Segunda-feira, Abril 28, 2008

BLADE RUNNER / PERIGO IMINENTE

RIDLEY SCOTT – (EUA – 1982) – (117 min/Cor)

HARRISON FORD, RUTGER HAUER, SEAN YOUNG, DARRYL HANNAH, WILLIAM SANDERSON, EDGAR JAMES OLMOS, JOANNE CASSIDY, BRION JAMES, EMMET WALSH.

Em 1982 o cineasta britânico Ridley Scott realizou um memorável filme de ficção-cientifica intitulado “Blade Runner”, que deixou os espectadores estupefactos, tornando-se ao longo dos anos um dos maiores “cult-movies” de sempre, também devido ao facto de o realizador ao longo dos anos continuar a amar a sua obra, tendo surgido muitos anos depois um “Director’s Cut” e agora o derradeiro “Final Cut”, com uma montagem diferente e uma nova sequência.

Curiosamente, na época da sua estreia, o filme não foi um grande sucesso e a crítica cinematográfica até se dividiu na apreciação da obra e se ainda hoje essa divisão permanece até entre nós, “Blade Runner” continua a ser uma obra incontornável no género. E nestas coisas convém sempre recordar que o célebre “Alien” tinha sido o filme anterior do cineasta, uma obra que gelou de medo as plateias e deu origem a esse duelo/saga entre a tenente Ripley e o célebre monstro (nasceram quatro movies). Para aqueles que desejam conhecer o labor do cineasta, gostaríamos de referir duas obras anteriores de Scott que merecem uma visita: “The Duellist”, um filme baseado num conto de Joseph Conrad, datado de 1977, cuja acção se passa no tempo de Napoleão e que tem como protagonistas Harvey Keitel e Keith Carradine (na época foi exibido no Quarteto) e esse conto gótico, tão desconhecido, intitulado “Legend” com Tom Cruise no protagonista. Filmes que merecem ser redescobertos, agora que o dvd já faz parte do nosso quotidiano.

Mas se o dvd invadiu o nosso universo e os plasmas nos oferecem outras possibilidades de visão, não há nada como ver “Blade Runner” no cinema e embora esteja só numa sala em Lisboa, a sua visão é uma experiência única, quando essa Los Angeles do ano 2019 surge no écran largo, acompanhada por aquela que será a melhor banda sonora de Vangelis, e entramos nesse universo em que o sol parece ausente para sempre, enquanto uma chuva quase permanente invade a cidade, por entre o fumo e a publicidade de uma sociedade profundamente capitalista, que usa replicantes para as piores tarefas no espaço, onde a lei é uma simples recordação do passado.

Na primeira versão que vimos em 1982, no cinema Castil, o filme apresentava um final imposto pelos produtores (Bud Yorkin, também realizador) em que vimos Deckard e Rachel (Sean Young) a partir para um outro território numa fuga em busca do direito a uma vida. Ao mesmo tempo que no início do filme podíamos escutar Deckard a narrar a sua história. Estas duas partes foram retiradas no “Director’s Cut” e introduzida a célebre sequência do unicórnio, esse sonho implantado na memória do detective, terminando as versões do cineasta com a saída dos protagonistas do bloco de apartamentos que albergava a bela Rachel, uma replicante em busca da existência.

Ao introduzir a sequência do unicórnio, Ridley Scott abriu uma porta que se encontrava quase fechada para o espectador: seria Deckard também um replicante muito mais evoluído construído para combater o crime, possuindo como Rachel as memórias de alguém já morto? Ao longo dos anos Ridley Scott foi falando sobre o filme, deixando as suas pistas e se Rachel era possuidora das memórias da sobrinha de Tyrell, esse mestre da genética, já Deckard seria na realidade a sua obra-prima, daí o ter sido convocado por Bryant para matar os replicantes que chegaram à terra em busca dessa pergunta que nos atormenta ao longo da existência quando pensamos nela: quanto tempo nos resta de vida?

Philip K. Dick, esse génio da literatura de ficção-cientifica, "beatnick" de gema a viver na sua “caravana” na costa californiana, criou um conto profético que nos conduz à meditação. Porque o que buscam os replicante não é a imortalidade, mas um pouco mais de vida e quando nós sabemos que a duração deles é de apenas quatro anos compreendemos a angústia do líder do grupo.
Roy (Rutger Hauer), nesse duelo final com Deckard (Harrison Ford) no prédio onde habitava J.F. Sebastian (William Sanderson), trava o derradeiro combate para que foi programado, sabendo já a resposta para as suas dúvidas existenciais. Ao vermos na película a morte a tomar conta de Roy, ele larga essa pomba branca que segura na mão deixando-a seguir o seu rumo, como se ela fosse portadora da sua alma, transportando no seu voo as suas memórias implantadas pelo criador, sempre tão presentes através dessas fotografias que todos eles guardam religiosamente.

Se olharmos o universo de “Blade Runner”, percebemos que ele é demasiado negro e doloroso, mas se pensarmos no mundo que hoje nos rodeia, vinte cinco anos após a feitura da película e recordarmos esse quarto de século que passou, percebemos que os avanços da humanidade se traduzem em um passo em frente e dois à retaguarda.
Por outro lado, nunca poderemos esquecer que Roy, ao encontrar-se com o seu criador, o poderoso Tyrell, termina por matar quem o concebeu, esmagando-lhe o rosto, ao mesmo tempo que lhe dá o beijo da compaixão. E será essa mesma compaixão transformada no gesto que perdura, que o levará a salvar Deckard de cair no abismo, após o confronto final.

