Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

OS FILMES DA MINHA VIDA

As listas, do que quer que seja, são sempre ingratas. Então se se tiver que escolher livros, filmes, músicas, ainda mais. Há uma enormidade de critérios e na lista abaixo não estão todos os filmes da minha vida, concerteza. Mas já que é o factor divertimento que está em causa, estes 10 são alguns dos que vejo vezes sem conta (como também há livros e músicas nessa situação, que leio e oiço indefinidamente), sem me cansar. De alguns já sei, inclusive, bocados de diálogo (claro que, especialmente, do Costa do Castelo).
É este, então, o meu Top Ten de verdadeiro divertimento (poderiam, concerteza, estar aqui mais cem - e não é exagero!):


(ordem arbitrária)

"The African Queen"/“Rainha Africana” – John Huston - (1951) - Dois dos meus actores favoritos, Katherine Hepburn e Humphrey Bogart, num filme descoberto num daqueles ciclos do Canal Dois. Uma das mais belas histórias de amor entre os dois mais improváveis personagens. A beleza da descida do rio, a penosa convivência inicial e a tentativa de boicote à Alemanha.

"Casablanca" – Michal Curtiz – (1942) - Novamente o Bogart, desta vez na companhia da Ingrid Bergman. Se bem que seja mais antigo que o “African Queen”, acho que vi primeiro o anterior.
Não consigo deixar de me comover em duas cenas: La Marselleise e na “generosidade” do Mr. Rick para com o jovem casal na roleta (que lhe vale ser abraçado e beijado pelos criados/refugiados do seu Café). Foi, certamente, “o começo de uma bela amizade”, para mim, com estes actores.
P.S. Não aconselho a versão colorida, a não ser que sejam apreciadores daqueles postais antigos, coloridos por cima do preto e branco.

"Star Wars 4, 5, 6"/"A Guerra das Estrelas", "O Império Contra-Ataca", "O Regresso do Jedi" – George Lucas - (1977, 1980, 1983) - Estão três aqui, eu sei!! É-me difícil escolher um favorito de ficção científica e estes três são o exemplo acabado de um filme de ficção científica com toda a espectacularidade de Hollywood.
Todos torcemos pelo Luke, Leia e Han Solo, certo?? E adorámos o 3PO e o R2D2!!!

"Costa do Castelo" – Arthur Duarte - (1943) - Se há filmes que me divertem, os do período áureo das comédias portuguesas estão todos nesta categoria. Escolher um não é fácil mas este vale, para mim, por um excepcional António Silva (“a onda bate na lâmpada e recua”) e por uma não menos brilhante Maria Matos com a sua personagem Mafalda (quem não se lembra do “Simplício... Mafalda”????)

"Bambi" – Walt Disney – (1942) - Conhecia a história apenas de livros e de alguns pedaços passados na TV quando, devia ter uns 15 anos, vi pela primeira vez este filme no grande ecrã (numa sala cheia de criançada). Encantaram-me duas personagens: a mãe do Bambi e seu amigo Tambor; o Bambi nem por isso (a idade não ajudou??? Se calhar!).

"Cyrano de Bergerac" - Jean Paul Rappeneau – (1990) - A improbabilidade de se poder apreciar um texto original passado para cinema foi desfeita, no que me diz respeito, com este filme. Este Cyrano tem toda a magia da sua história e Gerard Depardieu não podia estar mais belo.

"39 Steps"/"Os Trinta e Nove Degraus" – Alfred Hitchcock – (1935) - Este é o meu primeiro Hitchcock e, de certa forma, ficou a ser o favorito [já me alonguei na ficção científica, por isso não posso por aqui mais quatro ou cinco que não dispenso, sobretudo "The Trouble with Harry" / "O Terceiro Tiro", que descobri há muito pouco tempo].
Londres, a cinzenta Londres, como pano de fundo.

"The Big Chill" / "Os Amigos de Alex" – Lawrence Kasdan – (1983) - Quer a banda sonora, quer a história, fazem parte de um ideal de transição adolescência - fase adulta, com aquele grupo de amigos que nos acompanha uma vida inteira mesmo se não falamos com eles anos e anos a fio.

"Ninotchka" – Ernst Lubitsch – (1939) -Há duas Ninotchka’s, mas a minha favorita é esta do Lubitsch, com uma Greta Garbo cómica, de oficial russa, rendida às teias amorosas que Paris tece.
Nota: a outra chama-se Silk Stockings e é a versão musical do filme do Lubitsch e vale sobretudo pelos três camaradas russos de Ninotchka.

"Jumping Jack Flash" – Penny Marshall – (1986) - Há filmes que nos divertem sem precisar de se explicar o que quer que seja. É o que se passa com este, no qual Whoopi Goldberg é a actriz principal, numa história de crime e mistério, via net (quando ainda não se falava dela), com o final feliz que se espera.
Desde este filme que espero ver, um dia, o Mick Jagger a cantar com pantufas em palco qual Whoopi arranhando o “Jumping Jack Flash – It’s a gas gas gas”.

Paula Nunes Lima

Sábado, Dezembro 29, 2007

STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS – THE END

MUNICH / MUNIQUE (****)

STEVEN SPIELBERG – (EUA -2005) – (164 min/Cor)

ERIC BANA, DANIEL CRAIG, CIÁRAN HINDS, MATHIEU KASSOVITZ, HANS ZICHLER, GEOFFREY RUSH.


E, com “Munich”, chegamos ao fim deste viagem pela obra de Steven Spielberg. Com ele mergulhamos num dos acontecimentos que deixou o mundo em estado de choque: estávamos em plenos Jogos Olímpicos de Munique, no ano de 1972, a tranquilidade na aldeia olímpica era perfeita, até ao momento em que um comando da OLP se infiltra nas instalações e sequestra atletas da equipa olímpica de Israel. As televisões que faziam a cobertura correm para o local, assim como a polícia, e o terror instala-se. Todos nós acompanhámos, na época, os acontecimentos em directo e o balanço final foram 11 atletas mortos.

Steven Spielberg, ao passar para o cinema estes acontecimentos, decidiu contar-nos o que se passou a seguir, ou seja a resposta de Israel através da Mossad aos acontecimentos e ao não tomar partido por um dos lados jogou uma cartada arriscada.
Os métodos da Mossad, como todos sabemos, são “olho por olho dente por dente” e será assim que iremos encontrar no filme a resposta que a primeira-ministra de Israel Golda Meir irá encontrar para fazer frente aos homens que prepararam o atentado, constituindo um grupo de cinco elementos que irá dedicar anos da sua vida a eliminar os responsáveis pela operação Palestiniana.

Avner (Eric Bana numa interpretação extraordinária, recordam-se dele em “Cercados”?), filho de militares, irá ser o chefe da operação desse pequeno grupo constituído por Steve (Daniel Craig), Cal (Ciáran Hinds), Robert (Mathieu Kassovitz), Hans (Hans Zichler, um dos maiores actores do cinema alemão), que irão agir “à margem de qualquer lei”, porque eles simplesmente não existem. E aqui estamos em pleno território do “thriller” com contornos históricos, chegando o “suspense” a ter aspectos profundamente “hitchcockianos”.

Tal como sucedia com esse filme espantoso de George Roy Hill, “A Rapariga do Tambor”, baseado numa obra de John Le Carré, iremos lentamente descobrindo como funcionam os apoios palestinianos em território europeu, recorde-se que os grupos que na época agiam na Europa tinham apoio e treino nos países árabes, dando em troca apoio logístico às operações palestinianas: atentados bombistas e desvio de aviões. Na época vivia-se um clima idêntico aos dos dias de hoje. Falamos, claro, da forma como o mundo mudou depois dos atentados de 11 de Setembro.

Este comando, sem rosto, irá ao longo dos anos ter apenas um contacto em Israel através de Ephraim (Geoffrey Rush, sempre excelente), já que oficialmente o Estado de Israel desconhece a sua existência e ao actuarem da mesma forma fria, eles irão descobrir como um homem intitulado Papa (Michael Lonsdale) consegue “mexer os cordelinhos”, dando informações a ambos os campos em confronto, entrando assim nesse sub-mundo da espionagem em que a moral não existe. E será essa mesma moral, através da consciência, que irá perseguir Avner ao longo do resto da sua vida, mesmo depois da missão cumprida, deixando pelo caminho muitos dos seus companheiros de operação.

Steven Spielberg, como todos sabemos, apostou tudo neste filme magnífico revelando mais uma vez o fabuloso cineasta que vive nele, mas o público não respondeu à chamada e depois de alguns desastres na “box office”, o cineasta que aqui tudo tinha apostado, mais uma vez perdeu. Parecia que o mundo não estava preparado para receber este filme e as críticas vieram de todos os lados, tanto de Israel como do lado Palestiniano. Imediatamente se fizeram sentir os resultados, Steven teve que vender a sua participação na Dreamworks e embora continue a trabalhar com esses Estúdios, decidiu partir para uma nova aventura de Indiana Jones, cuja estreia está prevista para 2008: “Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull”, com argumento de George Lucas, contando novamente com Harrison Ford, sendo a protagonista feminina a camaleónica Cate Blanchett. Desta forma, o “wonder-boy” de Hollywood regressa a territórios conhecidos, em busca do sucesso de bilheteira que lhe tem escapado nos últimos anos.

THE END

Rui Luís Lima

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

"A GUERRA DOS MUNDOS" / "THE WAR OF THE WORLDS" (****)

STEVEN SPIELBERG - (EUA - 2005) - (116 min/Cor)

TOM CRUISE, TIM ROBBINS, DAKOTA FANNING, MIRANDA OTTO, JUSTIN CHATWIN.

Quando Steven Spielberg e Tom Cruise anunciaram em conjunto a feitura de “A Guerra dos Mundos”/”War of the Worlds”, poucos falaram na memorável emissão radiofónica de Orson Welles e muito menos no livro do outro Wells… H.G.

Estávamos, assim, perante dois dos homens mais poderosos de Hollywood (como muitos escreveram) decididos a unirem esforços para levar a bom termo a grandiosa aventura de “A Guerra dos Mundos”… e numa altura em que se comemoravam os trinta anos da criação do fenómeno blockbuster com “Tubarão”, acabamos por verificar o regresso de Spielberg às origens, já que a fonte mágica de “Jaws” (re)nasceu para “War of the Worlds”… ou seja o “wonder-boy” regressa ao seu ponto mais alto, depois do insucesso crítico e de bilheteira de “The Terminal”/”Terminal de Aeroporto”.
O livro de H.G. Wells continua ser pouco lido “por cá”, já que a excelente edição da Ulisseia continua por aí já lá vão décadas e não se esgota… então, fans da ficção-cientifica, por acaso já repararam que um livro escrito há mais de cem anos, conseguiu cinquenta anos depois da sua escrita espalhar o pânico na América e cem anos depois tornar-se o maior sucesso deste verão… terá forçosamente de ser uma obra-prima da Literatura, apesar de alguns considerarem este um género menor. Mas regressando ao cinema, também não nos podemos esquecer desse produtor/realizador chamado George Pal que levou pela primeira vez ao grande écran a obra de H.G.Welles, o realizador escolhido foi Byron Haskins sendo os principais intérpretes Gene Barry e Ann Robinson, certamente estes dois últimos nomes pouco dizem a muitos, mas Steven Spielberg não se esqueceu deles e cinquenta anos depois convida-os para a nova versão de “A Guerra dos Mundos”/”War of the World, eles são (como não poderia deixar de ser) os avós daquelas duas crianças que chamam daddy ao Tom Cruise ou direi antes Ray, já que Robbie (Justin Chatwin) não lhe reconhece “autoridade” para ser o pai.

Steven Spielberg, mais uma vez, oferece-nos uma família não nuclear, tal como sucedia em “E.T” ou “Encontros Imediatos de Terceiro Grau” que constituem com esta película uma das melhores trilogias de ficção científica. Desta feita Ray Ferrier (Tom Cruise) é um elemento da classe trabalhadora… que tão bem Robert Redford caracterizou no seu filme “Ordinary People”/”Gente Vulgar”… que faz do seu habitat/New Jersey o seu território. Esse mesmo território que a sua ex-mulher e filhos odeiam. Para já não falarmos na falta de autoridade paternal, bem manifesta, pelos dois filhos, até que algo de estranho começa a nascer vindo do interior da Terra… e desta feita não há Júlio Verne para os salvar!!! Os Extraterrestres/Aliens atacam, não vindos do espaço, mas sim do interior da Terra decididos a conquistar o Planeta sem qualquer contemplação e a batalha anuncia-se impossível, já que os meios são perfeitamente insuficientes perante a tecnologia desconhecida vinda de outro mundo.

“A Guerra dos Mundos” é um dos grandes movies de Steven Spielberg apesar de, no início, a personagem de Tom Cruise nos oferecer o eterno adolescente, mas a pouco e pouco a sua personagem vai crescendo, perante nós e também aos olhos do seu filho Robbie, representante daquele espírito heróico tão apreciado nos States e que faz as delícias dos adolescentes (um dos pontos fracos do movie), mas já a personagem desse fenómeno chamado Dakota Fanning (Rachel) é espantoso (embora por vezes ela tenha falas típicas de adulto, num verdadeiro erro de argumento). Depois temos a luta/acção e aqui Spielberg é de um realismo espantoso, não só como os Aliens funcionam, mas também a forma como caracteriza a magnifica interpretação de Tim Robbins… que refugiado no seu abrigo improvisado e na sua loucura crescente, planeia a forma como combater o invasor.

Steven Spielberg mais uma vez contou com a ILM de George Lucas, essa Instituição dos efeitos especiais que ofereceu novos mundos ao Cinema. Estamos perante um dos grandes filmes de ficção cientifica da História do Cinema e Steven Spielberg continua a ser o rapaz maravilha que nos deixa a todos fascinados perante o grande écran. Isto é Cinema!!!!

Rui Luís Lima.

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

“TERMINAL DE AEROPORTO” / “THE TERMINAL” (***)

STEVEN SPIELBERG - (EUA 2004) – (128 min/Cor)

TOM HANKS, CATHERINE ZETA-JONES, STANLEY TUCCI, CHI MCBRIDE.

Se, por qualquer motivo que seja, alguma vez estiveram numa situação em que os sons à vossa volta e os sinais (sobretudo os caracteres alfabéticos) vos fossem completamente estranhos e se sentissem isolados do mundo, então pode começar por aí a vossa empatia com o Viktor Navorsky (Tom Hanks) que, devido a uma falha no sistema burocrático, fica “encalhado” no aeroporto JFK ao chegar à América, vindo da fictícia Krapozia (qualquer país do Leste Europeu em ebulição).
(Eu senti-me isolada por horas, enquanto esperava pelo avião para Lisboa no aeroporto de Schipol, em Amesterdão, porque muito do que escutava à minha volta ou tentava decifrar me era completamente estranho.)

Imagine-se então que, devido a uma falha no sistema e a um funcionário dos serviços de entrada no país, zeloso do seu posto e da sua subida na carreira (um fantástico Stanley Tucci, com um papel de primeira linha, após muitos anos como eterno secundário), ficava encalhado num aeroporto (o JFK, com um extraordinário movimento de aviões e passageiros, uma das maiores portas de entrada para os Estados Unidos).

Que fazer?
Viktor Navorski (Tom Hanks, como já foi referido) tem que sobreviver num ambiente que lhe é, de início, completamente estranho e adaptar-se a viver na Zona Internacional do Aeroporto, a única área a que tem acesso, até que lhe seja possível, de novo, regressar ao seu país ou cumprir o seu objectivo e entrar em Nova Iorque (The Big Apple).

Steven Spielberg consegue construir uma história credível que nos faz rir e nos emociona, sem nunca raiar o ridículo.

O filme é Viktor Navorski, o seu modo de olhar o mundo e relacionar-se com as pessoas. Cria laços com quem trabalha num ambiente hostil (todos tentam manter um distanciamento de todos os outros e não se deixar envolver emocionalmente); veja-se o seu papel de Cupido entre a Agente Torres (Zoe Saldana) e Henrique (Diego Luna).
Através dele se descobre que ninguém presta atenção, nunca, aos sinais de aviso no aeroporto. O “Wet Floor” (chão molhado) é o aviso que permite a Gupta (Kumar Pallana), um dos amigos que conquista, divertir-se nas pausas de descanso após lavar o chão do aeroporto, vendo escorregar todos os que passam.
É esse mesmo “Wet Floor” que permite a Viktor conhecer e encantar-se com Amélia (a belíssima Catherine Zeta-Jones), a hospedeira em constante passagem, sendo este aviso ainda o que lhe permite, mais tarde, evoluir na relação de ambos.
Uma intrigante lata de amendoins mantém todos os que travam conhecimento com Viktor interessados, mas apenas a Amélia será dada a chave de toda a história.
A imagem de Frank Capra ronda a película de Spielberg tão intensamente que até lhe poderíamos dar o subtítulo de “Do Céu Caiu Viktor Navorsky”.

