BLADE RUNNER / PERIGO IMINENTE
RIDLEY SCOTT – (EUA – 1982) – (117 min/Cor)
HARRISON FORD, RUTGER HAUER, SEAN YOUNG, DARRYL HANNAH, WILLIAM SANDERSON, EDGAR JAMES OLMOS, JOANNE CASSIDY, BRION JAMES, EMMET WALSH.
Em 1982 o cineasta britânico Ridley Scott realizou um memorável filme de ficção-cientifica intitulado “Blade Runner”, que deixou os espectadores estupefactos, tornando-se ao longo dos anos um dos maiores “cult-movies” de sempre, também devido ao facto de o realizador ao longo dos anos continuar a amar a sua obra, tendo surgido muitos anos depois um “Director’s Cut” e agora o derradeiro “Final Cut”, com uma montagem diferente e uma nova sequência.
Curiosamente, na época da sua estreia, o filme não foi um grande sucesso e a crítica cinematográfica até se dividiu na apreciação da obra e se ainda hoje essa divisão permanece até entre nós, “Blade Runner” continua a ser uma obra incontornável no género. E nestas coisas convém sempre recordar que o célebre “Alien” tinha sido o filme anterior do cineasta, uma obra que gelou de medo as plateias e deu origem a esse duelo/saga entre a tenente Ripley e o
célebre monstro (nasceram quatro movies). Para aqueles que desejam conhecer o labor do cineasta, gostaríamos de referir duas obras anteriores de Scott que merecem uma visita: “The Duellist”, um filme baseado num conto de Joseph Conrad, datado de 1977, cuja acção se passa no tempo de Napoleão e que tem como protagonistas Harvey Keitel e Keith Carradine (na época foi exibido no Quarteto) e esse conto gótico, tão desconhecido, intitulado “Legend” com Tom Cruise no protagonista. Filmes que merecem ser redescobertos, agora que o dvd já faz parte do nosso quotidiano.
Mas se o dvd invadiu o nosso universo e os plasmas nos oferecem outras possibilidades de visão, não há nada como ver “Blade Runner” no cinema e embora esteja só numa sala em Lisboa, a sua visão é uma experiência única, quando essa Los Angeles do ano 2019 surge no écran largo, acompanhada por aquela que será a melhor banda sonora de Vangelis, e entramos nesse universo em que o sol parece ausente para sempre, enquanto uma chuva quase permanente invade a cidade, por entre o fumo e a publicidade de uma sociedade profundamente capitalista, que usa replicantes para as piores tarefas no espaço, onde a lei é uma simples recordação do passado.
Na primeira versão que vimos em 1982, no cinema Castil, o filme apresentava um final imposto pelos produtores (Bud Yorkin, também realizador) em que vimos Deckard e Rachel (Sean Young) a partir para um outro território numa fuga em busca do direito a uma vida. Ao mesmo tempo que no início do filme podíamos escutar Deckard a narrar a sua história. Estas duas partes foram retiradas no “Director’s Cut” e introduzida a célebre sequência do unicórnio, esse sonho implantado na memória do detective, terminando as versões do cineasta com a saída dos protagonistas do bloco de apartamentos que albergava a bela Rachel, uma replicante em busca da existência.
Ao introduzir a sequência do unicórnio, Ridley Scott abriu uma porta que se encontrava quase fechada para o espectador: seria Deckard também um replicante muito mais evoluído construído para combater o crime, possuindo como Rachel as memórias de alguém já morto? Ao longo dos anos Ridley Scott foi falando sobre o filme, deixando as suas pistas e se Rachel era possuidora das
memórias da sobrinha de Tyrell, esse mestre da genética, já Deckard seria na realidade a sua obra-prima, daí o ter sido convocado por Bryant para matar os replicantes que chegaram à terra em busca dessa pergunta que nos atormenta ao longo da existência quando pensamos nela: quanto tempo nos resta de vida?
Philip K. Dick, esse génio da literatura de ficção-cientifica, "beatnick" de gema a viver na sua “caravana” na costa californiana, criou um conto profético que nos conduz à meditação. Porque o que buscam os replicante não é a imortalidade, mas um pouco mais de vida e quando nós sabemos que a duração deles é de apenas quatro anos compreendemos a angústia do líder do grupo.
Roy (Rutger Hauer), nesse duelo final com Deckard (Harrison Ford) no prédio onde habitava J.F. Sebastian (William Sanderson), trava o derradeiro combate para que foi programado, sabendo já a resposta para as suas dúvidas existenciais. Ao vermos na película a morte a tomar conta de Roy, ele larga essa pomba branca que segura na mão deixando-a seguir o seu rumo, como se ela fosse portadora da sua alma, transportando no seu voo as suas memórias implantadas pelo criador, sempre tão presentes através dessas fotografias que todos eles guardam religiosamente.
Se olharmos o universo de “Blade Runner”, percebemos que ele é demasiado negro e doloroso, mas se pensarmos no mundo que hoje nos rodeia, vinte cinco anos após a feitura da película e recordarmos esse quarto de século que passou, percebemos que os avanços da humanidade se traduzem em um passo em frente e dois à retaguarda.
Por outro lado, nunca poderemos esquecer que Roy, ao encontrar-se com o seu criador, o poderoso Tyrell, termina por matar quem o concebeu, esmagando-lhe o rosto, ao mesmo tempo que lhe dá o beijo da compaixão. E será essa mesma compaixão transformada no gesto que perdura, que o levará a salvar Deckard de cair no abismo, após o confronto final.
Reencontrar “Blade Runner” numa sala de cinema, vinte cinco anos depois, é uma experiência que recomendamos a todos, porque só no escuro da sala e no écran de cinema podemos amar verdadeiramente a Sétima Arte.
Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)
RIDLEY SCOTT – (EUA – 1982) – (117 min/Cor)
HARRISON FORD, RUTGER HAUER, SEAN YOUNG, DARRYL HANNAH, WILLIAM SANDERSON, EDGAR JAMES OLMOS, JOANNE CASSIDY, BRION JAMES, EMMET WALSH.
Em 1982 o cineasta britânico Ridley Scott realizou um memorável filme de ficção-cientifica intitulado “Blade Runner”, que deixou os espectadores estupefactos, tornando-se ao longo dos anos um dos maiores “cult-movies” de sempre, também devido ao facto de o realizador ao longo dos anos continuar a amar a sua obra, tendo surgido muitos anos depois um “Director’s Cut” e agora o derradeiro “Final Cut”, com uma montagem diferente e uma nova sequência.Curiosamente, na época da sua estreia, o filme não foi um grande sucesso e a crítica cinematográfica até se dividiu na apreciação da obra e se ainda hoje essa divisão permanece até entre nós, “Blade Runner” continua a ser uma obra incontornável no género. E nestas coisas convém sempre recordar que o célebre “Alien” tinha sido o filme anterior do cineasta, uma obra que gelou de medo as plateias e deu origem a esse duelo/saga entre a tenente Ripley e o
célebre monstro (nasceram quatro movies). Para aqueles que desejam conhecer o labor do cineasta, gostaríamos de referir duas obras anteriores de Scott que merecem uma visita: “The Duellist”, um filme baseado num conto de Joseph Conrad, datado de 1977, cuja acção se passa no tempo de Napoleão e que tem como protagonistas Harvey Keitel e Keith Carradine (na época foi exibido no Quarteto) e esse conto gótico, tão desconhecido, intitulado “Legend” com Tom Cruise no protagonista. Filmes que merecem ser redescobertos, agora que o dvd já faz parte do nosso quotidiano.Mas se o dvd invadiu o nosso universo e os plasmas nos oferecem outras possibilidades de visão, não há nada como ver “Blade Runner” no cinema e embora esteja só numa sala em Lisboa, a sua visão é uma experiência única, quando essa Los Angeles do ano 2019 surge no écran largo, acompanhada por aquela que será a melhor banda sonora de Vangelis, e entramos nesse universo em que o sol parece ausente para sempre, enquanto uma chuva quase permanente invade a cidade, por entre o fumo e a publicidade de uma sociedade profundamente capitalista, que usa replicantes para as piores tarefas no espaço, onde a lei é uma simples recordação do passado.
Na primeira versão que vimos em 1982, no cinema Castil, o filme apresentava um final imposto pelos produtores (Bud Yorkin, também realizador) em que vimos Deckard e Rachel (Sean Young) a partir para um outro território numa fuga em busca do direito a uma vida. Ao mesmo tempo que no início do filme podíamos escutar Deckard a narrar a sua história. Estas duas partes foram retiradas no “Director’s Cut” e introduzida a célebre sequência do unicórnio, esse sonho implantado na memória do detective, terminando as versões do cineasta com a saída dos protagonistas do bloco de apartamentos que albergava a bela Rachel, uma replicante em busca da existência.Ao introduzir a sequência do unicórnio, Ridley Scott abriu uma porta que se encontrava quase fechada para o espectador: seria Deckard também um replicante muito mais evoluído construído para combater o crime, possuindo como Rachel as memórias de alguém já morto? Ao longo dos anos Ridley Scott foi falando sobre o filme, deixando as suas pistas e se Rachel era possuidora das
memórias da sobrinha de Tyrell, esse mestre da genética, já Deckard seria na realidade a sua obra-prima, daí o ter sido convocado por Bryant para matar os replicantes que chegaram à terra em busca dessa pergunta que nos atormenta ao longo da existência quando pensamos nela: quanto tempo nos resta de vida?Philip K. Dick, esse génio da literatura de ficção-cientifica, "beatnick" de gema a viver na sua “caravana” na costa californiana, criou um conto profético que nos conduz à meditação. Porque o que buscam os replicante não é a imortalidade, mas um pouco mais de vida e quando nós sabemos que a duração deles é de apenas quatro anos compreendemos a angústia do líder do grupo.
Roy (Rutger Hauer), nesse duelo final com Deckard (Harrison Ford) no prédio onde habitava J.F. Sebastian (William Sanderson), trava o derradeiro combate para que foi programado, sabendo já a resposta para as suas dúvidas existenciais. Ao vermos na película a morte a tomar conta de Roy, ele larga essa pomba branca que segura na mão deixando-a seguir o seu rumo, como se ela fosse portadora da sua alma, transportando no seu voo as suas memórias implantadas pelo criador, sempre tão presentes através dessas fotografias que todos eles guardam religiosamente.
Se olharmos o universo de “Blade Runner”, percebemos que ele é demasiado negro e doloroso, mas se pensarmos no mundo que hoje nos rodeia, vinte cinco anos após a feitura da película e recordarmos esse quarto de século que passou, percebemos que os avanços da humanidade se traduzem em um passo em frente e dois à retaguarda.Por outro lado, nunca poderemos esquecer que Roy, ao encontrar-se com o seu criador, o poderoso Tyrell, termina por matar quem o concebeu, esmagando-lhe o rosto, ao mesmo tempo que lhe dá o beijo da compaixão. E será essa mesma compaixão transformada no gesto que perdura, que o levará a salvar Deckard de cair no abismo, após o confronto final.
Reencontrar “Blade Runner” numa sala de cinema, vinte cinco anos depois, é uma experiência que recomendamos a todos, porque só no escuro da sala e no écran de cinema podemos amar verdadeiramente a Sétima Arte.
Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)


