Reencontrar “Blade Runner” numa sala de cinema, vinte cinco anos depois, é uma experiência que recomendamos a todos, porque só no escuro da sala e no écran de cinema podemos amar verdadeiramente a Sétima Arte.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (****)

Sexta-feira, Abril 25, 2008

A VIÚVA ALEGRE / THE MERRY WIDOW

ERNST LUBITSCH – (EUA-1934) – (97 min-P/B)

JEANETTE MACDONALD, MAURICE CHEVALIER, EDWARD EVERETT HORTON, UNA MERKEL, GEORGE BARBIER.


Já por aqui escrevemos, por diversas vezes, que a comédia é um dos géneros mais difíceis do cinema e, quando se fala nos seus grandes mestres, sobressai de imediato um dos seus nomes maiores, o alemão Ernst Lubitsch que um dia trocou a sua terra natal pelo novo mundo.

Por outro lado, quando alguém me fala em Lubitsch, vem-me de imediato à memória essa obra intitulada “To Be or Not To Be” / “Ser ou Não Ser” que o cineasta realizou em 1942, centrando a acção na Varsóvia de 1939, em plena invasão alemã, tendo até sido escrito na época em que se Hitler tivesse visto o filme nunca teria dado início à Segunda Guerra Mundial invadindo a Polónia, tal é o humor corrosivo com que são retratados os alemães invasores
Mas também teremos sempre essa obra em que Garbo brilhou pela última vez na nossa memória,o célebre “Ninotchka”, em que o alvo da sua arte era a ideologia comunista na terra da perdição do capitalismo e na mais bela cidade do mundo, essa Paris que irá mudar para sempre a visão da célebre comissária soviética Ninotchka.
Depois haverá para sempre essa maravilhosa comédia romântica, uma obra-prima do género, intitulada “A Loja da Esquina” / “The Shop Around the Corner” que até já teve um “remake” bem conhecido intitulado “Você Tem uma Mensagem”. E se continuarmos por aqui fora a falar dos filmes de Lubitsch, começaremos a falar de “Design for Living” / “Uma Mulher Para Dois” esse filme que quebra todas as barreiras da censura com o célebre “Lubitsch Touch”.

O leitor já está perfeitamente situado, porque conhece certamente um destes delirantes filmes e assim poderemos começar a falar deste cineasta, que se iniciou na profissão de actor pela mão do famoso Max Reinhardt, tendo na época como colegas Emil Jannings (o professor de “O Anjo Azul” de Sternberg) e Conrad Veidt (quem não se lembra dele na figura do coronel alemão no filme de Michael Curtis “Casablanca).
Ernst Lubitsch, depois de ter feito a tarimba na Alemanha, de actor passou a argumentista, dando de seguida o inevitável salto para a realização. Em 1922, a convite da então mais que famosa Mary Pickford (conhecida como a namorada da América), partiu para terras americanas sendo a sua primeira obra sonora “The Love Parade”, que lançava um par que se tornaria famoso, formado por Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, par esse que iremos reencontrar precisamente em “A Viúva Alegre” / “The Merry Widow”, uma adaptação ao cinema da famosa opereta de Franz Leahr que já teve, desde a sua criação, mais três adaptações ao grande écran (os outros responsáveis são Erich Von Stroheim, Ludwig Berger e Curtis Bernhardt).

Se o leitor não viu o filme pode já ficar a saber que existiu um reino, na Europa Central, chamado Marshovia governado pelo famoso Rei Achmed (George Barbier) que lá vai dirigindo o pais como pode, mas tendo sempre um problema económico que terá que gerir com todo o seu saber, porque metade do seu reino pertence a uma viúva riquíssima chamada Sónia, que não mostra a cara a ninguém desde que o marido faleceu e anda sempre vestida de preto, com o seu véu cobrindo-lhe o rosto.
Ora com um problema destes sempre na mente o rei não se apercebe das traições da Rainha Dolores (Una Merkel) com o Conde Danilo (Maurice Chevalier), mas o conde é um conquistador que não tem mãos a medir e decide um dia invadir o jardim da casa da célebre viúva no intuito de lhe ver o rosto e fazer a consequente corte. Perante os avanços do Conde, esta decide partir para Paris para viver a vida e o terror de o reino cair em mãos pouco recomendáveis leva o rei Achmed a dar a Danilo a “terrível” missão de se casar com a famosa viúva. Chegado a Paris Danilo, em vez de ir ter com o embaixador Popoff (Edward Horton perfeitamente hilariante), decide ir até ao famoso “Maxim’s” onde o esperam as famosas meninas que não se esqueceram do galante conquistador. Mas, nessa mesma noite, Sónia também decide ir até lá para conhecer o mais famoso cabaret da cidade das luzes. Quando entra é confundida com mais uma em busca de homem e de dinheiro. E, como não podia deixar de ser, acaba por se cruzar com o Conde Danilo que, desconhecendo a sua identidade, não a perde de vista e se apaixona por ela e após demasiadas taças de champanhe acaba por lhe revelar a sua terrível missão.
Quando se voltam a encontrar no baile preparado pelo embaixador, Sónia decide ajustar contas com aquele oficial atrevido de sua Majestade, para grande surpresa do embaixador Popoff, que desconhece o encontro havido. Tudo acabará mais tarde por terminar bem, apesar de Danilo ser condenado à morte por ter falhado na sua importante missão, porque o amor falará mais alto.


