Segunda-feira, Março 31, 2008

O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA / LOVE IN THE TIME OF CHOLERA

MIKE NEWELL – (EUA-2007) – (139 min/Cor)

JAVIER BARDEM, GIOVANNA MEZZOGIORNO, BENJAMIN BRATT, JOHN LEGUIZAMO.


Quando o cinema se lança na adaptação das grandes obras literárias corre, muitas vezes, enormes riscos e são poucos os casos em que o sucesso sorri aos responsáveis pela respectiva adaptação, já para não falar nessas obras-primas da literatura impossíveis de se adaptar ao cinema. No entanto, há casos em que todos são vencedores. E temos como excelente exemplo o caso de “Debaixo do Vulcão”, romance de Malcolm Lowry, que John Huston levou ao grande écran de forma perfeita.

Como todos sabemos “O Amor nos Tempos de Cólera” é um dos mais belos romances da literatura latino-americana, a par dessa obra intitulada “Cem Anos de Solidão”, ambos escritos por Gabriel Garcia Marquez. E ao falarmos deste grande escritor também não nos podemos esquecer desse outro grande escritor que é Mário Vargas Llosa que, em tempos, viu adaptado ao cinema essa obra maravilhosa intitulada “A Tia Júlia e o Escrevedor”. Adaptação essa que foi um profundo desastre, não devido aos excelentes actores do filme, mas sim ao argumentista(s) que decidiu substituir os argentinos por albaneses, quem leu o livro e viu o filme sabe do que falo (receio de um conflito diplomático, por parte dos Estúdios?!).

E se fomos buscar “A Tia Júlia” foi pelas simples razão de adorarmos esta obra com a mesma intensidade de “O Amor nos Tempos de Cólera”.
Ora passar para o grande écran o romance de Gabriel Garcia Marquez revelou-se uma aventura perigosa, embora Mike Newell seja um cineasta de grande saber, para tal basta recordar “Viagem Sentimental” para estarmos cientes do seu valor, mas a forma como foi talhado o argumento acabou por conduzir o amor de Florentino Ariza (Javier Bardem) e Fermina Urbino (Giovanna Mezzogiorno) a um beco sem saída e não a essa avenida do grande romance por que todos esperávamos.

O romance de Gabriel Garcia Marquez conta-nos a paixão de Florentino Ariza por Fermina Daza, paixão essa que irá sobreviver à passagem do tempo, ao longo de cinquenta anos de uma longa espera, porque o pai de Fermina pretende que a filha se case com um bom partido, que será encontrado na figura do Dr. Juvenal Urbino. Desse casamento irão nascer cinco filhos mas Florentino, apesar da passagem dos anos, nunca irá desisitir do seu amor, numa época em que a cólera dominava Cartagena e inundava de dor e morte a cidade.
O escritor colombiano oferece-nos um retrato maravilhoso desta história de amor no seu famoso livro. Por esta razão, se não conhece o livro, veja o filme primeiro e depois leia o romance, no final deste percurso irá certamente meditar em como são tortuosos os caminhos dos argumentos cinematográficos nascidos das grandes obras literárias.

Se a primeira parte do filme, abordando o período da juventude do jovem Florentino Ariza, está perfeita, já o período seguinte nos parece demasiado curto, apostando o argumentista em nos ilustrar apenas as diversas aventuras amorosas do protagonista e não em nos oferecer essa paixão que o irá consumir ao longo de uma vida, dedicando a última bobine da película ao encontro final de Florentino e Fermina após a morte de Juvenal Urbino (Benjamin Bratt).
No final do filme ficamos com a sensação de que os Estúdios tiveram medo de apostar num filme de três horas onde seria possível rever esta obra espantosa de Gabriel Garcia Marquez em todas as suas vertentes e basta (re)ler o romance para vermos as opções do argumentista.

Mais uma vez Javier Bardem não deixa os seus créditos por mãos alheias e a direcção de actores está perfeita, Mike Newell sabe do assunto, já o argumento revelou-se desastroso devido às opções de Ronald Harwood.
Tentar imaginar este filme tendo como realizador John Huston (1) é o exercício cinéfilo que lhe propomos caro leitor.

(1)- Basta recordar a sua última obra, o espantoso “Gente de Dublin”, a adaptação cinematográfica de “The Dead” de James Joyce.

Rui Luís Lima (**)

Paula Nunes Lima (***)

Domingo, Março 30, 2008

PARIS JE T'AIME - Os carrosséis




Foto Paula Nunes Lima

Sexta-feira, Março 28, 2008

LE DOULOS / O DENUNCIANTE (***)

JEAN-PIERRE MELVILLE – (FR. – 1962) – (108 min-P/B)

JEAN-PAUL BELMONDO, SERGE REGGIANI, JEAN DESAILLY, MICHEL PICCOLI.

“Le Doulos” é o homem que usa chapéu, mas em calão o seu significado é, simplesmente, “o bufo”. É precisamente disso que trata este policial de Jean-Pierre Melville. Antes de chegarmos até essa personagem interpretada por Jean-Paul Belmondo, um gangster bufo no interior do submundo, convém referir que, tal como sucedia no “film noir” norte-americano, todos os gangsters usam o inevitável chapéu, não como acessório, mas sim como peça fundamental da sua imagem havendo, como em tudo, a excepção que quebra a regra, neste filme ela chama-se Jean (Aimé de March), cujo ar de bom cidadão engana o próximo.

Esta película revela, para quem desconhecia a sua outra arte, um actor fabuloso chamado Serge Reggiani na figura de Maurice Faugel, o gangster cujo golpe é denunciado. Curiosamente ele um homem da “chanson”, tal como Charles Aznavour que também é um excelente actor, surge aqui a vestir a pele de uma personagem a quem é estendida a teia mortífera pela aranha Silien (Jean-Paul Belmondo) e tudo devido à perda de um ente amigo, ou seja a amizade como sinónimo de lealdade num mundo de gangsters.
Logo no plano de abertura, um longo “take” do cineasta, que nos oferece de imediato o ambiente em que vai decorrer toda a película, a noite. Ela é o local preferido para os personagens do submundo se movimentarem, algo que “Bob le Flambeur” já nos tinha ensinado.

Por outro lado, a forma como a acção vai decorrendo oferece-nos um argumento espantoso, baseado no romance de Pierre V. Lesou, que nos deixa perfeitamente agarrados à cadeira. Depois temos a forma espantosa como Jean-Pierre Melville trata o “flashback”, oferecendo-nos a mentira de forma tão real, que quase acreditamos nas falsas verdades narradas por Silien (Jean-Paul Belmondo) a Faugel (Serge Reggiani).
Ao vermos este “polar” somos obrigados a reconhecer em Jean-Pierre Melville o mais americano dos cineastas, que até possui um filme rodado na Big Apple, “Deux Hommes dans Manhattan”, para tal basta olhar a forma como ele monta o filme de forma rápida e concisa, sem um plano a mais ou a menos, excepto na sequência final, em que a vida das personagens é jogada de forma lenta mas precisa, terminando por o desejo de “Le Doulos” ficar ausente para sempre... “esta noite não irei estar contigo”.