Paula Nunes Lima

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

“STEVEN SPIELBERG - O VENDEDOR DE SONHOS” - Parte 9

Pela primeira vez Steven Spielberg irá fazer dois filmes de ficção-cientifica quase em simultâneo, não caindo na tentação da rota de colisão e, dizemos isso, porque se “Inteligência Artificial” é um filme de Spielberg, ele também pertence a Stanley Kubrick… já “Relatório Minoritário” nasce como um projecto de Spielberg e Tom Cruise.

Partindo de uma short-story de Philip K. Dick, (autor cujo nome foi introduzido na memória de todos os cinéfilos após Ridley Scott ter realizado “Blade Runner”), Steven realiza um movie sombrio, de cores quase tenebrosas, perfeitamente opostas ao frio que emanava de “A.I.: Artificial Intelligence”…. No caso concreto de “Minority Report”/”Relatório Minoritário” situamo-nos no ano 2054, num futuro em que os criminosos são presos antes de cometerem os seus crimes, possibilitando desta forma a diminuição do número de mortes violentas. Nesta missão, a polícia é ajudada por três precogs geneticamente criados para esse fim e trabalhando sempre em conjunto nas informações criadas… e dizemos criadas porque, um dia, o oficial John Anderton (Tom Cruise) é acusado de ser um futuro criminoso e, em vez de aceitar a “verdade dos factos”, decide fugir e tentar descobrir as razões que o irão levar a cometer um crime… nessa luta, votada ao fracasso, irá contar com a ajuda de um dos precogs que, pela primeira vez, irá elaborar a sós a sua informação, criando o famoso “relatório minoritário” repositor da verdade inconveniente e inoportuna, porque irá colocar em causa as regras do jogo, que as entidades políticas tinham decidido criar.
Jogando com uma mestria, mais uma vez Steven Spielberg constrói um filme sufocante, ao mesmo tempo que oferece a Tom Cruise uma das suas grandes interpretações. Embora a película não tenha feito o sucesso esperado ela provou que, mais uma vez, o “wonder-boy” não se tinha rendido ao Hollywood System, apesar de contar com uma estrela como Tom Cruise possuidor de uma poderosa máquina de propaganda em seu redor.

Depois, como se fosse uma questão de vida ou de morte, Steven Spielberg e a estrela de “Titanic” Leonardo DiCapprio, fazendo dupla com o “magic-boy” Tom Hanks, recria no grande écran a vida do misterioso/maravilhoso Frank Abagnale Jr., uma das figuras mais procuradas pelo F.B.I., embora os seus crimes fossem de uma ordem sofisticada, ou como diria Orson Welles… “F for Fake”, só que desta vez este falsário de inúmeras identidades apenas fez burlas na ordem dos 2,5 milhões de dollars em cerca de vinte e seis países. Leonardo DiCapprio recria a figura de Frank Abagnale Jr. de uma forma soberba, transportando consigo esse verdadeiro dom do falsário, transformando em pura magia as suas aventuras… ele foi piloto da Pan-America, médico pediatra, professor de História e advogado, mas no seu encalço teve sempre um agente chamado Carl Hanratty (Tom Hanks) que jogou com ele ao gato e rato, terminando por capturá-lo, após uma longa perseguição. Veículo excelente para DiCaprio… “Apanha-me Se Puderes”/”Catch Me If You Can” é na verdade uma daquelas películas que respiram frescura por todos os poros e, curiosamente, nele se encontra a modernidade no cinema e por razões que a própria razão desconhece… ou não… foi durante as filmagens deste movie que o actor começou a ler a biografia de Howard Hughes, que o levaria a ser o principal responsável pela feitura de “The Aviator”/”O Aviador”, tendo Martin Scorsese sido convidado por Di Caprio para realizar a película, sendo o mesmo DiCaprio a interessar/seduzir os Estúdios para a película “O Aviador”. Regressando a “Apanha-me Se Puderes” vamos encontrar um Tom Hanks na melhor forma, ao ponto de Steven o convidar para ser o protagonista do seu filme seguinte, o maravilhoso “Terminal”.

(continua)

Rui Luís Lima

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

“STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS” – Parte 7

Como referimos no texto anterior, “A Lista de Schindler” e Steven Spielberg, mais aquela seta do Cupido, juntaram Holly Hunter e Janusz Kaminski em 1995, mas por vezes as setas de Cupido não são eternas… e ao contrário da usada para Steven e Kate, a de Holly e Janusz perdeu o seu efeito em 2001. Mas regressemos aos movies!!!

Steven Spielberg foi um daqueles cineastas que sempre se recusou a fazer sequelas dos seus filmes, mesmo depois de o êxito de “E.T.” e de terem sido escritas novas aventuras do mais belo extraterrestre… “E.T. – No Planeta Verde” em que este é agricultor e ecologista… o cineasta não se entusiasmou mas, quando leu o novo livro de Michael Crichton, dando continuidade a “Parque Jurássico”, com o best-seller “The Lost World”, pela primeira vez Steven regressou ao tema dos dinossauros então muito em voga, não nos esqueçamos que já havia um movie de animação “Em Busca do Vale Encantado” em que eles eram protagonistas e Heróis. Mais uma vez as receitas não se fizeram esperar e o filme entrava na box-office a velocidade supersónica. Na realidade, alguns ficaram admirados pela temática escolhida por Steven, após a feitura de “A Lista de Schindler” mas, para esses, o wonder-boy teve uma resposta intitulada “Amistad”!

A mais célebre revolta/motim a bordo de um navio é, como todos sabemos, “A Revolta na Bounty” escrito por Sir John Barrow e levada ao cinema por diversas vezes, já tivemos o duelo Clark Gable e Charles Laughton, depois surgiu Marlon Brando e Trevor Howard (recorde-se que foi nas filmagens desta película que Brando encontrou o amor da sua vida) e aquele que muitos já esqueceram, tendo como protagonistas Mel Gibson e Anthony Hopkins. Mas, desta vez, não se trata “da Bounty” e sim de “Amistad” que curiosamente possui como elemento de ligação o Anthony Hopkins, que teve desta vez ao seu lado o Morgan Freeman (quem se lembra dele como figurante em “The River”/”O Rio” ao lado de outro figurante da altura, de seu nome Danny Glover?) Sir Nigel Hawtorne, Matthew McConauhgey e o estreante Djimon Hounsou, que interpreta o papel do líder da revolta de escravos ocorrida no navio. Mais uma vez as cenas de tribunal/julgamento são preponderantes na película, não nos esqueçamos que esta revolta ocorreu em 1839, no período que antecedeu a Guerra-Civil. Embora seja um dos movies menos falados da obra de Spielberg, ele merece ser revisto e reavaliado.

Quando todos se interrogavam qual a próxima surpresa guardada por Steven Spielberg, mais uma vez ficámos boquiabertos pelos primeiros vinte minutos do seu movie seguinte… o célebre “O Resgate do Soldado Ryan”/”Saving Private Ryan”, cuja acção se inicia com o desembarque das forças aliadas na Normandia… e o realismo introduzido foi de tal ordem, que todos nós ficámos perfeitamente cientes que esse célebre dia que mudou o rumo da História não foi propriamente a “pêra doce” que, por vezes, a superprodução “O Dia Mais Longo” nos dá a entender…evitando cair nesse mar de sangue, que certamente um cineasta como Sam Peckinpah teria introduzido, Spielberg usando com toda a mestria o seu talento e contando com Januzs Kaminski a seu lado criou o clima necessário para nos deixar perfeitamente consumidos por aqueles vinte minutos iniciais… demonstrando mais uma vez o Horror que representa a guerra.(1)

A história de “O Resgate do Soldado Ryan”, da autoria de Robert Rodat, é uma daquelas paisagens norte-americanas politicamente-correctas atraentes para uma longa faixa da população e curiosamente, por razões de pura cinéfilia fomos obrigados a recordar essa obra-prima da responsabilidade de John Ford “Four Sons”… mas vamos á sinopse: uma mãe com os quatro filhos no teatro de operações da Segunda Grande Guerra, recebe no mesmo dia a notícia de que três dos seus filhos foram mortos, dois na Normandia e um na Nova Guiné… o general Marshall, perante uma situação destas, decide demonstrar toda a sua humanidade e dar ordens para ser enviada uma pequena unidade composta por oito homens, para encontrar o soldado Ryan (Matt Damon) e enviá-lo para casa, para oferecer àquela mãe o conforto possível, com a presença/vida do único filho que lhe resta. Essa unidade, comandada pelo Capitão Miller, irá levar a bom termo a sua missão. Neste grupo iremos encontrar nomes tão distantes nas suas opções futuras como Edward Burns – hoje actor e realizador com muito a oferecer ao cinema, Vin Diesel – o novo ídolo de filmes de acção; Paul Giamatti – o célebre Mr. American Splendor; ou Tom Sizemore: inesquecível em “Cercados”.
Mais uma vez Steven Spielberg triunfava no seu território e também mais uma vez surpreendeu muitos ao realizar a seguir uma curta-metragem documental (21 min.)“The Unfinished Journey”, produzida para celebrar a passagem do milénio e contando com um narrador chamado Bill Clinton.

(1) - Francis Ford Coppola e o seu “Apocalipse Now”, Terence Mallick e “Barreira Invisível” e Samuel Fuller e “O Sargento da Força 1”, uma trilogia acerca da Guerra que deixa o mais comum dos mortais a meditar acerca dessas “virtudes” da Guerra de que falava Clausewitz na sua “A Arte da Guerra”.

(continua)

Rui Luís Lima

“A LISTA DE SCHINDLER" / "SCHINDLER'S LIST" (*****)

STEVEN SPIELBERG - (EUA - 1993) -(195 min-P/B-Cor)

LIAM NEESON, BEN KINGSLEY, RALPH FIENNES, CAROLINE GOODALL.

No ano de 1993, Steven Spielberg deixou de ser o vendedor de sonhos e transformou-se no mais aplaudido e reconhecido cineasta, oferecendo ao universo cinematográfico “A Lista de Schindler”/”Schindler’s List”, para o mundo não deixar morrer na sua memória o Holocausto.

Quando Thomas Keneally escreveu “Schindler’s List”, nunca pensou que seria Steven Spielberg o cineasta que iria colocar em marcha a poderosa máquina cinematográfica norte-americana criando uma das mais poderosas memórias do Holocausto. E convém não esquecer que “Cinzas e Nevoeiro” de Alain Resnais é outro inesquecível documento da memória desse período tenebroso da História do século XX, assim como “Shoah” de Claude Lanzmann, um poderoso documentário de nove horas e meia construído sem nenhuma imagem de arquivo, mas filmando a existência dos seus intervenientes, vítimas e carrascos, de uma forma contundente, impedindo o esquecimento e indiferença que certas camadas pretendem cultivar nos tempos mais recentes. Curiosamente, ainda se encontram por divulgar as imagens captadas pelos aliados dos campos de concentração nazis e que durante algum tempo foram trabalhadas para futura montagem e exibição pública, sendo um dos intervenientes nesse processo Alfred Hitchcock… talvez um dia a sua divulgação seja possível. Mas regressemos a Schindler e a sua lista ou seja Steven Spielberg.

Quando “A Lista de Schindler” chegou aos cinemas e ao grande público, num preto e branco tão real e com interpretações tão convincentes, fomos obrigados a esquecer a ficção e descobrimos a triste e cruel realidade de um dos períodos mais negros da História da Humanidade. Não era só a realização de Steven Spielberg que nos invadia o nosso território cinematográfico mas também a poderosa fotografia do polaco Janusz Kaminski, de um realismo perfeito, como se fosse alguma vez possível descobrir a imagem mais que perfeita, transformadora da ficção em realidade, no entanto tal aconteceu também devido às interpretações, mas acima de tudo ao testemunho dos sobreviventes, mais tarde apresentado de outro ponto de vista por Spielberg no documentário “The Unfinished Journey”.
“A Lista de Schindler” conta-nos a história de Oskar Schindler, o “bom” nazi, que no seguimento da aliança da grande indústria alemã com o poder nazi (1), decide utilizar a mão de obra judia na sua fábrica, mas ao descobrir o destino dos que não contratava… a morte em Auschwitz, decide contratar o maior número possível de pessoas para a sua fábrica… alterando desta forma o destino certo de 1100 judeus.

Perante uma obra desta envergadura, não se encontrou uma única voz discordante e foi com naturalidade que a Academia de Hollywood atribuiu os Oscars a Steven Spielberg…sete Oscars, incluindo melhor filme e melhor realizador. Nas interpretações, infelizmente, tanto Liam Neeson (Schindler) como Ralph Fiennes foram esquecidos.
Como o cinema também é feito de histórias de amor no écran e fora dele, contemos aqui uma história de amor passada fora do écran e nascida precisamente com a feitura de “A Lista de Schindler", o director de fotografia polaco Janusz Kaminski, que também foi galardoado com o Óscar e que se iria tornar no responsável pela fotografia nos futuros filmes de Steven Spielberg, confessou-lhe durante as filmagens que gostaria imenso de conhecer a Holly Hunter, protagonista de “Always” realizado por Steven e o cineasta proporcionou esse encontro ao homem que tão bem tinha trabalhado com ele. O encontro não passou despercebido a Cupido que mais uma vez usou a sua seta e transformou o sonho em realidade, mas por vezes o sonho e a realidade ao chegarem à encruzilhada da vida, decidem ir por caminhos diferentes,e assim a sete de Cupido perdeu a sua validade, no entanto sonhar é preciso, para fazer do sonho o sentido da vida.

(1) - Aliança privilegiada desde sempre por Hitler, colocando em segundo lugar os estudos científicos, já que era adepto da chamada guerra convencional.

Rui Luís Lima

Domingo, Dezembro 23, 2007

BARBARA HERSHEY – O SILÊNCIO DE UM OLHAR – THE END

Chegamos assim aos anos noventa e Barbara Hershey decide diversificar a sua actividade, começando a surgir em telefilmes e séries, enquanto na área do grande écran decide alterar os dados do jogo, apostando tanto na comédia como no drama, ao mesmo tempo que opta quer por produções dos Estúdios quer por produções de baixo orçamento e até de cinema independente, como foi o caso de “Frogs and Snakes” desse King chamado Amos Poe (recordam-se de “Subways Riders” e de “Alphabeth City”?).

Quando Mário Vargas Llosa escreveu o romance autobiográfico “A Tia Júlia e o Escrevedor”, editado em Portugal pela D.Quixote, nunca pensou que muitos anos mais tarde ele fosse adaptado ao cinema e logo por um grande Estúdio. Mas assim aconteceu e a célebre Tia Júlia seria Barbara Hershey enquanto o papel do futuro escritor seria entregue a Keanu Reeves… e a figura incontornável desse “amigo radiofónico” dos argentinos seria Peter Falk. No entanto o argumento foi alterado de uma forma inconcebível, já que a Argentina foi substituída pela Albânia e os albaneses… quem leu o livro e viu o filme percebe que os Estúdios tiveram receio de um protesto diplomático e com um país como a Albânia estavam perfeitamente à vontade. A película perdeu bastante, mas os actores conseguiram caracterizar de forma plena as personagens, sem pôr em causa os heróis criados por Vargas Llosa.

“The Public Eye” é uma das melhores produções de Bob Zemeckis, dirigida por Howard Franklin e cuja história se situa nos anos quarenta, com um Joe Pesci espantoso e na mulher fatal Barbara Hershey… recomendamos vivamente a sua descoberta. Depois foi a vez de contracenar com Michael Douglas em “Um Dia de Raiva” e surgir no filme menos “valorizado” de Jane Campion “The Portrait of a Lady”/”Retrato de Uma Senhora” baseado na obra de Henry James e ao lado de Nicole Kidman e John Malkovich… inesquecível a sua Madame Serena Merle! E depois quando a literatura se transforma no motivo da película, ela ali esta ao lado de James Jones ou diremos antes Kris Kristofersen que interpreta o escritor nesse filme espantoso de James Ivory “A Soldier’s Daughter Never Cries”/”Filha de Soldado não Chora”, que infelizmente passou de forma silenciosa nos nossos écrans.

Continuando sempre em actividade tanto em séries de televisão como “Chicago Hope” ou mais recentemente “The Mountain” e mantendo a sua presença em telefilmes e películas distantes das Majors, vamos descobri-la numa das melhores películas do novo milénio intitulada “Lantana”, da responsabilidade de Ray Lawrence (produção australiana) e que nos retrata uma história de equívocos e suspeitas, numa verdadeira teia de aranha, fruto perfeito de coincidências e de más interpretações, provocadoras de um fim inevitável, em que não há culpados mas suspeitos… A interpretação de Barbara Hershey é inesquecível na pele da psicanalista Valerie Somers, que não encontra resolução para as suspeitas que a atormentam… até que um dia a tragédia provocada pelo medo, irá trazer a solução final.
Barbara Hershey é uma das grandes Damas do Cinema Norte-Americano e viajar com os seus filmes é uma verdadeira paixão cinéfila!