Ao longo do filme, Lubistsch constrói diálogos e situações que nos levam a eleger esta comédia como uma das mais brilhantes da sua carreira, ultrapassando com mestria todas essas imposições do célebre Código Hays, tanto na sequência no Maxim’s, como nessa outra sequência em que o Rei Achmed o apanha na cama com a Rainha. Por outro lado o diálogo construído durante o encontro do par na embaixada com um Popoff a assistir, sem perceber “patavina” do que se passa, é perfeitamente hilariante. Depois a forma como nos é oferecido o quotidiano nesse Reino chamado Marshovia, em que as trocas comerciais se encontram na forma mais “primitiva”, leva-nos a equacionar, com um sorriso nos lábios, as regras porque se rege a economia.

Ernst Lubitsch soube, como ninguém, tornar a comédia como uma forma de Arte em que a palavra tem um papel fundamental e curiosamente teve um herdeiro, no verdadeiro sentido da palavra, em Billy Wilder que seguiu o caminho inaugurado por ele. Mas o célebre “Lubitsch Touch” só a ele lhe pertence. Basta ver ou rever “The Merry Widow” ou um dos filmes acima referidos para descobrimos que a comédia também possui as suas obras-primas no interior da História do Cinema.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Quarta-feira, Abril 23, 2008

PREMONIÇÃO / IN DREAMS

NEIL JORDAN – (EUA – 1999) – (100 min/Cor)

ANNETTE BENING, AIDAN QUINN, STEPHEN REA, ROBERT DOWNEY JR.

O irlandês Neil Jordan é um cineasta que não precisa de apresentações já que todos lhe fixámos o nome desde o aparecimento nos écran de “A Companhia dos Lobos” / “The Company of Wolves”, tendo atingido o pico da fama ao realizar “Jogo de Lágimas” / “The Crying Game” que encheu as salas e nos deu a conhecer esse actor chamado Stephen Rea, que a partir de então passou a ser uma espécie de alter-ego do cineasta. “Entrevista com o Vampiro” / “Interview with the Vampire”, "Michael Collins" e o “remake ”The End of the Affair” / “O Fim da Aventura” são outras obras maiores do cineasta.

“In Dreams” um filme pouco conhecido no nosso país e cujo lançamento foi feito em dvd, relata-nos a história de Claire Cooper (Annette Bening) uma ilustradora de livros infantis, casada com um piloto da aviação comercial Paul Cooper (Aidan Quinn) que um dia vê a sua filha Rebecca desaparecer após uma sessão de teatro infantil na qual é uma das protagonistas. Rebecca (Katie Sagona) desaparece sem deixar rasto e a polícia não consegue encontrar qualquer pista para a localizar, mas Claire começa em sonhos a ver o local para onde levaram a criança: um pomar.

Todos pensam que ela está a ficar louca incluindo o seu psiquiatra Dr. Silverman (Stephen Rea) sendo internada numa clínica. Ao longo do tratamento e através dos seus sonhos vai vendo os passos do assassino, mas poucos lhe dão crédito depois de a polícia ter explorado todas as pistas, indo a todos os pomares num raio de 500 milhas e nada encontrar. Angustiada e perdida Claire decide fugir do hospital e partir ao encontro do assassino de seu nome Vivian Thompson (Robert Downey Jr.), que vai “comunicando” com ela num convite ao duelo final.

Vivian Thompson um Robert Downey Jr. espantoso vai-lhe dando em sonhos as pistas de que ela tanto necessita, mas antes desse encontro final ficaremos a saber que ele em criança fora amarrado a uma cama minutos antes de a cidade onde habitava ter sido engolida pelas águas, para dar lugar a uma barragem. Estamos assim perante uma mente perfeitamente perturbada e quando descobrimos que o quarto onde ela se encontrava na clínica em tempos idos tinha tido como paciente Vivian, mergulhamos nos abismos da mente humana.

Mas demos a palavra a Neil Jordan, “a visualização dos sonhos permitiu-me lidar com vários níveis da realidade e deu-me oportunidade de dizer ao público algo que as personagens principais não sabem. Apenas Claire e o público são testemunhas reais da terrível verdade das visões dela” e como todos sabemos, muitas vezes os sonhos são enganadores e Rebecca não se encontra num pomar, mas sim numa fábrica de sidra abandonada.
Ao longo da película são bem visíveis os filtros utilizados pelo cineasta, criando um medo permanente que se vai apoderando do espectador, conseguindo agarrá-lo à cadeira, quase não o deixando respirar, por outro lado o célebre tanque de Rosarito no México onde foi rodado o célebre “Titanic” serviu para se construir a cidade submersa.

Annette Bening consegue mais uma vez dar o seu melhor na personagem de Claire convidando-nos de forma surpreendente a seguir os seus passos na busca da filha.
Numa época em que se fala tanto em filmes de terror, aqui fica uma pérola, bastante diferente do habitual, para redescobrirmos este género cinematográfico, tantas vezes apelidado de menor e possuidor de obras que merecem uma visita obrigatória como é o caso deste filme. Redescobrir “Premonição” é o nosso desafio cinematográfico.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (***)

Segunda-feira, Abril 21, 2008

NÚMERO 17 / NUMBER SEVENTEEN

ALFRED HITCHCOCK – (ING- 1932) – (63 min- P/B)

ANNE GREY, LEON M.LION, JOHN STUART, DONALD CALTHROP, BARRY JONES, ANNE CASSON, GARRY MARSH, HENRY CAINE.

O período inglês do Mestre do Suspense Alfred Hitchcock continua a ser pouco conhecido do público em geral, no entanto a edição em dvd tem oferecido diversos títulos que temos referido por aqui no “Paixões & Desejos”. “Number 17” é mais um desses filmes datado de 1932 e que merece bem uma visita.