Só para terminar, uma última palavra para a excelente direcção de actores. Serge Reggiani é a grande surpresa deste filme, mas nele existem mais e para tal basta comparar a forma como Jean-Paul Belmondo veste o personagem, bem distante da figura de “O Acossado” de Jean-Luc Godard; depois temos sempre a espantosa interpretação de Jean Desailly na pele do “manhoso” inspector Clain, ele que seria o protagonista de “Angustia” de François Truffaut. Quanto a Piccoli está como peixe na água e como “não há polar sem bela”, nunca é demais referir a forma sensual como Jean-Pierre Melville filma o corpo feminino. “O Denunciante” / “Le Doulos” foi um dos maiores sucessos de público de Jean-Pierre Melville.

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Março 26, 2008

“TERRA DISTANTE” / “THE FAR COUNTRY” (****)

ANTHONY MANN - (EUA – 1954) – (97 min/Cor)

JAMES STEWART, RUTH ROMAN, WALTER BRENNAN, CORINNE CALVET, JOHN McINTYRE.

Quando falamos nos cineastas do “western”, três nomes surgem de imediato na nossa memória: John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh. No entanto, há um nome que transfigurou decididamente a paisagem com os seus filmes, o nome desse autor é Anthony Mann.

Olhar os “westerns” de Anthony Mann é, acima de tudo, olhar a paisagem, essa mesma paisagem considerada por ele como fundamental porque ela está lá e não é um artifício dos estúdios, basta para isso recordar a forma como somos “esmagados” pela natureza em “Terra Distante” / “The Far Country”, quando Jeff Webster (James Stewart) olha as montanhas cobertas de neve que separam o território americano do canadiano.

E por falar em James Stewart, convém recordar que ele foi o actor eleito por Mann para seu “alter-ego” nos “westerns”, tal como Ford teve John Wayne ou Budd Boetticher teve Randolph Scott. Encontramos aqui um Jimmy Stewart muito distante das personagens interpretadas pelo actor, muito longe do Glenn Miller criado pelo mesmo Anthony Mann, para já não falarmos do filme que mais o celebrizou: “Do Céu Caiu Uma Estrela” de Frank Capra

Nos “westerns” de Mann, James Stewart é uma personagem antipática e cínica, mesmo azeda como sucede em “Esporas de Aço” / “Naked Spur”, nessa personagem do caçador de prémios, levando-nos até a simpatizar com o seu oponente Robert Ryan, porque muitas vezes é-nos difícil distinguir o herói do vilão. Também em “The Man From Laramie” / “O Homem Que Veio de Longe”, Stewart não representa o simpático herói com que nos identificamos à primeira vista, mas em "Terra Distante” / “The Far Country” ele é o individualista e egoísta, que não arrisca um dedo por ninguém seja ele o companheiro de sempre ou a população de uma cidade a nascer, explorada por corruptos chefiados por Gannon (John McIntyre), o representante dessa “law & order” do Oeste Selvagem, em que as armas dos pistoleiros ditavam o destino. Repare-se que Jeff só toma uma atitude depois de lhe ter sido roubado o ouro, pelo qual tinha sacrificado tudo. Mas quem é Jeff Webster?

Ele chega conduzindo uma manada de gado no início da película, no entanto algo se passa, quando o vimos a entregar as armas aos homens que o acompanham, no trajecto dois deles tinham sido por ele abatidos. Acusado de os ter morto, consegue fugir à autoridade graças a Rhonda Castle (Ruth Roman) e aqui surge um elemento preponderante na acção – a Mulher – essa mesma mulher que nos “westerns” teve quase sempre um papel “decorativo” na acção, introduzindo aqui Anthony Mann um elemento exterior à paisagem clássica. Rhonda é uma mulher só, que sabe sobreviver nas condições mais inóspitas, de acordo com as suas conveniências (esplendorosa Ruth Roman, lembram-se dela em “O Assassino do Norte-Expresso” de Hitchcock ou “Cruel Vitória” de Nick Ray?), até ao momento em que a paixão se apodera do seu coração, oferecendo a vida pelo seu amor.

É verdade, esta película oferece-nos um outro duelo geralmente ausente do “western”, (excepção o caso “Johnny Guitar” em que a luta se trava entre duas mulheres: Joan Crawford e Mercedes McCambridge num tiroteio final), o de duas mulheres pela posse/amor de um homem, embora neste caso se trate de uma mulher e uma adolescente, mas como dirá Rhonda, acerca de Renée (Corine Calvet) ela já é uma mulher, daí os seus ciúmes.
“Terra Distante” no interior da obra de Anthony Mann é, sem dúvida alguma, o seu melhor “western” e um dos mais importantes no género, tanto pela sua originalidade como por esse protagonista natural intitulado a Paisagem.

Rui Luís Lima

Segunda-feira, Março 24, 2008

“VIAGEM A ITÁLIA” / “VIAGGIO IN ITALIA” (*****)

ROBERTO ROSSELLINI (ITA – 1954) – (84 min-P/B)

INGRID BERGMAN, GEORGE SANDERS, MARIA MAUBAN, LESLIE DANIELS, NATALIE RAY.

Roberto Rossellini encontrou-se pela primeira vez com Ingrid Bergman no hotel Jorge V em Paris, ela voara de Londres onde tinha terminado um dos mais mal-amados filmes de Alfred Hitchcock “Under Capricorn” / “Sob o Signo de Capricórnio”, com ela vinha o marido Petter Lindstrom. Muitos dias antes deste encontro Ingrid Bergman escrevera uma carta ao cineasta italiano que se tornou famosa, já que nela Ingrid oferecia-se de corpo e alma, mas nada melhor do que recordar essas célebres palavras: “vi os seus filmes “Roma Città Aperta” e “Paisà”, de que muito gostei. Caso precise de uma actriz sueca que fala muito bem inglês, que não esqueceu a língua alemã, que não é fluente em francês e que em italiano só sabe dizer “Ti amo” estou pronta a fazer um filme consigo”.