THE END

Rui Luís Lima

Sábado, Dezembro 22, 2007

BARBARA HERSHEY – O SILÊNCIO DE UM OLHAR – Parte 2

Ao interpretar a personagem Lee no movie de Woody Allen, de certa forma essa figura em estado de transição, terminou por se lhe colar ao corpo, sendo com naturalidade que a vamos encontrar nesse fabuloso, mas pouco conhecido, filme de David Anspargh “Hoosiers” que “por cá” passou no cinema Fonte Nova. Nele vamos encontrar Gene Hackman na sua melhor forma, um professor em fuga do passado que escolhe a América profunda para reiniciar a sua vida e encontrar em Barbara Hershey a barreira (in)transponível para atingir os seus objectivos… levar a equipa de baskett de uma escola à final nacional… a ajudar a esta dupla fantástica iremos ter Dennis Hooper no seu melhor, na figura do pai alcoólico do melhor jogador da equipa. De referir que todas as sequências dos jogos estão filmadas de forma mais que perfeita.

Assim, sempre a dar o seu melhor, Barbara Hershey acaba por finalmente ver o seu trabalho reconhecido em Cannes, ganhando o prémio para a Melhor Intérprete Feminina, em 1987, na película de Andrei Konchalovsky “Shy People”/”Gente Estranha”, passado no pântanos da Louisiana e que marca também a estreia fulgurante de Martha Plimpton no cinema, ao ponto de roubar todas as cenas a Jill Clayburg. A forma como Barbara interpreta essa figura solitária e combativa exilada nos pântanos e no final a sua ida à cidade é na verdade inesquecível. Um dos grandes filmes de Konchalovsky que é urgente redescobrir, incluindo a sua fase soviética e recordamos que ele é o autor de “Siberíada” (o “1900” soviético), “Comboio em Fuga”, “Os Amantes de Maria” e “Duet for One”… este último apenas o vi na tv.
Todos sabemos que Cannes nunca repete as opções cinematográficas de um ano para o seguinte, mas no ano de 1988 quebrou-se essa regra com “A World Apart” de Chris Menges e Barbara Hershey voltou a ganhar o prémio para a Melhor Interpretação Feminina, numa película que abordava o nascimento do apartheid e a sua política de segregação racial condenada por todo o mundo.

Quando Martin Scorsese conseguiu finalmente levar a bom termo a adaptação cinematográfica do romance de Nikos Kazantzakis, “A Última Tentação de Cristo”, cuja adaptação foi da responsabilidade de Paul Schrader, muitos se interrogaram quem iria ser a intérprete da principal personagem feminina da película, Maria Madalena… e quando o nome de Barbara Hershey foi referido, todos compreenderam que não havia melhor escolha. Na verdade a sua interpretação em “The Last Temptation of Christ” é novamente espantosa e marca de forma superior a película, tal a forma como ela introduziu a sua imagem nessa figura Bíblica, ela é Maria Madalena! O filme é um dos filmes mais religiosos e humanos de todos os tempos… e a Tentação de que fala a película é simplesmente a de ser um ser humano com o seu destino nas mãos, possuindo mulher e filhos e exercendo a sua profissão na paz interior então perfeitamente atingida, não por decisão Suprema de Deus, mas por vontade Própria.

(continua)

Rui Luís Lima
BARBARA HERSHEY – O SILÊNCIO DE UM OLHAR – Parte 1

Barbara Hershey não é um nome desconhecido dos amantes do cinema e a sua figura frágil tem sido uma constante ao longo dos anos, mesmo quando nos recordamos desse filme fabuloso chamada “Lantana”, que passou perfeitamente despercebido do grande público e que é um perfeito observatório da complexidade das relações humanas.

A sua filmografia é bastante extensa, assim como as suas participações no pequeno écran onde o número de filmes e séries é elevado. “Last Summer” de Frank Perry, “The Babymaker” de James Bridges ou esse extraordinário “Boxcar Bertha”/”Uma Mulher da Rua” do então desconhecido Martin Scorsese, são algumas das mais notadas películas de início de carreira, onde a sua jovem imagem a ia conduzindo ao longo do celulóide, acabando por ser “The Stunt Man” a marca da sua transição para o estado adulto de mulher madura, como foi referido por ela na época, nascendo então a actriz que todos conhecemos. Na época tentaram fazer dela uma star, mas Barbara resistiu confessando como “por vezes era tão aborrecido ser-se bonita”.

Barbara Hershey, desde muito jovem, sentiu esse impulso interior de representar papéis alheios à sua vida, preenchendo um espaço criado por outros, dando-lhe vida… era isso que sentia quando ia ao cinema (cumprindo esse “estado de alma” que Woody Allen tão bem retratou em “A Rosa Púrpura do Cairo”) ou quando devorava as páginas de livros que lhe “caíam” nas mãos.
“The Entity”/”O Ente Misterioso” acaba por ser a primeira película em que Barbara Hershey surge como nome sonante do cartaz e o filme “vagueando” entre o terror, a família e as ciências ocultas termina por ser uma verdadeira surpresa, transportando consigo a memória da série-B. Mas seria nessa epopeia espacial de nome “Os Eleitos”, realizada por Philip Kaufmann, que ela surge pontuando a sua condição feminina numa “película de homens”: os astronautas, primeiros viajantes do imenso território azul que nos rodeia. Barbara está ao lado de Sam Shephard, revelando todas as suas potencialidades, sendo a sua figura portadora de um magnetismo indesmentível, aliás, bem patenteado na memorável sequência da corrida a cavalo através do deserto.

O apelo da grande metrópole nova-iorquina também se fez sentir nela e em 1985 decidiu-se por fim a mudar para a margem do Hudson com o seu filho Tom de 13 anos, cujo pai é David Carradine, com quem viveu durante largos anos numa roulote, sendo ambos conhecidos como os hippies de Hollywood, recorde-se que o nome dado inicialmente ao filho de ambos foi Free e só quando decidiu partir para Nova Iorque alterou o nome do seu descendente.

A sua admiração por Woody Allen já vinha de longe, considerando-o o argumentista desejado por qualquer actriz, tendo em conta o talento com que ele caracteriza as suas personagens femininas e foram muitas as actrizes que ficaram a dever a sua carreira ao realizador. Com “Hannah e as Suas Irmãs”/”Hannah and her Sisters” chegou a vez de Barbara Hershey se estrear ao lado de Woody Allen, que nunca escondeu a sua simpatia pela actriz, ao mesmo tempo que estudava o comportamento da actriz dentro e fora do set como é seu hábito. Esta película maravilhosa de Woody Allen que se inicia numa véspera de Natal e termina noutra véspera de Natal é o retorno ao universo familiar, não na linha bergmaniana de “Interiors”/”Intimidade”, mas sim no interior daquilo a que se chamou um compromisso entre a primeira fase, sendo o humor o pólo atractivo, embora como não podia deixar de ser, um certo criticismo da chamada segunda fase, psicanalítica, também esteja presente… iniciando-se esse caminho da complexidade das relações humanas, que tão bem soube retratar.
Manhattan, como não poderia deixar de ser, é o cenário (magnificamente retratada por Carlo di Palma) desta história de família com paixões, adultérios e muito amor para oferecer. A personagem interpretada por Barbara Hershey é profundamente comovente e a relação que estabelece com o cunhado Elliot (Michael Caine) é o verdadeiro motor do filme, apesar de todas as outras histórias que se vão cruzando como era habitual nas películas de Allen desse período.

(continua)

Rui Luís Lima

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS – Parte 5

ALWAYS / HOOK / JURASSIC PARK


Quando Steven Spielberg se aventurou no território romântico, deixou muitos surpreendidos, embora optasse por fugir ao melodrama, decidiu refazer a comédia romântica, tão em voga no cinema clássico e oferecer a Richard Dreyfuss o papel que outrora tinha pertencido a Spencer Tracy, convocando por outro lado Audrey Hepburn (1) para surgir como estrela em cartaz, nesse filme mágico que se chamou “Always”/”Sempre”… recorde-se que a Audrey já tinha feito uma aparição lindíssima, por detrás dos seus óculos escuros, em “Romance em Nova Iorque” de Peter Bogdanovich. Mas o romance de Dorinda (Holly Hunter) com Ted (Richard Dreyfuss) mesmo depois de ele morrer, através de uma outra alma gémea/enviada pelo destino é, na verdade, uma bela história romântica, com os habituais momentos de humor na personagem interpretada por John Goodman.

Após “Always”, muitos se interrogaram qual seria o próximo passo de Steven, já que o filme não foi propriamente uma grande receita e como “1941” quase ditou o fim da carreira do “wonder-boy”… a América começou no ano de 1991 a ser invadida por um gancho acompanhado da palavra “Hook” e só depois se anunciou, numa estratégia comercial de grande alcance, que o famoso “Peter Pan” que Walt Disney nos tinha oferecido iria ser revisitado por Steven. Na nossa memória permanecem as personagens dessa história mágica de J.M.Barrie que recentemente Johnny Deep imortalizou. Só um parêntesis… a luta desesperada do crocodilo ao longo de filme de Walt Disney esperando pelo Capitão Gancho é o meu momento favorito de “Peter Pan”, mas fechando o parêntesis e regressando a “Hook”, ao saberem-se que os nomes desta feita eram famosos…Robin Williams, Dustin Hoffman, Júlia Roberts e Bob Hoskins, levou a que a película se transformasse numa aventura para toda a família… adultos e crianças iriam (re)ver a história de J.M.Barrie através de um olhar contemporâneo, já que Peter Pan (Robin Williams), adulto e com filhos, é obrigado a regressar à Terra do Nunca para resgatar as suas crianças das Garras ou, direi antes, Gancho do Capitão Hook (Dustin Hoffman irreconhecível e turbulentamente magnifico) que decide vingar-se do passado, continuando a ter a seu lado o “inteligente” Smee (Bob Hoskins), enquanto Peter Pan volta a encontrar a Fada Sininho (Julia Roberts). Mais uma vez Spielberg tinha jogado com o imaginário de todos nós e ganho a aposta.

A Academia reconhecia em Steven Spielberg um excelente movie-maker e um fabricante de Blockbusters perfeito, mas para ela o mago ainda não tinha chegado ao “ponto desejado” para ser reconhecido pelos seus membros. Como todos sabemos as decisões da Academia produzem sempre polémicas e basta citar o caso de Alfred Hitchcock, que nunca recebeu o Óscar para o Melhor Realizador enquanto esteve em actividade no meio cinematográfico, para já não falarmos nesse “maverick” chamado Orson Welles. Mas Steven Spielberg achava que ainda não tinha chegado o momento para colocar a Academia entre a espada e a parede e ao adaptar o romance de Michael Crichton (também ele já cineasta) decide levar ao grande écran “Jurassic Park” e a aventura dos dinossauros, através da história de cientistas que a partir de DNA tirado de insectos que continham no seu interior, devidamente conservado, sangue de dinossauro, têm a ambição de reconstruírem um passado mais que longínquo em que estes dominavam a face da terra. Apostando mais uma vez em força na Industrial Light and Magic, Spielberg constrói um filme que se irá tornar no blockbuster mais que perfeito, criando uma verdadeira história de terror provocada por cientistas que perdem o controlo dos elementos que manipulam, ao mesmo tempo que mais uma vez o vector familiar, tão característico dos seus filmes surge em perfeita “harmonia” com os elementos do período Jurássico. Steven Spielberg triunfou nas bilheteiras, mas a sua próxima película iria mudar para sempre a leitura que certa crítica fazia dos seus filmes ao mesmo tempo que a Academia iria ser obrigada a dar a “mão à palmatória”.

(1)- No entanto a imagem preferida de Audrey Hepburn, na nossa memória, pertence a essa novela escrita por Truman Capote e intitulada “Breakfast at Tiffany’s” ao lado de um inesquecível George Peppard, apesar de o seu filme mais citado ser o maravilhoso “Sabrina” com Humphrey Bogart e William Holden, nas personagens que muitos anos depois Harrison Ford e Greg Kinnear haveriam de homenagear no remake de Sidney Pollack… ah! A Sabrina aqui é a bela Júlia Ormond, que tanto surge em filmes de Peter Greenaway como de Nikita Mikhalkov, ao mesmo tempo que aparece em “O Primeiro Cavaleiro” ou seja não olha a géneros/produções.
PS - Segunda-feira retomamos a viagem através do cinema de Steven Spielberg, este fim-de-semana a estrela escolhida chama-se Barbara Hershey!

(continua)

Rui Luís Lima

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS – Parte 4

O IMPÉRIO DO SOL / EMPIRE OF THE SUN


INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA / INDIANA JONES AND THE LAST CRUZADE


No ano de 1987 Steven Spielberg decidiu, mais uma vez, apostar numa criança para o seu novo filme… o jovem actor chamava-se Christian Bale e o filme “Império do Sol”, baseado no romance do escritor de ficção cientifica J.G.Ballard, que assinava assim uma história fora da esfera literária que o tinha consagrado. No entanto, outro nome pouco conhecido, também surgia no elenco, Mr. John Malkovich (que tanto gosta deste nosso país), para além de Miranda Richardson.

Xangai é invadida pelos japoneses a 8 de Dezembro de 1941 e o jovem Jim (C.Bale) vê-se separado dos pais durante a fuga, sendo obrigado a lutar pela sobrevivência numa cidade que se tornou hostil e, de fuga em fuga, termina por ser capturado e enviado para um campo de concentração, onde irá descobrir as “não regras” da sobrevivência, ao mesmo tempo que começa a ficar fascinado pelos aviões (zero) que descolam do campo de aviação confinado com a sua prisão, onde se movimenta com sabedoria, terminando por se estabelecer uma amizade silenciosa com um jovem japonês, que fará o seu sacrifício supremo de kamikaze num gesto derradeiro de homenagem ao Imperador. A Guerra acabará por ter o seu fim, mas o seu reencontro com os pais não será imediato.
Obra de uma contenção fantástica, esta película de Spielberg demonstrou mais uma vez, a mestria do cineasta em desenvolver um argumento, que o genial Tom Stoppard adaptou para o grande écran. Muitos anos depois iremos redescobrir o adulto Christian Bale no último movie de Batman… quanto a John Malkovich o cinismo que introduz às suas personagens, já aqui patente, é soberbo compondo o perfeito anti-herói de Patrícia Highsmith…o imoral e fascinante Ripley.

Quando George Lucas, dedicado ao trabalho de produtor e gerindo o complexo da ILM apresentou a Spielberg a proposta de um novo Indiana Jones (1) – “Indiana Jones e a Última Cruzada”/”Indiana Jones and the Last Cruzade”, o actor Harrison Ford sentiu-se muito satisfeito, embora no seu horizonte imediato estivessem outros projectos, mas desta vez iria estar muito bem acompanhado com o seu “pai” Professor Henry Jones ou seja Sean Connery. Mais uma vez iria confrontar os nazis que tinham raptado o seu pai em virtude dos seus diários conterem indicações bastante complexas acerca da possível localização do Cálice Sagrado. A missão de Indi era clara: libertar o pai e recuperar os diários. Curiosamente, nesta terceira aventura de Indiana Jones, o movie é perfeitamente dominado por Sean Connery que “rouba” todas as cenas em que contracena com Harrison Ford… mas também não poderemos esquecer a passagem pelo filme dessa figura imensa que é/foi o Denholm Elliott, interpretando a figura do Professor Marcus Brody. Conseguindo recriar todo o ambiente do filme de aventuras, tão característico de certo cinema americano dos anos 40/50, Spielberg oferece mais uma vez um blockbuster com uma qualidade surpreendente, transformando-o no melhor da série. E, na realidade, sentimo-nos perfeitos adolescentes a vibrar com as lutas de Indiana Jones contra “os maus da fita.

(1) Não nos esqueçamos que a série “Indiana Jones” é de certa forma baseada nos célebres serial de trinta e uma partes e que os seus criadores são um trio composto por George Lucas, Philip Kaufman e Lawrence Kasdan.

(continua)

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS – Parte 3

E.T.-O EXTRA-TERRESTRE / E.T.
NO LIMIAR DA REALIDADE / TWILIGHT ZONE
A COR PÚRPURA / THE COLOR PURPLE

O ano de 1982 assiste ao nascimento de “E.T.” a mais bela das criaturas feias e a criança que vive em nós acorda maravilhada. Quem não a amou esqueceu-se certamente do coração no bolso da vida.

