas vezes ao cinema só para ver a história do pintor Lionel Dobie (Nick Nolte), saindo depois ao intervalo.
Tínhamos encontrado uma obra-prima que nos convidava a meditar nessa arte chamada de sétima. “Life Lessons” é muito mais que lições da vida na relação entre o pintor e a sua obra, já que o artista se encontra dependente da presença da sua assistente/amante, para criar a sua obra.
“Life Lessons” é uma lição de cinema e poderemos dizer que este continua a ser a película que mais vezes visitamos, sempre com um enorme prazer cinematográfico, que nos convida a meditar sobre a forma simples como se pode realizar um filme.

O argumento de Richard Price é soberbo porque nele não existe uma palavra a mais, nem a menos, depois temos uma fotografia de Nestor Almendros que filma o trabalho do artista com uma elegância electrizante, como se sentíssemos o cheiro das tintas, ao vermos ao longo do filme como o quadro vai nascendo, mas também não nos podemos esquecer do trabalho de montagem levado a cabo por Thelma Schoonmaker, colaboradora de Martin Scorsese desde esse dia em que eles se encontraram na “sala escura” de “Woodstock”. E, por fim, temos a realização de Martin Scorsese, que manipula os planos de forma alucinante, numa velocidade vertiginosa, sempre com um raccord mais-que-perfeito, ao som do rock dos Procol Harum, Cream, Bob Dylan (fase eléctrica), chegando a criar uma perfeita magia quando funde o “Conquistador” dos Procol Harum com o “Nessun Dorma” de Puccini, nesse momento em que Lionel Dobie demonstra a Reuben Toro como a sua arte é superior ao do jovem que acabou de partilhar a cama com a mulher que ele tanto ama.

Lionel Dobie (Nick Nolte) é um pintor famoso que habita um “loft” no Soho, em Nova Iorque e que se encontra artisticamente dependente da presença da sua assistente Paulette (Rosanna Arquette), porque ela representa esse desejo de que tanto necessita para terminar a obra que prepara para uma exposição a inaugurar dentro de dias.
Quando a vai buscar ao aeroporto (numa sequência inesquecível), fica sabendo que ela decidira deixá-lo porque se apaixonara por um jovem artista de “stand-up comedy” chamado Gregory Stark (Steve Buscemi), mas ele é tão lunático que até a deixara nas férias após uma discussão. Ora como Lionel necessita da sua presença para terminar a obra, pede-lhe para ela regressar, dando-lhe a sua palavra de escuteiro de que serão apenas bons amigos. Mas a atracção que sente por ela é superior a tudo e começa a viver um profundo martírio, embora retome o seu trabalho, dando início à criação de um quadro de grandes dimensões de uma beleza pictural absoluta. Será essa mesma criação que iremos acompanhar ao longo da película, ao mesmo tempo que vamos assistindo ao duelo entre ele e Paulette, na busca desse amor perdido.

Ele tudo faz para controlar a vida dela, ao mesmo tempo que se deixa subjugar por ela, até chegar esse momento em que ela desiste de tudo porque percebe que nunca conseguirá ser uma grande pintora, ela nunca irá passar da miúda que vive com o grande génio.
Para grande alegria de Phillip Fowler (Patrick O’Neal) que acompanha o pintor há já vinte anos, as obras ficam prontas para a exposição que se revela um grande sucesso e será aqui que ele, ao beber um copo no bar, sente a mão da rapariga que o serviu na sua e percebe como a sua arte está tão dependente da presença de uma jovem mulher na sua vida. Tinha acabado de encontrar uma nova aluna a quem poderia dar lições da vida, nessa grande metrópole chamada Nova Iorque… a única cidade.

A beleza pictórica desta obra de Martin Scorsese demonstra bem como o seu génio transforma em Arte tudo em que toca, em apenas 44 minutos ele oferece-nos um filme inesquecível onde os actores são dirigidos de forma exemplar, Nick Nolte aliás tem uma das suas melhores interpretações de sempre e onde ainda temos dois “cameos” de Peter Gabriel e Deborah Harry. Nunca é demais dizer que as personagens que nos surgem no écran são perfeitamente plausíveis, todas elas com os seus desejos e frustrações, em busca da eterna luz da celebridade.
“Life Lessons” é um daqueles pequenos prazeres que leva qualquer espectador de cinema a apaixonar-se pela Sétima Arte.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Quinta-feira, Maio 08, 2008

THE HOUSEHOLDER

JAMES IVORY – (IND- 1963) – (102 min-P/B)

SHASHI KAPOOR, LEELA NAIDU, DURGA KHOTE, ACHIA SACHDEV, HARIENDERNATH CHATTOPADAYAYA, ROMESH THAPAR


O primeiro filme de James Ivory que vimos no cinema foi o célebre “Verão Indiano” / “Heat and Dust” e desde então decidimos seguir-lhe a carreira. Este americano nascido no Oregon e que estudou na Califórnia, viveu na Índia durante alguns anos, por vezes até vê a sua nacionalidade trocada porque muitos o julgam inglês, devido ao seu estilo, mas também ao facto de ele ter levado ao écran diversas obras de E. M. Forster (“Maurice”, “Quarto com Vista” / “Room Wiyh a View” e “Regresso a Howards End” / “Howards End”), assim como obras de Henry James, tendo uma certa apetência por adaptar obras literárias ao cinema, sendo elas clássicas ou modernas, como sucederia com “Escravos de Nova Iorque” / “Slaves of New York”e “Os Despojos do Dia” / “The Remains of the Days”.