Depois todos sabemos a história desse grande amor que invadiu as páginas de todos os periódicos da época, visto por muitos como o “grande escândalo”, porque Ingrid Bergman iria abandonar a sua carreira em Hollywood, deixando para trás o marido e levando consigo a filha. Para além disto tudo Anna Magnani, a estrela de “Roma Cidade Aberta”, não reagiu da melhor maneira quando os jornais italianos noticiaram a chegada de Ingrid Bergman para fazer um filme com o cineasta italiano, ficando célebre um jantar entre Magnani e Rossellini, no qual esta lhe perguntou a razão porque Ingrid Bergman era esperada em Itália para fazer um filme com ele. Rossellini, ao ver-se entre a espada e a parede, respondeu que não estava ao corrente da notícia, então Anna Magnani pegou na travessa de esparguete e despejou-a no colo do cineasta saindo de seguida do restaurante. Poderá o leitor perguntar a que vem tudo isto? Simplesmente pela razão que Rossellini e Ingrid Bergman constituíram uma das mais famosas relações cineasta/actriz da história do cinema, a par daquelas protagonizadas por Antonioni/Monica Vitti, Jean-Luc Godard/Ana Karina ou Ingmar Bergman/Liv Ullmann + Bibi Anderson, oferecendo desta forma das mais belas histórias de amor fora e dentro do écran, tal era o amor oferecido por ambos em cada take dos filmes rodados em conjunto.

Chegamos assim, após esta longa introdução, a “Viagem a Itália” / “Viaggio in Itália” o derradeiro filme da dupla Roberto Rossellini e Ingrid Bergman, a sua vida conjugal começara a abrir brechas, tal como as dos dois protagonistas do filme Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander Joyce (George Sanders, esse grande actor por vezes esquecido por muitos, o verdadeiro “gentleman”, quase sempre a interpretar personagens cínicos, recorde-se a “Eva” / “All About Eve” de Joseph Mankiewicz, e que alguns anos depois de rodar esta obra de Rossellini se iria suicidar num quarto de hotel em Barcelona, deixando uma carta amarga e triste, sobre o mundo em que vivemos e as pessoas que nele habitam); desculpem o longo parêntesis mas o George Sanders é um enorme actor! depois logo no início desta viagem a Itália, mais concretamente a Nápoles, vamos deparar-nos no início perante um “road-movie”, muitos anos antes de eles invadirem o cinema e vamos sabendo como aquela relação vive momentos difíceis.

A herança deixada pelo tio Homer ao casal Joyce é uma rica “villa” que eles decidem vender, porque vivem em Inglaterra e aquele país e as suas gentes nada lhes diz, a pouco e pouco reparamos na incomunicabilidade nascida não só entre o casal como nos habitantes da "villa", não é só um problema de língua, mas também um virar de costas à vida e enquanto Alexander consegue dar as suas fugas da mulher, a pretexto de jantares com amigos encontrados na noite de Nápoles, convém ler no feminino, já Katherine parte para a sua viagem turística e cultural visitando Museus, o Templo de Appolo, o Vesúvio e Pompeia, ficando por um lado fascinada, caso das estátuas no Museu, como perturbada, no Vesúvio, depois ela socorre-se frequentemente dos seus óculos escuros para esconder a sua expressão, salvaguardando a tristeza para si própria.
A forma como Rossellini nos oferece esta “Viagem a Itália” surge como uma espécie de carta, digamos antes uma derradeira declaração de amor a Ingrid Bergman e nada melhor do que convocar um milagre para melhor expressar o seu desejo.
As discussões constantes entre Katherine e Alexander estão em permanente busca daquela gota de água que faça extravasar a água do copo e ela surge no dia em que ela sai de carro, com ele ainda dormindo, deixando-o refém na “villa”. Ao regressar a sugestão de divórcio é aflorada sem rodeios, para terminar de vez aquela vida, sem luz e esperança, sendo de imediato aceite.

A decisão estava tomada, partem então para Inglaterra, mas ao atravessarem Nápoles são obrigados a parar devido a uma procissão e quando saem do carro para verem melhor o que se passa, alguém grita Milagre! Separados pela multidão, afastados em sentidos opostos, repentinamente vêm-se perdidos no mundo e de imediato gritam pelo nome um do outro, até se encontrarem de novo e caírem nos braços um do outro, jurando fidelidade e amor para sempre, porque ambos sabem ser impossível viverem separados, descobrindo que o casamento não é feito de guerras, mas sim de cedências e harmonia, em busca do amor perfeito.
“Viagem a Itália” é uma das obras-primas de Roberto Rossellini e uma profunda declaração de amor do cineasta à mulher que ama, Ingrid Bergman, a sua paixão ficou gravada para sempre na História do Cinema, redescobri-la nesta viagem a Itália é a nossa proposta.

Rui Luís Lima

Sexta-feira, Março 21, 2008


A todos que passam por aqui, votos de uma Páscoa Feliz, com amêndoas, chocolate e bons filmes.

Paula e Rui Lima

Quarta-feira, Março 19, 2008

TORA! TORA! TORA! (***)

RICHARD FLEISCHER – (EUA/JAP – 1970) – (144 min/Cor)

MARTIN BALSAM, JAMES WHITMORE, JASON ROBARDS, SOS YAMAMURA, EIJIRO TONO, TATSUYA MIHASHI, E.G. MARSHALL, JOSEPH COTTEN.

Quando a década de setenta (século xx) nasceu, viviam-se os tempos da contra-cultura, o Maio de 68 ainda estava bem vivo e por isso mesmo o Estúdios de Cinema norte-americanos começaram a dar a mão a imensos cineastas formados na televisão. No entanto, para alguns Estúdios como sucedia na 20th Century Fox onde o dono e senhor se chamava Darryl F. Zanuck, ainda se sonhava com grandes projectos e este foi o homem que salvou os célebres estúdios da falência durante as filmagens de “Cleópatra” de Joseph Mankiewicz, ao produzir (e dirigir com mão de ferro todos os que estavam sobre a sua alçada) esse épico a preto e branco intitulado “O Dia Mais Longo”, rodado em 70 mm e onde uma conjugação de estrelas brilhava no firmamento. Estávamos aqui perante o filme de guerra em todo o seu esplendor, usando-se o preto e branco para “piscar o olho” ao documentarísmo e tornar ainda mais credíveis as diversas histórias. Como todos sabemos, o êxito foi retumbante e, talvez por isso mesmo, Darryl tenha acalentado durante algum tempo levar ao grande écran o ataque japonês a Pearl Harbour.

Este homem, tão poderoso como em tempos fora David O’Selznick, decide partir para esta aventura e entrega a realização do filme a dois cineastas: Richard Fleischer para as sequências americanas e Akira Kurosawa para as sequências japonesas, num desejo profundo de produzir no interior do cinema de guerra uma película cujo olhar fosse o mais lúcido possível, apresentando a verdade dos factos.
Richard Fleischer, um homem formado na escola documentarista, era o cineasta indicado porque dominava com perfeição a arte cinematográfica independente do género e sabia trabalhar com as exigências, sempre ferozes, dos Estúdios cumprindo os prazos delineados pela produção. Porém o mesmo não sucedia com Akira Kurosawa, que levava demasiado tempo nos preparativos das filmagens, embora o seu nome fosse um trunfo importante, só que ao adoecer após seis dias de filmagens, Darryl Zanuck foi obrigado a substitui-lo por Toshio Masuda e Kinji Fukusaku, que deram muito bem conta do recado, recuperando o tempo perdido inicialmente.