“E.T.” foi uma daquelas personagens, que nos “informavam” da bondade dos “aliens”, mas curiosamente, as suas aventuras não tiveram continuação, apesar de ainda ter sido escrito um segundo book narrando novas aventuras no seu planeta “natal”. Decididamente Steven não é muito dado a sequelas.
“Poltergeist” uma nova produção de Spielberg realizada por Tobe Hooper, transporta consigo o confronto da autoria. Se a marca de Spielberg é evidente, a imagem de Hooper, permanece nesta película. Mas se a colaboração com Hooper não foi das melhores, já a existente com Lucas é perfeita, regressando “Indiana Jones e o Templo Perdido” com a fabulosa sequência de abertura, verdadeiramente inesquecível e onde iremos descobrir a futura Mrs. Spielberg.

O “remake” é uma das fontes de alimentação do cinema moderno e a dupla Spielberg/Landis decidiu homenagear a célebre série de televisão “Twilight Zone” datada dos anos cinquenta. Mas não será propriamente do “remake” que se irá tratar, excepção feita no episódio de Steven, mas sim de olhar a caixa que mudou o mundo, através de uma série por onde passaram alguns dos nomes mais importantes dos anos cinquenta, embora, por vezes, a memoriados homens seja fraca.
Joe Dante foi um dos cineastas de “Twilight Zone”/”No Limiar da realidade” e Spielberg juntou-se a ele, oferecendo-nos “Gremlins”: a fusão da série-B com o universo de Walt Disney, ou as aventuras de Gizmo no mundo dos adultos.

O trabalho de produtor tem continuação nesse ano de 1985, inesquecível para Spielberg que marcou o nascimento do seu pequenino Max. Nesse mesmo ano o universo de Júlio Verne é de certa forma revisto numa maravilhosa caça ao tesouro com “Regresso ao Futuro” de Robert Zemeckis e a fabulosa viagem no tempo do jovem McFly e a história da sua tumultuosa família. Mas ainda há tempo para produzir para o pequeno écran a série “Amazing Stories” e realizar “The Colour Purple”/”A Cor Púrpura” um dos maiores desafios da sua carreira e que nos ofereceu a então estreante Whoopie Goldberg. Numa das mais belas histórias de amor e saudade escritas para o Cinema. No entanto os Oscars ainda não tinham chegado para Steven Spielberg, apesar da National Board of Review of Motion Pictures ter considerado o filme do ano e de Whoopi Goldberg ter sido eleita a melhor actriz do ano. Os Oscars um dia teriam de ir ter às mãos de Steven Spielberg, mas infelizmente a Academia de Hollywood achava que ainda era cedo.

(continua)

Rui Luís Lima

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS – Parte 2

TUBARÃO / JAWS
ENCONTROS IMEDIATOS DE TERCEIRO GRAU / CLOSE ENCOUNTERS OF THIRD KIND
1941-ANO LOUCO EM HOLLYWOOD / 1941
INDIANA JONES E O TEMPLO PERDIDO
“Tubarão” foi o primeiro “blockbuster” da história do cinema e, não nos podemos esquecer, que estamos perante uma obra onde o terror é senhor, portanto muito longe do universo que é comum a Steven Spielberg… para aqueles que não sabem, no Parque Temático da Universal em Hollywood podemos encontrar o célebre Tubarão durante a viagem, para além de outras surpresas…mas voltemos ao Steven.

“Jaws” transformou-se no primeiro êxito comercial de Steven Spielberg, transformando o wonder-boy e os seus filmes futuros, inquilinos definitivos da lista de películas mais vistas de sempre nos EUA e com a respectiva facturação a surgir na box-office, até então apenas a navegar nas páginas da Variety e que hoje em dia, é das informações mais comuns nas revistas da especialidade… não nos esqueçamos que a Variety é o jornal diário da industria cinematográfica norte-americana.

No ano de 1977 nascem “Encontros Imediatos de Terceiro Grau” e o cinema assume o seu carácter de magia, com a imagem de cientista francês interpretado por François Truffaut. Como sabemos o cineasta francês não dominava o inglês, mas Steven queria tanto que ele participasse no movie, que a personagem foi moldada à sua imagem, falando sempre francês ao longo da película e todos sabemos como Truffaut se sentiu feliz em participar no filme de Spielberg.

Os terrenos do menino prodígio pareciam que estavam delineados, falamos do terror e a antecipação/ficção cientifica, mas a comédia estava no seu horizonte e “1941-Ano Louco em Hollywood” é o novo caminho, onde já se faz sentir a mão de Bob Zemeckis, com essa dupla fabulosa que foram Dan Akyroyd e John Belushi (já falecido), digna herdeira dos irmãos Marx.”1941” é o retrato da histeria em que viviam os americanos depois do ataque japonês a Pearl Harbour. Toda a película é uma perfeita loucura, mas dois momentos são dignos de destaque… o início do filme com a citação a “Tubarão”, com o terror a dar lugar à comédia e por outro lado… toda a sequência em que Robert Stark sentado na sala de cinema olha como uma criança as imagens de “Dumbo” do Mestre Walt Disney, enquanto lá fora o caos está instalado. Tudo indicava que estávamos perante um grande sucesso, mas sucedeu precisamente o contrário… e pela primeira vez, tendo em conta os resultados de bilheteira, a carreira de Steven Spielberg esteve à beira do abismo.

Após “1941-Ano Louco em Hollywood”, o argumentista Robert Zemeckis parte para a realização e Steven Spielberg é o produtor do seu primeiro filme “Travões Avariados, Carros Estampados”, uma hilariante comédia em que os carros de “competição” são os principais intérpretes… iniciando-se assim a actividade de produtor/descobridor de talentos do jovem Steven. Por essa altura, George Lucas encontrava-se bastante aborrecido atrás da câmara, decidindo abandonar a realização, ficando “só” com a produção da sua “Guerra das Estrelas”. Do encontro Lucas/Spielberg, ou seja IMG e AMBLIM, nascem “Os Salteadores da Arca Perdida” e a personagem Indiana Jones, o novo herói dos anos oitenta, com um Harrison Ford em plena forma a tentar ocupar um lugar que no Cinema Clássico poderia perfeitamente ter pertencido a Cary Cooper. É o perfeito delírio que se instala nas salas de cinema, o sofrer do espectador com as aventuras do Dr. Jones, o gritar, o aplaudir(1), o “alívio” quando por uma “unha negra” o herói se salva, levando a bela rapariga com ele. Estava criada a aventura, no seu sentido mais puro, da inocência e perdição, consumida por todos até ao último fotograma.

(1)- O público norte-americano, neste género de filmes, tem por hábito manifestar-se perante as situações que se vão desenvolvendo no écran. Por outro lado é extremamente curiosa a designação de “movies” para este tipo de cinema, enquanto no respeitante ao cinema, chamado na América, de Arte e Ensaio é usada a designação de “films”.

(continua)

Rui Luís Lima

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

STEVEN SPIELBERG – O VENDEDOR DE SONHOS – Parte 1

"UM ASSASSÍNO PELAS COSTAS"/"DUEL"

"A PRESENÇA DO MAL" / "SOMETHING EVIL"

"ASFALTO QUENTE" / "SUGURLAND EXPRESS"


Steven Spielberg foi/é o “wonder-boy” do cinema norte-americano. A sua paixão pelo cinema vem de tenra idade e as irmãs foram as primeiras “vítimas” da sua imaginação prodigiosa. A família era a sua casa produtora e nem o pai escapou à voragem da câmara de 8 mm, suando e sofrendo com a forte direcção de actores, já patenteada pelo filho.

Os Estúdios da Universal iriam ser o seu primeiro lar cinematográfico, pois ali se escondia para ver Hitchcock filmar. Inicia-se aos vinte anos no pequeno écran, dirigindo alguns episódios das séries “Colombo”, “Marcus Welby” e “The Name of the Game”.

“Duel”/”Um Assassino Pelas Costas” é a história de um camião assassino, com alvo localizado e cuja identidade do seu ocupante nunca nos será revelada, a não ser a sua imagem de monstro invasor da estrada… e para termos essa sensação de desamparo e solidão basta fazer um daqueles percursos através do deserto, em que a ausência de sorrisos na paisagem nos leva quase ao desespero, sendo sempre imensos os traços no asfalto de veículos que perderam o controlo, acompanhados de restos de pneus, vitimados pelo calor… se desejarem experimentar essa sensação, façam a travessia do deserto de Mojave… e quando um camião nos surge no espelho retrovisor é inevitável pensar em “Duel” ao mesmo tempo que um calafrio nos percorre o corpo…já sentimos essa sensação…mas o camião passou e o motorista acenou-nos e um sorriso (re)nasceu na nossa alma.

O sucesso de “Duel”, realizado para o pequeno écran, foi enorme, acabando a película por ser distribuída nos cinemas, originando o nascimento de um dos mais famosos cult-movies de sempre. O segredo do filme é a estratégia narrativa adoptada por Steven, concentrando todos os meios ao seu dispor em redor do veículo conduzido por Dennis Weaver… e na verdade acabamos por partilhar de todos os sentimentos que invadem o protagonista da película.

A sua segunda longa-metragem, “Something Evil”/”A Presença do Mal”, ainda para a caixa que mudou o mundo, navega no território do filme de terror, transportando consigo o elemento mais característico dos seus filmes: a família como o espaço celular compacto ou desagregação apreendida, fruto da realidade vivida pelo jovem Steven. Curiosamente foi na tv, e mais tarde na Cinemateca que descobrimos esta obra de Spielberg, que se situa muita na linha dos produtos saídos da “factory” de Roger Corman, onde aprenderam o ofício outros movies brats e possuindo bastantes pontos comuns com “Dementia 13” do noviço Francis Coppola. Por fim, antes do seu baptismo de fogo no grande écran, nasce “Savage” um thriller com Martin Landau, baseado nas investigações que são feitas por um jornalista acerca de um dos nomes nomeado para o Supremo… e aqui estamos num dos territórios menos explorados pelo cineasta…o filme político.

“Asfalto Quente”/”Sugarland Express” foi estreado em Portugal, mas quantas vezes foi reposto? Quantos cinéfilos apaixonados por Steven viram a película? Muito poucos! Mas na época o filme foi “badalado”, aqueles que viram o filme sabem que estamos perante uma obra-prima e certamente se recordam das críticas então escritas… especialmente a que foi publicada na revista de cinema “Isto é Espectáculo” dirigida por Lauro António… e a história desse falso rapto que se transforma em verdadeiro, arrastando atrás da bela e loura Goldie Hawn toda a polícia do Texas, acaba por nos vir à memória muitos anos depois, quando encontramos “A Perfect World” de Clint Eastwood. Estávamos então à beira de descobrir o sistema que iria mudar a história comercial do cinema e marcar o regresso dos Grandes Estúdios ao Território Cinematográfico com a criação do blockbuster, que iria alterar para sempre o sistema de divulgação/distribuição cinematográfico.

(continua)

Rui Luís Lima

Domingo, Dezembro 16, 2007

MICHELLE PFEIFFER – A BELEZA DO TALENTO – Parte 4 – THE END

Michael Hoffman quando decidiu adaptar ao cinema a peça de Shakespeare “Sonho de Uma Noite de Verão” convidou de imediato Michelle Pfeiffer para o elenco e essa comédia do Mestre, que em tempos tinha sido revista pelo cineasta da Big Apple Woody Allen, encontra a adaptação perfeita ao cinema feita aliás pelo próprio Hoffman.
“The Deep End of the Ocean” foi um daqueles projectos em que Michelle Pfeiffer se envolveu por completo, já que o assunto era demasiado importante para ela. O cineasta veterano Ulu Grosbard oferece-nos a história de uma mãe que perde o filho pequeno numa festa, passando uma vida a culpabilizar-se pelo sucedido… apesar de ter um marido que tudo faz para o seu bem estar ser possível, nunca consegue os seus objectivos, até que um dia a criança é descoberta. Recorde-se que este tipo de situações acontece com regularidade nos Estados Unidos… o desaparecimento de crianças infelizmente não é raro. O filme é um perfeito show de Michelle Pfeiffer na arte de bem representar e a forma como ela aborda a personagem que interpreta é de uma sensibilidade inesquecível.

Com a chegada do Milénio, vamos encontrar Michelle Pfeiffer ao lado de uma das grandes estrelas do cinema americano… Harrison Ford na película “What Lies Beneath”, para nós o melhor filme de Robert Zemeckis, que decide homenagear Hitchcock e construir um dos melhores filmes de suspense que nos foi dado ver. Mais uma vez a personagem de Michelle surge no écran perfeitamente “fragilizada” na protagonista, demonstrando todo o seu saber de composição e interiorização de uma personagem. E, pela primeira vez, Harrison Ford assume uma personagem politicamente incorrecta de acordo com as normas Hitchcockianas que tão bem Robert Zemeckis soube transpor para o écran.

Em 2001 vamos encontrar Michelle Pfeiffer ao lado de Sean Penn em “I Am Sam”, na história de um homem com problemas mentais que luta pela custódia da filha de sete anos que lhe foi retirada, mas que possui todo o amor do mundo para oferecer.
No ano seguinte é a vez de “White Oleander” mais uma história no feminino, seguindo-se a experiência de oferecer mais uma vez a sua voz no filme de animação “Sinbad”… a sua estreia no género tinha sido em 1998 com “O Príncipe do Egipto”. Ainda este ano a vimos nessa "fantasia" chamada "Stardust" e no remake de "Hairspray".

Longe vão os tempos da menina loura que fazia publicidade a um célebre shampoo e também da luta por um lugar ao sol nas séries americanas e até muitos já se esqueceram da sua presença em “Grease 2”. Mas todos se recordam dela em “Frankie and Johnny” só para referir o meu filme favorito. Michelle Pfeiffer é o exemplo perfeito de uma actriz em que o talento é a verdadeira beleza.

THE END

Rui Luís Lima

MICHELLE PFEIFFER – A BELEZA DO TALENTO – Parte 3

Com tamanhos sucessos, tanto da crítica como do público, Michelle Pfeiffer atingiu o estatuto de estrela no verdadeiro sentido da palavra e foi com grande curiosidade que a fomos encontrar ao lado dessa outra grande estrela chamada Robert Redford, falamos desse filme extraordinário mas pouco conhecido “Up Close & Personal”, passado nos meios do pequeno écran e que infelizmente passou perfeitamente despercebido no nosso país, sendo a passagem na tv é rarissíma. A história de uma jornalista do interior dos EUA que chega a um grande canal de televisão e encontra a pessoa certa para a ajudar na carreira, é bastante diferente do argumento sobre o mesmo media realizado por James Brooks e intitulado “Edição Especial”, embora ambas as películas sejam excelentes. Porque se o movie de Brooks trata da ascensão com pouco escrúpulos de um pivot de Tele-Jornal, já o filme de Jon Avnet, com o Redford no protagonista teria, como não poderia deixar de ser, de transmitir essa mensagem de liberalismo, que o actor sempre defendeu ao longo da sua carreira tanto como intérprete, como realizador e produtor, não é por acaso que a personagem de Redford se chama Warren Justice. A interpretação de Pfeiffer é excelente e a verdade dos factos acaba por chegar demasiado tarde ao seu conhecimento.

A filmografia de Michelle Pfeiffer é um verdadeiro colar de pérolas, mas se perguntarmos ao público anónimo, consumidor de televisão, o nome do filme da actriz mais vezes visto… a resposta recai em “Um Dia em Cheio”/”One Fine Day”… as razões prendem-se ao facto de a dupla feita com George Clooney ser perfeita, ao mesmo tempo que a película surge como a ideal para toda a família com todos os condimentos necessários. Na verdade esta comédia romântica, dirigida por Michael Hoffman, possui todos os ingredientes para o sucesso e assim aconteceu. Quem não conhece o filme? Muito poucos e somos obrigados a confessar que esta película que se apresenta “ligeira” está com a tradição clássica de Hollywood de todas aquelas comédias românticas que continuam a fazer as delícias dos cinéfilos.

Michelle Pfeiffer chegou por fim àquela idade da vida em que o seu nome é incontornável na História do Cinema e a escolha dos filmes seguintes começaram a prender-se com questões mais de gosto pessoal do que imposição dos Estúdios, ou seja ela soube perfeitamente escolher o seu lugar ao sol, longe das grandes multidões e da imprensa sensacionalista, forma de estar que começou a cultivar bastante cedo. É assim com naturalidade que a vamos encontrar em “A Thousand Acres” em 1997, uma daquelas películas no feminino… a realizadora é Jocelyn Moorhouse, a novela adaptada de Jane Smiley e a argumentista foi Laura Jones. Como partenaire Michelle teve ao seu lado outra mulher como ela… Jessica Lange… e nada melhor que estas duas actrizes para serem oponentes no filme, apesar de irmãs e amigas… mas o destino por vezes traça caminhos infindáveis e desavindos, como sucede na história. Estamos assim perante mais um daqueles movies que merece ser descoberto pelo grande público e onde a América profunda serve mais uma vez de paisagem.