Mais uma vez Hitchcock decide adaptar ao cinema uma peça teatral, compartilhando esse trabalho com a sua esposa Alma Reville, cuja importância ao lado do marido na escrita cinematográfica ainda está por fazer. E depois de já termos aqui referido essa obra intitulada “Skin Game”, também oriunda do teatro, chegou a vez de nos dedicarmos a este filme que não esconde por um lado as suas origens teatrais já que a acção se passa em dois locais precisos: a casa abandonada e a perseguição no comboio. Sendo de referir o uso de maquetes e miniaturas eléctricas como antepassados dos actuais efeitos especiais, por sinal bem notórios durante a perseguição, mas que não tiram de forma alguma o valor à arte e engenho conseguidos ao longo do filme.

No início do filme numa noite ventosa, descobrimos um chapéu a rodar pelo passeio levado pelo vento que só irá concluir a sua viagem à porta de uma casa que se encontra para alugar, que possui o número 17. A noite já se tinha instalado e quando vemos um vulto a apanhar o chapéu não lhe vemos o rosto. Mas uma luz percorre as diversas janelas do prédio e o homem “curioso” decide entrar para ver o que se passa no seu interior, acabando por encontrar um cadáver e um mendigo (um marinheiro sem barco) que se encontra ali refugiado do frio e da noite.

Desconhecemos a identidade destas três estranhas personagens e só quando surge uma quarta personagem, uma rapariga que cai no interior da casa através de uma abertura no telhado ficamos a saber que o morto é o seu pai.
Se o mendigo só pretende fugir dali, já o homem enigmático que entrou na casa recusa-se a chamar a polícia, até que lhe batem à porta e surge um casal que à meia-noite vem visitar a casa, adensando ainda mais o enigma, já que com eles entra uma outra personagem desconhecida de todos e que irá permanecer no interior da misteriosa casa, ao mesmo tempo que o cadáver desaparece.

Hitchcock ao não nos fornecer a identidade dos diversos protagonistas convida-nos a entrar neste jogo de "suspense", obrigando-nos a entrar nele como se fosse uma charada, porque quase todos escondem a sua identidade real e não seremos nós aqui a desvendar o segredo da história porque não há nada como ver o filme. Mas não resistimos a dar algumas pistas porque por aqui existe um polícia, um grupo de ladrões e alguns inocentes.
Durante a primeira parte da película Hitchcock joga de forma excelente com as sombras projectadas pelos diversos protagonistas da história, ao andarem no interior da casa sem luz, à luz de velas, num trabalho espantoso do director de fotografia John Cox onde o expressionismo fica bem patente. Durante a segunda parte do filme nasce a célebre perseguição, por sinal muito pouco ortodoxa, em que num autocarro cheio de passageiros o detective persegue os ladrões que vão num comboio para apanharem um barco para atravessar o canal da Mancha.

“Número 17” tratou-se de uma encomenda do British International e Hitchcock saiu-se muito bem desta adaptação teatral, repare-se que durante a perseguição os diálogos são escassos porque a acção fala por si e a forma como é feita a montagem é reveladora dos intuitos do cineasta, por outro lado Hitchcock não hesita em pontuar com diversos momentos de humor o desenvolvimento da história, ao longo da primeira parte. Por aqui iremos pois descobrir elementos que irão surgir muitos anos depois na obra do cineasta: o morto (Terceiro Tiro), a escada sinónimo de abismo (Vertigo), o comboio (Desaparecida) e o autocarro (Cortina Rasgada). (Re)descobrir “Número 17” de Alfred Hitchcock é a nossa proposta para hoje.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (***)

Sexta-feira, Abril 18, 2008

NUNCA É TARDE DEMAIS / THE BUCKET LIST

ROB REINER – (EUA-2007) – (97 min/Cor)

JACK NICHOLSON, MORGAN FREEMAN, SEAN HAYES.


Tenho que confessar que Jack Nicholson é um daqueles actores que me levam ao cinema e, apesar de nos dias de hoje se falar bastante nos seus tiques, desde que ele ganhou mais um Óscar com o maravilhoso “Melhor é Impossível” / “As Good as it Gets”, continuo a admirar as suas prestações nessa arte difícil de ser actor. Porque nem só de comédias vive o Jack e basta recordar três títulos, mais ou menos recentes, das suas prestações para lhe reconhecermos o valor: “The Departed” (esquecido nos Oscars); o fabuloso “About Schmidt”; “The Pledge” / “A Promessa” um extraordinário filme realizado por Sean Penn.

E como disse falamos apenas de filmes mais recentes, porque se olharmos para trás temos filmes como o extraordinário “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, “Shining”, “The Last Detail” ou “Missouri Breaks”, já para não falarmos nesses tempos em que ele vivia de mãos dadas com o cinema independente, isto é “Easy Rider” ou “The Little Shop of Horrors”, no início de carreira. Poderíamos ficar a falar de muitos mais filmes, mas o que nos interessa aqui é, na verdade, “Nunca é Tarde Demais”, a última película de Rob Reiner. E por falar do cineasta, que também é actor, recordamos apenas três títulos de que gostamos da sua filmografia “The American President”, “When Harry Met Sally” e o maravilhoso “Stand By Me”.

Isto tudo para nos situarmos um pouco em “The Bucket List”, que apenas pretende ser uma comédia, simplesmente uma comédia, não negra como alguns desejavam, mas uma comédia simples com dois grandes actores: Jack Nicholson e Morgan Freeman.
Edward Core é um milionário que dirige diversos hospitais (os famosos privados) e que um dia, por razões de saúde, vai conhecer as próprias instalações que gere, não concordando de imediato com a não existência de quartos privados, sendo obrigado a compartilhar o espaço com um mecânico, Carter Chambers de seu nome, que se encontra hospitalizado para mais um tratamento de quimioterapia.