Darryl Zanuck, ao produzir este épico de guerra, decidiu apostar tudo na eficácia do argumento e dos efeitos especiais, não convocando aquele batalhão de estrelas que o tinham acompanhado em “O Dia Mais Longo”, para ele a eficácia com que estavam a ser filmadas as diversas sequências iria prender o espectador à cadeira, sendo indiferente o nome dos actores.
Quase quatro décadas passadas e após termos tido a experiência de ver a versão criada por Michael Bay do ataque a Pearl Harbour, com aquele péssimo triângulo amoroso para pré-adolescentes, somos obrigados a reconhecer a eficácia do filme produzido por Darryl Zanuck, porque ele oferece-nos a tensão existente nas chefias japonesas nos dias que antecederam o ataque. Todos sabemos, hoje em dia, como os militares japoneses estavam divididos no que diz respeito à guerra, porque muitos tinham a noção absoluta de ser impossível manter diversas frentes de combate, ao mesmo tempo que outros temiam ir acordar um gigante adormecido, como refere o Almirante Japonês a bordo do porta-aviões, após a conclusão das operações. Porque, na verdade, o principal objectivo do comando japonês que era afundar os porta-aviões americanos, não foi concretizado como todos sabemos e eles foram fundamentais alguns anos depois para o sucesso americano na decisiva batalha de Midway, onde se decidiu o futuro da história, aliás também ela já retratada pelo cinema.

Perante um filme sem estrelas, as que surgiam, embora excelentes actores, não resistiam naquela época a serem cabeças de cartaz e provocar enchentes nos cinemas, o saldo deste filme que recomendamos, na época, não foi o melhor. Mas se virmos a película com “olhos de ver”, verificamos como está lá o saber de um homem chamado Richard Fleischer, esse cineasta que tantos filmes fez que nos seduziram durante a infância como “O Extravagante Dr. Dolittle” e as “20.000 Léguas Submarinas”, ou ainda essa obra espantosa de ficção-cientifica intitulada “Soylent Green”.
Se por um lado, ao longo do filme, iremos assistindo à ineficácia e burocracia por parte dos militares americanos perante um possível ataque japonês, onde tudo se deixa para fazer no dia seguinte, temos do lado japonês o estudo minucioso do plano de ataque até ao mais pequeno detalhe, como a questão dos torpedos transportados pelos “zeros” japoneses, que irão ter pela frente a pouca profundidade do porto onde se encontra atracada a esquadra americana.
Rever “Tora! Tora! Tora!” o célebre grito de ataque japonês, em écran de cinema, é um daqueles prazeres que recomendamos (tivemos essa sorte), porque neste filme mora o que se chama a eficácia cinematográfica do produtor, em termos criativos.

Rui Luís Lima

Segunda-feira, Março 17, 2008

“O SHEIK BRANCO” / “LO SCEICCO BIANCO” (****)

FEDERICO FELLINI - (ITA -1952) – (84 min-P/B)

ALBERTO SORDI, BRUNELLA BOVO, LEOPOLDO TRIESTE, GIULIETTA MASSINA.


Quando a Segunda Guerra Mundial terminou a Itália era um país em ruínas, a bela Cinecittá criada pelo Duce estava completamente destruída e os cineastas vieram para a rua com as suas câmaras, porque não havia Estúdios para rodar as suas películas. De imediato nasceu o neo-realismo através da escrita de Zavattini e das imagens de Rossellini, De Sica, Visconti e muitos outros contra esse cinema implantado outrora por Mussolini. Antes de mais, convém referir o papel do ditador italiano no cinema que antecedeu a Guerra, porque ele seguindo o caminho traçado pelos famosos Estúdios alemães, UFA, decidiu oferecer a Itália o seu cinema, com os seus “peplum” e os melodramas dos "telefones brancos", através da figura do seu filho Vittorio Mussolinio, todo poderoso estratega do cinema italiano, com o Festival de Veneza, os Estúdios da Cinecittá e fundando até a revista "Cinema" onde iriam colaborar os futuros nomes do cinema italiano saído do pós-guerra.

Podemos assim afirmar que Mussolini, tal como Hitler, deu uma atenção muito especial à sétima arte, mais para o mal do que para o bem, compreendendo perfeitamente a força do cinema, criando desta forma o cinema do poder. Curiosamente, passados tantos anos, a morte do ditador continua a ser um mistério, porque nunca ninguém reivindicou a autoria do seu assassínio. Após o fim da célebre “Republica de Saló” (retratada por Pasolini no cinema), o ditador foi encontrado pendurado numa praça de cabeça para baixo, já morto, atingido por diversas balas, mas mostrando ter sido difícil a sua captura em virtude de haverem inúmeros sinais de violência física. O dedo foi apontado aos "partisans" mas mais tarde falou-se também nos serviços secretos ingleses, devido a uma "famosa pasta" que o Duce transportava com ele com elementos comprometedores. A seu lado, pendurada da mesma forma e apresentando sinais evidentes de tortura, estava a sua amante. E aqui o leitor dirá, porque estou a falar do Duce? Pois a razão é simples, ele até foi alguém que se interessou pelo cinema, tal como esse outro célebre ditador, chamado Estaline, que adorava ver os musicais norte-americanos (retrato feito pelo grande Andrei Konchalovsky em "The Inner Circle"), ou seja os ditadores também gostam de cinema.

Entremos no assunto que nos interessa ou seja Federico Fellini e o seu “O Sheik Branco”, mas antes convém referir que o baptismo de fogo do grande cineasta italiano surgiu através de Alberto Lattuada, com quem realizou “Luci del Varietá”, tendo anteriormente participado na feitura de “Paisá” / “Libertação” de Roberto Rossellini, sendo natural que o jovem Fellini seguisse os caminhos do neo-realismo, ao construir a sua primeira obra “Lo Sceicco Bianco”. Tal porém não sucedeu e aqui damos a palavra ao cineasta para ele nos explicar as suas razões, “o neo-realismo tivera um impulso enorme, ele era uma indicação verdadeiramente sagrada e santa para todo o Mundo. Mas em breve surge a confusão. Se a sua humildade perante a vida continuasse perante a câmara, então deixava de haver necessidade de realizadores. Ora para mim o cinema assemelha-se muito ao circo” e recorde-se como a sua atracção pelo circo se manteve ao longo da vida, bem patente em “Clowns” e por sinal também neste maravilhoso “Sheik Branco”.