(continua)

Rui Luís Lima

Sábado, Dezembro 15, 2007

MICHELLE PFEIFFER – A BELEZA DO TALENTO – Parte 2

Com o nome já perfeitamente cimentado e com estatuto de estrela, decide alterar o registo, no desejo de mostrar a capacidade das suas performances e surge em “A Casa da Rússia” ao lado de Sean Connery, baseado no famoso romance de John Le Carré. Não nos esqueçamos que algumas sequências do filme foram rodadas no nosso país.
No ano de 1991 volta a encontrar-se no grande écran com Al Pacino em “Frankie and Johnny”, o outro lado da moeda de Pretty Woman, como muitas vezes se referiu o filme de Garry Marshall e na verdade a interpretação de ambos é soberba… dois seres à beira do abismo, com as suas vidas solitárias perfeitamente bloqueadas, vão-se encontrar no local de trabalho (o restaurante) e criar uma relação que ultrapassa tudo aquilo que nos foi oferecido até então pelo cinema contemporâneo.

Quando Tim Burton foi convidado a prosseguir as aventuras de Batman, convidou Annette Bening para protagonizar essa personagem felina da banda desenhada intitulada “Cat Woman”, mas Annette ficou entretanto grávida e foi obrigada a recusar o papel. O que se passou a seguir foi a descoberta de um outro tipo de sensualidade, ao deparar-mos com a Michelle Pfeiffer a protagonizar essa “Cat Woman”, profundamente sensual e perigosa. Como todos sabemos o movie foi um sucesso e apesar desse ambiente muito negra que caracterizou o Batman de Tim Burton… a Cat Woman de Michelle Pfeiffer ficou para a História.

Com um curriculum tão diversificado e uma carreira construída a pulso, foi com enorme curiosidade que todos nós fomos descobrir o filme de época de Martin Scorsese “The Age of Innocence”/”A Idade da Inocência” baseado no romance de Edith Wharton e no qual Scorsese faz a sua homenagem ao cinema Viscontiano como é perceptível de se ver, não nos esqueçamos que o Martin é um dos maiores cinéfilos e conhecedores a trabalhar em Hollywood, basta ver a forma apaixonante como ele fala da História do Cinema. Mas voltando a Pfeifer e à sua Ellen Olenska, somos obrigados a fazer como Daniel Day Lewis, tirar o chapéu e beija r a mão de tão formosa dama, sendo impossível não nos apaixonarmos pela sua interpretação.
Nesse mesmo ano (1993) Michelle Pfeiffer casa-se a 13 de Novembro com David E. Kelly criador das séries “Picket Fences” e “Chicago Hope”.

Todos sabemos como Mike Nichols é um excelente cineasta e quando ele decidiu juntar Jack Nicholson e Michelle Pfeiffer em “Wolf”/”Lobo” todos ficámos um pouco como o cão de Pavlov quando ouvia a sineta a tocar… o nosso “reflexo condicionado cinematográfico” não nos traiu, porque a obra de Nichols é um verdadeiro achado, não só a forma como retrata o mundo editorial americano, mas também a forma como dirige os actores, não nos esqueçamos da sua longa experiência na Broadway. Pena foi que Mia Farrow não tenha podido dar o seu contributo ao filme, já que o papel da esposa de Jack Nicholson estava indicada para ela, mas as atribuladas sessões de tribunal (separação de Woody Allen e não só) impediram-na de dar o seu contributo. Não nos esqueçamos que a presença tanto de Christopher Plummer como de James Spader são uma mais valia para o filme. E a forma como o cineasta termina a história é perfeitamente aliciante, originando uma love story bastante diferente do habitual.

(continua)

Rui Luís Lima

MICHELLE PFEIFFER – A BELEZA DO TALENTO – Parte 1

Michele Pffeifer é loura, de olhos azuis e obteve sucesso na sua já longa carreira. No entanto não é a beleza que dizem possuir (e possui na realidade) que a conduz na sua profissão, mas sim o amor pela Sétima Arte.

Ela é a primeira a dizer que a sua tão falada beleza, não é tão interessante “como falam”. O género de beleza que verdadeiramente admira é o de Meryl Streep. Ao fazer esta afirmação, Michelle Pfeiffer demonstra bem que o seu comportamento, ao longo do tempo, está ligado à sua personalidade e não é a sexy girl que dela alguns pretenderam fazer. “Charlie Chan…” foi um dos seus primeiros filmes e seria com a película de Allan Carr, “Grease 2”, explorando o sucesso do primeiro movie com John Travolta, que a bela Michelle começou a ser notada. Ela, que antes tinha participado num modesto concurso denominado “Miss Orange Country” para conseguir entrar em pequenos papéis na tv no início da carreira e ter participado em alguns anúncios, incluindo o do célebre Shampoo… até começar a ser notada nas séries…. no início da carreira.

Quando Brian de Palma realizou “Scarface”, o seu filme mais ambicioso e ao mesmo tempo o seu grande desastre financeiro, a actriz convidada para contracenar com Al Pacino foi Michelle. O seu olhar gelado, o rosto constantemente pálido, praticamente doentio e contagiante, da sua figura viciada na cocaína tornaram a sequência de “Rush, Rush” o momento alto da película.
Em “Scarface” a beleza é doentia e Michelle ganha a aposta da sua carreira: o seu valor artístico ultrapassa e anula, se necessário, as linhas sinuosas do corpo.
“Ladyhawke”/”A Mulher Falcão” do veterano Richard Donner é o seu filme seguinte, ao lado de Matthew Broderick e Rutger Hauer. È a Idade Média com as suas histórias de cavalaria, recheadas de lendas e magias, onde o amor e os códigos de honra são os símbolos supremos dos heróis.

“Pela Noite Dentro”/”Into the Night” de John Landis, oferece-nos de novo o rosto de Michelle Pfeiffer ao lado de Jeff Goldblum, transformando-os em filhos da noite, perdidos nocturnamente na voragem da escuridão. Mas se até aqui permaneceu na “terra de ninguém”, quando rodou “As Bruxas de Eastwick”/”The Witches of Eastwick” ao lado de Cher e Susan Sarandon… e esse “diabo” chamado Jack Nicholson, a sua figura tornou-se inesquecível e o seu rosto conhecido de milhões. Depois foi a comédia “Married to the Mob”, uma sátira à Máfia profundamente hilariante… até que “Antes do Anoitecer”/”Tequila Sunrise” a lançou para o primeiro escalão das estrelas de Hollywood… não nos esqueçamos que a presença de Mel Gibson e Raul Júlia são fundamentais para o desenvolvimento da película.

Se até aqui a figura de Michelle Pfeiffer ainda tinha obtido o sucesso da crítica, com “Dangerous Liaisons” de Stephen Frears… a sua Madame de Tourvel arrancou lágrimas aos corações mais empedernidos e o argumento de Christopher Hampton é perfeito de contenção, assim como a realização de Frears.
Estava assim alcançado um dos grandes objectivos da actriz, mas na película seguinte ela iria surpreender todos não só pela sua sensualidade, mas também pela sua voz ao cantar nesse extraordinário movie que é “Os Fabuloso Irmãos Baker”… os manos neste caso concreto são os Bridges… Jeff e Beau. Inesquecível a sequência em que ela começa a cantar e estabelece uma relação perfeitamente erótica com o piano.

(continua)

Rui Luís Lima

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

FRANCIS FORD COPPOLA E A PAIXÃO DO CINEMA – Parte 6/The End

“DRÁCULA” GOES TO “APOCALYPSE NOW REDUX”


Quando o motorista que conduzia a viatura onde seguia o cineasta G.W.Murnau se despistou e o Cinema perdeu um dos seus maiores génios e também o autor dessa obra única intitulada “Nosferatu”... depois a personagem criada por Bram Stoker na literatura seria adoptada por um outro génio desconhecido de muitos... de seu nome Tod Browning.

Aquando do célebre ciclo na Cinemateca, em que foram descobertas as preciosidades deste cineasta... autor do célebre “Freaks”... foi-nos oferecida também a descoberta de Lon Chaney... o actor dos mil rostos... e não só! O seu “Drácula” ficou famoso também para a História do cinema e é com profunda nostalgia, quando recordamos o conde com a sua capa...Bela Lugosi no seu apogeu... e aquele microfone que surge pendente e que rapidamente sai de cena... é na verdade imenso o amor que se pode ter pela obra deste realizador, desde que ela seja divulgada. Depois a “Hammer” britânica tomou bem conta do mito e Christopher Lee foi um verdadeiro Drácula, um perfeito gentleman, sempre a ser perseguido pelo Peter Cushing...o mito do conde da Transilvânia chegou ao écran para ficar... navegando de continente para continente, ora era Roman Polanski que decidia jogar a comédia com o mito em “Por Favor Não me Morda o Pescoço” ou então Werner Herzog que retomava a herança de Murnau e realizava um novo “Nosferatu” com um Klaus Kinski inesquecível, para já não falarmos dessa versão em 3D assinada pela dupla Andy Wahrol/Paul Morrisey intitulada “Sangue Virgem para Drácula”. Perante uma herança tão repleta de referência e estilos foi com espanto que muitos viram o anúncio de Francis Coppola de que iria realizar uma nova versão do Mito.

Estamos assim perante não uma nova versão, mas sim com uma obra profundamente fiel à literatura gótica, já que Francis não só optou pela fórmula “Bram Stoker’s Drácula” como a forma barroca como realizou o movie, contando com um soberbo guarda-roupa da responsabilidade de Eiko Ishioka e para aqueles que não sabem, a segunda equipa foi dirigida pelo seu filho Roman, the man of “GQ”. Desta feita a Winona Ryder aguentou a pressão, talvez devido ao sentido tranquilo de Keanu Reeves perante a turbulência controlada de Gary Oldman, num Drácula cheio de maneirismos (no bom sentido), já que tenta retomar também o mito do gentleman, perante a inocência da sua jovem “presa”. O Van Helsing interpretado por Anthony Hopkins terminou por fazer a diferença, já que a sua personagem é de tal intensidade, que nos obriga quase a estar do lado das “trevas”. Perante o êxito de “Bram Stoker’s Dracula”, Francis falou em adaptar para o cinema o famigerado book de Mary Shelly “Frankenstein”... intitulado também como “Mary Shelly’s Frankenstein”, mas seria Kenneth Brannagh a assinar a obra, embora Coppola fosse o produtor. Os meios oferecidos a Kenneth foram imensos, mas o actor/realizador não conseguiu atingir o nível de Francis, apesar de contar com um Robert de Niro no personagem criado por Mary Shelly.
Quando Francis Ford assina a feitura de “Jack” com Robin Williams, muitos pensaram que o cineasta se tinha enganado no plateau... a história de uma criança que possui envelhecimento precoce e que embora tenha apenas dez anos no B.I., possui corpo de quarenta, sendo o seu universo o das crianças, suas colegas na escola. “Jack” acabou por ser mais um veículo para Robin Williams brilhar, do que o novo movie de um grande cineasta... possivelmente o tal seu filme menor.O que se iria seguir na carreira era na verdade uma incógnita, mas ele regressou em grande forma com “The Rainmaker” baseado num romance de John Grisham, então muito em voga e com inúmeras adaptações cinematográficas, “Dossier Pelicano” e “A Firma” entre outros. A simplicidade do argumento esconde uma série de linhas transgressoras, que fizeram da derradeira obra do cineasta um ponto de referência, embora esquecido pela maioria. Trata-se da história de um jovem advogado ambicioso que, ao tratar de pequenos casos, o levam até uma importante rede instalada numa companhia de seguros corrupta. O jovem advogado é Matt Damon, num dos seus melhores papéis...e Danny de Vito dá-lhe aquela ajuda preciosa para a sua interpretação ser brilhante.
Como todos sabemos aquelas vinhas que o cineasta possui em Napa... conhecem o vinho? É Soberbo!!! Foi por vezes o seu seguro de vida... e depois o nascimento do dvd e a carreira dos filhos acabaram por levá-lo a repensar o cinema e a sua memória. Não nos esqueçamos do seu papel, tão ignorado como distribuidor e responsável por podermos usufruir, por exemplo, dessa obra restaurada e musicada pelo seu pai... o épico “Napoleon”/”Napoleão” de Abel Gance... o ter permitido que o sonho de Goddfrey Reggio se tornasse uma realidade com “Koyaanisqatsi” e “Powaqqatsi” oferecendo um novo universo ao documentarismo e de com George Lucas conseguir o apoio necessário para que o Mestre Akira Kurosawa levasse a bom porto o seu “Kagemusha”/”A Sombra do Guerreiro” ou o “Mishima” de Paul Schrader, para já não falarmos do seu papel na divulgação do “Hitler” e “Parsifal” de Syberberg ou o cinema de Godard no novo continente.
Dizíamos nós que a chegada do dvd levou Francis Ford Coppola a ocupar-se da sua obra... e tento em conta todo o material que ficou na mesa de montagem de “Apocalypse Now”, incluindo uma mítica sequência passada na plantação francesa, levaram o cineasta a desejar fazer uma nova versão, que terminou por ser um filme bastante distante do anterior, já que novas direcções são apontadas e novas questões colocadas... se o primeiro “Apocalypse Now” é um filme acerca da Loucura da Guerra, já “Apocalypse Now Redux” é uma obra sobre a Guerra do Vietname... a sequência da plantação é fundamental para alterar a leitura do filme, ao mesmo tempo que o discurso colonialista inevitavelmente surge datado.Mas o que poucas pessoas sabem é que quando “Apocalypse Now” surgiu no Festival de Cannes... quase em “montagem” possuía duas versões para o final, ambas passaram em Cannes, na primeira Willard (Martin Sheen) liquida o “rebelde”coronel Kurtz (Marlon Brando) mas fica no “santuário” deste e ocupa o seu lugar.... foi este o final apresentado na sessão a concurso e o favorito de Coppola... que como sabemos ganharia a Palma de Ouro. Aliás na conferência de imprensa no Festival o cineasta diria que “...gosto deste fim. Há pessoas que querem que se dê ao público uma conclusão agradável, antes de o mandar para casa. Mas, honestamente, o meu fim é este.”... no dia seguinte no Olympia passou a versão que é conhecida de todos. Curiosamente Francis não esteve presente na segunda exibição declarando que não iria estar presente porque não apreciava aquela versão.

Nesta “coisa” de finais não ficámos por aqui, porque logo na estreia da película nos States o cineasta, após duas semanas de exibição, retirou a parte final em que se via o bombardeamento do “Santuário” do Coronel Kurtz ao som de “The End” dos Doors, devido às leituras que foram feitas por muita da crítica da especialidade e de algum público... essa mesma versão... a “original” foi a que passou durante anos nas nossas salas de cinema e nunca me poderei esquecer do desalento que tive ao verificar que ela estava cortada em “Apocalypse Now Redux”.


Francis Ford Coppola começou a cuidar da sua obra cinematográfica... e a beleza da edição em dvd de “One From The Heart”/”Do Fundo do Coração” ou a da saga de “O Padrinho”/”The Godfather” diz tudo. Mas em 2001 ainda deu uma ajudinha ao seu amigo Walter Hill... aqui fica a história: “Supernova” um daqueles filmes de ficção-cientifica, mal amados à nascença, cuja acção decorre no século XXII, com James Spader e Angela Bassett nos protagonistas, quase não viu a luz do écran, já que o seu realizador Geoffrey Wright se despediu, depois os produtores chamaram Walter Hill para salvar o movie e Jack Sholder também deu aquela “mãozinha”, mas seria Francis Ford Coppola o responsável pela derradeira montagem da “obra”... recordando certamente os tempos mágicos passados com Roger Corman. Quanto à autoria da obra... ela iria ser mais um filme assinado por Alan Smithee... o tal cineasta inexistente que assina as obras cinematográficas dos realizadores que recusam a assinar os filmes, porque não se reconhecem neles, tais são as interferências de “terceiros”... mas como Alan Smithee é de tal maneira “reconhecido” pela indústria, “Supernova” foi assinada por um inexistente Thomas Lee. O ano de 2008 irá trazer aos nossos écrans o seu regresso tão esperado ao cinema através dessa obra intitulada "Youth without Youth".

Francis Ford Coppola, um dos maiores movie-brats do cinema e em tempos passados um dos mavericks “favoritos” da indústria, deixou-nos uma obra que é urgente rever na sua totalidade, para que a sua leitura cinematográfica seja uma daquelas prendas que só os cinéfilos amam perdidamente... comparando movimentos de câmara/montagens, direcção de actores e fotografia, ao mesmo tempo que se acompanha a evolução do pensamento artístico desse Génio chamado Francis Ford Coppola!