O mundo destes dois homens é precisamente o oposto e quando o diagnóstico de Edward (Jack Nicholson) se revela terrível, compartilhando a mesma doença com o seu colega de quarto, sente o mundo cair-lhe em cima, não conseguindo esconder a sua revolta, perante um pacífico Carter (Morgan Freeman), que aceita a verdade dos factos: pouco tempo lhe resta neste mundo por vezes tão cruel.
Por essa mesma razão, Carter decide seguir o conselho do seu antigo professor de filosofia e começa a elaborar uma lista de coisas que desejava fazer um dia e que nunca teve oportunidade. Edward primeiro acha a lista estranha e depois sem sentido, ao ver os pequenos desejos de Cárter e decide também elaborar a sua, muito mais atractiva que a do seu colega segundo a sua opinião, porque ele possui os meios financeiros necessários para a realizar.

Ao saírem da clínica, combinam juntar as duas listas e partir rumo à aventura, no sentido de usufruírem o melhor possível os dias que lhes restam de vida. Iremos assim assistir às diversas peripécias desse roteiro criado a duas mãos, onde de imediato a comédia se instala, ao mesmo tempo que um olhar sobre o passado origina uma certa reflexão sobre os erros cometidos.
Rob Reiner, durante a estadia dos protagonistas no hospital, oferece-nos um olhar que não esconde a dureza dos tratamentos de quimioterapia, tão bem conhecidos de todos nós, introduzindo depois o seu saber da comédia ao longo da película, pontuado por pequenos momentos de reflexão sobre o sentido da vida, sendo a reconciliação com os familiares mais próximos o derradeiro passo de uma existência: Carter com a esposa que não compreende a sua partida com um desconhecido; Edward que decide visitar a filha e a neta à longo tempo esquecidas.

“Nunca é Tarde Demais” revela-se uma comédia que nos faz pensar um pouco na fragilidade da nossa existência porque, quando deixamos de viver, não partimos para uma nova vida, essa crença que nos serve de bengala ao longo da nossa passagem pela terra e nos leva sempre a acreditar na existência de um mundo melhor. Depois de partirmos apenas ficam as cinzas da nossa passagem, essas mesmas cinzas que o fiel assistente de Edward irá depositar num local perdido de todos os olhares, último desejo de Edward e Carter. Por tudo isto “The Bucket List” merece uma visita.

Rui Luís Lima (**)
Paula Nunes Lima (***)

Terça-feira, Abril 15, 2008

LAWRENCE DA ARABIA / LAWRENCE OF ARABIA

DAVID LEAN – (ING – 1962) – (187 min/216 min – Cor)

PETER O’TOOLE, OMAR SHARIFF, ALEC GUINESS, ANTHONY QUINN, JACK HAWKINS, ANTHONY QUAYLE, CLAUDE RAINS, ARTHUR KENNEDY.

Quando se possui um blogue sobre cinema e se escreve sobre a sétima arte, pelo simples prazer de se divulgar a maravilhosa arte das imagens, muitas vezes o cinema confunde-se com a própria vida de quem escreve e por vezes há filmes que nos marcam para sempre. “Lawrence da Arábia” é precisamente um desses casos, porque quando vi a película de David Lean, pela primeira vez, tinha apenas onze anos e nessa tarde faltei às aulas para ir ao cinema Europa ver o filme e nunca mais me esqueci dele. Quinze anos depois, voltei a encontrá-lo no seu esplendor dos 70 mm no cinema Monumental e muito recentemente retornei a ele, numa cópia de 35 mm e tanto anos passados a magia de David Lean permanece inalterada.

Curiosamente, em Portugal, já não existem cinemas que possibilitem a visão de filmes nesse écran mágico de 70 mm, que enchia a vida de sonhos. E apesar de já ter sido editado em dvd a versão restaurada do filme com a duração de 216 minutos, o célebre “Director’s Cut”, uma película como “Lawrence of Arábia” só respira em toda a sua grandeza numa sala de cinema com o écran para que foi pensado, porque por muito grande que seja o plasma existente na nossa casa, é na sala de cinema que se convive de forma mais apropriada com o mundo da sétima arte.

Passando esta longa introdução, entremos neste filme do cineasta britânico David Lean, que encontrou no americano Sam Spiegel o produtor por excelência. Recorde-se que estes dois homens já tinham assinado, antes da feitura desta obra-prima, o célebre “The Bride of River Kwai” / “A Ponte do Rio Kwai” com enorme sucesso. E convém também não esquecer que nesta época, inícios de sessenta, o célebre “écran azul” onde hoje tudo é permitido era ainda uma miragem, essa miragem que muitas vezes nos assalta quando percorremos o deserto, esse território em que a natureza possui a última palavra.

A rodagem do filme foi das mais atribuladas, na Jordânia e Marrocos sempre em luta com as condições climatéricas, onde por vezes à sombra a temperatura atingia os 55 graus e David Lean e os seus actores ultrapassaram todos os obstáculos surgidos.
“Lawrence da Arábia” baseia-se no livro “Os Sete Pilares da Sabedoria” escrito pelo próprio T. E. Lawrence e que Robert Bolt transformou num argumento espantoso, narrando-nos a história de um oficial britânico que, um dia, teve como missão unir as tribos do deserto para combater os turcos, oferecendo-lhes em troca a posse da sua própria terra. Iremos assim encontrar Lawrence no Cairo a ser informado da sua escolha para tão penosa missão E, após conhecermos os detalhes da operação, assiste-se a um dos mais belos raccords da história do cinema quando Peter O’Toole apaga o fósforo com um ligeiro sopro e de imediato nos encontramos sobre o calor escaldante do deserto, um verdadeiro toque de magia só possível a um grande cineasta. E por falar em raccord genial aqui deixamos outro, realizado por Stanley Kubrick, quando em “2001-Odisseia no Espaço”, o símio atira o osso ao ar e ele nos transporta rumo ao espaço numa beleza inesquecível.