Ivan (Leopoldo Trieste) e Wanda (Brunella Bovo) vão em viagem de núpcias a Roma para uma audiência Papal e também para conhecerem os tios, representantes de um bom futuro, desta forma nós damos com eles a chegar à estação de comboios de Roma e logo aqui mal deparamos com as personagens, encontramos nos seus rostos a expressão do ridículo. Se Ivan olha essa viagem como a preparação de um bom futuro, já Wanda só pretende encontrar-se com o Sheik Branco (Alberto Sordi) a grande estrela das revistas de foto novelas, ela até lhe trás um desenho do seu rosto para lhe oferecer e, mal tem oportunidade, abandona o marido no hotel e parte para a sede da revista. Vamos assim deparar ao longo da película com um Ivan perdido na grande cidade em busca da esposa, ao mesmo tempo que tem de explicar a ausência dela perante os tios.

Todos sabemos como a ficção não corresponde à realidade e será isso mesmo que irá descobrir Wanda, durante o dia que permanece na companhia do Sheik Branco, sendo levada para a zona onde se passa a rodagem (tira-se fotografias, como se tratasse de um filme) após ter estado na sede da editora, pelo "circo" da foto-novela. Aqui, Fellini apresenta-nos uma galeria de personagens perfeita, desde o dito cujo realizador da foto-novela, como a bela de serviço, passando pela mulher do Sheik. No meio de tudo isto Wanda continua apesar da dura realidade que lhe é apresentada, a viver num mundo de fantasias, que Alberto Sordi lhe vai apresentando durante a viagem de barco que faz com ela, para desespero dos restantes elementos da foto novela.

Perdida e abandonada nos arredores de Roma, Wanda irá tentar o suicídio, ao mesmo tempo que o marido, Ivan, também não o consegue concretizar devido ao aparecimento de duas prostitutas, uma delas chamada Cabíria (Giulietta Massina) e aqui percebemos perfeitamente o amor oferecido por Fellini a estas duas mulheres, através da forma como as retrata, enquanto Wanda e Ivan nos são apresentados como personagens não amadas pelo cineasta. Ao longo da película, basta olhar para o ar desamparado delas para nos rirmos, sem piedade, residindo aqui toda a sabedoria de Federico Fellini, virando as costas ao neo-realismo. “O Sheik Branco” é uma obra-prima perfeitamente delirante, oferecendo já todos os elementos que irão constituir o Universo Felliniano.

Rui Luís Lima

Domingo, Março 16, 2008

PARIS JE T'AIME - Bois de Bologne




Foto Paula Nunes Lima

Sexta-feira, Março 14, 2008

LE DEUXIÉME SOUFFLE / O SEGUNDO FÔLEGO (****)

JEAN-PIERRE MELVILLE – (FRA – 1966) – (144 min-P/B)

LINO VENTURA, PAUL MEURISSE, CHRISTINE FABRÉGA, PIERRE ZIMMER.


O ano de 2007 viu o “polar” renascer em terras francesas, através da mão de Alain Corneau que não é um perfeito desconhecido para o cinéfilo, basta recordar essas obras intituladas “Série Negra”, "França Sociedade Anónima”, “Todas as Manhãs do Mundo” ou o nosso “Nocturno Indiano”, para estarmos perfeitamente identificados com o cineasta, porque se trata precisamente de um autor. E alguns estarão a pensar porque razão se está a falar de Alain Corneau, a propósito de um filme de Jean-Pierre Melville? A razão é simples. Como alguns já devem se ter apercebido, o último filme de Corneau é um “remake” de “Le Deuxième Souffle” de Jean-Pierre Melville, um dos seus filmes mais célebres, ele que foi o cineasta do "polar" por excelência.

No filme de Corneau temos Daniel Auteil na personagem que pertenceu a Lino Ventura, a bela Mónica Bellucci, loura como convém, para interpretar a personagem de Manouche que foi de Christine Fabréga, enquanto o célebre comissário Blot interpretado por Paul Meurisse nos chega através da presença de Michel Blanc e por fim essa personagem enigmática de seu nome Orloff, em tempos vestida por Pierre Zimmer, surge pela mão desse grande actor que é Jacques Dutronc. Mas como estamos aqui para falar do filme de Melville, deixamos este aperitivo do filme de Corneau e regressamos ao Jean-Pierre.

“O Segundo Fôlego” foi a última película a preto e branco nascida de um argumento escrito por José Giovanni, outro nome cuja obra merece ser descoberta. Ao ler o argumento, Jean-Pierre Melville viu de imediato a figura de Lino Ventura a vestir a pele do gangster ultrapassado, o célebre Gustave Minda, conhecido no meio por “Gu”, ora a película começa precisamente com a fuga de “Gu” da prisão, uma fuga que se revela tortuosa até chegar junto de Manouche a fim de preparar a sua partida do território francês. Mas sendo ele um dos mais famosos ladrões, tem a competir com ele o melhor dos melhores, o comissário Blot (magnifico Paul Meurisse), que não olha os meios para atingir os fins e que trata os gangsters por tu, indo ao território inimigo sozinho, demonstrando um sangue frio absoluto.

Estamos assim perante uma dupla de gangster/policia, num duelo de peso e será isso precisamente que iremos deparar ao longo do filme, com duas interpretações extraordinárias, por um lado temos a contenção e os princípios da velha guarda de Gustave Minda e por outro lado o cinismo e a eficácia de Blot.
O comissário põe toda a França em busca do famoso foragido, enquanto este decide participar num último golpe a fim de obter dinheiro para a sua fuga do país. Se o assalto corre bem, o pior vem sempre depois com as desconfianças e as suspeitas como é habitual, especialmente quando pelo meio está metido um homem com uma moral muito própria no mundo da noite, chamado Orloff, essa figura enigmática, também ela com alguns princípios.

Quando tudo parecia perfeito, Gustave Minda é detido e após cair na estratégia da polícia, que faz passar os seus homens por gangsters, é montada uma operação para o mostrar como denunciante, lançando-se a notícia no meio. E será esse desejo de limpar o seu “bom-nome de gangster” que o levará a ir buscar forças para fugir da polícia e demonstrar a todos que foi vítima de um golpe muito baixo das forças da ordem. “Gu” pretende limpar o seu nome, mas ao ser cercado pela polícia vê o fim a aproximar-se e será o comissário Blot a deixar cair no asfalto a agenda onde o seu colega de profissão confessava a forma pouco ortodoxa, como fez passar os seus homens por gangsters, manipulando a verdade dos factos. Será precisamente ao insistir com o jornalista para apanhar a agenda, que o enigmático comissário Blot reescreve a história de Gustave Minda, o último gangster!

Jean-Pierre Melville consegue oferecer-nos um filme fabuloso não só pela forma como dirige os actores, mas também pelo ritmo que oferece na montagem, não existindo tempos mortos no filme. Mesmo quando vamos assistindo aos preparativos do assalto percebemos que estamos a viver o tempo interior dos personagens, passando de simples espectadores a profundos intervenientes na película com direito a fazermos o nosso próprio julgamento e para tudo isto é fundamental o contributo de José Giovanni que em tempos viveu no meio, sendo até preso e condenado, mas isso já é outra história.

