59º FESTIVAL DE CANNES !!!
Ken Loach vencedor da Palma d'OuroO Festival de Cannes continua a ser o mais importante e as decisões do Júri dão sempre azo a diversas considerações.
Desta vez, o Júri presidido por Wong Kar-Wai, decidiu manter um certo equilíbrio estético e ideológico, ao mesmo tempo que introduziu na lista de vencedores da Palma d’Ouro um repetente, ou seja Ken Loach com a película “The Wind That Shakes the Barley” onde, mais uma vez, o “último cineasta marxista” nos oferece a sua visão da História, através do conflito irlandês que opôs Republicanos Irlandeses ao poder Britânico. Este conflito tantas vezes retratado no cinema, desde John Ford até Neil Jordan, surge aqui em toda a sua pujança, demonstrando como o cinema dito político ou politizado continua vivo, na área da ficção.
A França a jogar em casa, como sempre, recebeu o Prémio do Júri através da película de Bruno Dumont, “Flandres”, um filme sobre a guerra ou, melhor, o conflito que tem oposto os Homens ao longo dos séculos, não sendo necessário qualquer caução histórica, ao contrário de Loach, devido ao facto de, para Dumont, estarmos em permanente estado de guerra já não existindo guerras boas em oposição às guerras más, apenas a barbárie vive no seu interior. Quanto a Rachid Bouchareb e ao seu “Indigènes” falaremos mais adiante.

Pedro Almodovar e "Volver"Prémio do Melhor ArgumentoPedro Almodovar, apontado desde o início como um dos grandes favoritos através da sua película “Volver” viu, mais uma vez, a Palma d’Ouro fugir-lhe das mãos recebendo apenas o Prémio para o Melhor Argumento ao mesmo tempo que as “suas seis mulheres” obtinham o Prémio da Melhor Interpretação Feminina, um prémio, digamos colectivo, para as suas eleitas. E neste caso de “colectivo” o Júri optou pela mesma solução no respeitante à Melhor Interpretação Masculina, premiando os actores de “Indigènes” de Rachid Bouchareb, que aborda a participação dos militares berberes na libertação da França durante o jugo nazi, um daqueles episódios da Segunda Grande Guerra, que teimava em permanecer esquecido da História do Cinema.
Quanto ao Prémio da Melhor Realização, este foi parar às mãos de Alejandro Gonzales Iñarritu pelo seu “Babel”, uma película que aborda o “estado das coisas” no mundo em que vivemos.
Numa altura em que se aguarda com expectativa a apresentação do último filme de Oliver Stone, “9/11” sobre os acontecimentos do 11 de Setembro que abalaram a América, certamente polémico como já é habitual no cineasta norte-americano, do qual Cannes viu um pequeno excerto, cuja estreia poderá vir a ser agendada para o Festival de Veneza, foi apresentada em Cannes a versão restaurada do fabuloso “Platoon”.
No Festival os americanos ficaram ausentes do Palmarés principal e o tão aguardado terceiro filme de Sofia Coppola, “Marie-Antoinette”, que surgiu ladeada pelos pais, não recebeu a bênção do Júri nem da crítica, ficando-se pelo Prémio da Educação Nacional, devido ao seu valor pedagógico.
Quanto ao Prémio do Júri foi para “Red Road” de Andrea Arnold, premiando uma certa forma de fazer cinema, muito próxima das regras do “Dogma”.
Portugal esteve presente com dois filmes, um em competição “Juventude em Marcha” de Pedro Costa, um regresso indirecto a um local perdido (Bairro das Fontainhas) através dos seus habitantes, uma geografia que está a marcar decididamente a filmografia de Pedro Costa.
Já Teresa Vilaverde, com “Transe”, na Quinzena dos Realizadores, percorre lugares “estranhos” ao nosso território, ou seja, a nossa identidade cinematográfica dissolve-se no interior de outras línguas e culturas.
Cada vez mais, a singularidade de que foi feito o cinema novo português já não constitui um trunfo, adquirindo um estatuto de ausência das suas raízes e costumes. Olhar o cinema de Pedro Almodovar será assim tão difícil?
Rui Luís Lima