Voltando a “Lawrence da Arábia”, convém recordar também os seus intérpretes porque Peter O’Toole era um perfeito desconhecido na época (oriundo do teatro), tal como Omar Shariff que, apesar de já ser conhecido no seu país, o Egipto, apresentou-se no “casting” em busca de um pequeno papel, em virtude de falar inglês, acabando por dar vida a essa personagem sempre cheia de lucidez chamada All Ibn el Kharish, o verdadeiro coração da nação árabe. Já Alec Guiness (Príncipe Feyçal) e Anthony Quinn (Auda Abu Tayl) eram nomes famosos do firmamento estelar de Hollywood.
A edição em dvd do “Director’s Cut” oferece-nos um fabuloso “making off” que só por si vale a aquisição do filme, mas adiante.
A missão de Lawrence no deserto dá frutos, os frutos pretendidos pelos britânicos, mas pouco e pouco ele irá ultrapassar as directivas tornando-se num verdadeiro árabe em busca do seu território e a forma como Peter O’Toole nos oferece essa transformação é sublime, porque o deserto passa a ser a casa fascinante que Lawrence deseja habitar, esquecendo-se da sua própria identidade, passando a ser o líder de uma futura nação em construção, enquanto o Príncipe Feyçal (um Alec Guiness espantoso e quase irreconhecível) vai negociando com os ingleses de forma diplomática, mas sem concessões, a criação do seu reino.

Mas quando falamos de “Lawrence da Arábia” nunca nos podemos esquecer desse outro intérprete que nos acompanha ao longo de mais de três, imperturbável e silencioso, chamado deserto. Nunca como ninguém David Lean filmou as areias do deserto, sendo possível sentirmos o calor, agarrando-nos à cadeira para seguirmos o trajecto do seu herói e das tribos que o seguem. Se uns apenas desejam o saque, como é o caso de Aura (Anthony Quinn), outros buscam algo mais profundo como é o desejo da sua própria independência, como sucede com All Ibn (Omar Shariff) e assim desta forma iremos descobrir as fracturas do nascimento de uma nação.

Como não podia deixar de ser, a história será “cozinhada” nos bastidores da(s) política(s) e Lawrence, ao longo da sua missão, torna-se um desconhecido para aqueles que conviviam com ele no exercito britânico, a sua indumentária árabe com que se apresenta aos seus superiores termina por dar lugar ao seu uniforme e a pouco e pouco o desejo de regressar a casa surge quando percebe após a conquista de Damasco (1) como é difícil unir as várias tribos devido às diversas rivalidades existentes.
Por outro lado, o prazer de matar que começou a sentir na luta contra os turcos tomou conta dele e só havia uma maneira de o liquidar, partir para sempre das areias inóspitas e maravilhosas do deserto e regressando a casa para nunca mais voltar.
Quando revemos hoje o filme de David Lean, “Lawrence da Arábia” não podemos dizer apenas que é uma obra-prima, mas acima de tudo que Isto é Cinema!!!

(1) - As filmagens foram feitas em Sevilha.

Rui Luís Lima (*****)
Paula Nunes Lima (*****)

Quarta-feira, Abril 09, 2008

CINCO COVAS NO EGIPTO / FIVE GRAVES TO CAIRO

BILLY WILDER – (EUA – 1943) – (96 min-P/B)

FRANCHOT TONE, ANNE BAXTER, ERIC VON STROHEIM, AKIM TAMIROFF, PETER VON EYCK.


Billy Wilder é um nome conhecido de qualquer cinéfilo e são inúmeros os filmes que qualquer um de nós cita de imediato como um dos seus favoritos, no entanto as suas obras iniciais permanecem um pouco desconhecidas, como sucede com este “Cinco Covas no Egipto”, editado recentemente em dvd.

“Five Graves to Cairo” foi o segundo filme de Wilder realizado em terras americanas, recorde-se que ele foi o argumentista dessa obra fulcral do cinema germânico intitulada “Menschen am Sonntag” e sendo Wilder austríaco trabalhou na UFA até 1933, partindo da Alemanha após a chegada de Hitler ao poder, permanecendo em território francês durante cerca de um ano (onde realizou “Mauvaise Graine”, o seu baptismo atrás da câmara), partindo de seguida para os Estados Unidos onde Peter Lorre, o actor de “M” de Fritz Lang, foi um bom amigo.

Em 1942, quando toda a gente pensava que a conquista do Cairo por Rommel estaria por semanas após a sua vitória em Tobruck, os aliados através do general britânico Montgomery iriam, em El Alemain, derrotar pela primeira vez a célebre “raposa do deserto”. E como durante estes anos o cinema teve sempre uma palavra a dizer no esforço da guerra, basta recordar essa séria fabulosa de Frank Capra “Why We Fight”, os Estúdios americanos empenharam-se a fundo nesse trabalho e a Paramount encomendou a Billy Wilder um filme sobre a derrota de Rommel, corria então o ano de 1943, faltando ainda dois anos para terminar a segunda guerra mundial.