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Março 12, 2008

O PRÍNCIPE VALENTE / PRINCE VALIANT (***)

HENRY HATHAWAY – (EUA – 1954) – (100 min/Cor)

JAMES MASON, JANET LEIGH, ROBERT WAGNER, STERLING HAYDEN, VICTOR McLAGLEN, DONALD CRISP, DEBRA PAGET, BRIAN AHERNE.


Em criança tinha uma enorme paixão pela banda desenhada e recordo-me de aos domingos descer a rua do Alecrim para ir ao Cais do Sodré comprar o jornal “Primeiro de Janeiro”, sendo simples a razão: todos os domingos ali eram publicadas as aventuras do “Príncipe Valente”, nascido através da pena desse mago chamada Hal Foster.

Por esta simples razão, foi com enorme expectativa que me encontrei pela primeira vez com o “Príncipe Valente” no cinema, muitos anos depois. O cineasta era uma referência forte, já que Henry Hathway era um dos cineastas que encontrara no grande écran ao longo da minha adolescência e que nunca me deixou insatisfeito, se por um lado tínhamos “Niagara”, por outro havia esse mítico “A Conquista do Oeste”, passando pela “Velha Raposa” / “True Grit” ou o “Nevada Smith”, para já não falarmos no “Peter Ibbetson” / “Sonho Eterno” ou nesse enorme sucesso chamado “Lanceiros da India” / Lives of Bengal Lancer”, mas o que nos interessa aqui em concreto é esse “swashbuckler” chamado “Príncipe Valente”.

Todos os que leram as aventuras criadas por Hal Foster se recordam que a história se passa nessa época de brumas onde existia um reino chamado Camelot e um conjunto de Cavaleiros, que se reuniam à volta de uma mesa chamada Távola Redonda, tendo Arthur como Rei. O argumento escrito por Dudley Nichols (fixem este nome) inicia-se precisamente com a partida de Príncipe Valente do castelo onde vivem exilados os seus pais, a caminho do castelo do Rei Arthur.

Na sua caminhada ele irá cruzar-se com Sir Gawain (Sterling Hayden, mais conhecido de todos como o Johnny Guitar de Nicholas Ray), indo tornar-se seu escudeiro e, através dele, irá conhecer esse mundo dos torneiros medievais onde as mãos das damas eram muitas vezes oferecidas aos cavaleiros vencedores. Será aqui que iremos encontrar esse belo vilão chamado Sir Brack (James Mason), irmão bastardo do Rei Arthur, que ambiciona apoderar-se do trono ao mesmo tempo que lhe presta a maior das vassalagens.

E nunca como aqui a personagem do vilão assentou como uma luva na figura de James Mason, que mais uma vez nos oferece uma personagem fabulosa, porque ele é também esse Black Knight que prepara o ataque a Camelot, aliado à armada viking. Mas antes teremos as intrigas palacianas e as paixões dignas da época medieval, onde o amor era sussurrado através de véus que escondiam o rosto das damas e os juramentos de fidelidade dados pelos cavaleiros eram levados até às últimas consequências. No meio deste mundo se move Príncipe Valente (Robert Wagner, a dar os primeiros passos no cinema).

Ao construir o filme, Henry Hathaway jurou uma espécie de fidelidade à banda desenhada de Hal Foster e isso é bem patente, não só na forma como se expande todo o filme, como nas sequências da batalha e dos duelos, com particular destaque para esse duelo final entre o Príncipe Valente e Sir Drake, após este ter sido desmascarado e provada a sua outra identidade, a do tal cavaleiro misterioso que pretendia tomar de assalto o Reino de Camelot. Alguns viram neste Black Knihgt a figura onde George Lucas se foi inspirar para criar o seu Darth Vader.

Quando falamos neste reino das brumas, criado algures no tempo, com os seus mitos, fadas e bruxas, cavaleiros e damas do lago, somos sempre obrigados a olhar para essa obra espantosa criada por John Boorman e intitulada “Excalibur”, porém chegou o momento de olharmos um pouco para a história do cinema e recuperar este “Príncipe Valente” nascido da mão de Henry Hathaway e Hal Foster, (1)

(1)- Em 1997 Anthony Hickox realizou uma nova versão de “Prince Valiant” com Stephen Moyer e Katherine Heigl a vestirem a pele de Príncipe Valente e da Princesa Ilene. Comparando esta com a dupla Janet Leigh e Robert Wagner, somos obrigados a preferir os “originais”.

Rui Luís Lima

Domingo, Março 09, 2008

PARIS JE T'AIME - (5)

Canal St. Martin



Foto Paula Nunes Lima

Sexta-feira, Março 07, 2008

A MULHER DO LAVRADOR / THE FARMER’S WIFE (****)

ALFRED HITCHCOCK – (GB – 1928) – (94 min/Mudo)

LILLIAN HALL-DAVIS, JAMES THOMAS, MAUD GILL, GORDEON HARKER.


O período mudo de Alfred Hitchcock é um desconhecido perfeito da maioria dos cinéfilos, já que este “género cinematográfico” que vigorou durante cerca de trinta anos até ao nascimento do sonoro com o célebre “Cantor de Jazz” / “Jazz Singer”, possui no seu interior a construção da linguagem cinematográfica, essa mesma linguagem que ainda hoje vigora na sétima arte e será olhando o passado que compreendemos o presente. Por esta mesma razão temos estado a falar no “paixões & desejos” do cinema mudo do Mestre do Suspense. Alfred Hitchcock foi o primeiro cineasta cujo nome foi fixado pelo público, numa época em que só as estrelas tinham direito a permanecer na memória dos espectadores.

Ao olharmos para o período mudo de Hitchcock encontramos os mais diversos géneros, incluindo filmes/encomenda, alguns até renegados pelo próprio cineasta como sucedeu com a sua obra de estreia “The Pleasure Garden”, mas também é possível encontrar um género pouco habitual no seu cinema, a comédia, embora o cineasta tenha feito duas obras perfeitas, “Ladrão de Casaca” / “To Catch a Thief” e “O Terceiro Tiro” / The Trouble With Harry”.
Com “The Farmer’s Wife” / “A Mulher do Lavrador”, Hitchcock invade esse território, trocando de início as voltas ao espectador, entrando só depois no género em si. Por outro lado este filme, ao contrário de “The Ring” que possuía argumento do próprio realizador, parte de uma peça teatral, tendo o cineasta afirmado “é verdade que o facto de filmar uma peça teatral estimulou o meu desejo de expressão por meios propriamente cinematográficos” e todos sabemos como ele estruturava os seus filmes, até ao mais pequeno pormenor, usando as “storyboards” de forma mais que perfeita ao longo da sua carreira.