THE END

Rui Luís Lima

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

FRANCIS FORD COPPOLA E A PAIXÃO DO CINEMA – Parte 5

DO VISIONÁRIO "TUCKER" À OBRA-PRIMA "O PADRINHO"


Coppola tinha regressado ao interior da indústria e, com o apoio precioso de George Lucas, decide levar ao grande écran a história de um grande visionário que, tal como ele, foi simplesmente triturado pelo sistema porque tinha sonhado demais e no mundo os sonhadores quase sempre perderam a partida.

A história de Preston Tucker um visionário do mundo automóvel que, após o fim da segunda guerra mundial, decide criar o carro do futuro indo contra as companhias “institucionalizadas” é, na verdade, o escrever na água de Francis Ford Coppola que, ao realizar “Tucker – The Man and His Dream”, estava a escrever a sua própria história no mundo do cinema. “Tucker” contou com um Jeff Bridges no seu melhor e o discurso final no tribunal, em que lhe é negado o direito da construção em série do seu modelo, é na verdade um discurso do próprio cineasta através da voz de uma personagem, seu alter-ego por excelência. E assim Coppola regressou à indústria ajustando as contas com ela.

O filme de sketches, muito “praticado” nos anos setenta na Europa, respectivamente em Itália e França, começou a ser olhado como uma nova forma de estar no cinema e os seus formatos surgindo assim, com naturalidade numa época em que o cinema americano olhava com nostalgia o cinema europeu, a decisão da produtora de Woody Allen e a de Steven Spielberg de fazerem um movie tendo por tema a cidade de Nova Iorque, nascendo assim “New York Stories”/”Histórias de Nova Iorque”... os cineastas seriam Spielberg, Coppola e Allen, mas Steven acabou por ser obrigado a abandonar o projecto e seria Martin Scorsese o escolhido para o substituir(1). Francis Ford Coppola seria o responsável do segundo episódio “Life Without Zoe” cujo argumento era da autoria da então desconhecida Sofia Coppola, que também foi a responsável pelo guarda-roupa. E se Sofia hoje faz parte de um determinado universo cinematográfico, na altura passou completamente despercebida e o pior ainda estaria para vir. Na realidade, as aventuras mágicas de Zoe, filha de um célebre flautista e a viver a vida como um sonho/conto de fadas representa a ligação perfeita de dois universos cinematográficos distintos, embora haja neles esse lado familiar...chamado Coppola.
Quando dizemos que o pior ainda estava para vir para Sofia Coppola, estamos a falar de “O Padrinho III”/”The Godfather III”. Mas voltemos um pouco atrás... a Paramount pretendia dar continuidade à saga da família Corleone e Mario Puzo e Francis Coppola decidiram avançar com um novo argumento, retratando o final da vida Michael Corleone e a respectiva passagem do “testemunho”. Mais uma vez Al Pacino demonstrou ser o maior actor norte-americano vivo... a sua morte no final é um dos mais belos momentos da História do Cinema, retratando o fim de uma personagem inesquecível.O ambiente em Roma, onde se desenrolou a rodagem da película era no início um verdadeiro caos... a máfia “controlava” ao longe as filmagens do filme, chegando-se até a falar que alguns elementos se introduziram como extras... foi neste ambiente que Winona Ryder chegou a Roma para interpretar Mary Corleone, a filha do poderoso Padrinho e poucos depois o inevitável esgotamento nervoso chegou. Johnny Depp, então seu “namorado”, ainda voou para Itália mas de nada serviu... e foi assim que Francis Coppola, desesperado, se virou para a sua filha Sofia e lhe disse que ela seria a nova Mary Corleone... o que se passou a seguir é de todos conhecidos... a crítica da especialidade saudou a película efusivamente, excepto num ponto... a interpretação de Sofia Coppola... basta consultarem a imprensa da época, nacional ou estrangeira e o resumo é sempre o mesmo... “ a sua interpretação é um verdadeiro desastre”... depois os anos passaram, Sofia Coppola não voltou a estar à frente de uma câmara e preferiu ficar na retaguarda e seguir o caminho traçado pelo pai... e quando todos nós descobrímos a sua primeira película “As Virgens Suicidas”... o aplauso foi unânime... e assim todos se esqueceram da sua passagem pela trilogia de “O Padrinho”, uma das mais fabulosas obras da História do Cinema.

(1)- Martin Scorsese com o seu segmento “Life Lessons”/”Lições da Vida” acabaria por realizar um dos seus mais belos e pessoais filmes de sempre, com um Nick Nolte fabuloso e uma montagem de Telma Schoonmaker digna de Oscar, a questão da influência do amor na criatividade do artista é abordado de uma forma sublime... por aqui o escriba que só o viu na época da estreia em sala apenas meia-duzia de vezes. Mas o melhor, caso não o conheçam, é procurarem o movie e estejam atentos porque nele poderá ser encontrada a fórmula perfeita da modernidade no cinema.

(continua)

Rui Luís Lima

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

FRANCIS FORD COPPOLA E A PAIXÃO DO CINEMA – Parte 4

“COTTON CLUB” E O REGRESSO À INDUSTRIA (PEGGY SUE & JARDINS DE PEDRA)

Depois da viagem pela estrada fora, Francis Ford Coppola investe novamente na grande produção juntamente com Robert Evans (o dinheiro era de Evans). E se “Cotton Club” é um dos filmes mais caros de sempre, deve-se isso em grande parte ao longo período que levou a sua feitura.

Tudo começou em 1977, através de Charles Childs e terminou em Março de 1984, rondando os custos em cerca de 48 milhões de dollars. Mas que é “Cotton Club” para valer tanto?
“Cotton Club” foi o grande clube de jazz de Harlem onde, inicialmente, só podiam entrar brancos para verem os negros tocarem e dançarem, tendo por lá passado nomes como Duke Ellington. Mas é também a história do trompetista Dixie Dwyer (Richard Gere) e do seu grande amor, Vera (Diane Lane), rodando tudo à volta do ambiente então vivido, jazz, gangsters, amizade, apostas e mortes, convivem juntos. No entanto o amor ainda resistia, não havendo nada melhor para o provar que a montagem vertiginosa dos últimos dez minutos da película, onde o real e o imaginário se jogam de uma forma fabulosa, criando um dos mais belos happy end do cinema. “Cotton Club” é, na verdade, um filme para se amar do primeiro ao último fotograma. Francis Ford Coppola regressava assim à industria, comprovando mais uma vez ser um dos Grandes Mestres de uma Arte chamada Cinema e que ficou para sempre designada como a Sétima Arte!

Francis Coppola estava de volta e a Disney encomendou-lhe um pequeno grande movie para exibir nos seus parques temáticos, intitulado “Captain Eo” baseado numa ideia de George Lucas e Michael Eisner e que foi rodado em 3D (três dimensões) e em 70mm, com película eastmankodak e que passou exclusivamente na Disneyworld e Disneyland. A fotografia, como não podia deixar de ser, foi da responsabilidade do Mago Vittorio Storaro... e o intérprete principal foi Michael Jackson, então a navegar em plena crista da onda... e assim a conciliação de Coppola com a Indústria originou o recebimento de mais uma encomenda... chamada “Peggy Sue Got Married”/”Peguy Sue Casou-se” e embora o argumento tenha sido escrito a pensar em Debra Winger para o papel principal, acabou por ser Kathleen Turner a ficar com ele e a dar tão boa conta do recado que acabou por ser indigitada para o Oscar da melhor actriz principal.
“Peggy Sue Casou-se” é uma viagem através de um “mergulho” no passado de uma mulher madura, que regressa à adolescência e volta a viver a vida tal como tinha desfilado perante o seu olhar no passado, só que desta vez até poderia alterar o estado das coisas... ou seria que não... o movie é na verdade uma daquelas fábulas maravilhosas que só o cinema possui o poder de contar.

Estavam assim abertas as portas para o regresso do “maverick” ao convívio da indústria, e nasce então essa obra-prima intitulada “Gardens of Stone”/”Jardins de Pedra”, no qual vamos reencontrar James Caan e Anjelica Huston (que tinha participado no short/big-movie da Disney “Captain Eo”), mas embora o tema do filme seja ainda o Vietname, desta vez Coppola decide optar por ficar em território americano, mais concretamente no aquartelamento da Guarda Nacional, onde se fazem as derradeiras Honras aos soldados caídos em combate... e se a figura do sargento, veterano da guerra da Coreia, protagonizada por James Caan é excelente em toda a sua humanidade, onde o homem “luta” com o soldado, devido ao amor que possui pela mulher amada, que além de ser jornalista está situada no outro lado do conflito (ela é pacifista), como oponente a essa guerra decretada por interesses acima da humanidade. De qualquer forma, o amor será mais forte, mas a imagem que Coppola nos oferece da instituição militar nesse período e os laços que ligam os seus membros, assim como a segunda história de amor entre Jackie e Rachel, personagens interpretadas por D.B.Sweeney e Mary Stuart Masterson... uma love story trágica... mas que servirá para Cllel Hazard (James Caan) e Samantha Davis (Anjelica Huston) olharem o tempo que lhes resta... de uma forma diferente... em que o amor que os une seja mais forte que as instituições que os dividem...

(Continua)

Rui Luís Lima

FRANCIS FORD COPPOLA E A PAIXÃO DO CINEMA – Parte 3

“O FIM DA ZOETROPE E A FUGA ON THE ROAD”

O insucesso de “One From the Heart”/”Do Fundo do Coração” transformou-se em colapso económico e os “Zoetrope Studios” olham a falência "de lado".

Durante o período que antecedeu a crise, Francis Coppola produz “Hammett” de Wim Wenders baseado no romance de Joe Gores, um daqueles policiais inesquecíveis que juntava pela primeira vez dois génios de continentes diferentes... no entanto o relacionamento entre eles não foi dos melhores, o produtor Coppola e o cineasta Wenders faziam leituras diferentes do argumento e as interferências do primeiro foram imensas segundo Wenders, mas também não podemos esquecer que o money era de Francis e aqui, de certa forma, pairava a sombra da memória dessa figura mítica chamada David O’Selznick... e a conclusão da película foi um verdadeiro milagre, transformando-a num dos maiores filmes malditos da década de oitenta... e nunca é demais referir que esse grande actor que se chama Frederick Forrest, era a figura central do movie de Wenders, mas também a personagem principal de “Do Fundo do Coração”, saltando de um plateau para outro.

Coppola tinha chegado ao fim da estrada, mas os atalhos podem conduzir a um novo caminho e o regresso aliado ao êxito comercial surgiu com “Os Marginais”/”The Outsiders”, evocação directa de Nicholas Ray e do seu “Fúria de Viver”, nascendo uma autêntica galeria de novos actores que iriam confirmar todas as suas potencialidades, entre os quais se encontravam Tom Cruise, Matt Dillon, Patrick Swayze, Rob Lowe, Ralph Machio e Diane Lane, entre outros.

Durante este período, onde os meios reduzidos não interferem na qualidade dos filmes, antes os tornam em obras de real importância cinematográfica, são produzidas as aventuras de “O Cavalo Negro”...”The Black Stallion” e “The Black Stallion Returns Again” através da mão de Carroll Ballard e Robert Dalva. Este projecto, das produções Coppola, baseava-se no retorno ao universo mágico do cinema da nossa infância e “O Rei da Evasão”/”The Escape Artist”, dirigido por Caleb Deschanel, foi o terceiro capítulo dessa aventura/série que Francis propunha, situada na fronteira que separa o universo infantil das produções Disney e a memória do sonho pré-adolescente intitulado simplesmente: a grande aventura!

Mas a saga dos “rapazes da rua” iniciada em “Os Marginais” iria continuar em “Rumble Fish”. A sombra de Nick Ray continua a passear no aquário onde vivem os peixes de Francis, de seu nome rumble fish. Não sendo por acaso que essa figura tutelar, chamada Dennis Hooper, membro da geração “Woodstock”, símbolo rebelde da estrada com o seu “Easy Rider”, marco histórico do rock da geração de sessenta e protagonista de “Fúria de Viver” ao lado de James Dean, surge na película ao lado de Matt Dillon, Mickey Rourke e Vicent Spano. Como não podia deixar de ser, Mickey Rourke(1), nesta película, foi comparado por muitos no seu estilo rebelde de “poucas falas” ao Marlon Brando de “Wild One” de Lazlo Benedek, embora hoje o actor recuse o rótulo da época, na verdade ele até gostou ser comparado com Brando, infelizmente o que se seguiu na carreira de Mickey demonstrou que o talento nem sempre navegava no seu interior. Quanto a Vincent Spano, para aqueles que tanto falam de cinema independente, recomendamos a descoberta da obra “Alfabeth City” de Amos Poe... o cineasta do célebre “Subway Riders”. E como curiosidade, nunca é demais recordar que o tio Francis vaticinou um futuro pouco promissor no cinema ao sobrinho Nicholas Cage, que preferiu utilizar o apelido de solteira de sua mãe ao célebre Coppola... ao contrário dos primos Sofia e Roman, que hoje fazem parte de um verdadeiro clã na História do Cinema.

“Rumble Fish” foi a demonstração da luta de um grande cineasta, com a indústria... embora esmagado por ela não baixou os braços e tendo na memória esses tempos de aprendizagem com Roger Corman, Francis sentiu que o regresso às grandes produções estava perto... e “Cotton Club” seria isso mesmo. Quanto a “Os Marginais” e “Rumble Fish” a eterna pergunta foi escrita mais uma vez na areia do deserto... Qual a identidade do construtor de barreiras, que separa/mortifica a juventude? A resposta poderá ser encontrada em “Rumble Fish”!!!


(continua)

Rui Luís Lima

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

FRANCIS FORD COPPOLA E A PAIXÃO DO CINEMA – Parte 2

("APOCALYPSE NOW" VERSUS "ONE FROM THE HEART")

Francis Ford Coppola tinha conquistado o seu estatuto de génio e, como tal, fugiu aos parâmetros de Hollywood ao realizar “Apocalypse Now”, o maior filme de sempre acerca da guerra e das suas consequências, baseado no romance de Conrad “No Coração das Trevas”.

“Apocalypse Now” transformou-se num dos maiores marcos da História do Cinema, sendo a sua inclusão na lista dos dez melhores filmes de sempre, uma realidade a que ninguém pode fugir. O Génio tinha descido do céu e mergulhado no inferno, transportando para o presente as feridas da memória.
Mas a rodagem de “Apocalypse Now” foi um verdadeiro épico... quase tragédia... inicialmente o protagonista era Harvey Keitel, no entanto Coppola não se entendeu com o actor e este acabou por ser substituído por Martin Sheen o qual iria ter, perto do final da rodagem, um ataque cardíaco; por outro lado as condições climatéricas não eram as melhores, depois a rodagem foi interrompida por um tufão, que destruiu os cenários construídos e por vezes os célebres helicópteros postos à disposição pelo governo, eram requisitados para irem combater a guerrilha.

Perante um cenário destes, a esposa de Francis, Eleanor, escreveu essa obra fabulosa intitulada “Notes on the Making of Apocalypse Now” (Limelight Editions), que é o seu Diário... Pauline Kael falou do book como o mais lúcido relato da aventura épica de um cineasta... mas acima de tudo recomendamos a sua leitura... e como não podia deixar de ser esta obra-prima deu origem a um “Making of” que fez história e seria exibido nas salas de cinema “Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse”, realizado por Fax Bahr e George Hickenlooper e como se recordam exibido no nosso jardim à beira mar plantado.

Francis Coppola acabaria por ganhar a Palma de Ouro em Cannes, mas falharia os Oscars e já agora uma curiosidade para os mais novos... na primeira versão distribuída comercialmente a película terminava com a destruição/bombardeamento do Templo onde se refugiara/vivia o coronel Kurtz e os seus seguidores... ao mesmo tempo que os Doors cantavam “The End”. Esta sequência iria gerar polémica nos States, já que muitos viram nela uma apologia da Guerra... e esta leitura, errada, teve tantos adeptos que o cineasta, ao fim de duas semanas de exibição, mandou retirar as cópias de circulação e substituir por outras onde essa sequência era eliminada... em Portugal o filme foi exibido com ela, como muitos estarão recordados... e até a primeira versão surgida em dvd/aluguer possuía essa raridade...mas hoje ela encontra-se na posse de Francis... e temos que nos contentar com a versão “Apocalypse Now Redux”... melhor nuns aspectos... diferente noutros... de facto a arte da montagem é isso mesmo!Só para terminar, mais uma pequena curiosidade, a personagem do Coronel Kurt, foi criada de certa forma por Marlon Brando, porque foi com espanto que Coppola recebeu um Brando calvo e com demasiados quilos para o papel... mas o “método” mais uma vez demonstrou que essa Arte só pertence a alguns!