No início do filme encontramos um tanque desgovernado a andar pelas areias do deserto, estando todos os seus ocupantes mortos, excepto o major John Bramble (Franchot Tone), que é “cuspido” para fora do tanque caindo nas areias escaldantes do deserto, tudo parece perdido para ele, mas quando menos espera encontra uma estrada que o irá levar até ao hotel de Farid (Akim Tamiroff) que servira de quartel-general das tropas britânicas derrotadas em Tobruck, onde é recolhido por Farif e Mouche (Anne Baxter), uma francesa que odeia os ingleses por eles os terem abandonado no início da guerra, com a trágica “fuga” em Dunquerque. Mas, pouco depois de o Major chegar ao hotel, surgem as tropas alemãs que decidem montar o seu Estado-maior naquele local, onde irá permanecer Rommel (Erich Von Stroheim) na sua caminhada “vitoriosa”. Para não ser preso pelos alemães, o major Bramble irá assumir a identidade de um empregado do hotel que morrera após um dos muitos bombardeamentos alemães, desconhecendo que ele era um espião alemão.

Curiosamente, a forma como nos é apresentado Rommel por Wilder é bastante diferente daquela que se poderia pensar inicialmente já que estamos em plena guerra, sendo este trabalho um produto inevitável de propaganda, mas Wilder sempre foi um homem que respirou cinema por todos os poros e daí a forma como ele decidiu apresentar os seus personagens. Ali existem dois exércitos em confronto e é essa história que ele nos vai contar. Aliás, Rommel sempre teve grandes actores a interpretar a sua figura, Erich Von Stroheim aqui e mais tarde James Mason no famoso “Patton”. Mas neste filme também existe uma história de amor e ódio na figura de Anne Baxter (recordam-se dela na “Eve” de Mankiewicz), que só pretende recuperar o irmão preso num campo de concentração alemão, daí a relação que ela estabelece com o tenente Schweger (Peter Von Eyck, excelente), ao mesmo tempo que odeia o major Bramble. Mas nem sempre as coisas são o que parecem e no final tudo será diferente após se descobrir o segredo das cinco covas do Egipto.
Oferecendo-nos já todo o seu saber, Billy Wilder constrói um filme que, situando-se ao longo do tempo quase sempre no mesmo décor, nos prende à cadeira até ao último minuto, revelando-se a direcção de actores um dos seus pontos fortes, onde Erich Von Stroheim e Anne Baxter se destacam. Redescobrir “Cinco Covas no Egipto” é o nosso convite de hoje.

Rui Luís Lima (***)
Paula Nunes Lima (****)

Domingo, Abril 06, 2008

PARIS JE T'AIME - Perto do Bois de Bologne




Foto Paula Nunes Lima

Sexta-feira, Abril 04, 2008

DRACULA / BRAM STOKER’S DRACULA

FRANCIS FOR COPPOLA – (EUA – 1992) – (128 min/Cor)

GARY OLDMAN, WINONA RYDER, ANTHONY HOPKINS, KEANU REEVES.


Quando o motorista que conduzia a viatura onde seguia o cineasta G. W. Murnau se despistou, o Cinema perdeu um dos seus maiores génios e também o autor dessa obra única intitulada “Nosferatu”. Depois a personagem criada por Bram Stoker na literatura seria adaptada ao cinema por um outro génio desconhecido de muitos, de seu nome Tod Browning.
Aquando da retrospectiva do cineasta na Cinemateca em que foram descobertas as preciosidades esquecidas de Browning, autor do célebre “Freaks”, foi-nos também oferecida a descoberta de Lon Chaney o actor dos mil rostos. O “Drácula” de Tod Browning ficou também famoso para a história do cinema pelo seu protagonista e é com profunda nostalgia que recordamos o conde com a sua capa, na figura de Bela Lugosi e também aquele microfone que surge pendente (a célebre girafa) e que rapidamente sai do enquadramento, logo no início da película.

Anos mais tarde a “Hammer” britânica tomou bem conta do mito e Christopher Lee foi um verdadeiro gentleman ao vestir a pele do famoso conde Drácula sempre perseguido pelo Peter Cushing. O mito do Conde da Transilvânia tinha chegado ao grande écran para ficar ao longo de diversas gerações, navegando de continente para continente, nesse barco cinéfilo do nosso contentamento, ora era Roman Polanski que decidia jogar a comédia com o mito em “Por Favor Não Me Morda o Pescoço”, enquanto por outro lado Werner Herzog, então no seu apogeu, retomava a herança de Murnau e realizava um novo “Nosferatu” com um Klaus Kinski inesquecível, para já não falarmos nessa versão em 3D, que em Portugal passou sem os famoso óculos, assinada pela dupla Andy Wahrol/Paul Morrissey, intitulada “Sangue Virgem para Drácula” com um Udo Kier desesperado em busca da sua virgem, aqui decididamente o humor jogava com o mito com um sabor a “underground”.

Perante uma herança tão repleta de referências e estilos foi com espanto que muitos ficaram surpreendidos quando no início dos anos noventa Francis Ford Coppola anunciou uma nova versão do mito.
Com “Bram Stoker’s Dracula” de Coppola não estamos perante mais uma versão do famoso romance, mas sim com uma obra fiel à literatura gótica, já que Francis optou por um olhar profundamente barroco, contando com um soberbo guarda-roupa da responsabilidade de Eiko Ishioka e para aqueles que desconhecem, a segunda equipa foi dirigida por Roman Coppola o futuro cineasta de “GQ”. E desta feita a Winona Ryder aguentou a pressão das filmagens (o que não sucedera com o derradeiro filme de “O Padrinho”), talvez devido ao sentido tranquilo de Keanu Reeves, perante a turbulência controlada de Gary Oldman, num Dracula cheio de maneirismos (no bom sentido da palavra), já que tenta também retomar o mito do gentleman, perante a inocência da sua jovem presa. Já o Van Helsing criado por Anthony Hopkins, termina por fazer a diferença, de muitos surgidos depois, na sua loucura de caçador do príncipe das trevas, já que a sua personagem é de tal intensidade que nos obriga quase a estar do lado da noite, perante o romantismo barroco oriundo desse castelo maldito perdido na obscuridade da Transilvânia.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)