Ao entrarmos pela porta deste filme, no ano de 1928, deparamos de imediato com a tragédia já que a mulher do protagonista acaba de morrer e o drama parece instalado, mas Hitchcock troca-nos as voltas e quando nos informa que o último desejo dela foi que o marido se voltasse a casar, pedindo à jovem criada para tomar conta dele, damos um passo em frente e saímos deste género para entrarmos pela porta grande da comédia.
Minta (a bela Lillian Hall-Davis) decide ajudar o patrão na busca de uma nova esposa e de imediato ambos fazem uma lista, partindo das senhoras presentes no velório. Poderá parecer um pouco macabro, mas é pura comédia, porque as três eleitas irão recusar os diversos pedidos. Como número par é sempre sinónimo de sorte nesta área, Minta decide acrescentar o nome da rapariga que trabalha no pub da aldeia.

Iremos assim assistir à transformação do austero lavrador num verdadeiro pinga-amor, mas com muito pouco jeito na matéria, já que sempre que as suas propostas são recusadas perde a cabeça terminando qualquer tipo de relação possível, se a primeira lhe diz que tem mais que fazer, já a segunda confessa preferir viver só a estar com ele, para a terceira lhe chamar velho. Ao longo destas declarações vamos assistir ao desenvolvimento de diversos “gags” que irão obrigar o mais empedernido dos espectadores a rir. Samuel Sweetland (James Thomas) irá passar a ser o tema preferido das conversas na aldeia e quando chega num dia de caça à raposa ao povoado e se dirige ao pub numa tentativa desesperada de conquistar a empregada, que sempre gostou de conversar com ele, apercebe-se que vive nas bocas do mundo: no “garden-party” eram as bocas femininas que troçavam dele; no pub são os seus amigos que, incrédulos com a situação, se riem dele.

Voltando um pouco atrás, convém referir que toda a sequência da “garden-party” é perfeita, atingindo a comédia o ponto mais alto com o seu empregado Ash (Gordon Harker), que faz de mordomo improvisado, a ter uma interpretação fabulosa.
Como não poderia deixar de ser, Samuel Sweetland é novamente derrotado pelas mulheres e ao regressar a casa desiste de procurar a mulher (im)perfeita e sentado olha a cadeira onde a sua esposa conversava com ele e vai vendo as respectivas mulheres que recusaram o seu pedido de casamento, até que encontra a imagem da sua fiel criada Minta ali sentada, com o seu olhar cândido e belo a conversar com ele.

Ao longo do filme, Hitchcock vai-nos oferecendo os sentimentos de Minta pelo patrão através da forma carinhosa como ela o trata e também através do seu olhar cândido, até que Samuel Sweetland se apercebe que o novo amor da sua vida sempre esteve ao seu lado no interior daquela casa.
Descobrir esta obra do cineasta é uma verdadeira surpresa, porque nela encontramos uma excelente adaptação cinematográfica de uma comédia teatral, sendo todas as cenas de exteriores filmadas de forma perfeita, onde o naturalismo respira, seja nas incursões a cavalo de Samuel Sweetland, como na sequência da caça à raposa.
Chegou o momento de começarmos a olhar o cinema mudo não como simples curiosidade, mas sim como as verdadeiras fundações desse espantoso edifício que é a Sétima Arte.

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Março 05, 2008

O PASSADO NÃO PERDOA / THE UNFORGIVEN (***)

JOHN HUSTON – (EUA-1960) - (121 min/Cor)

BURT LANCASTER, AUDREY HEPBURN, AUDIE MURPHY, CHARLES BICKFORD, LILIAN GISH, JOHN SAXON.

George Sadoul considerou John Huston como o mais brilhante cineasta da “geração perdida”. Como estamos recordados, foi com “O Falcão de Malta” / "The Maltese Falcon" que muitos lhe fixaram o nome, ele que até gostava de fazer umas aparições em filmes seus, como sucedeu em “O Tesouro da Serra Madre” / "The Treasure of Sierra Madre", quando se cruza com Bogart, o aventureiro que irá ver a sorte surgir com esse bilhete de lotaria que lhe irá ditar o destino ou em filmes de outros, como sucede no inesquecível "Chinatown" na figura desse pai odiado pela filha.

Houston, ao longo da vida, irá assinar filmes que todos hoje conhecem como “A Rainha Africana” / "The African Queen" ou essa obra testamento (e que belo testamento) que foi “Gente de Dublin” / "The Dead", adaptando para o cinema esse conto fabuloso de James Joyce intitulado “The Dead”. Mas ele assinou também outras obras que nos merecem toda a atenção, como este “western” psicológico denominado “O Passado Não Perdoa” / “The Unforgiven” e aqui estamos perante uma obra que merece ser descoberta. Se John Ford em “The Searchers” nos colocava perante esse sindroma que é o racismo, aqui Huston parte para o mesmo tema, tendo também como território eleito o “western”.

Curiosamente, o autor do livro que serve de base a “The Unforgiven” é o mesmo de “The Searchers” / “A Desaparecida” só que aqui, em vez de termos uma branca raptada pelos índios em criança, a bela Natalie Wood no filme de Ford, iremos encontrar uma criança índia (Audrey Hepburn), que foi recolhida por uma família branca, os Zachary, quando ainda era bébé. Será que estamos perante um erro de “casting” quando vislumbramos essa dama do cinema chamada Audrey Hepburn a possuir sangue índio nas veias? Quem não viu a película corre esse risco, mas tal não sucede porque aqui Huston conseguiu despojá-la de todos aqueles traços que a celebrizaram e é dessa forma que a iremos encontrar no início da película no rancho da família, que ela adora, esperando pelo seu irmão Ben (Burt Lancaster) que foi conduzir uma manada de gado com os seus homens.

Ela monta o seu cavalo favorito com todo o vigor, pela planície fora de cabelos ao vento, até esse momento em que o passado surge perante ela, de forma abrupta, na figura de um velho envergando um uniforme da cavalaria, comido pelo tempo, e que a irá perseguir como um fantasma, recordando as suas origens e que ela desconhece. Abe Kelsey (Joseph Wiseman) viu a sua família e o seu lar destruído quando a família Zachary se negou a entregar a jovem Kiowa em troca do seu filho, quando este foi raptado pelos peles-vermelhas, que pretendiam recuperar a menina que lhes fora tirada. Ao perder o filho, que tanto amava, irá ao longo da vida persegui-los como se fosse um fantasma, recordando o passado de Rachel e informando os Kiowa da sua existência.
Será esse o segredo que irá dar à luz os momentos mais fortes do filme, através do racismo que se respira no corpo dos colonos brancos, que ao saberem, ao fim de muitos anos, a verdade dos factos, decidem marginalizar a família Zachary. Até um dos “irmãos” de Rachel, essa figura cheia de contradições chamada Cash Zachary (espantoso Audie Murphy), não aceita as suas origens e decide abandonar o rancho.