Quando realizou “The Householder”, em 1963, apenas possuía no seu curriculum dois filmes: “Venice: Thems and Variations” e “The Sword and The Flute”, este último realizado no continente indiano e com musica de Ravi Shankar, ainda desconhecido no Ocidente, porque ainda não tinha nascido o seu encontro com o Beatle George Harrison, nem as suas colaborações com John McLaughlin. E seria durante uma projecção desta curta-metragem que iria conhecer o homem que irá mudar a sua vida para sempre, o produtor Ismail Merchant (que também irá passar pela realização, sendo a sua obra “The Mystic Masseur” uma maravilhosa pérola baseada num livro de V. S. Naipaul, que na época passou numa das salas do cinema Mundial), que irá produzir todos os seus filmes até falecer em 2005. Aliás no dvd “Le Divorce” poderemos ver num dos extras uma entrevista com Merchant, em que ele nos relata o seu encontro com Ivory, uma verdadeira delicia.

Nos anos sessenta Satyajit Ray era um cineasta já bem conhecido no Ocidente e Ivory via nele uma fonte inspiradora, sendo muito importante o seu contributo na montagem final de “The Householder”. Da mesma forma que “The River” / “O Rio Sagrado” de Jean Renoir onde Ray foi assistente, foi a outra obra que marcou Ivory no seu fascínio pela Índia.
“The Householder” irá assim reunir estes dois homens aos quais se irá juntar a argumentista de todos os seus filmes Ruth Prawer Jhabvala, aliás o argumento baseia-se num livro dela. E o mais curioso nesta obra, datada de início dos anos sessenta que nos relata o primeiro ano de vida conjugal de um jovem casal, foi não ter sido vítima da passagem do tempo, devido ao génio de James Ivory.

No início do filme vemos Indu ((Leela Naidu) a ir ter o marido para o informar que têm um convite para irem a um casamento. Na época, o matrimónio na Índia ainda era arranjado pelas respectivas famílias dos noivos e quando Prem (Shashi Kapoor), ao chegar ao local com a mulher, vê o desalento do amigo que se vai casar, decide contar-lhe como foi o seu primeiro ano de vida em comum e de imediato a película se transforma num longo “flashback” em que nos são contados os problemas que Prem e Indu tiveram que enfrentar até encontrarem a felicidade.
Iremos assim assistir a essa relação entre dois estranhos que aprenderam a conhecer-se e a amar-se, ultrapassando todos os obstáculos encontrados ao longo do caminho.
Dificuldades que continuamos a descobrir no nosso dia: a falta de dinheiro, a protecção da mãe e a luta pela felicidade.

Prem, um jovem professor universitário, vê sempre a sua autoridade a ser posta em causa tanto pelos alunos como pelos colegas mais velhos, por outro lado ao pretender encontrar na esposa uma mulher idêntica à mãe que o criou irá descobrir que a sua mulher não é propriamente submissa, tendo direito à sua própria identidade.
Filmado sempre em exteriores devido à falta de dinheiro, “The Householder” relata-nos uma história de sobrevivência, em que o humor não está ausente, basta ver as tentativas de Prem perante o director para pedir aumento de ordenado ou perante o senhorio da casa onde vive para lhe baixar a renda. Depois haverá sempre a chegada da sua mãe para pôr tudo em ordem na casa, criticando sempre a esposa, que acabará por abandoná-lo porque já não tolera mais as intromissões ditatoriais da sogra, acabando por regressar mais tarde por amor ao marido, construindo ambos um plano para “convidar” a mãe a partir para junto de uma das outras filhas, para ir tratar dos netos. E será esse mesmo amor que irá abrir o caminho para a felicidade, tão ambicionada por ambos.

James Ivory oferece-nos um retrato espantoso do quotidiano desses anos na Índia, onde não faltam esses americanos que buscam no território o perfeito encontro espiritual, mas que por outro lado possuem os meios necessários para viverem uma vida sem problemas económicos como sucede com o seu amigo americano.
Descobrir “The Householder” que já se encontra editado em dvd (importação) é a nossa proposta para hoje e nele poderemos sempre aprender mais um pouco sobre o universo do cineasta.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (***)

Terça-feira, Maio 06, 2008

NOSFERATU, O VAMPIRO / NOSFERATU, EINE SYMPHONIE DES GRAUENS

F. W. MURNAU – (ALE – 1922) – (94 min/Mudo)

MAX SCHRECK, ALEXANDER GRANACH, GUSTAV VON WANGENHEIM, GRETA SCHRODER, GEORG SCHNELL.