Quarta-feira, Abril 02, 2008

O HOMEM DAS LENTES MORTAIS / WRONG IS RIGHT

RICHARD BROOKS – (EUA – 1982) – (117 min/Cor)

SEAN CONNERY, GEORGE GRIZZARD, ROBERT CONRAD, KATHARINE ROSS, JOHN SAXON, HENRY SILVA, LESLIE NIELSEN.


E a ficção tornou-se realidade… assim poderia terminar esta crónica de cinema sobre a película de Richard Brooks, “Wrong is Right”, mas optámos por inserir a frase no início porque o que está aqui em jogo é precisamente o poder dos media e a sua manipulação pelos políticos, embora também seja possível ver este filme como inspiração de factos ocorridos duas décadas depois.
Vamos buscar a cinéfilia para concretizar melhor este ponto de vista, quando Barry Levinson, no intervalo das filmagens de “A Esfera”, devido à longa produção dos efeitos especiais, decidiu levar ao écran um argumento do fabuloso David Mamet “Manobras na Casa Branca” / “Wag the Dog” nunca pensando que uma história muito idêntica estivesse a decorrer no maior dos segredos nessa mesma Casa Branca, como os acontecimentos posteriores vieram a demonstrar.
Ora o que sucede com o filme de Brooks é que antecipa a História em duas décadas. Como sabemos, após os ataques do 11 de Setembro em New York, foram criadas as condições para desencadear uma guerra, tendo como pretexto a existência de armas de destruição maciça em mãos errada, tudo por causa da riqueza do petróleo. Se virmos bem, é disso mesmo que trata “Wrong is Right”.

“O Homem das Lentes Mortais” faz assim história quase um quarto de século depois. Na época em que o vimos pela primeira vez em Lisboa, no saudoso cinema Monumental, foi com enorme prazer que encontrámos Sean Connery na figura do destemido jornalista Patrick Hale, sempre acompanhado da sua câmara de filmar, essa câmara de lentes mortais que tudo fixa e tudo transmite, sempre ao “serviço da verdade jornalística”.
Richard Brooks, como um profeta, mostra-nos aquela que será a televisão do século XXI, com os seus “reality shows”, onde se confessam “crimes não cometidos”, desde a mulher que deseja matar o marido, a filha que pretende aniquilar a mãe, desejos esses que o pequeno écran irá servir ao espectador como uma espécie de terapia, ao mesmo tempo que os seus protagonistas atingem esses 15 minutos de fama de que tanto falou Andy Wahrol.

Mas se para muitos, incluindo o próprio Patrick Hale (Sean Connery), o jornalismo representa o quarto poder, iremos verificar como este poder é tão frágil que consegue ser usado e manipulado para proveito dos mais poderosos, porque aqui não há regras do jogo, porque a partida está viciada desde o início, todas as cartas estão marcadas.
Partindo do livro “The Better Angels” de Charles McCarry, o argumento que Richard Brooks escreveu a duas mãos com o escritor, oferece-nos a criação/existência dos homens bombas, numa célebre antecipação dos bombistas suicidas que proliferam pelo mundo inteiro, só que nesta ficção o objectivo é chamar a atenção para a sua luta e não de provocarem o maior número de mortos como sucede nos dias de hoje nos atentados terroristas.
Temos assim o jornalista Patrick Hale, que se movimenta muito bem nos corredores do poder, tanto na Casa Branca como no Médio-Oriente, entrando por sua própria iniciativa na rede de espionagem mantida por americanos e israelitas, onde não faltam os inevitáveis vendedores de armas (o negócio gere milhões) e aqui vamos encontrar essa estrela chamada Katherine Ross (a miúda da época, para alguns cinéfilos) envolvida em redes incontroláveis, porque nunca se sabe quem está a manipular os acontecimentos.

Repare-se na forma como nos é apresentado o Presidente Lockwood (George Grenville), que nos faz recordar uma certa pessoa, desde os seus discursos até à forma de se comportar perante os média, usando sempre as reportagens contundentes de Patrick Hale (Sean Connery) “para levar a água ao seu moinho”, enquanto por outro lado o jornalista vai transmitindo aos espectadores a informação mais credível sobre o desenrolar dos acontecimentos sempre em “prime-time” para manter o “share” das audiências e assim aumentar as receitas da publicidade.
A forma como é montada toda a intriga, assim como os métodos da contra-informação, levam-nos a pensar até que ponto não somos manipulados diariamente pela informação que consumimos, porque cada vez mais o que se publica não é a verdade dos factos, mas sim as notícias que conseguem angariar as maiores receitas: morte, crime, destruição, guerra.
Recorde-se que na panóplia de imagens televisivas com que se inicia o filme “Wrong is Right” está lá essa maravilhosa publicidade para nos ajudar a viver no melhor dos universos, porque neste Admirável Mundo Novo cada vez mais se vai copiar o pior da história do passado, para se criar a história do presente.
“O Homem das Lentes Mortais” já com edição nacional em dvd merece ser (re)visto, porque nele somos obrigados a reconhecer que a ficção se tornou realidade.

Rui Luís Lima (****)
Paula Nunes Lima (****)