O sonho de criar uma nova Hollywood, através da sua Zoetrope, ao mesmo tempo que as novas tecnologias davam passos de gigante, levaram o visionário Coppola a entrar na maioria aventura da sua vida: criar Las Vegas em Estúdio, sendo a história contada através de canções e não só, utilizando toda a tecnologia ao seu dispor. Nessa época Francis já atravessava uma determinada crise económica, mas o seu sonho, tal como o de “Tucker” iria levá-lo à ruína, mas nós apaixonados da Sétima Arte, iríamos receber o mais deslumbrante musical de sempre intitulado “Do Fundo do Coração”/”One From the Heart”, conjugando o artifício e o espectáculo ao lado da música de Tom Waits (pena que a Ricky Lee Jones tenha deixado o Tom, porque os duetos com eles seriam fabulosos... assim tivemos a Cristal Gayle... que lá se safou).Feita no maior segredo, a película, quando foi exibida para a crítica cinematográfica, foi pura e simplesmente trucidada pela crítica e a campanha foi de tal ordem que, ao fim de uma semana em exibição, de salas vazias, o cineasta mandou retirar a película do circuito de exibição e o sonho Zoetrope tinha na verdade os dias contados... os credores que já rondavam as portas... não tiveram contemplações com o sonho megalómano do cineasta... mas Coppola, ao contrário de David Wark Griffith(1) que acabou os seus dias a andar por Hollywood esquecido de todos, devido ao insucesso da sua “Babilónia” (nem dinheiro havia para destruir os cenários construídos)... decidiu partir pela estrada fora e recomeçar tudo de novo!

(1)- David Wark Griffith, um dos maiores Génios do Cinemas, como todos sabemos, a quem devemos a criação da linguagem cinematográfica.


(continua)

Rui Luís Lima

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

FRANCIS FORD COPPOLA E A PAIXÃO DO CINEMA – Parte 1

OS PRIMEIROS PASSOS.

“Tonight for Sure” costuma ser apontado como o primeiro movie de Coppola, é simplesmente a compilação de três “nudie-movies” com os títulos de “The Pepper”, “The Wide Open Spaces” e “Come On Out” e nos dias de hoje já nem o cineasta se quer recordar deles... portanto, será melhor escolher o seu movie produzido por Roger Corman como a sua entrada oficial na realização. Recordemos que Roger Corman foi o homem que fez “a ponte” entre o cinema clássico e os movie-brats, nascidos nos anos setenta, ao mesmo tempo que anteriormente tomara conta do deserto deixado pela extinção da série-B... realizando/produzindo movies a um ritmo infernal com meios escassos e grande criatividade, onde o terror é um dos seus géneros preferidos, ou não tivesse ele transposto para o cinema os célebres contos de Edgar Alan Poe.

Francis realiza com naturalidade, mas sempre com aqueles condicionalismos da New World Productions do Roger Corman, “Demencia 13”/”Dementia 13” (1), que de certa forma já apontava algumas das linhas em que se iria basear a futura obra do cineasta. O seu trabalho cinematográfico começaria a ser dividido entre a feitura de argumentos para terceiros, caso de “Paris Já Está a Arder?”,"Reflexos num Olho Dourado","A Flor à Beira do Pântano", "O Grande Gatsby" e o fenomenal “Patton” e os filmes que dirigia: “A Noite é Perversa”/”You’re a Big Boy Now”...o conturbado “O Vale do Arco-Irís”/”Finian’s Rainbow” como lhe chamou Fred Astaire nas suas memórias, em que muitos técnicos foram despedidos ao longo da rodagem e se começava a instaurar um clima de perda de controlo...decididamente o musical ainda não tinha nascido para Francis... e depois nasceria esse assombroso e comovente “Chove no Meu Coração”/”Rain People” com um James Caan inesquecível em busca de um amor que nunca existiu. Mas, com a feitura destas três longas-metragens, começava a nascer uma “família” de técnicos e actores em redor de Francis Coppola.

Foi no início dos anos setenta que este Mestre do Cinema viu chegar a consagração com “O Padrinho”/”The Godfather”, baseado no romance de Mario Puzo. Hollywood reconhecia o seu génio e oferecia-lhe o topo da pirâmide, onde se encontrava o trono. Entre a primeira e segunda parte da obra de Mario Puzo... Coppola realiza “O Vigilante”/”The Conversation”, película sobre a arte da “perseguição” do que vê e escuta, com um fabuloso trabalho técnico de Walter Murch e uma interpretação memorável de Gene Hackman. Ao mesmo tempo, Coppola produz o segundo movie de George Lucas “American Graffiti”... recordamos que ele já fora o produtor dessa obra-prima de estreia de Lucas intitulada “THX 1183”... ainda estavam longe os tempos de “Star Wars”. Em “American Graffiti”, curiosamente, um dos actores é Ron Howard que se tornaria conhecido como realizador... capaz do melhor e do pior... e claro....já oscarizado(2)... o movie de Lucas em Portugal chamou-se “Nova Geração” e acabou por servir de modelo a centenas de películas, baseadas na explosão juvenil e na febre do “rock and roll”, aliás a banda sonora é na verdade uma antologia Histórica.

No entanto a obra de Coppola, “O Padrinho”, possuía na montagem e no argumento, uma das suas grandes virtudes, mas Francis não resistiu à tentação de remontar os dois filmes de forma cronológica para a sua exibição no pequeno écran, ao mesmo tempo que lhe adicionava mais 55 minutos de metragem deixados na mesa de montagem... e foi assim que de 12 a 15 de Novembro de 1977 foi exibida em quatro episódios na NBC uma nova versão de “The Godfather”. Mas nessa época já o livro de Joseph Conrad “No Coração das Trevas” permanecia acordado ao longo da madrugada nas mãos de Francis Ford Coppola.

(1)- Antes de realizar “Dementia 13”, Francis Coppola remontou e dobrou o filme russo “Sadko-C” de Alexander Ptouchko que seria rebaptizado de “The Magic Voyage of Sinbad”, depois seria a vez do cineasta russo Alexander Kosyr ver o seu filme “Nevo Zovet” ter o mesmo destino e receber o título de “Battle Beyond the Sun”. Depois Francis passaria a assistente de realização de Roger Corman em “Premature Burial”/”Enterrado Vivo”, e de seguida escreveu os diálogos de “The Tower of London” seria o engenheiro de som de “The Young Racers” e finalmente após toda esta aprendizagem... digamos “tarimbeira” dirige a segunda equipa de “The Terror”, de referir que as quatro películas seriam assinadas por Roger Corman... e isto tudo no espaço de ano e meio... Era assim na escola do Mágico Roger Corman!

(continua)

Rui Luís Lima

Domingo, Dezembro 09, 2007

“DEBRA WINGER – O ADEUS A HOLLYWOOD” – THE END

Dois anos depois nasce “Esquecer Paris”/”Forget Paris”, uma comédia negra escrita, realizada e interpretada por Billy Crystal.. infelizmente esta comédia, apesar ou devido ao seu humor negro, esqueceu-se facilmente.
Debra Winger, tal como John Travolt,a talvez uma daquelas actrizes a quem a sorte não sorriu, diremos mesmo voltou-lhe as costas e partiu. Se Travolta recuperou os anos perdidos após o seu renascimento em “Pulp Fiction” de Tarantino, depois de recusar filmes que foram grandes sucessos, já Debra Winger verificou com a passagem do tempo que o destino lhe foi fatal.
Em finais de oitenta divorcia-se de Timothy Hutton e só em 1996 resolve voltar a casar, com o actor/realizador Arliss Howard (que vimos recentemente nas nossas salas em “O Mapa do Mundo”), com quem interpretou “Big Bad Love”, onde surge pela última vez no grande écran a encabeçar o elenco… Arliss também assinou a realização.

Mas voltando um pouco atrás… em 1982 Debra Winger recusou o papel interpretado por Glenn Close em “Atracção Fatal”/”Fatal Attraction”. Nesse mesmo ano, James Brooks escreve o papel da personagem interpretada por Holly Hunter em “Edição Especial”… recorde-se que ele é o cineasta de “Laços de Ternura”. Depois recusou os papéis principais de “Peggy Sue Casou-se” que foi para Kathleen Turner e, caso raro, Coppola pensou em Debra para a personagem desde o início. Mais tarde, foi a vez de “Os Fabuloso Irmãos Baker”, com os manos Bridges, que se iria transformar no trampolim de Michelle Pfeifer. E como não há duas sem três ou quatro sem cinco… “The Music Box”/”A Caixa de Música” de Costa Gavras também viu Debra Winger a virar as costas ao projecto e a mais um cineasta com quem tinha trabalhado anteriormente; todos sabemos como é importante em Hollywood manter as boas relações, principalmente com cineastas já conhecidos de outras películas em que pertenceram à mesma equipa. Por fim esse filme de basebol no feminino (até a Madonna quis estar presente) intitulado “Liga de Mulheres”/”A League of their Own”, viu a personagem que lhe estava destinada a ir para as mãos de Geena Davis.

Hoje todos nós sabemos o que são estas películas e como teria sido excelente ter podido ver a Debra Winger nesses filmes, mas as suas opções foram outras. Não nos esqueçamos que Humphrey Bogart começou a ser notado nos filmes de gangsters, porque aceitava sempre os papéis recusados por George Raft, que estava farto de ser o gangster man de serviço… mas também não nos esqueçamos que a História do Cinema está cheio de segundas e terceiras escolhas que fizeram um sucesso estrondoso, como é o caso do celebérrimo “Casablanca” em que nem Bogart, nem Ingrid Bergman foram a primeira dupla… e depois sabemos o que se passou, apesar de recentemente os filhos de ambos terem dito que os pais nem sequer apreciavam muito a película… e no entanto as suas interpretações são inesquecíveis!!!! Foram as escolhas de Debra Winger que ditaram de certa forma o seu destino e a decisão de deixar Hollywood. A sua última interpretação de destaque, foi num telefilme realizado pelo seu marido, Arliss Howard, intitulado “Dawn Anna” baseado na vida da mãe de um dos jovens assassinados na tragédia do liceu de Colombine. Debra Winger virou as costas a Hollywood ou vice-versa, mas o cinema possui nela uma das grandes intérpretes do cinema contemporâneo!

THE END

Rui Luís Lima
“DEBRA WINGER – O ADEUS A HOLLYWOOD” – Parte 2

Quando Bob Rafelson decidiu juntar Debra Winger e Theresa Russell em “A Viúva Negra”/”Black Widow” sabia que estava a criar um cocktail explosivo e curiosamente o cineasta ofereceu a Winger a possibilidade de escolher uma das duas personagens principais, já que estamos perante um duelo/thriller no feminino. Este filme um pouco ignorado na sua época, merece ser redescoberto não só pelo cineasta, mas também pelas interpretações.

No ano seguinte seria a vez de Costa Gavras, então a filmar na América, a convidar a reinterpretar de certa forma a personagem do seu filme anterior… agente do FBI… mas desta vez num movie profundamente político, com Tom Berenger no protagonista e o hoje célebre Joe Eszterhas a assumir o argumento… que retrata a extrema-direita norte-americana, revelando o seu “way of life”, igual ao de tantos americanos dessa América profunda que muitas vezes decide os destinos da nação americana, mas escondendo no seu interior ideologias profundamente extremistas e perigosas. Estamos perante mais um filme a descobrir ao lado da primeira película de Tim Robbins, esse falso documentário/obra-prima intitulado “O Candidato”.

No início dos anos noventa, Debra Winger reencontra Nick Nolte no filme de Karel Reisz “Everybody Wins”, baseado na peça de Artur Miller. Chegamos assim ao nosso filme favorito da Mary Debra Winger… “The Sheltering Sky”/”Um Chá no Deserto” de Bernardo Bertolucci, baseado na obra-prima de Paul Bowles já editada em Portugal com o título “O Céu que nos Protege”… e que, de certa forma, retrata alguns aspectos biográficos da vida do escritor e da sua mulher Jane (também ela escritora/dramaturga). Curiosamente Bertolucci convoca o próprio Paul Bowles para o interior da sua película como personagem, observando o movimento da sua criação literária.
Debra nunca esteve tão bem e a sensualidade que transporta no seu olhar invade o universo inevitavelmente. Mesmo nas cenas trágicas, em que a morte começa a visitar Port (John Malkovich), a figura de Kit (Debra Winger) irradia uma frescura só possível de encontrar nos oásis e mesmo quando ela por fim regressa à civilização é o seu olhar ferido e comovente que nos fica na memória, como simples e profundas marcas eternas do deserto.

Mas as suas escolhas seguintes, ao contrário de “Um Chá no Deserto”, acabariam por não deixar qualquer marca… “Leap of Faith”, “ Wilder Napalm” e “Dangerous Woman” foram esquecidas facilmente e só nesse fantástico melodrama dos anos noventa intitulado “Shadowlands”, assinado por Richard Attenborough, reencontramos Debra Winger no seu melhor interpretando a personagem mais comovente da sua carreira, ao lado de Anthony Hopkins. O filme retrata o amor/romance do escritor C.S.Lewis (Hopkins) autor de livros infantis entre os quais as célebres "Crónicas de Narnia" e de Jay Gresham (Winger) uma admiradora americana que o decide visitar com o seu pequeno filho, para ambos conhecerem o autor das mais maravilhosas histórias de encantar… mas a tragédia também chega com ela, nesses distantes anos trinta. Estamos aqui perante um dos mais belos melodramas dos anos noventa, fazendo recordar o grande Mestre do género… Douglas Sirk.

(continua)

Rui Luís Lima

Sábado, Dezembro 08, 2007

“DEBRA WINGER – O ADEUS A HOLLYWOOD” – Parte 1

A vida é uma grande aventura” confessava Debra Winger, após ter-se casado com Timothy Hutton, para surpresa de muitos incluindo o Robert Redford, mas o futuro acabaria por se revelar bastante diferente das grandes esperanças criadas.

O cineasta James Bridges caracterizou-a como inteligente e actriz por instinto enquanto James Brooks, também ele realizador, afirmou: “quando acabávamos as filmagens, encontrávamos outra pessoa, totalmente diferente. A sua colega em “Laços de Ternura” Shirley MacLaine referia-se a ela como “a querida, brilhante, turbulenta Debra, que funciona com um ritmo diferente de todos nós”. Esta estrela, então em ascensão, nasceu no Cleveland – Ohio e quando disse ao pai que queria ser actriz de cinema ele riu-se, respondendo que as estrelas de cinema tinham que ser bonitas.

Debra Winger começou na publicidade, passando depois para a série “Wonder Woman” e em 1978 estreou-se no cinema com “Thanks it’s Friday”, seguindo-se “French Postcards” e “Urban Cow-boy” ao lado de John Travolta, sempre em papéis secundários, até que é a estrela radiante do magnífico filme de David Ward “Cannery Row”/”Bairro da Lata” ao lado de Nick Nolte. John Huston era o narrador do maravilhoso livro de John Steinbeck.
Muitos se interrogaram acerca daquela maravilhosa actriz de voz rouca, mas até hoje foram muito poucas as oportunidades de rever no grande écran de forma a podermos recordar Debra, naquela fabulosa película… o canal de tv Turner Classics programa o movie com regularidade, mas não há nada como o grande écran… e quem o viu na época, no cinema S. Jorge, entende as razões.
Depois foi o sucesso estrondoso, mais por estar ao lado de Richard Gere, do que dela própria, estamos a falar de “Oficial e Cavalheiro” e como quase sempre acontecia na época Debra seguiu o exemplo de outras colegas suas, recusando a voltar a trabalhar com Gere.

“Laços de Ternura” de James Brooks colocava de novo na ribalta Debra, ao lado de Shirley MacLaine e Jack Nicholson, sendo a sua interpretação memorável. Para aqueles que não sabem, ela foi a famosa voz de “E.T”. no movie de Steven Spielberg devidamente trabalhada electronicamente. Apesar de Steven nunca a ter convidado para protagonista dos seus filmes, sempre mantiveram uma relação cordial.
Ivan Reitman que se tornou famoso ao assinar “Os Caça-Fantasmas”, realizou “Legal Eagles” /”Perigosamente Juntos” com Robert Redford e Debra Winger com novo visual… e para Ivan “ela é a figura exacta de Laura Kelly, ela é o motor do filme”. Robert e Debra formaram o par perfeito desta película, aliás numa antiga entrevista Debra confessava que a idade ideal para o seu companheiro seria 45 anos, porque gostava de homens mais velhos. No entanto a vida desmentiu este pensamento e ela com 31 anos casou-se com o Timothy Hutton que tinha 26 anos.
“Perigosamente Juntos” é uma história de advogados com um caso estranho em mãos. Filme de actores perfeito, a película de Reitman dá-nos a conhecer essa maravilhosa arte de representar através das interpretações de Redford e Winger.
Reconhecida por muitos como uma actriz que se entregava ao cinema de corpo e alma, o futuro acabaria por alterar os seus projectos, tanto artísticos como familiares.