Os filmes de vampiros são um género no interior do cinema de terror, sendo o mais conhecido de todos os “protagonistas”, o célebre Conde Dracula criado por Bram Stoker. Mas a sua primeira passagem ao grande écran teve imensas dificuldades, que o diga Murnau. Os herdeiros da obra estiveram durante muito tempo contra essa adaptação, recusando a venda dos direitos do livro, obrigando desta forma o cineasta alemão a fazer diversas alterações, a começar pelo nome do célebre vampiro, que na impossibilidade de se chamar Dracula, viu o seu nome mudado para Conde Orlok, assim como dos restantes personagens.

“Nosferatu” iria tornar-se numa das obras-primas do cinema mudo e após um sucesso enorme junto do público, os herdeiros da obra de Bram Stoker não desistiram de processar o cineasta recorrendo à justiça em 1924 e 1929 pedindo a destruição de todas as cópias do filme, que entretanto continuava a capitalizar pelo mundo fora, tornando impossível o intuito dos familiares do escritor. E só muitos anos depois a Universal conseguiu fazê-los mudar de ideias.
Perante todos estes obstáculos Murnau para além de mudar o nome aos personagens, alterou também os locais onde se desenrola toda a acção, passando-a para a Alemanha.

Mas um dos trunfos do filme chama-se Max Schreck que vestiu a pele do vampiro de uma forma única, tornando a sua interpretação inesquecível. Curiosamente durante largos anos se falou que o célebre actor oriundo do teatro apenas tinha emprestado o nome, sendo o próprio Murnau a interpretar o famoso Conde, o que parece não corresponder à verdade.
Filmado quase sempre em cenários naturais, ao contrário do que era norma na época, Murnau construiu um filme de luz e sombras que nos deixa perfeitamente fascinados, atingindo uma perfeição que transformou este filme numa verdadeira obra-prima do cinema.

Nele sentimos o terror a navegar em cada fotograma desde que Hutter (Gustav von Wangenheim) fica incumbido de se encontrar com o Conde Orlok no seu castelo perdido a fim de preparar a venda de uma casa em Bremen ao misterioso Conde, que possui horários diferentes dos habituais, não vá o sol trair o príncipe das trevas.
A forma como Max Schreck se movimenta no écran é simplesmente magistral, fruto de um saber único que irá influenciar para sempre todos os restantes intérpretes da famosa personagem.

Tod Browning já em pleno sonoro irá criar uma nova versão do livro, que também ficará para a história do cinema com a soberba interpretação de Bela Lugosi, tendo mais tarde nos anos sessenta os Estúdios Britânicos Hammer feito uma série de películas em que Christopher Lee, outro famoso Dracula irá travar diversas lutas com o célebre Van Helsing (Peter Cushing). Mas seria um outro alemão de seu nome Werner Herzog que iria prestar a mais bela homenagem ao filme de Murnau, oferecendo a Klaus Kinski uma das suas maiores interpretações de sempre. Depois teremos sempre essa aventura barroca que foi a revisão da obra feita por Francis Ford Coppola, já aqui tratada anteriormente.

No filme de Murnau sentimos perfeitamente o medo que se vai apossando de Hutter sempre que o conde Orlok se aproxima dele e quando a fotografia da sua bela mulher cai nas mãos do Conde o seu destino irá ficar traçado ao ser encarcerado numa das torres do misterioso castelo que tanto aterroriza os habitantes da região. Hutter irá conseguir fugir mas a beleza da sua mulher atrai o temível vampiro que decide partir ao encontro dela. Sendo aliás curioso ver como durante a travessia que é feita pelo navio que transporta o vampiro, os marinheiros vão morrendo lentamente, vítimas do seu desejo de sangue, ao mesmo tempo que os ratos que seguem nos caixões irão invadir a cidade espalhando a morte pela cidade. Sempre com o seu caixão como protecção dos raios solares, o Conde irá encontrar um local tranquilo para “pernoitar” durante o dia, para de noite preparar o ataque à bela Ellen (Greta Schroder), mas a bela que nada de inocente possui apesar de gostar de brincar com os sus gatinhos, como vemos nas primeiras imagens da película, irá preparar um plano infalível para liquidar o temível vampiro.

Quando olhamos para Orlok, apenas encontramos nele alguém cuja forma humana partiu à muito do seu corpo, tal é a caracterização conseguida por Murnau, por outro lado a forma como Max Schreck se movimenta deixa-nos a todos perfeitamente perplexos, fruto de uma criação espantosa que se tornou inesquecível para qualquer amante da sétima arte.
Reencontrar esta obra-prima de Murnau já disponível em dvd é a nossa proposta e nunca será demais referir que a banda sonora que acompanha o dvd em que visionámos a película pontua de forma exemplar a acção do filme. Temos a certeza de que se o João César Monteiro tivesse visto este dvd intitulado “German Silence Masterworks” que ainda possui “The Letze Mann” e “Der Golem” iria aplaudir a sua edição.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)