Mas a grande questão é a forma como Ben Zachary trata a irmã, com o maior dos carinhos, ao mesmo tempo que recusa qualquer contacto entre ela e os peles-vermelhas, primeiro quando um dos homens que o acompanha no transporte da manada, um índio chamado Johnny Portugal (John Saxon) que lhe toca na mão com carinho e depois quando o seu verdadeiro irmão, o chefe índio Kiowa, decide reaver de forma pacífica a sua irmã de sangue.
A história de Rachel é-nos apresentada de forma brilhante, sempre protegida pela “mãe” (Lilian Gish), naquele mundo novo, onde o racismo impera de forma subterrânea.

Estamos perante um “western” profundamente psicológico e onde os sentimentos mais baixos nascem à flor da pele. Aliás, já Michael Cimino no seu épico “mal amado”, “As Portas do Céu”, nos lembrava a todos que a conquista do Oeste tinha sido bastante diferente daquela que alguma história narrava. E será aliás este tema o que mais agradou a John Huston, para aceitar a realização da película, já que o produtor era Burt Lancaster e o cineasta uma segunda escolha.
Iremos assistir ao cerco da casa dos Zachary, pelos Kiowa, depois de terem sido abandonados por todos à sua sorte e será aqui que Rachel terá que decidir a que universo pertence, terminando a sua opção por ser a de defender a do mundo que conhece e sempre viveu, terminando por matar o seu próprio irmão de sangue.

“O Passado Não Perdoa” oferece-nos um “western” poderoso, realizado por um grande cineasta e embora Huston nunca tenha tido “The Unforgiven” como um dos seus filmes preferidos, devido às interferências dos produtores, a sua marca está lá bem visível e depois teremos sempre essa fotografia espantosa, assinada Franz Planer, que nos retrata a paisagem do Oeste de forma esplendorosa, porque sentimos o odor da terra, esse Oeste perdido e árido onde o respirar do amor vai superar o ódio infiltrado na planície rochosa.

Rui Luís Lima

Segunda-feira, Março 03, 2008

WANDA (****)

BARBARA LODEN – (EUA – 1971) – (102 min/Cor)

BARBARA LODEN, MICHAEL HIGGINS, DOROTHY SHUPENES, PETER SHUPENES, JEROME THIER.

Ao escrevermos sobre cinema procuramos rever obras que, apesar da passagem do tempo, continuam a ter toda a sua luminosidade, mesmo quando essa luz é pálida como a vida da protagonista ou quase invisível como a carreira da cineasta.

Barbara Loden não é propriamente uma estranha para aqueles que amam o universo da sétima arte, já que estamos a falar daquela que foi mulher do cineasta Elia Kazan, para o bem e para o mal. Possuidora de uma beleza cativante, começa a sua carreira no mundo da moda, surgindo como capa em muitas revistas, mas aquela loura tinha muito mais para oferecer e será no Teatro que Kazan a irá conhecer e dirigir, oferecendo-se então para a introduzir no mundo do cinema em “Wild River” / “Quando o Rio se Enfurece” (ela é a secretária de Montgomery Clift) e no mais que famoso “Esplendor na Relva” / “Splendor in the Grass” (ela é a irmã de Warren Beatty). Após estas aparições, ela torna-se esposa oficial do realizador, mas esse estatuto não lhe irá abrir as portas do cinema como actriz, regressando aos palcos, onde interpreta a célebre peça de Tennesse Williams “Jardim Zoológico de Cristal”, participando também em algumas produções na televisão. Mas será a convivência com Elia Kazan que lhe irá abrir os horizontes da realização. Porém os tempos são outros e todas as portas se fecham aos seus projectos, recorde-se que nessa época o cineasta tinha trocado a câmara pela caneta e dedicava-se à literatura. Começa então a fervilhar na sua cabeça o projecto “Wanda” e com ajuda do marido consegue o financiamento para o filme, que será uma verdadeira pedrada no charco da indiferença.

“Wanda” é simultaneamente o nome da personagem principal e o título do filme, porque o que nasce perante os nossos olhos é a história de uma mulher que perdeu tudo: o emprego, o marido, os filhos e que só deseja partir estrada fora ao encontro dessa encruzilhada da vida que nos reserva um destino. Depois de travarmos conhecimento com a forma como Wanda encara a vida, temos que estar atentos à forma como essa mesma vida é filmada por Nicholas Proferes, que também escreveu o argumento a meias com Barbara Loden e assinou a montagem, num 16 mm onde o grão prolifera, oferecendo-nos de forma perfeita os tons sombrios da vida sem rumo de Wanda. A pouco e pouco vamos assistindo à via-sacra da protagonista, rejeitada por tudo e todos, terminando por oferecer o seu corpo a um gangster de terceira ordem, que depois de ter roubado o dinheiro da caixa de um bar que estava a encerrar, mata o proprietário e descobre depois que não estava só… porque Wanda mais uma vez estava no sítio errado à hora errada.
O pequeno gangster planeia atacar um banco e decide fazer de Wanda a sua cúmplice; ela, a rapariga sem eira nem beira, irá segui-lo e obedecer às suas ordens, só que para sua sorte desta vez irá chegar tarde demais ao local do assalto conseguindo desta forma salvar a vida para retomar o seu calvário, rumo a um paraíso inexistente.

O realismo que nos é oferecido neste filme por Barbara Loden (um verdadeiro road-movie do desespero) é de uma lucidez absoluta, todos aqueles personagens, verdadeiros filhos bastardos da vida, surgem perante o nosso olhar em profunda perdição, aqui não há lugar para o politicamente correcto, aqui habitam pessoas de carne e osso sem qualquer luz de esperança ao fundo do túnel. E aqui o único responsável é, na realidade, Barbara Loden que veste a pele da protagonista de forma sublime e filma a dor e a angústia sem qualquer rasgo de esperança, porque o mundo é cruel para os que não se integram na sociedade ou são expulsos por ela.
Barbara Loden, após a feitura de “Wanda”, viu mais uma vez as portas fecharem-se-lhe no rosto, ela era/é uma cineasta inconformada e as feridas que mostrava o seu filme deviam permanecer invisíveis. Por esta mesma razão, o seu projecto seguinte de passar ao grande écran o romance de Kate Chopin,“The Awakening”, nunca viu nascer a luz do dia. Depois a doença decidiu tomar conta do seu corpo e embora tenha realizado duas curtas-metragens cinco anos depois (“The Frontier Experience” e “The Boy Who Loved Deer”), viria a morrer em 1980 sem nunca ter visto seu filme “Wanda” estreado comercialmente nos Estados Unidos. Descobrir “Wanda” é obrigatório para todos aqueles que gostam de cinema, ao mesmo tempo que prestamos uma justa homenagem a uma cineasta chamada Barbara Loden.

Rui Luís Lima

Domingo, Março 02, 2008

PARIS JE T'AIME - (4)

Theatre de la Renaissance



















Foto de Paula Nunes Lima