(continua)

Rui Luís Lima

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

DAVID BOWIE NO CINEMA (1984 – 2007) – Parte 2 – THE END

A reconstituição da obra-prima de Fritz Lang “Metropolis” era um dos projectos de David Bowie, mas a batalha pelos direitos da obra em questão acabaria por ser ganha por Giorgio Moroder. O que seria o filme de Lang revisto por Bowie? Nunca o saberemos, mas certamente muito mais fascinante que a obra que nos foi oferecida por Moroder... como curiosidade, não queremos deixar de referir que Bowie deu voz à banda sonora do remake do filme de Jacques Tourneur “Cat People”... que Paul Schrader levou a efeito e cujos resultados foram, na verdade, muito acima das expectativas.

O célebre livro de George Orwell “1984”, fez também parte dos projectos não concretizados de David Bowie, primeiro uma adaptação para um musical e depois a banda sonora para o filme de Michael Radford, que lhe foi retirada e entregue ao grupo “Eurytmics”.
A sua obra videográfica é tão extensa que dela falaremos numa outra oportunidade, no entanto é sempre de mencionar essa obra-prima do video-clip intitulada “Jazzin For Blues Jeans” já que o “clip” em questão é retirado de um filme com o mesmo nome realizado por Julian Temple, produzido e interpretado por Bowie, o qual obteve o Grammy respectivo, equivalente aos Óscares no Cinema.
Neste filme é abordada a luta entre duas estrelas, uma no apogeu e outra na decadência, pela posse da mulher amada. Sendo ambas as personagens interpretadas, magistralmente, por David Bowie.

Mais tarde iremos encontrar o David nesse filme charneira de John Landis, intitulado “Into The Night”/”Pela Noite Dentro” a vestir a pele de um dos gangsters... e ladys and gentlemen... ele está de bigode... a Michell Pfeiffer dava aqui os seus primeiros grandes passos a caminho do estrelato. No ano seguinte, o reencontro com o cineasta Julian Temple leva-o a participar nesse filme musical único... intitulado “Absolute Beginners”, que merece ser reavaliado... seguiu-se o convite de Jim Henson para participar na magia de “Labitinto”/”Labyrinth”.

No ano de 1988 Martin Scorsese consegue finalmente concretizar o seu ambicionado projecto de levar ao cinema “A Última Tentação de Cristo”/”The Last Temptation of Christ” e ninguém melhor do que David Bowie para encarnar a figura de Pôncio Pilatos, nessa obra magistral e profundamente religiosa.
Na obra chave da série televisiva de David Lynch...”Twin Peaks” que recentemente foi reposta... a interrogação mantinha-se...Quem Matou Laura Palmer? E foi com “Twin Peaks: Fire Walk With Me” que as suspeitas se concretizaram no grande écran... David passou por lá... mas seria a sua personagem de Andy Wahrol no filme “Basquiat” de Julian Schnabel que nos ficou na memória. Bowie surge irreconhecível a interpretar Andy Wahrol... e se para alguns a personagem surge por vezes demasiado feminina... ele está igual a Andy, seja nos gestos ou na fala... a sua interpretação é simplesmente sublime e o duelo que mantém sobre pintura com Basquiat é, na verdade, antológico.

Ao longo da sua carreira musical, David Bowie, foi sempre conhecido pelas suas metamorfoses e no cinema elas também fizeram parte da sua existência como actor, basta recordar “O Homem Que Veio do Espaço”, “Ziggy Stardust”, “Labirinto”, “Fome de Viver”, mas seria no desconhecido “Mr. Rice's Secret” datado de 2000, no qual surge como personagem principal num filme mágico possuidor de uma fabulosa caça ao tesouro, em busca de uma poção mágica que possibilite o milagre da cura a um jovem que se encontra em estado terminal, a sua maior transformação... já agora recordemos que Mr. Rice tem a bonita idade de 400 anos e a sua caracterização é soberba. Para muitos, este filme realizado por Nicholas Kendall é um filme sim de David Robert Jones ou seja David Bowie.
De regresso aos espectáculos ao vivo, “Live by Request: David Bowie” foi o último filme em que participou, na sua própria pele, deixando de lado a faceta camaleonica.

A maior produção de Luc Besson “Arhtur e os Minimeus”/”Arthur and The Minimeus” também conta com a voz de Bowie na personagem de Maltazard. A voz inconfundível de David Bowie e a sua música fazem já parte da herança musical do século xx e neste século Philip Glass irá concretizar a revisitação da sua trilogia de Berlin com Brian Eno.

Rui Luís Lima

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

DAVID BOWIE NO CINEMA (1976 – 1983) – Parte 1

A chegada do herói dos mil rostos ao cinema, surgiu com a curta-metragem “Imagem”, ao mesmo tempo que trabalhava na publicidade. Mas seria a música a absorver todo o seu talento até 1976... e até essa data ele foi um verdadeiro camaleão, quem não se lembra de Ziggi Stardust and the Spiders of Mars, não eram todos eles actores numa longa-metragem intitulada glam-rock... ano em que Nicolas Roeg o envia definitivamente para o mundo da sétima arte através de “O Homem Que Veio do Espaço”.

Poderemos dizer que sem Bowie esta película nunca teria existido, já que é ele o elemento fulcral do filme e o corte do desejo da visão em frente do espelho, esse outro olhar que nos perturba, figura como a melhor 1978 o actor sequência da película... verdadeira homenagem a esse cineasta chamado Luís Buñuel e ao movimento surrealista no cinema.
Após o trabalho com Roeg, parte para a Alemanha, mais concretamente Berlin, dedicando-se à pintura, ao mesmo tempo que colabora com Brian Eno e o seu mundo electrónico, dando assim origem à célebre trilogia de Berlim composta por Low, Heroes e Lodger, que recentemente foi revisitada pelo compositor Philip Glass, tendo o próprio Bowie refeito os temas instrumentais integrando-os em toda a sua plenitude num outro contexto, provando desta forma o sentido vanguardista e contemporâneo do seu trabalho no interior da música... o mesmo sucedeu com “Music From Airports” de Brian Eno.

Em 1978 o actor e realizador David Hemmings (recordam-se dele na personagem do fotógrafo em “Blow-up” de Antonioni) dirige Bowie em “Just a Gigolo”, versão cinematográfica de uma peça apresentada em Berlin, por David Bowie ao lado de Marlene Dietrich e Kim Novak.
Podia-se então começar a falar de uma carreira cinematográfica de David Bowie, primeiro o filme choque de uma geração...o célebre "Christiane F" de Uli Edel e depois “Hunger”/”Fome de Viver” (1982) de Tony Scott, oferece-nos uma história de vampiros, ao lado da então bela Catherine Deneuve, oferecendo-nos uma história moderna de vampirismo...bem longínqua dos filmes da Hammer ou da revisão do género efectuada pela dupla Andy Wahrol/Paul Morrissey, onde o envelhecimento/caracterização da personagem interpretada por David Bowie é simplesmente surpreendente.

Mas na realidade a grande surpresa cinematográfica de David Robert Jones (o nome que figura no B.I. de David Bowie) seria “Feliz Natal Mr. Lawrence”/”Merry Christmas Mr. Lawrence” (1983) do cineasta japonês Nagisa Oshima, então no seu apogeu pós – “Império dos Sentidos”... personificando David Bowie, um oficial britânico prisioneiro das forças japonesas num dos seus célebres campos de concentração... e aqui estamos bem longe do clássico de David Lean “A Ponte do Rio Kwai”, do qual fixámos para sempre o tema musical da película... já em “Merry Christhmas Mr. Lawrence” acabamos por fixar o oponente de David Bowie... outro compositor/intérprete a estrear-se de certa forma no grande écran... Ryuichi Sakamoto de seu nome e está tudo dito...porque o que se passou depois todos sabemos.

Ainda durante esse mesmo ano de 1983, David Bowie irá surgir-nos em “Yellowbeard” de Mel Damsky, possuindo a sua personagem a bonita idade de 150 anos... e tambem na película “Ziggy Stardust”, registo de um dos seus concertos, levado a efeito pelo cineasta independente (na altura o cinema indie como alternativa a Hollywood...ainda estava longe) Pennebaker, infelizmente nunca exibido no nosso país.

Rui Luís Lima

Domingo, Dezembro 02, 2007

“KELLY McGILLIS – UM LUGAR AO SOL” – THE END


Todos sabemos como Abel Ferrara é um dos grandes cineastas de culto, mas também sabemos como são duras e injustas as leis do mercado americano e quando Kelly McGillis aceitou ser a protagonista de “Get Chaser” baseado no romance de Elmore Leonard, nunca imaginou que a película em que contracenava com Peter Weller fosse lançada directamente em vídeo e não nas salas. Mas assim sucedeu infelizmente.

Chegávamos assim aos anos noventa e Kelly começava a sentir a sua carreira a fugir das mãos. E nada melhor do que a fuga para a frente. Nasce assim “Grand Isle” de Mary Lambert, surgindo como uma Kelly McGillis Production e os resultados não foram os melhores… já que o filme foi um mau “veículo” para o seu regresso (“por cá” foi lançado no mercado vídeo) porque na realidade não é James Ivory quem quer! Apenas Robert Altman conseguiu esse objectivo com “Gosford Park”.
No ano seguinte, o filme de Arthur Hiller “The Babe” com John Goodman foi um flop estrondoso… do género do que aconteceu a Annette Bening com “De que Planeta és Tu?” de Mike Nichols… Mas se a Annette conseguiu sobreviver ao flop e Mike Nichols também… já Kelly McGillis terminou por naufragar e a televisão foi o seu destino reiniciando a sua carreira com a série “Dark Eyes”.

Em finais dos anos noventa Kelly tenta um come back, e quantos foram bem sucedidos? Muito poucos como todos sabemos… e apesar de surgir em três filmes no grande écran “The Settlement” de Mark Stein, “Morgan’s Ferry” de Sam Pillsbury e “At First Sight” de Irwin Winkler com Val Kilmer e a Mira Sorvino nos principais papéis… foram poucos os executivos dos Estúdios que desejaram lembrar-se dela e assim em 2000 surge num thriller de Samantha Lang, intitulado “No Monkey’s Mask” cujo tema bastante polémico, poderá ter contribuído para a sua carreira entrar em fase “descendente”; no ano seguinte repete a receita em “No One Can Hear You” de John Laing e na verdade muitos já se tinham esquecido do seu talento.

Tendo em conta o milagre que os palcos costumam fazer nas estrelas perdidas no celulóide, repare-se no bem que os palcos ingleses fizeram a tantas estrelas americanas e o caso de Kathleen Turner que obteve uma nova vida com a sua interpretação da figura de Mrs. Robinson (recordam-se do filme do Mike Nichols com a Anne Bancroft e o Dustin Hoffman e a célebre canção de Simon & Garfunkel?), já Kelly McGillis não procurou o velho continente e decidiu manter-se no Novo Mundo, mas partir para a mesma personagem, a tal Mrs.Robinson… depois de uma tournée americana em 2004 com imenso sucesso, decidiu continuar na companhia e levar à Broadway todo o seu saber de actriz que nunca deixou de lutar, com o seu talento, por um lugar ao sol!!!

THE END

Rui Luís Lima

“KELLY McGILLIS – UM LUGAR AO SOL” – Parte 2

Nos anos oitenta, Alan Rudolph era um dos cineastas independentes mais apreciados nas chamadas salas de arte e ensaio na América e nas chamadas salas estúdio da Europa; foi com naturalidade que fomos encontrar a Kelly McGillis no interior da sua filmografia.

O “companheiro” escolhido por Alan Rudolph para estar ao lado de Kelly McGillis foi Timothy Hutton, nesse belíssimo filme “Made in Heaven”/”Talhado no Céu” que na época esgotou uma das salas do cinema Quarteto, onde os movies do Alan Rudolph tinham sempre lugar cativo, mas essa história comovente e surreal acabou por não servir de veículo para o estrelato para a actriz… embora a sua qualidade seja perfeitamente inquestionável.

Depois foi a vez de Peter Yates, esse cineasta tão pouco valorizado, que muitos chamam de tarefeiro, mas que para nós é um verdadeiro artesão de máxima qualidade, refazer o universo hitchcockiano e situá-lo na época da caça às bruxas… o movie “The House on Carroll Street”, possui como partner de Kelly esse grande actor chamado Jeff Daniels, em excelente forma (cuja presença no filme “As Horas”/The Hours” é um assombro de sensibilidade), mas mais uma vez as atenções se desviaram de Kelly e a sua carreira começou a ficar nesse território traiçoeiro, intitulado o limbo artístico (recorde-se o caso de Margaux Hemingway, que não resistiu e se suicidou). A película possui uma reconstituição de época excelente e todas as interpretações são perfeitamente credíveis e aliciantes.

Muitas vezes dizemos que assaltos e roubos só acontecem aos outros, mas por vezes essas situações também acabam por nos bater à porta e foi isso precisamente que aconteceu a Kelly McGillis, quando viu a sua casa ser invadida por dois assaltantes e não era nenhum filme que estava a ser rodado, mas uma das muitas cenas violentas do quotidiano.
Alguns dizem que foi por ter vivido esta terrível experiência a origem da sua luta para obter o papel da advogada no movie de Jonathan Kaplan “Os Acusados”/”The Accused”, tendo conseguido os seus objectivos imediatos, no entanto a sua interpretação não ficou na memória de quem viu a película e foi sim Jodie Foster quem mais ganhou com o filme, ao ter obtido o Óscar pela sua interpretação. Decididamente os ventos não estavam de feição na área cinematográfica para Kelly McGillis e a televisão (telefilmes e séries) foi a opção escolhida para prosseguir a sua carreira de actriz, ao mesmo tempo que o apelo do palco começava a nascer no seu interior.

(continua)

Rui Luís Lima

Sábado, Dezembro 01, 2007

“KELLY McGILLIS – UM LUGAR AO SOL” – Parte 1

Quando o australiano Peter Weir realizou “A Testemunha”/”Witness” com Harrison Ford no protagonista, imediatamente o público correu para as bilheteiras para ver o seu Indiana Jones transformado em detective. Mas com ele vinha um rosto e um nome desconhecido: Kelly McGillis seria a grande surpresa!!!

Depois de visto o filme de Peter Weir todos perguntavam quem era ela, quais os seus movies anteriores, como tinha sido o seu caminho, onde tinha andado este tempo todo?
Natural de Burbank – Califórnia, Kelly McGillis sempre gostou de representar e aos quinze anos recebia prémios na escola pelas suas actuações. Como muitas colegas de profissão, trocou o futuro curso superior pela matrícula na Julliard School, para descobrir como era dura a profissão escolhida. Ainda aluna e tendo em conta os seus dotes, foi convidada para participar ao lado de Tom Conti na película “Reuben, Reuben”.

Após concluído o curso, o cineasta australiano Peter Weir ofereceu-lhe a possibilidade de interpretar a figura de Rachel Lapp, uma jovem viúva Amish. O desafio era grande e as dificuldades enormes, mas Kelly não virou costas. O seu cabelo louro desapareceu, o seu corpo perdeu as formas escondido debaixo das roupas, o seu olhar modificou-se. Leu tudo o que encontrou sobre a comunidade Amish e foi na estrutura linguística que sentiu mais dificuldades.

“A Testemunha” é um dos melhores filmes de Peter Weir, mas sem Ford e McGillis seria difícil alcançar o êxito que obteve, incluindo dois Oscars. Inesquecível a interpretação de Harrison Ford! Em Portugal, só após o sucesso estrondoso de “A Testemunha” e o reconhecimento do talento daquela jovem actriz desconhecida de todos, foi exibido “Reuben, Reuben”. O reencontro com Kelly foi de espanto, devido à transformação operada nela: tudo era diferente.
Apenas com dois filmes havia talento para “dar e vender” e a “cabeça de cartaz” chamava-se Kelly McGillis: a rapariga de “A Testemunha”!

A diversidade de papéis fascina-a e segundo ela o chamado “papel tipo” destrói o actor, avaliando-se a capacidade através da transformação/metamorfose do corpo/imagem. Terá sido por isso que a jovem viúva Amish foi em “Top Gun”, uma professora, alta e loura… de jeans, colocando na ordem os alunos. A matéria dada não é muito vulgar para uma mulher, já que os seus alunos são pilotos da marinha americana e as aulas são de estratégia militar e entre eles está Tom Cruise que, na época, ocupou o lugar deixado vago muitos anos antes por Richard Gere no seu “Oficial e Cavalheiro”. O sucesso do filme de Tony Scott, como todos estamos recordados, foi estrondoso e Kelly McGillis subiu mais um degrau na ascensão para um outro top… este de astros e estrelas. Mas o futuro revelou-se traiçoeiro.

(continua)

Rui Luís Lima